Quando a doença pode nos conduzir à cura

A doença é o lugar onde se aprende (Pascal)

Ninguém gosta de ficar doente, mesmo ter  uma pequena gripe é muito chato, outras afecções então? Vixe! Todo mundo quer saúde e sorte, como diz a canção, mas tem hora que o nosso corpo nos surpreende por alguma afecção/aflição.

Nossa linguagem é reveladora, dizemos: meu pé dói, o meu estômago reclama, o meu intestino está preso, meu rim junta pedras, a minha cabeça dói… Como se houvesse certa autonomia destes órgãos: são eles, não nós!

A pele que habito, título de um filme interessante do Almodóvar, talvez exponha a nossa relação com o corpo, que, não raro, nos parece tão estranho, quase um “outro”, isto ocorre porque somos seres cindidos, como dizem os profissionais da psi, algo que Descartes colocou de forma bem clara, sou uma “coisa pensante”, ao formular a já clássica divisão entre corpo e alma.

A psicossomática, área que entende o humano como uma unidade e busca reconciliar corpo e psique, entende a doença como símbolo. Não uso mente, pois esta “mente” onde, simplificadamente “alojamos” a consciência, é apenas uma ponta do iceberg da psique.

A doença expõe um desequilíbrio que o corpo busca compensar; o sintoma, por sua vez torna-se o registro deste desequilíbrio. A doença seria a corporificação, de forma tresloucada, de um princípio original mergulhado no mar do inconsciente. Quando alguma questão que aflige a psique não chegou à consciência, o corpo entra como substituto e o faz a seu  modo corporal: na forma de dor, febre, inflamação, ulceração, crescimento aleatório de células (comumente chamado câncer) em suma, na forma de sintoma. E só quando a psique passa a cultivar o tema, o corpo deixa seus esforços sintomáticos, ou seja, alivia ou abre mão do da febre, da dor, da inflamação, do crescimento aleatório de células e se restabelece.

Escrevo cultivar, pois tal como as plantas é um trabalho que envolve olhar, se aproximar, clarear (colocar luz?), ver o que esta criatura assombrosa (a doença) precisa. Isto delicadamente e com cuidado, pois se trata de nós mesmos. Há uma necessidade psíquica nas sombras, reclamando para ser vista. De acordo com a psicossomática, o corpo manifesta um desequilíbrio em certa área de seu ser que o próprio sujeito é inconsciente. Tomando como premissa a antiga e conhecida correspondência entre forma e conteúdo, onde há uma forma, certamente há um conteúdo que urge trabalhar.

Nesta perspectiva, o que está em jogo no restabelecimento (cura?) é assegurar o equilíbrio não com passos involuntários e cheios de sofrimento, mas com passos voluntários e conscientes. Legal, mas é fácil? Não, pois a doença envolve sombras. Como se diz por aí, é mais fácil encontrar um cisco no olho do outro do que uma trave no nosso olho. Ver a doença como símbolo pode conduzir a verdades nada agradáveis, mas necessárias no processo de tomada de consciência e desenvolvimento de nós mesmos. Enfrentá-las, são outros quinhentos, exige coragem e determinação, pois temos a tendência a nos acomodar em uma zona de conforto. Assim, nesta visão, a cura não vem pela mão do médico que faz uma cirurgia ou receita alguns comprimidos, só é possível a partir da força do sujeito. Ver, enxergar e cultivar a nós mesmos torna-se um assumir a responsabilidade. Qual é a minha dívida para com o meu futuro?

Por isso, alguns autores como Rüdiger Dahlke, falam na doença como caminho, pois apenas quando estamos doentes nos indagamos pelo que nos falta e só então podemos descobrir o que está errado. E este “erro”, por sua vez torna-se uma possibilidade de integração de nossa vida e, consequentemente, de viver na saúde, ou seja, da plenitude que a vida espera de nós.

Fonte: Dahlke, Rüdiger. A doença como símbolo. Cultrix.

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Lembranças da Páscoa

A Páscoa sempre foi um evento familiar marcante. A família Aravena Cortes tinha uma religiosidade particular, mamãe Patrícia, filha de um comunista chileno de carteirinha, fez primeira comunhão escondida dos pais, não era muito de ir à igreja, mas quando precisava de uma força extra, não titubeava em pedir diretamente para o divino. Já meu pai, Alfredo, não gostava de rezas, um engenheiro materialista, à sua maneira, se alinhava na concepção da religião como o “ópio do povo”, entretanto,  no dia de seu enterro viemos a saber que ele fora coroinha na infância, meu tio Miguel que nos contou – deve ter acontecido algo sério para ele ter ficado muito chateado com a igreja-,  mas papai sempre respeitou as opções espirituais de todos e acompanhava dona Patrícia em todas as suas promessas, uma delas feita em um domingo de Ramos, quando ela pediu um segundo filho. Nove meses depois chegou minha irmã… Meu pai nos deixou nas primeiras horas de um domingo de Páscoa, há dois anos, mas também, num domingo de Páscoa, alguns quantos anos atrás, o meu amor me ligou, e, claro, não posso deixar de dizer, que minha pequena Renata chegou em uma semana Santa.

Coincidências? Como boa junguiana, não acredito em coincidências e, como pesquisadora dos saberes ancestrais, acredito no ciclo da vida.

papai no casorio

Sr. Alfredo, no casório da filhinha, morrendo de frio, mas com sua impagável presença de espírito

Compartilho estas histórias familiares para lembrar que a força da vida aponta sempre para a renovação. Há muita coisa errada na cidade,  no país e no mundo, mas o grande terreno da transformação está no interior de cada um. Não se muda o mundo se eu já cristalizei as minhas verdades, se eu não mudo uma vírgula do meu pensamento, nem das minhas ações.

Feliz renovação!

Feliz renascimento!

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No Olimpo, na casa ou no trabalho, imagens da mulher que não é santa nem é p…

Há pessoas que acreditam que os deuses de nosso mundo saíram de férias, para alguns são as figuras do show business do momento. Por isso me valho dos antigos para falar de um tema tão caro como as imagens e imaginários do masculino e do feminino.

O mundo dos olimpianos, regido por Zeus, acompanhado por sua consorte, Hera, e por uma corte  ilustre, como a personificação do amor, Afrodite, o deus da guerra, Ares, entre outros, nos é conhecido, no entanto, pouco sabemos do mundo anterior a esta ordem. A terra em suas profundidades registra o culto à grande mãe, senhora das plantas e dos animais, portadora de fertilidade e do crescimento da natureza. Quando Zeus se instala no Olimpo, a grande mãe cede lugar às disposições do pai, mas ela ainda conserva espaço no panteão. O poder do feminino cede lugar ao masculino, marcando uma passagem de um vínculo indiscriminado e inconsciente com a natureza ao reino da palavra, ao logos, ao plano da consciência, à lei e à norma. Posteriormente, a própria multiplicidade do panteão helênico será destronada pelo deus único, onipotente, onisciente e onipresente, e agora a mulher perde o cetro e o trono de vez. Sem divindade, será responsabilizada por ter trazido a tentação aos homens, figuração do pecado ou da ignorância no melhor dos casos.

Após o advento do Cristianismo, a única imagem feminina permitida será a mãe do filho de Deus, senhora imaculada, pura, abnegada, obediente, entre outros atributos que a tornam digna de culto, mas a distanciam da humanidade das mulheres. Beleza, charme, primos da sedução, associados aos prazeres da carne, lugar do pecado e da corrosão do espírito estão banidos.

O panteão grego no qual os deuses amam e odeiam, tecem alianças e tramam vinganças responde a uma compreensão do humano sujeito a múltimas forças que desconhece, repleto de ambiguidades que ama e odeia. Ambiguidades que se perdem na idealização do mundo judaico-cristão e que a duras penas buscamos entender no século XX com o discurso da psicanálise. Idealização que nos distancia de uma visão “real” de nós mesmos e compreensiva de nossos pares no mundo.

Recupero esta ideia, pois as mulheres, hoje, estão em luta pelo poder e esta luta passa pela compreensão do imaginário. No século XX, em um século de tantas conquistas, a mulher conquista as ruas, o mundo do trabalho, a sua sexualidade, contudo persiste a crítica de que ela ainda quer ser feliz no amor e no casamento e para isso recorre a estratégias para agradar o homem e ainda pensa em comidas gostosas e se dedica a afazeres “do lar”. Uh!

 Certamente, precisamos de mais mulheres no Congresso, precisamos de igualdade, de respeito nas relações. Nenhum tipo de roupa pode ser justificativa ou atenuante para um estupro. Contudo, considero que a questão não para aí, não adianta mulheres no poder com um funcionamento masculino desqualificando outras mulheres. A própria mulher precisa conhecer e reconhecer a multiplicidade do feminino, sem buscar estabelecer a visão “certa” do feminino. Uma visão feminina não se arrola a verdades, nem busca ser a maior, compõe e não compete, alimenta e gosta do alimento, e, sem dúvida, é  tolerante e inclusiva, porque entende a vida como processo.1 a 1 a a a a mar sao carlos13 homem feminista

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Notas de uma viagem a um universo paralelo

Andei sumida durante meses, isto ocorreu por absoluta falta de tempo para a escrita, pois dediquei-me a uma das tarefas mais singulares da vida: cuidar de uma criança. Andei cuidando da minha bebê recém-chegada à família.

Depois de 25 anos dedicados à vida acadêmica, voltei o meu cotidiano ao mundo dos bebês, zelando pela comida, prestando atenção no sono, na respiração e, claro, limpando xixi e o cocô. Olhando aspectos básicos do corpo, como se sabe, mas que depois de dominados,  tornam-se “automáticos”. Depois que crescemos e entramos no mundo da cultura, esquecemo-nos dessa dimensão natureza da vida, só voltamos a ela se algo deixa de funcionar.

Passar meses descobrindo uma criatura frágil em um corpinho pequenino tornou-se uma experiência  muito mais bacana do que eu poderia jamais imaginar

Eu, muito ligada às letras, tinha medo de bebês, lembro que eu falava que queria um bebê que já nascesse falando. A possibilidade do baby chorar e eu não saber o que fazer era o meu pior pesadelo, como se a comunicação precisasse necessariamente da palavra. Apesar dos meus pedidos, minha menina, não chegou falando.

Há cocô, xixi, tudo isso, mas acompanhar uma criança te permite entrar em um universo paralelo, como disse minha amiga Carol, ao ingressar no seu mundo, ela te convida a percebê-lo como se fosse a primeira vez, a sua surpresa com a água que jorra na fonte, a admiração com os cachorros, borboletas, sapos e joaninhas. Sentir a gostosura do vento,  um sustinho com o mar. Também é o viver a vida no presente, pois a sede ou a fome existe agora, elas não entendem o depois, nem se ligam ainda ao que já foi.

Ela nos relembra que as experiências passam o corpo, a morada de nossa existência e que tudo na vida é um processo, não sem sobressaltos, o primeiro passo, ocorreu depois de várias quedas.  Pode dar trabalho, mas adulto que não terceiriza a função e se permite entrar neste universo paralelo ganha muito na viagem.

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O adulto e sua criança

Não é segredo para ninguém que a gente chega ao mundo como um bichinho indefeso, frágil e dependente, precisando do auxílio de alguém para tudo, se vestir,  assoar o nariz e se não tiver alguém para lhe fornecer alimento, morre. Contudo não guardamos esse registro.

O tempo passa e a gente perde a memória de nossa primeira infância, inclusive, porque até o cérebro estava em formação, a malha de conexões começava a ser formar.

Ver uma criança em seus primeiros anos é assistir os primórdios, o que fomos um dia, permite-nos perceber como coisas tão básicas com a dimensão do tempo -com suas noções como “antes” e “depois” estão ausentes- os pequeninos vivem no agora, então choram, quando a mãe some, pois sentem como se ela nunca mais fosse voltar, ou então, abrem o berreiro se não lhes dermos a mamadeira quando ela está quente, só sentem o “não ganhei a minha mamadeira”.  Nós, adultos, não temos ciência que o bebê nem morder sabe.

Da mesma forma, contemplar a sua surpresa com os pássaros ou com o vento, o susto ao subir um elevador, leva-nos a perceber que tudo é novo para os pequeninos, tão novo que, no começo, parece uma grande nebulosa para seu olhar.

A primeira infância dá-nos a possibilidade de ver a natureza agindo num ritmo vertiginoso. A natureza sempre atua, mas assim que estacionamos na altura, passamos a nos acostumar com nossas potencialidades, só depois vamos nos surpreender com as rugas, cabelos brancos e otras cositas más. Acostumamo-nos tão rápido com a  nossa habilidade para fazer contas, com a memória e tantas outras, que nos parece que nascemos com elas. E foi um longo processo, de gatinhar para andar, comer sozinho, falar então, nem se diga. Aprender a linguagem, sem dúvida, é um dos grandes desafios para o cérebro e, sem ela, não há possibilidade de nos tornarmos humanos.

Há muito por fazer para cada novo serzinho se tornar humano, pois chegamos totalmente incompletos. Assistir a transformação se processando a partir do que os estímulos vão provocando permite a compreensão de que nada chega pronto, havendo muitas possibilidades, o futuro pode revelar um físico, um escritor ou um exímio jogador de basquete, mas os talentos que o adulto mostrar, estão diretamente ligados aos estímulos que a criança encontrou e ao mundo que a recebeu. Daí a importância da sociedade olhar para todos os pequeninos.

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O voo da tarde

A arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as artes escreve Jung. O nascimento marca o início da vida, o bebê, paulatinamente, será obrigado a conquistar autonomia e crescer. No percurso, vai adquirir músculos, altura e consciência, a grande ferramenta da espécie. Na caminhada, o indivíduo, com mais ou menos dificuldades se esforça para tomar as rédeas de sua vida, quando consegue, estuda, trabalha, travando lutas para conquistar uma posição social, construir uma carreira e/ou uma família.

Em certo momento, depois de muito quebrar a cabeça, fazer horas extras, aguentar chefes e muitos sapos engolir, tudo leva a pensar que enfim se encontrou o “curso da vida”, pois esta parece encaminhada, eis que sem saber como, nem porque, nada agora parece ter sentido. Neste momento atordoante, as conquistas deixam de produzir alegria, aparecem saudades do que não se viveu, desejos loucos, devaneios. Fala-se em crise da meia idade, nome inapropriado, pois na verdade, é a vida que está no final do primeiro tempo. Nesta etapa, os filhos saem de casa, de repente, a casa fica vazia, por outro lado, os papéis com os pais se invertem, ou mesmo, ocorre a perda dos pais. Não raro, uma paixão fulminante leva um sujeito a largar a família para viver amores com uma jovem recém conhecida, ou uma mulher passa a buscar parceiros na academia ou a se comportar como as jovens da idade de sua filha. Trata-se de um período de limiar,  primeiro, ouve-se o badalo de um sino, há um desconforto com a vida quase imperceptível, depois advém uma urgência e, quando as badaladas não são ouvidas, instala-se a crise.

Jung compara as tensões e turbulência da adolescência às tensões no meio da vida. Agora a tensão está entre o modo de funcionamento conhecido -mesmo que recheado de problemas- e o desconhecido que assusta. Se, na adolescência, muitos evitavam a vida adulta, no meio da vida, procura-se evitar o amadurecimento necessário para viver o segundo tempo da jornada. Repete-se a resistência, assim como o indivíduo preso à infância recua apavorado diante da incógnita do mundo e da existência humana, também o adulto recua assustado diante do que precisa fazer. Talvez com receio das perdas por vir e, certamente, de deixar para trás alguma coisa muito preciosa: o passado, aqueles anos moços. Anos idealizados, sem dúvida, mas a memória retém o que quer, da forma que se lhe apraz, na memória tudo pode ser lindo, cheiroso e gostoso.

Muitos fazem ouvidos moucos e formulam pensamentos para se enganar: “o emprego não é tão ruim”, “estou ganhando bem, para quê sair?”, “tudo ficará bem com os netos”, “ só preciso de uma plástica para me sentir bem”.

O meio da vida apresenta questões e desafios de uma nova etapa que se aproxima, no entanto, chega-se mal preparado para a segunda metade da vida e, o pior, damos esse passo, sob a falsa suposição de que nossas verdades continuarão como dantes. Muitos ficam perseguindo metas antigas, sem perceber que a configuração mudou. Não podemos viver a tarde de nossas vida segundo o programa da manhã, escreve Jung, porque aquilo que era muito na manhã,  será pouco na tarde e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer.

O momento exige um olhar para o interior, um balanço e um apaziguamento com o passado. Na caminhada, há perdas, de amores e amizades, da inocência, da beleza, para citar algumas. Há sonhos não vividos, outros que se converteram em pesadelos, o príncipe que virou um sapo, como cantou Cássia Eller. Não raro, o próprio indivíduo se perdeu nas tramas da vida e retomar o fio da meada parece uma missão impossível, daí a angústia.

O momento exige uma busca da verdade da alma, recuperar enquanto há tempo, aspectos que ficaram para trás. Alguns têm medo de suas sombras, outros têm medo da própria luz, daquilo que era tão bacana, mas que se abriu mão. A sombra precisa ser vista e integrada para deixar de assombrar e os talentos precisam ser reconhecidos para darmos um novo sentido ao segundo tempo da jornada.

Quando a crise se instala, parece-nos que alguma coisa saiu do controle, pelo contrário, é a alma querendo assumir o controle, mostrando que nossa vida precisa de alguns “ajustes” para o melhor de nós se libertar e voar.

The Dark Hedges, Irlanda

 

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O simbolismo da paixão

A paixão de Cristo permite diversas interpretações, nesta data, escolhi pensar na simbologia dos instantes finais da vida de Jesus, quando de sua morte para o mundo e a ressurreição para a vida eterna.

Inicialmente uma breve recuperação da história. Jesus chega a Jerusalém, para o Pessach, onde será recebido com glória; ao entrar no templo, ao ver os comerciantes estabelecidos no espaço sagrado, enfurece, expulsando-os; seus atos despertarão a ira das autoridades judaicas. No desenrolar dos acontecimentos, um discípulo traidor, Judas, entrega Jesus aos líderes judaicos; altos sacerdotes o interrogaram, não encontrado motivo de condenação, contudo quando este disse que seria capaz de destruir o Templo e reconstruí-lo em três dias e afirmou que de fato era o Messias, foi acusado de blasfêmia e encaminhado à autoridade romana local, Pôncio Pilatos. O governante, após uma curta conversa, sentencia o Nazareno à morte; como era costume soltar um preso antes da Páscoa, Pilatos pergunta à multidão a quem liberar, o assassino Barrabás ou Jesus? A multidão libera o criminoso. Pilatos lava as mãos.

Numa interpretação simbólica, os sacerdotes representam as autoridades da natureza inferior, a ignorância,  o orgulho e a ambição. Jesus é apresentado como ameaça de subversão, certamente é uma ameaça ao ego e à parte sombria da psique ao propor uma nova forma de funcionamento, agora inspirada no amor, na compaixão e  no perdão.

Pilatos, o governante, simboliza a instância da mente que deve decidir o caminho a tomar. A mente ao lavar as mãos, justifica-se alegando não ter culpa da morte do inocente, uma vez que está apenas cedendo aos apelos da plebe, a figuração das paixões. As paixões sempre zombam da natureza divina. As paixões identificadas com o criminoso pedem sua liberação e a crucificação da parte divina do homem. Barrabás em aramaico significa “o filho do pai”. Ao libertar Barrabás, estará permitindo que o filho do Pai Celestial, mas alma errante, ignorante de sua verdadeira natureza,  continue a vagar pelo mundo até redimir-se pelos seus crimes e assim retornar à casa paterna triunfante.

O ponto culminante, a crucificação ocorre no monte Gólgota, que em aramaico significa crânio, numa clara indicação de um elevado estado de consciência. Jesus expressando a consciência divina, é crucificado entre dois ladrões, um deles seria um bom homem, este segue o Salvador  rumo ao Reino dos Céus. Os dois ladrões simbolizam os dois aspectos da psique, a luz e a sombra, o consciente e o inconsciente.

Para finalizar, o Reino dos Céus comporta a grande metáfora da unidade e da totalidade; na visão junguiana, o caminho de individuação do sujeito passa pela integração de todos os aspectos da psique, assim para alcançar a luz é preciso aprofundar na escuridão, entrar não apenas na nossa sombra, mas também no inconsciente. Passa também pelo abandono do eu mesquinho, intolerante, ambicioso e temeroso que cede lugar a um novo eu, sábio, amoroso e reconectado ao todo.

Gaudenzio Ferrari, Histórias da vida e da paixão de Cristo, afresco de 1513, Igreja de Santa Maria della Gracie, Varallo Sesia, Itália.

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A visão gnóstica de Jesus

Nestes dias, em plena semana da Paixão de Cristo, peguei-me pensando que, no Brasil, muitos pertencemos a famílias cristãs, ou católicas não praticantes, pois as práticas que a igreja católica nos proporcionava não deram conta de nossas inquietações, nem das nossas necessidades espirituais. Fazemos parte desta matriz cristã, contudo, hoje ela não nos diz muito, nem nos ecoa no coração.

Há algum tempo tomei contato com o livro de Raul Branco Os ensinamentos de Jesus e a tradição esotérica cristã que, para mim, foi um divisor de águas, ao apresentar os ensinamentos pouquíssimo conhecidos do cristianismo primitivo. Aproveito o tempo da Quaresma para compartilhar este estudo.

1150, mosaico na Capela Palatina, Palermo, Itália

A Bíblia, diz o autor, é um “repositório de ensinamentos profundos velados pela linguagem alegórica” e a própria vida de Jesus pode ser entendida como uma alegoria. “Jesus, nesses relatos, simboliza o Cristo que habita no interior do homem. Sua vida, como apresentada nos quatro evangelhos, é uma descrição da viagem de retorno de todas as almas à casa do  pai.” Pesquisador de tradições orientais e da psicologia junguiana, entre outros,  Branco fornece uma chave para entender a vida de Jesus e  traz instruções e instrumental para o caminho, algumas servem como sustentáculos aos buscadores, mas buscam, principalmente, preparar o discípulo  da verdade na senda de transformação.

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26:41), disse Jesus.  O caminho a ser trilhado recebe o nome grego de metanóia, que significa a grande transformação do estado mental do homem, entendido como mudança dos condicionamentos e do próprio pensamento. O termo foi utilizado também por Jung ao descrever as transformações vitais da segunda metade da vida.

Embora desejemos mudanças, nosso ego resiste a este movimento. “Resistimos, porque toda mudança implica uma revolução interior que demanda algum compromisso com a verdade. Esse compromisso requer humildade para aceitar a possibilidade de que alguns de nossos mais estimados conceitos foram construídos sobre a areia e, finamente, uma coragem extraordinária para enfrentar a resistência inicial de nosso ego orgulhoso e inseguro”, escreve Branco.

Esses ensinamentos de Jesus, o vivo, como o Mestre era chamado pelos gnósticos, seriam a medicação salvadora receitada pelo grande terapeuta à humanidade. Uma vez o diagnóstico feito e a medicação receitada, restaria a cada ser humano exercitar o seu livre-arbítrio e decidir se toma a medicação necessária em tempo que não raro se escoa como areia em nossas mãos.

Nesta visão, para chegar ao Reino, ou seja, para alcançar a perfeição, o homem deve encontrar e trilhar pacientemente, mas com determinação, o Caminho ao longo de transformação. Gosto desta chave de compreensão do cristianismo primitivo, permite-nos lembrar do que devemos fazer.

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A eternidade diária do amor verdadeiro

O encontro do amor, a flor que todo mundo quer cheirar, talvez este seja o maior desejo de homens e mulheres. De repente, acontece e você embarca na aventura do relacionamento. O que desejam aqueles que entram na aventura? Certamente, todos almejam experimentar a sensação de flutuar com o beijo, tremular ao sentir o toque, mas o que nos liga a esta ou àquela pessoa? A beleza, o sorriso, o charme? A inteligência, a integridade, a conta bancária? Já ouvi uma mulher dizer que os sapatos usados pelo futuro marido lhe foram irresistíveis… Alguns dizem “o jeito de menino indefeso”,  o “jeito protetor”, o” jeito firme”, enfim, a expressão “jeito” pode indicar diferentes coisas.

Alguns têm o desejo de formar com ele/a a própria família,  encontrar um pai ou uma mãe para os filhos, mas o que desejamos do nosso parceiro? Ninguém tem muita clareza a respeito. “A felicidade”, eis uma resposta bastante ouvida, bem, mas no quê consistiria isso? Um céu aqui na terra? Como ela ocorre no convívio diário, ao descobrir que o/a amado/a ronca, chega suado/a em casa depois de um dia de trabalho? Como ela ocorre depois de ver uma cara amassada, barbada ou sem maquiagem todas as manhãs? Como ela acontece a despeito do alto de louça para lavar e das camisas para passar? Como ela se dá quando o tempero da comida começa a cansar e aparece a vontade de fazer uma boquinha na padaria ou esticar no happy hour com os amigos?

Rompe-se o  idílio imaginado e alguns logo pensam “me enganei, não era amor verdadeiro” e caem fora, a fazer a fila andar; estes idealizam os relacionamentos, sem se dar conta que buscam aquele happy end dos contos de fadas, quando a princesa permanecia divina e o príncipe lindo e charmoso por toda a eternidade. Muitos entram e saem de relacionamentos revivendo as mesmas experiências, sem saber por quê… Outros se cansam, fechando as portas, “melhor sós do que mal acompanhados”, pensam… Alguns persistem na busca abandonando as idealizações em seus novos relacionamentos, cai a ficha de que eu posso não estar sempre certo, de que preciso ver e respeitar o outro, enfim, percebendo-se humanos e também a humanidade do/a companheiro/a, continuando a amá-lo assim mesmo; grande passo na caminhada, um saudável amadurecimento.

O que se busca no outro, certamente é inconsciente, mas consciente deve ser o aprendizado que a idealização do eu (ou do outro) não é saudável e que se a experiência começa a se repetir, é melhor desconfiar que há alguma coisa errada comigo, não com o mundo….

É certo que as pessoas querem o amor e os relacionamentos, contudo o que nos atrai também nos assusta. Existem muitos medos para encarar a vida a dois, os egos querem se manter no comando, resistem e criam defesas. O casamento é esta grande caminhada a dois rumo ao desconhecido, inclusive de nós mesmos. Feliz daquele que se permite entrar neste caminho.

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Deméter e o mistério do grão da vida

Deméter

Os registros de sua origem remontam ao século XII a.C, mas talvez esta esplendorosa deusa ctônica seja bem anterior. As venturas e desventuras desta grande mãe foram registradas no Hino a Deméter, atribuído ao poeta Homero, no século VIII a.C..

Deméter e Pluto

Filha de Cronos e Reia e irmã mais velha de Zeus, conta-se que Zeus a perseguia, louco de amores, Deméter procurando escapar disfarçou-se como égua, o deus metamorfoseou-se em cavalo e a possuiu contra sua vontade em uma gruta. Dessa união nasceram dois filhos, o cavalo Aríon e uma filha cujo nome verdadeiro não se conhecia fora do templo, chamada pelo povo Déspoina, simplesmente, a Senhora. A deusa, tomada pela dor e pela vergonha, cobriu-se de véus pretos e se escondeu numa caverna. Buscou purificação para o ultraje nas águas do Rio Ládon.

Durante uma festa, a deusa embriagou-se com ambrosia e ficou fascinada por um mortal, Iásion, e com ele se uniu sobre um terreno lavrado três vezes, Zeus irado com o flerte enviou um de seus raios, fulminando o mortal. Desta união concebeu Pluto, o deus da fertilidade agrária. Deste mito surge, provavelmente, um antigo ritual de fecundidade da terra consistia na união do camponês e de sua esposa, numa noite sobre a terra que viria a ser cultivada, a fim de despertar a vegetação.

A deusa tinha uma linda filha, Coré, fruto de sua união com Zeus. A doce jovem desperta a paixão em Hades, irmão de Zeus que a rapta, levando-a para o seu reino.

Durante nove dias, Deméter chorou inconsolada, nenhum deus atreveu-se a lhe contar o paradeiro da menina, ela então deixa o Olimpo e sai à sua procura pelo mundo disfarçada de mortal. Em Elêusis, na Ática, se encontra com as filhas do rei Celeu e oferece-lhes os seus serviços como ama-seca, recebendo a tarefa de cuidar do irmão recém-nascido Demofonte, filho da rainha Metanira. Agradecida pela acolhida, a deusa começa secretamente a transformar Demofonte em imortal, alimentando o bebê com ambrosia, o alimento dos deuses e todas as noites o deita sobre carvões incandescentes num ritual da imortalidade. Antes da conclusão do processo, a rainha encontra horrorizada o filho no fogo. Deméter se revela em seu esplendor e zanga-se com Metanira pela interrupção do ritual: por sua culpa o filho estaria destinado a morrer como todos os homens.

A profunda dor da deusa pela perda da filha, causa uma grande seca na terra, o alimento começa a faltar e o futuro da vida começa a preocupar os olimpianos, buscando demover Deméter de sua tristeza, Zeus envia-lhe oferendas através dos deuses. Nada adiantou. Certo dia, a deusa chorava suas mágoas no poço das Donzelas, quando Baubo apareceu, procurou consolá-la com palavras doces, mas nada diminuía sua tristeza, nisso Baubo, sem mais, nem porque, levanta as saias e lhe mostra a vulva num gesto irreverente e obsceno. Surpreendida, a deusa solta uma risadinha, primeiro riso em meses.

Hécate comove-se com a sua dor, procurando Helios, aquele que tudo vê, para saber o paradeiro da jovem. A filha estava escondida no submundo, onde nem a luz chegava. Zeus então foi pressionando a interceder junto a Hades, a devolução da donzela. Coré, agora com o nome de Perséfone, voltaria ao mundo dos vivos se não houvesse provado alimento algum em sua jornada no reino dos mortos. Hades, apaixonado pela jovem, antes de deixá-la partir colocou em sua boca algumas sementes de romã. Assim, por ter ingerido alimento, Perséfone deveria passar uma temporada do ano junto à mãe e depois retornar junto a Hades, onde se tornara rainha. Nos quatro meses em que residia  nas profundezas, toda a vida na terra secava para renascer no retorno de Perséfone à Deméter, à terra, sua mãe.

Após este acordo, a deusa devolveu o grão da vida que ela em sua cólera havia escondido, mais do que isso, entregou o conhecimento da agricultura a Triptólemo, o outro filho de Metamira e do rei Céleu, de Elêusis, tornando-o o guardião dos seus segredos. Triptólemo também recebeu a missão de ensinar a todos os helenos os mistérios da agricultura. No templo que lhe foi construído em Elêusis, ela instituiu belos ritos, os Mistérios Eleusinos.

Deméter foi a mais cultuada das deusas gregas, do governante ao escravo, da mãe-de-família à prostituta, do ancião à criança, todos podiam ser iniciados nos rituais conhecidos hoje como Mistérios Eleusinos, desde que falassem grego para poder compreender o conteúdo das palavras e não tivessem cometido crime de sangue.

Deméter aparece como descendente direta da Deusa-Mãe da ilha de Creta, cultuada entre o terceiro e o segundo milênio a. C., cujas sacerdotisas prestavam culto ao touro, um grande símbolo da fertilidade. Acredita-se que o culto à deusa tenha chegado de Creta, por meio da cultura micênica do Peloponeso.

A Mãe da Terra, Deméter, governava o crescimento da vida, sagrou-se regente de toda a natureza e protetora das jovens criaturas indefesas. Deméter forneceu as chaves da produção dos alimentos e traduziu ensinamentos do ciclo da vida-morte-vida. Deméter estava associada à transformação, ao mistério que transforma a semente em uma planta que se tornará alimento. Acredita-se que ela ensinou os homens a arar a terra e as mulheres a moer o trigo e a fazer o pão. A cor dourada de seus cabelos reproduzia o ondulado dos trigais ao vento. O pão, central na nutrição do homem também é um símbolo do alimento espiritual. Deusa dos cereais, o seu culto marca o ritmo das estações e o ciclo da semeadura. Em referências mais antigas vemos a deusa segurando flores de amapolas em suas mãos e sementes de trigo e papoulas vermelhas em sua diadema.

O santuário de Deméter em Elêusis, construído sobre uma nascente sagrada, permaneceu ativo durante quase dois mil anos, sendo destruído no ano 396 d.C..

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Podemos encontrar o espírito de Deméter naquelas mulheres que andam rodeadas de crianças, vivem pensando na comida e nos agasalhos dos filhos, do marido e de quem estiver ao seu redor. Instintivamente cuida de tudo o que é pequeno, carente de defesa e em crescimento. A partir desta figura, a sociedade criou o estereótipo da mãezona, a protetora, que se doa incondicionalmente. O imaginário nos traz uma mulher gorda ao pé do fogão, cozinhando gostosuras. Representação útil em sociedades patriarcais, fonte de muita culpa para as mães modernas que não se encaixam no perfil.

Por outro lado, a mãe não quer perder a sua filhinha. Para boa parte das mães os namorados e os maridos estão raptando suas filhinhas… mostrando um mundo que ainda não deveriam conhecer… Interessante como todas as mães implicam com os namorados e/ou maridos das filhas, talvez porque a mãe resista a aceitar a transformação da filha em mulher e a sua própria transformação.

Este mito nos lembra que o longo percurso da vida requer transformações. O problema surge quando nos apegamos a um estágio e travamos o fluxo da vida. Vemos um exemplo naquela mãe que procura adiar o crescimento e a separação dos filhos, apegada àquele papel que já conhece tão bem. Se bem, hoje as mães andam de aspirador de pó e vão à ginástica, ainda querem os filhos ao seu lado, por outro lado, para muitos filhos hoje, a casa tornou-se um ninho tão confortável que relutam em partir para a sua própria jornada.

Este mito aborda o apego e as resistências às transformações da vida, nos conduz a reflexão acerca dos nossos comportamentos que precisam morrer: a preguiça, a língua-solta, a desatenção, a autocobrança, a autocomiseração, a intolerância? Quais apegos precisamos abrir mão para que a vida flua no seu curso? Aos filhos que querem crescer e nós os queremos sob as nossas saias? Ao conforto da vida de filhas/os (roupa lavada, comida na mesa, despreocupação com as contas no fim do mês)? Ao emprego que não nos oferece perspectiva, mas seguimos nele? A amargura que carrego comigo porque a vida não foi o conto de fadas que sonhei? À vidinha que construí e se tornou tão confortavelmente conhecida?

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Afrodite, a pura expressão do amor

Vênus de Milo, no Louvre

O amor, ah, o amor. Tanto já se fez e ainda se faz em nome do amor. Loucuras, desatinos e transformações radicais! Embriaguês que nos leva ao céu, a viajar pelas estrelas, mas também dilacerante pode se tornar uma paixão não correspondida. E sempre pode ser o início de uma grande história.

Uma grande deusa tem personificado esta doce vertigem que todo mortal anseia viver, Afrodite, intempestiva, ela chega dos céus sublime montada em um ganso ou por terra acompanhada de um grande cortejo de ursos leões ou panteras.

O mito sobre sua origem conta que Crono, a pedido da mãe, Gaia, enfrentou o tirano Urano e, na luta, decepou os órgãos sexuais do pai, lançando-os ao oceano, o esperma, a semente do Céu, jorra pelos ares. Da espuma do mar fertilizada, nasceu uma belíssima menina, nas costas de Chipre. Afrodite foi levada pelas ondas à Grécia, onde foi recebida pelas Graças que a vestiram com trajes lindíssimos e depois a conduziram ao Olimpo. As Graças, as deusas da beleza e do encantamento tornaram-se suas companheiras, ensinando-lhe todos os seus talentos.

Na Grécia, Afrodite ganhou um lugar entre os olimpianos e um marido, pois Zeus dispôs o seu casamento com Hefesto, deus ferreiro, embora coxo. Não tiveram descendentes, mas se acredita que do encontro entre a beleza e o divino artesão nasce toda sublime forma de arte na matéria, seus filhos se encontrariam por todo canto em toda produção que reúna arte e engenhosidade.

Afrodite de Cnido

Embora tentassem conter a beleza, a graça e o amor, Afrodite não era detida por laços, nem contida em redes, sempre impetuosa, livre para ir e vir, apaixonou-se por inúmeros mortais e imortais. Ares, deus da guerra, figura entre seus grandes amores, os dois protagonizaram uma memorável cena no Olimpo. Ares deixava seu quarto antes do amanhecer e o caso ficava em segredo, no entanto, Hefesto recebeu um aviso do deus Hélio, que tudo vê. Para se vingar, bolou uma rede de fios invisíveis para prendê-los ao leito e chamou todos os deuses a testemunharem a traição. Mortos de vergonha, os amantes fugiram, cada qual para um canto remoto da terra. Da união entre Afrodite e Ares, amor e guerra, dois opostos, nasceram Fobos (o medo), Deimos (o terror) e Harmonia, esta talvez a melhor representando do resultado da união das duas energias opostas.

Afrodite amou o deus do êxtase e do entusiasmo, Dionísio, desta união nasceu Príapo, protetor dos vinhedos e dos jardins. Hermes foi outro de seus amores, juntos conceberam o Hermafrodito (Hermes + Afrodite).

A deusa apaixonava-se pela beleza e protegia os heróis, entre seus amores mortais destaca-se, o belo e jovem, Adônis, disputado com Perséfone.

Afrodite também seduzia para satisfazer seus caprichos e, quando ofendida, não titubeava em se vingar. Nenhuma mortal podia ousar se comparar a ela em beleza. Certa vez, puniu todas as mulheres da ilha de Lemmos, porque se negavam a prestar-lhe homenagens. De sua pele fez exalar um cheiro nojento que levou todos os maridos fugirem com as escravas, elas em vingança mataram os maridos e  fundaram uma república só de mulheres.

A deusa, proveniente da Ásia, era uma estranha entre os olimpianos. Seus atributos, alegria, sensualidade, beleza e graça, pura expressão da divindade, a tornam irresistivelmente encantadora, entretanto, seu poder de sedução provocou muita inveja e desconfiança das demais deusas, mas principalmente de Hera, a senhora dos casamentos. Tanto foi que logo chegar obrigaram-na a se casar com o deus coxo. Para Afrodite, o amor não precisa de rituais, nem se vincula à instituição do matrimônio, representa o desejo, uma forte energia de atração que une os corpos e assim fecunda a natureza.
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O mito aponta uma diferenciação entre duas diferentes versões de Afrodite, Afrodite Urânia e Pandêmia. Urânia, a Celeste, celestial, sublime, amor etéreo, aquele que encontra e liga as almas, desligado da materialidade; na versão Pandêmia apresenta-se como “a venerada por todo o povo”, tornando-se inspiradora dos amores comuns, até mesmo carnais. Dualidade presente no amor.

Talvez seja uma das deusas mais conhecidas e das menos entendidas, pois todos querem amar e receber amor, mas muitos não conseguem alcançar o seu mistério. Amor é o nome que damos a um sentimento vasto. Há o amor amizade, o amor fraternal, entre pais e filhos, a uma causa, entre outros. Afrodite representa o amor-paixão irresistível que cega e enlouquece os amantes, levando-os a cometer tolices aos olhos de quem observa de fora, mas também pode mobilizar profundas transformações.

Afrodite representa esse magnetismo, energia vital que estabelece a atração entre os seres, sem ela o que nos ligaria às outras pessoas? O que poderia ligar dois seres tão diferentes como um homem e uma mulher?

Dizem que passar por esta vida sem amar e quase como não viver. Há o desejo de provar esse sentimento divino e, ao mesmo tempo, tememos a perda do controle pela paixão. Queremos ouvir o canto das sereias, mas não queremos nos perder em mares e oceanos desconhecidos dos nossos sentimentos. O temor à sedução do feminino recheia de mitos o nosso imaginário: as sereias, Circe, Eva, as bruxas e feiticeiras, entre tantas outras. O amor cega, é verdade, ele transforma inclusive uma das faculdades mais fiáveis: a visão. Sob o olhar do amante, o amado resplandece e as imperfeições desaparecem, a própria vida ganha um novo e saboroso colorido. Quem experimentou sabe.

Afrodite traz uma irresistível força para a procriação: a passionalidade é a mãe de toda criação. Esta energia reúne a força que movimenta e a semente divina que fecunda, traz a fertilidade ao mundo que se traduz em vidas, ideias e arte. O percurso da criação é similar para artistas, cientistas e todo aquele que busca produzir algo novo. Para trazer alguma uma coisa nova à vida, seja uma pintura, um romance ou mesmo uma teoria cientifica, precisa-se de um amante apaixonado, dedicado e louco pela sua criação. A paixão absorvente cega, não permite espaço para outra coisa na mente do criador.

O êxtase do amor com o amante, divina comunhão entre dois corpos, movimenta as energias terrenais e divinas, levando a concepção de um novo ser. Da mesma forma para o artista, o instante de criação é um momento mágico, de encontro com as musas, celestial inspiração, contam alguns que experimentaram…

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Atená, a deusa filha do pai

Nesta semana em que as mulheres recebem homenagens no ocidente, vou recuperar algumas das facetas do feminino que já abordadas em textos anteriores, mas voltar a elas sempre nos permite uma nova compreensão.

Um feixe de luz jorrou sobre o cosmo no momento em que Atená nasceu e a cidade de Atenas foi banhada com uma chuva de neve de ouro. O radiante ouro anunciava a aurora de um mundo novo, por sua vez, a neve trazia pureza e riqueza para fecundar a terra e o homem.

Zeus apaixonado pela oceânide Mêtis, aquela do sábio conselho, regente da sabedoria e da prudência, faz dela sua primeira esposa, no entanto, o oráculo vaticina que os descendentes de deusa seriam mais fortes que o pai e o destronariam. Horrorizado com a profecia, Zeus, que havia se unido à deusa, a engole para escapar deste destino, contudo Mêtis já havia concebido Atená.

Inconsciente desta gestação, o senhor do Olimpo passou a sofrer fortes dores de cabeça, pedindo ajuda a Hefesto, o deus ferreiro, este abriu-lhe o crânio com um machado, permitindo a saída da filha.

Atená nasceu adulta, com armas em punho, pronta para lutar junto ao pai contra os gigantes, seres que ainda não aceitavam a nova organização do cosmo e a hegemonia de Zeus, única dos olimpianos a acompanhá-lo nessa batalha.

Torna-se a filha predileta de Zeus, cujos desejos e pedidos são sempre atendidos e cujas rebeldias causam profunda dor. Do pai ganhou uma espada de prata. Única no Olimpo a vestir armadura que lhe cobre o corpo, apenas a cabeça se revela. A coruja também a acompanhava, pousada em seu ombro ou sobrevoando sua cabeça. Se bem Atená é representada com armas e é guerreira, ela simboliza a inteligência e a razão, tornando-se garantidora da justiça, instituição importante na nova ordem.

Deusa virgem, ou seja, autônoma, sem marido, era ladeada, algo que poucos sabem, por uma grande serpente. Em Roma, foi conhecida como Minerva, originando a expressão “Voto de Minerva”.

A cidade de Atenas foi disputada pela deusa da sabedoria e por Posídon, o senhor dos mares. O deus ofereceu a seus habitantes o cavalo e a deusa presenteou-os com a oliveira. Os deuses julgaram os presentes, mas com o apoio das deusas, Atená ganhou a primazia sobre Atenas. Posídon ficou furioso com a derrota e suas águas inundaram a região, para aplacar sua fúria, os homens foram proibidos de usar os nomes de suas mães, inaugurando-se a linhagem paterna. A cidade destacou-se como centro intelectual e cultural da época, passando a cultivar as inovações sociais e políticas, como a democracia e a filosofia, legando-nos boa parte dos aspectos centrais da cultura ocidental.

Athena Varvakeion, cópia muito reduzida da Athena Parthenos de Fídias, século III a.C, Museu Nacional de Atenas

Na cidade de Atenas, na Grécia, um majestoso templo erguia-se no interior da Acrópole, o Parthenon. Parthenon significa virgem em grego antigo, por isso templo da virgem. Recebeu uma estátua da deusa de 39 pés de altura, feita por Fídias em ouro e marfim.

Trata-se de uma deusa guerreira que preside as atividades do espírito, sempre a vemos na companhia dos heróis. Na armadura encontra-se a imagem da medusa, com seus cabelos de serpente, decapitada por um de seus herois protegidos, Perseu, que a transformou em uma arma: aquele que olhasse seus olhos seria petrificado. A cabeça de Medusa funciona como um espelho da verdade no combate aos seus adversários, que ao contemplarem a sua própria imagem ficam petrificados de horror. Sua lança é uma arma de luz: separa, corta e fere. Entra na guerra contra a desordem, pela verdade e pela justiça.  Atená, juntamente com seu pai, Zeus, venceram o Caos, estabelecendo uma nova ordem que permite o surgimento da pólis, ou seja, a o começo da vida organizada para a humanidade na cidade. A Acrópole representava este primeiro movimento na conquista da cidadania.

Na guerra de Tróia, luta ao lado dos gregos para se vingar de Páris, por quem foi preterida quando ele escolhe Afrodite como a mais bela. Boa parte das estratagemas determinantes para a vitória dos helenos partiram da deusa de olhos de coruja que os transmitia ao engenhoso Ulisses, o seu mortal predileto.

Como grande mãe, também é uma deusa da fertilidade, da linhagem das deusas tecedoras. Puniu Aracne, uma bela e impetuosa jovem bordadeira, porque esta ousou desafiá-la a uma competição e o pior, em sua bela tapeçaria expôs as histórias de amor e traição marital seu pai, Zeus. Duplo erro, não se desafia os deuses, nem se fala do pai da deusa, a vingança chega dura e certa: Aracne foi transformada em aranha e obrigada a tecer pelo resto da vida.

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O século XX, no ocidente, certamente foi presidido pela deusa Atená. Por todos os cantos, as mulheres travaram batalhas, rompendo um ciclo milenar, libertaram-se das amarras da natureza e da cultura, conquistando autonomia. Adquiriram direitos políticos como o voto, direitos sobre o seu corpo e sua sexualidade, bem como uma posição de igualdade com respeito ao homem na família. Ingressaram nas universidades, tornaram-se médicas, aviadoras, juízas, até militares, mostrando ao mundo seus talentos e capacidades fora do lar.

Muitas jovens afastaram-se dos instrumentais e jogos da sedução, apropriando-se das ferramentas do intelecto, não queriam repetir os destinos de suas mães e avôs, desejavam conquistar uma profissão e autonomia, nada de ficar presas a um casamento esperando o marido com o jantar pronto em casa. Para elas, ser a rainha do lar, não era a opção. Filhos? Só depois da carreira construída. Ao privilegiar o desenvolvimento intelectual e profissional, como Atená, as mulheres abriram e ganharam espaço no terreno do patriarcado.

A mulher mudou ao longo do século XX, abriu-se a novas possibilidades, no entanto, as outras facetas do feminino ficaram esquecidas e desatendidas. Como Atená, a deusa guerreira, muitas mulheres são meninas escondidas por trás de um escudo, em suas solitárias lutas diárias, protegendo-se da vida, sem conhecer nem desenvolver a plenitude da mulher.

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As surpresas de uma brincadeira de verão

Nestes dias de calor, me distraí observando alguns garotos em uma piscina em meio a uma sonora brincadeira. Os rapazes de diversas idades, alguns, quase adolescentes, outros ainda meninos, brincavam de “terrorista”. No faz-de-conta, um deles tornava-se o “terrorista” que precisava ser caçado pelo grupo, ao ser capturado, acabava lançado à água. Tratava-se de uma mistura contemporânea do antigo mocinho contra o bandido com filmes de piratas. Certamente, os gritos chegavam ao outro lado da rua:

– Pega! Tá fugindo! Canalha!

– Nãaaao!

Havia resistência, eles lutavam, era um tal de puxa pra lá e pra cá que cada terrorista-mirim caía na água todo esgarçado. Nisso um garoto magrinho, dos menores, recusou-se a continuar, o mais velho ficou de pé e falou:

– Você não pode sair! É contra as regras! Você tem que seguir como todo mundo!

-Não,  nãaaaaao quero mais brincar! -Respondeu o menor.

O mais velho insistia em tom alto e firme, no entanto, o garoto não cedeu, deitou na espreguiçadeira, fechando os olhos a tomar sol.

– Não!

Nem o discurso da regra, nem a autoridade da idade ou o temor da força -que não foi usada-haviam funcionado, restou ao colega dar de ombros, a brincadeira cessou, após alguns minutos todos juntos passaram a brincar de outra coisa.

Fiquei admirada com a capacidade do garoto dizer “não” e depois não se intimidar com a pressão do colega, correndo o risco, entre outros, de ficar de fora da turma. Capacidade que muitas pessoas de diversas idades não têm, enfrentam maus bocados e sofrem caladas. Dizer “não” é difícil, quem diz passa a ser “o” chato, algo que ninguém quer, exige discernimento e autoconfiança, pois requer perceber que algo não está nada legal, bem como ter força para aguentar o tranco.

O interessante é que colocar este limite comporta aprendizagens bacanas para todas as partes, para um que sua vontade pode ser respeitada pelos pares e, de quebra, vai construindo sua autoconfiança, para o outro, a conviver com o dissenso e a respeitar o outro. Assim, no conflito e superando-o aprendem todos. Aprendizagem importante em qualquer época da vida.

Gostei de ver essa garotada.

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Um pedido a Iemanjá

Senhora da vida,

Imensidão transparente e azuliemanja boa

Salgada e doce

Fonte, ventre

Caminho, refúgio

Morada de mistérios

Sereia e rainha

Guardiã dos segredos submersos

Eterno balancear que treme a terra e serpenteia o ar

Senhora,

Derrube as muralhas da intolerância

Destrua os diques da incompreensão

Lave os corações

Acalmai as mentes

Quebrai toda rigidez

Mostre-nos o fluxo

Ensinai o ritmo

A navegar

A balancear, sem marejar

Inspirai a dança e a criação

Dissolva o medo

Mãe nutridora,

Renove a esperança

Prepare-nos para o novo

Engendre a beleza e a alegria e ligue-nos no amor.

*

A Sabedoria do mar

Trata-se do ritmo básico e natural que as mulheres devem compreender… E vivenciar. Captar esse ritmo reduz o medo, pois prevemos o futuro, e os maremotos e marés vazantes que ele reserva.  (…)

Entendimento dos ritmos da criatividade, da parição de filhos psíquicos e filhos humanos também, os ritmos da solidão,  da brincadeira, do descanso, da sexualidade e da caça. (…)

(Clarissa Pinkola Estés. Mulheres que correm com lobos.)

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Relatos de Timbuktu

Na semana passada assisti a dois filmes que vale a pena comentar, pois fazia tempo que não saía tão pensativa do cinema.

Relatos Selvagens, dirigida por Damián Szifron, mostra, em seis histórias passadas na Argentina, a barbárie de nossas relações em um mundo que se pretende civilizado. Traz  à tona sentimentos do sujeito colocado no olho do furacão, mostrando-o sucumbindo a suas paixões, cólera, sexo, arrogância, dinheiro. Tem sido bastante comentado, contudo não é um filme regular, algumas tramas são melhores que outras, uma delas é a reprodução latina de Um dia de fúria, mas ascendem-se as luzes e estamos com um embrulho no estômago, pois não vemos saída, os nossos baixos instintos ainda dominam, sob o nosso verniz de civilização.

A histórica cidade de Timbuktu, fundada nos século V d. C., foi um dinâmico entreposto comercial em meio às rotas de comércio trans-Saharianas, a partir do século XV, tornou-se um importante centro cultural islâmico no continente africano. Sua Universidade de Sankoré chegou a ter 25 mil alunos, produzindo um vasto conhecimento que ficou registrado na forma de manuscritos, escondidos pela população local, permanecendo durante séculos nas areias do deserto.

A produção francesa-mauritana Timbuktu, dirigida por Abderrahmane Sissako, um cineasta nascido na Mauritânia, por sua vez, traz a história da entrada de um grupo jihadista em uma vila tuaregue, no norte do Mali, anunciando uma tragédia. Homens de rosto encoberto e fuzis na mão, chegam vociferando as proibições via megafone em diversas línguas, porque eles desconhecem o idioma local: nada de música, nada de dança, nada de futebol, as mulheres devem cobrir mãos e pés e por aí vai. Colocam-se como portadores da lei, asseverando fazer a jihad, em nome de Alá, por sua vez, a população local, também islâmica, professa uma interpretação divergente da palavra do profeta, das formas de cultuá-lo e da própria vida, resistindo numa batalha desigual. Na trama, não há reducionismo, nem melodrama, mostram-se as incongruências e as guerras fora e dentro de cada sujeito.

Nestes tempos bicudos,  em que a guerra com sua barbárie não se limita aos fronts, estando por toda a parte,  Sissako em Timbuktu não nos deixa no abismo, oferece uma preciosa chave de entendimento quando um dos personagens diz “a minha Jihad é o meu aperfeiçoamento moral”, colocando-nos a questão, qual é a nossa cruzada mesmo? Lutamos contra o quê? Contra os deuses alheios ou contra as nossas intolerâncias e equívocos? Por que ficamos tentando impor a lei e a ordem aos outros? Não será porque o nosso pensamento e nosso coração andam bem desordenados?

Cinema excelente, na forma e conteúdo e um alento nestes dias em que a sabedoria escasseia.

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A beleza dos 40

Hoje minha irmã, minha eterna companheira, celebra seu aniversário, completa 40 anos, e em homenagem a esta data importante decidi republicar um texto antigo, de 2010, que gosto bastante.

A vida começa aos 40

Um velho chavão. Quem está no vigor da juventude, longe dos 40, pensa que é uma grande bobagem. Muitos dos que estão nesse limiar proferem essa afirmação sem convicção. Já se sentem os efeitos da gravidade e dos radicais livres: rugas, flacidez e manchas. Essas malvadas não existiam, eis a oxidação dizem os especialistas. Um novo nome para um antigo fenômeno: o envelhecimento.

A idade parece uma doença contagiosa da qual ninguém quer falar. Se a idade chega, que não se vejam os seus efeitos. No nosso mundo, a exigência é ser jovem. Eternamente jovem, se possível. A beleza está do lado da juventude. Beleza significa ter uma pele lisinha, um corpo sarado, uma barriga tanquinho.

A indústria da beleza promete deter os efeitos do tempo: cremes antirugas, anticelulite, peelings, liftings, silicones, lipoaspiração. Existem ainda alternativas para os que querem soluções rápidas e radicais: cirurgias plásticas. Tudo para manter a aparência jovem.

O problema surge, pois não se engana o RG. Quando se está na casa dos 40, já ocorreu o inevitável e agora? o que fazer? A batalha travada é por não parecer, ter 40 com cara (e corpo) de 20, se possível.

Trata-se de um luta para se ajustar a um padrão estético, mas há uma dimensão que não é física. Aos 40, alguma coisa parece não se ajustar. O nosso espírito está jovem. A gente se sente jovem, a despeito dos cabelos brancos insistindo em aparecer…

Como assim? Parece uma brincadeira de mau gosto. Agora que os medos e bobeiras de adolescente já ficaram para trás, que a gente sabe e pode fazer o que deseja, que o salário está bom. Justamente quando há boas conquistas para se desfrutar: independência financeira e maturidade. Bem, não sempre, mas vamos caminhando para isso. O mundo nos coloca que já somos senhoras e senhores, tiazinhas e tiozinhos… e que o movimento não é mais ladeira acima. Atônitos, percebemos que para o mundo já passamos do ponto, “já não temos mais idade”. Não temos idade para vestir mini-saia, para namorar, para começar de novo, enfim a lista de nãos é enorme. O duro é que muita gente se convence disso, entra em pânico ou em depressão.

Ouvimos os nãos na infância e na juventude, o não porque se é mulher, o não porque há responsabilidades. Os anos se passam e a gente passa por eles procurando responder às expectativas do mundo. Ser bela, inteligente e profissional, ter um bom emprego, um namorado, casar, ser mãe, ter belos filhos.

Aos 40 pode ser o momento da virada, da liberdade, da liberação dessas obrigações. Aos 40, a gente já não precisa mais correr atrás da aceitação. Já sabemos que quem gosta da gente, vai continuar gostando.

As amarras dão espaço a um novo o imperativo: de viver melhor.

O tempo passa, é verdade, mas a gente não precisa sofrer com isso. A gente pode aproveitar o tempo que nos resta. Trata-se de escolher é como vai se viver os próximos 40 anos. Com mais prazer, mais alegria, mais paixão, mais amor, mais saúde?
Menos a vontade dos outros, menos sofrimento, menos angústia?

Menos dever, mais querer?

O primeiro dia dos nossos próximos anos começa hoje! E a nossa escolha pode ser agora!

clau e vero

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Rumo à Estrela do Oriente

Contemplar a abóboda celeste, vendo uma infinidade de pontos a brilhar em um noite escura talvez seja observar um dos maiores mistérios da natureza. Luminosidades de diferentes tamanhos têm nos surpreendido desde a aurora dos tempos, todas as civilizações registram a presença dos belos e enigmáticos pontos no céu, não raro, ligando-os a feitos extraordinários.

Conta-se que há mais de dois mil anos, três reis deixaram seus reinos guiados pela convicção de que deveriam largar tudo e seguir a luz avistada no céu, abandonaram poder, honras e conforto. Outras leituras dizem que Gaspar, Melchior e Baltazar não eram reis e sim magos, ou seja, sacerdotes de outras religiões. Sozinhos cruzaram desertos, florestas e montanhas, seguem a Estrela do Oriente, que os conduz a um estábulo, onde encontram Maria,  José e Jesús recém-nascido.  Após apresentarem seus louvores e presentes, ouro, incenso e mirra, os reis magos fazem um longo retorno,  para evitar o encontro com o rei de Israel, Herodes, que desejava matar o Cristo. O temor ao recém-nascido leva-o a ordenar o assassinato todas as crianças com menos de dois anos.

Maria e José fogem com o filho para o Egito, onde viverão  escondidos por alguns anos. Não surpreende,  pois terras ao redor do Nilo abrigavam centros com uma tradição milenar de estudo dos mistérios da vida. Os antigos egípcios foram mestres na construção de templos e pirâmides, na confecção de cerveja, bem como na técnica de embalsamamento, cujos produtos podem ser vistos até hoje.

*

Olharmos pouco para o céu, conquistamos os ares, mas deixamos de guiar-nos pelas estrelas, ficamos presos ao nosso metro quadrado, quando não ao nosso umbigo. Deixamos de encontrar estrelas cadentes, conversar com as constelações ou rumar pelas estradas no firmamento.

Nunca vi uma estrela cadente, mas já contemplei em diversas ocasioes a via láctea em uma noite escura, no sul do Chile,  longe das luzes da cidade, deliciando-me com a profusão de luzes que os antigos associaram a uma mancha de leite. Leite, alimento vital. Na mítica, as estrelas trazem o saber e, sempre, a esperança .

Levantar os olhos para o céu em busca daquela luz, que nos conduz ao desconhecido, prática tão antiga quanto o mundo e tão mágica quanto todo nascimento, eventos a se festejar tal como os sábios de outras eras.

Baílica Sant’Apollinare Nuovo, Ravenna, finalizada em 526 d.C.

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Pedras rolando não criam musgo

“Eu sou uma pedra a rolar” diz a letra de um blues do Muddy Waters, Mannish Boy, a frase ganhou o mundo ao inspirar um grupo de jovens ingleses que, no início da década de 1960 estavam a procura de um nome para sua recém criada banda. Em 1962, Mick Jagger, Keith Richards e a trupe fizeram um show no qual se apresentaram pela primeira vez como os rolling Stones, de lá para cá são 52 anos de atividade e delírio dentro e fora dos palcos por todos os continentes. Quando Jagger e seu colega de escola, keith Richards, se reuniram para tocar nem imaginaram tamanha longevidade, mas sem dúvida acertaram no nome, pois pedras rolando não criam musgo.
Boa inspiração de uma senhora banda de rock e uma boa lembrança para 2015, como no caminho há pedras de todos os tamanhos, cores e formatos e nós temos uma tendência insana a guardá-las, o melhor é ser pedrita a rolar.

Feliz 2015 a todos, mais livres, leves e satisfeitos com tudo o que a vida nos dá, inclusive os balancos que nos fazem rolar.

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A luz do Natal

O nacimento na Igreja do Arcanjo, na região de Trodos, Chipre. O conjunto de 10 igrejas remonta ao século XI

O Natal chegou, momento de alegria, felicidade, compartilhamento de mesas fartas e presentes para celebrar o amor. Bacana.

Se por um lado, o Natal nas propagandas está repleto de gente sorrindo, nas celebrações de fim de ano, a data desperta, no mínimo, sentimentos ambíguos. O Natal está associado a presentes, à ceia familiar, mas e se nossa família não é como a da propaganda? E se os tios encontram sempre algo chato para perguntar? Vestibular, casamento, filhos ou qualquer tema sensível?

Na infância, o Natal comporta uma magia, luzes coloridas, o velhinho simpático que chega de trenó trazendo presentes, ao lado da árvore aparece a imagem de um menino que nasce em uma manjedoura, filho de Maria e José.

Quando nos contam que o Papai Noel não existe, a realidade desaba sobre nossas cabeças. Passam os anos, vemos que os beijos e as palavras de certas figuras familiares podem não ser sinceros, algumas pessoas queridas se vão e o Natal torna-se uma festa vazia, cheia de obrigatoriedades -até de estar feliz-, em um momento que estamos todos cansados, pois é fim de ano. Ao nos tornarmos adultos, somos levados a esquecer a magia, coisa de crianças, dizem-nos. O que celebramos nesta data, mesmo?

O significado do Natal anda longe de nossas referências, quase não há presépios nas ruas. Em um mundo desencantado, as narrativas da tradição parecem conversas de velhas carolas, perderam seu valor entre homens e mulheres que se professam modernos, não admira que a celebração natalina esteja reduzida quase que somente à obrigatoriedade da reunião familiar. Inclusive muitos preferem a festa da virada, pois tem sentido despedir o ano velho e saudar a chegada do novo.

Entre os antigos, antes mesmo do judaísmo e do cristianismo, no período, celebrava-se o renascimento da luz, após a escuridão do inverno, no hemisfério norte. Eu gosto do mistério da luz que vêm depois da escuridão, quem passou por uma nebulosa, sabe da importância de se enxergar a luz.

Ao racionalizar o mundo, despovoamos o universo do mistério e banimos diversos rituais, seja para fertilizar a terra, germinar a semente, de colheita ou da poda. Ao reduzi-los a uma visão mítica do mundo nos esquecemos que eles pontuam os ciclos da vida. A primazia da racionalidade,  para muitas gerações, esvaziou a própria vida de significado, ao se desvencilhar do sentido dado pelas narrativas das diversas tradições.

Gosto dos rituais, pois aprendi que eles nos relembram que a vida é circular e cíclica, bem como de coisas importantes, das chegadas e partidas, ajudando nas transições e passagens. Longe de acreditar que esta visão é  verdade universal, mas para mim faz sentido.

O nascimento de Jesus, o tão esperado Filho de Deus que se faz carne, apresenta-se como uma grande data na tradição  cristã da qual somos herdeiros. Poucos sabem que a figura de Jesus inaugura uma nova forma de pensar e se relacionar com o divino, Deus torna-se o amor, deixa de ser a transcrição da lei. Essa nova figuração me parece importante, pois o amor é uma experiência única e irresistível, até para os mais racionais, expressão da nossa divina humanidade.

Neste Natal, aproveite, celebre a vida contida em cada nascimento, conecte no amor que você sente por todos os seus e encante uma criança, como aquela que você um dia foi.

Feliz Natal!

 

Dirck Barendsz, 1565, Igreja de Janskerk

 

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A obra da palavra

Nesta semana, assistia pela TV a entrevista de um antigo professor dos meus tempos de estudante da USP,  Boris Fausto, que lançava um livro,  O brilho do bronze, quando eis que, a certa altura, o entrevistador, Mario Sérgio Conti, manifestou sua surpresa: “Você, um historiador, faz terapia, quem diria?” o professor rebateu o espanto e contou a sua necessidade de elaborar o luto após o falecimento de sua esposa,  relatada no escrito autobiográfico.

Esse espanto de um profissional letrado pareceu-me significativo. Se bem em alguns países, como a França ou a Argentina,  não causa espécie uma pessoa procurar uma terapia, em outros torna-se difícil encontrar um analista, quando não parece que o sujeito está fazendo uma coisa “no mínimo” muito estranha.

Desde Freud, portanto, há mais de um século ouvimos falar em psicanálise – os estudos do médico vienense marcam o que entendemos hoje por mente-, mas principalmente, com ele surge um método inédito na terapêutica: a cura pela palavra. A palavra “cura” aqui merece aspas, depois será substituída por “elaboração”, mais apropriada.

Quem se permite esta procura percebeu que algo não vai bem, decidindo pelo menos ver essa questão. Passando a empreender uma jornada. Neste percurso, a análise, permite este encontro do sujeito com ele mesmo, via seu diálogo com o analista, apresenta-se como um procedimento avesso ao lugar comum da superficialidade da aparência, da ilusão do “tá tudo bem”, do engano do “meu problema são os outros” ou então,  do “toma essa pastilha que passa”. Não é bem entendido porque o buscador dá ouvido a um questionamento do seu íntimo que está na contracorrente das verdades e definições prontas para se obter uma satisfação fast food. Um questionamento que precisa da mediação da palavra para vir à luz e ganhar sentido.

Embora estejamos muito habituados às palavras, vemo-las por toda parte, pouco percebemos a sua importância, é através da palavra  que criamos a cultura e, desta forma, a nossa humanidade. As palavras permitiram-nos dar nome às coisas e, portanto, existência a pessoas, pensamentos, emoções, compartilhar e registrar experiências. A linguagem permitiu o nosso  entendimento do mundo e o próprio desenvolvimento do homem. A história da espécie registra que o lobo frontal do nosso cérebro desenvolveu-se junto com a criação de linguagens, por outro lado, o nosso desenvolvimento individual depende da própria aquisição desta ferramenta.

Percebo que há uma restrição à busca de um profissional da psi,  principalmente por gente que desconhece o campo. Longe de achar que todo mundo precisa,  trata-se apenas de um recurso. No processo ganham-se ferramentas para lidar com as vicissitudes da vida, porque a vida “é bonita e é bonita”, mas não é moleza para ninguém.

Que ninguém se iluda imaginando que, em algum momento, os conflitos se acabam, longe disso, não se ganha o céu na terra, pois dores e amores são o privilégio e fardo especificamente humano; com o alargamento da consciência ganha-se a possibilidade de viver neste mundo de maneira significativa e tornar-se o autor da nossa grande obra: a nossa vida.

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Sem hora marcada

sem hora marcada fotoO parto, conhecido desde a autora dos tempos como um saber de mulheres, tem sido apropriado pelas ciências médicas e regrado pela indústria da cesárea, em nossa sociedade cada vez mais tomada por fórmulas e remédios que prometem nos livrar do medo e da ansiedade inerente à própria vida.

Desafiando o consenso reinante do parto como cirurgia, algumas mulheres e lutam para se reapropriar do entendimento do nascer. O livro Sem hora marcada realizado a 8 mãos por Anna Carolina Gomes, Guilherme Vitoretti, Letícia Lopes e Renata Ambrosio, conta as experiências de corajosas gestantes e mães que ouviram o próprio corpo, intuíram a sabedoria da natureza e buscaram trazer seus filhos ao mundo sem intervenções desnecessárias, assim como suas mães, avós e todas as mulheres de outros tempos o fizeram. Ao ler seus relatos, sentimos seus medos e anseios, mas também a força e a integridade naquele que é considerado um dos momentos mais sagrados da vida, o nascimento.

Carol, Guilherme, Letícia e Renata , meus orientandos, defenderam ontem seu trabalho de conclusão de curso uma exigência do Curso de Jornalismo da Universidade Metodista de SP; da banca participaram Giovanna Balogh, repórter da Folha de S.Paulo editora do blog maternar* e Marli dos Santos, Coordenadora do Pós-Graduação em Comunicação da UMESP. O tema escolhido foi bastante elogiado, pois nossa sociedade pouco pensa na forma em que estão nascendo as próximas gerações.

Dizemos que realizar um TCC é como parir, são meses de gestação até o filho/produto nascer. A metáfora procede, agora, este produto especial está à procura de uma boa editora para chegar às melhores livrarias para que possa ser compartilhado por todos aqueles interessados em tornar a nossa vida e a das próximas gerações muito melhor.

Uma defesa emocionante, não só pelo tema, nascimentos, mas também porque por essas coisas do destino, foi realizada no dia em que celebrávamos o  aniversário de meu pai.

* http://maternar.blogfolha.uol.com.br/

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Poesias e cantadas na orla de Ipanema

Há tempos venho acompanhando o debate sobre as diferentes formas de violência contra as mulheres. Um tema que precisa ser debatido, pois se durante milênios foi entendido como natural, hoje até um olhar pode ser entendido como ofensivo em nosso mundo que anda sensível e intolerante.

O blog feminista Think Olga fez uma enquete online sobre cantadas, quase  8 mil mulheres responderam, 87% disseram “não achar legal receber cantadas”.  A enquete levou à criação da campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual em lugares públicos e o blog tornou-se um porto de denúncias não só de cantadas mas de diversas formas de assédio sexual.

Faço parte da porcentagem que recebeu cantadas, “Bom dia”, “Princesa”, buzinadas enfim , detestei muitas, evitava passar na frente de construções e até hoje presto atenção às roupas que visto, para evitar olhares desagradáveis. Agora, devo confessar que houve algumas cantadas que me fizeram rir e outras, certamente, fizeram bem para o meu ego em dias um tanto nublados.

A jovem Helô Pinheiro

Em meio a essas reflexões, hoje, os telejornais nos lembraram dos 20 anos da morte do mestre Tom Jobim. Ouvindo fragmentos de suas músicas me assaltou o pensamento que se esta sensibilidade feminina estivesse presente nos anos 1960, o clássico Garota de Ipanema não existiria.

Assíduos frequentadores do bar Veloso na orla de Ipanema, Tom e Vinicius sentavam-se numa mesa da calçada a jogar conversa fora e a olhar o movimento “cheio de graça”, entre umas e outras, ali nasceram clássicos da música brasileira contemporânea.

Em dias ensolarados, a jovem Helô Pinheiro uma moça de “corpo dourado do sol de Ipanema” passava “num doce balanço a caminho do mar”. Sabe-se que ela  não se incomodou com a cantada e menos com a música que se tornou um sucesso internacional,  recebendo versões em centenas de idiomas e a promoveu a eterna garota de Ipanema.

Temo que hoje, os poetas seriam mal vistos e talvez até denunciados por assédio a uma jovem de 17 anos e a música brasileira perderia muito de sua graça, beleza e amor.

… Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

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Jung, o tarô e o círculo

Compartilho esta ideia de um autor que há anos me acompanha.

Para trilhar a jornada da vida, não raro, mergulho neste estudo.

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Você gosta do que faz?

“Você gosta do que faz?”, perguntou-me uma aluna nestes dias. Parei um segundo para pensar. Revisitei o que faço, preparar e dar aulas,  corrigir provas, semanalmente, avaliar trabalhos e dar retorno aos alunos, que, nada raro, não gostam das minhas observações no texto,  prefeririam que eu lhes dissesse um tranquilizador “tudo certo”, algo que  insisto em não dizer, se não acredito, em um processo que parece não ter fim.

“Sim, bastante”, foi a resposta, posso dizer que tenho prazer no que faço.

Não consigo me imaginar passar horas a fio em um trabalho que não me proporcionasse prazer. Em todas as profissões encontram-se os “ossos do ofício”, a de professor tem muitos,  principalmente neste mundo em que as pessoas acham que só sentar na cadeira  (e olhe lá)  já dá acesso ao conhecimento,  quando não ao diploma; em que o corpo se destaca em lugar do intelecto;  em que as mensagens pipocando no celular parecem muito mais urgentes do que estudar autores que morreram há 100, 200 quando não 2 mil anos. Há momentos que parece uma luta inglória.

Mas perceber a evolução de muitos alunos dá prazer, no fim, encontrar um desenvolvimento ou uma produção que surpreende faz valer a pena.

Com isto em mente percebi que é uma pergunta que toda pessoa adulta deveria se fazer. O que você faz te dá prazer?

O retrato de Dorian Grey, uma imagem da adaptação de 1945

Sei que alguns responderão, “eu, prazer? Nem sei o que é isso? Eu vivo para o trabalho”.

O gosto pelo que se faz é vital para a alma, do contrário fica só um carregar de pedras e engolir sapos diário. Trabalho não é sofrimento, não deve ser, pelo menos, experimentar alguma satisfação nessa área e por que não dizer até instantes de gozo, torna-se fundamental para se ter uma mente saudável. O prazer não pode ser apenas coisa de fim de semana, nem pode só ficar naqueles minutos de êxtase.

A vida sem prazer fica insossa, entra no automático. O autômato, aquele ser que perdeu a sua alma, pois nem sabe mais onde ela está, repete diariamente sua rotina e se deprime só de escutar o som do fantástico no domingão.

Às vezes, fazemos aquelas permutas de Dorian Grey, do romance de Oscar Wilde, minha vitalidade por  uns cobres e ficamos presos nessa teia, não é à toa que tantas pessoas chegam em casa e precisam beber alguma coisa, fumar outra, ingerem remédios, se entregam ao sexo compulsivo sem proteção, enchem a cara de alguma forma buscando um naco de prazer.

“Onde está o seu prazer?” não é uma pergunta fácil,  pois nos questiona as nossas escolhas e respondê-la honestamente implica um novo traçado da rota; sair da zona de conforto dá trabalho e a gente vai se enganando que está tudo bem. A motivação, a energia que motiva a ação se esvaiu.

Ter prazer na vida não é bobagem,  nem é pecado, torna-se até necessário para que as doenças não se instalem, pois trata-se de nosso alimento diário, combustível necessário para a nossa jornada, sem isso, um dia o carro engasga  ou para.

De chirico, Meia noite sob o sol

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Nos giros da roda da vida – uma homenagem àqueles que se foram

pai clau euHá tarefas na vida que jamais imaginamos que vamos a desempenhar, nem queremos pensar nisso, sem sabermos como, um dia estamos com a missão nas mãos.

A roda da vida gira, imperceptivelmente, na maior parte do tempo, em outras o giro é brusco, como a dizer:  Terminou aqui.

Nestes dias de experiências familiares fortes, começamos com a minha irmã a dura experiência de fechar as portas da casa de nossos pais. Vender os móveis,  doar roupas e utensílios,  jogar fora o que não presta. Passar para frente uma casa que abrigou nossas vidas por quase 25 anos. Até o pó da casa tem a nossa história familiar, nossas  lágrimas, nossas risadas, nossas dores, pensamentos, esperanças e projetos.

Ao limpar, repassamos cada canto, cada folha de papel, objetos cotidianos,  bem como aqueles perdidos lá no fundo do baú de nossas lembranças,  aquelas que imaginávamos perdidas para sempre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo percurso me vi  confrontando aquilo que imaginaram para nós principalmente os pais -que sempre têm muitas ideias para nós…-  com aquilo que fizemos… é bom poder passar a limpo e jogar fora o que não foi.

O momento permite revisitar aquela criança que fomos, pequena, medrosa, frágil, talvez sentir que ela ainda está lá escondida dentro do armário e possamos dizer-lhe:

– Bom te ver, tudo certo. Você era uma menina,  mas foi muito forte e corajosa! Já fez tanta coisa que sequer imaginava!!! Olhe só! !

Como se a vida estivesse a nos colocar uma oportunidade para limpar dores e ressignificar visões, ideias e pensamentos.

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O aprendizado do momento é perceber que tudo um dia chega ao seu fim… A alegria e o sofrimento, até o que parece mais sólido se esvai, parafraseando o filósofo.  No fim, só restam as memórias.

O momento parece estar a dizer-nos, aproveite a vida, lembre que a semente morre para renascer. A vida caminha em ciclos. Nossos avôs  deixaram suas sementes,  nossos pais, e estes a nós, cabe a nós seguir a senda e ir semeando coisas boas.

Papai gostava bastante de plantar, na sua horta no pequeno terraço tinha morangos que saía distribuindo pela vizinhança, como me lembrou Anita, a vizinha do apartamento de cima, mas acho mesmo que ele gostava de árvores e vê-las crescer… Fico muito contente que nos últimos anos ele pode plantar várias, cerejeiras, pessegueiros, atrapalhando o jardim da minha irmã, mas ele era assim mesmo…famila pai

pai + orlando antiga

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Das Senhoras e das tramas do destino

Se há um grande mistério, sem dúvida, este é o destino de cada um. De repente nós tomamos uma estrada, em lugar da outra  e isto muda o rumo de nossas vida, uma pessoa perde o avião e  se livra de um acidente, outra almoça num horário diferente e encontra o amor de sua vida, mas nem precisa tanto, sabemos que ao fazermos certas escolhas o caminho pode nos levar a lugares impensados.

Entre os gregos, as Moiras eram as deusas do destino, elas comandavam a sorte, o quinhão que caberia a cada um. Etimologicamente, a palavra Moira significa parte, lote, quinhão,  aquilo que a cada um coube por sorte, por isso, destino.

As senhoras do destino, como mulheres, elas fiam, o destino é simbolicamente “fiado” para cada um. As Moiras não foram personificadas, pairam acima dos deuses e dos homens, até Zeus, o senhor do Olimpo deve obedecer-lhes, dado que o destino é imutável não podendo ser alterado nem mesmo pelos deuses, menos ainda pelos homens, isto significa que elas representam um lei que nem mesmo os imortais podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem universal.

As Moiras são a personificação do destino individual, assim cada homem e cada mulher teria a sua Moira, ou seja, a sua parte, o seu quinhão de vida, de amores, de felicidade, de infortúnios.

No mito, seguindo sua Moira, Helena abandonaria seu reino, Esparta, seu marido, Menelau, e seu filho, para seguir o amor de Paris, levando à guerra gregos e troianos, por sua vez, o belo Aquiles estava fadado a morrer jovem nesta guerra, mesmo não querendo lutar, viu-se no campo de batalha e ao ser flechado no calcanhar encontrou a sua moira.

Essa ideia de Moira impessoal,  universal e inflexível, senhora inconteste do destino transformou-se,  acabando por se projetar em três moiras: Cloto, Laquesis e Átropos. Cloto, a que fia, ela segura o fuso e vai puxando o fio da vida. Laquesis enrola o fio da vida e deve sortear o nome de quem deve morrer. Átropos, a inflexível, é aquela que não volta atrás, ela corta o fio.

O destino desde a aurora dos tempos é um atributo do feminino. A mãe tece seu filho em seu interior, num mágico processo que de uma célula formam-se todos os nossos tecidos, do coração ao cérebro, em cerca de nove meses, quando o rebento estiver pronto virá a luz para iniciar com seus próprios pés, sua trama. O destino conjugado no feminino significa pensar que a nossa transformação vem de mãos dadas com o feminino. As deusas nos acompanham por todo o percurso, mas são sentidas nos momentos cruciais, na chegada e na partida.

Hoje somos tentados a acreditar que nós tecemos o nosso destino, que o traçamos com o nosso quinhão de inteligência, determinação, amor, orgulho ou mesmo vaidade e arrogância. Sinto que a vida, sem o notarmos, é tecida dia a dia, entre linhas e instantes, tramados de diversos coloridos, pontos e linhas. Ponto a ponto, urdida nas escolhas, tramada por nós e pelos deuses que chamamos para nos acompanhar.

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Das agruras do engenhoso Dom Quixote ou das batalhas contra gigantes e moinhos de vento

Nascido no dia 29 de setembro, dia no qual se celebra são Miguel Arcanjo, filho de família de médicos cirurgiões, Cervantes entrou no exército, participou na Batalha de Lepanto contra os mouros, quando ao ser ferido, perdeu os movimentos da mão esquerda, posteriormente corsários aprisionaram seu navio, levando-o a Argel, onde fica cinco anos preso nas masmorras

Fico pensando que experiências e quais figuras teriam inspirado Miguel de Cervantes quando dentro da Cárcel Real de Sevilha, em 1597, por problemas em seu ofício de arrecadador de impostos engendrava seu romance, Dom Quixote de la Mancha, cuja primeira parte foi publicada em 1605.

Cervantes conta a história do engenhoso fidalgo que saiu da região de la Mancha como cavaleiro errante pelo mundo para defender os pobres e oprimidos junto a Rocinante, seu cavalo, e a Sancho Pança, seu fiel escudeiro, a quem promete tornar governador de algum dos reinos que viria a conquistar.

Entre muitas aventuras, combateu gigantes que na verdade eram moinhos de vento, atacou rebanhos de ovelhas pensando digladiar-se contra exércitos inimigos e, não raro, causa mais dano por onde passa do que ajuda àqueles que defende e muito apanha. Em certa empreitada, decide lutar contra  leões,  na verdade, nem chega a lutar, porque o leão não faz caso dele, mas foi o suficiente para convencê-lo de sua superioridade; em outra, ataca um cortejo fúnebre de monges beneditinos que levam o caixão de um irmão para seu enterro em outra cidade. E, quando confrontado com  a realidade, o cavaleiro de triste figura pensa que está sendo enganado por encantadores que se divertem  em ludibriá-lo.

Quantas figuras teriam inspirado Cervantes na construção de seu dom Quixote, pois não raro encontramos pessoas que travam lutas imaginárias pelo bem da humanidade, que se descolam da realidade, recontando sua história, retirando dela suas omissões e frustrações, colorindo-a com monstros, solitários a brigar com todos aqueles que ousam questionar seus gigantes, sentindo-se incompreendidos em suas cruzadas contra a injustiça do mundo, sem perceber que estão lutando contra moinhos de vento, a causar sofrimento por onde passam, mas, principalmente, para si  e suas famílias.

O engenhoso fidalgo enlouqueceu de tanto ler novelas de cavalaria e saiu pela vida  tomado pela fantasia que reinava em sua mente. Este romance tão marcante em nossa tradição traz um tema crucial para todos que caminhamos pela vida, pois há muitos engenhosos que ficam na ilusão ou fantasia para não enfrentar as agruras deste mundo e andam  a imaginar batalhas sendo que a maior batalha está em sua mente que constrói uma trincheira para não ver a própria realidade que se construiu.

Don Quijote de Pablo Picasso

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Frida Calor e Frio

frida museu

Nestes dias fui assistir Frida calor e frio com a companhia Estelar de Teatro, no espaço Viga, em Pinheiros. Sempre é fascinante reviver a história desta pintora mexicana marcada pela poliomielite na infância e depois, aos 18 anos, por um grave acidente que destruiu o ônibus em que a jovem voltava da escola. Na fatalidade, sua coluna foi fraturada em três partes, a perna direita, em onze e um ferro entrou pelo quadril esquerdo para sair pela pelve, ela costumava dizer que esta havia sido a forma brutal em que havia perdido sua virgindade. Passou por mil e um tratamentos da ciência médica da época, em meio à dor, pede tela e pincéis para passar o tempo.

Esta mulher encantou o muralista Diego Rivera que veio a se tornar seu marido, em 1929, conta-se que formavam um casal e tanto, numa relação de amor e ódio conhecida por toda a capital; seus saraus e festas reuniam a intelectualidade do país e, por vezes, até do mundo em visita ao México em seus dias revolucionários, como catalão Pablo Picasso, o francês André Breton e o chileno Pablo Neruda. No final da década de 1930, Diego e Frida hospedaram Trotsky exilado no país, por recebê-lo foram alvo de constantes perseguições policiais, mas o evento mais ruidoso foi o caso entre o russo a pintora.

A deliciosa peça nos leva a este universo desta mulher intensa que não fez da fatalidade um destino, embora a dor tenha sido uma companheira, jamais conseguiu vencê-la. Sua arte tornou-se sua vida e sua vida ficou registrada em sua arte.

“A arte é uma das múltiplas possibilidades do real” nos disseram. Que sorte a nossa termos a arte!

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Os pharmacons da medicina do sonhar

Nestes dias uma amiga sonhou  com uma aranha que lançava um veneno a um urso, ele ficava com muitas bolhas, mas sobrevivia, depois via muitas aranhinhas, não lembro o que seguia. Estas visões a deixavam surpresa com a capacidade da mente produzir visões durante o sono.

No mundo grego antigo, phármakon definia qualquer substância capaz de atuar no organismo, seja em sentido benéfico ou maléfico. Por isso, tanto designava remédio como veneno. E o pharmakeús era um misto de preparador de remédios, mágico e envenenador. Os gregos viam uma irmandade entre veneno e remédio, talvez porque o que não mata fortalece. O termo também nos lembra que na Hélade, há milênios, já se percebia a ambiguidade e a contradição presente na natureza e na vida.

Os pharmacon representam uma visão da medicina ancestral, numa reminiscência desse termo, encontramos a palavra farmácia, o lugar onde contemporaneamente buscamos a cura através de remédios.

Cabe lembrar que durante milênios o saber das plantas foi utilizado e ficou guardado pelas mulheres. Conhecimento este que permitia a cura de muitas enfermidades, mas como tudo o que não se explica, assusta, as mulheres ganharam o estigma de feiticeiras e bruxas.

Por sua vez, a aranha tece, tal como a própria vida é tecida. Um ofício ancestral das mulheres é o tecer, cabe a elas, fio a fio, ponto a ponto, tecer a trama dos tecidos seja de roupas, mantas ou do próprio rebento. A própria tecelagem representa o acalento e a  proteção, funções primordiais do feminino.

Aranha também me lembra a dança da tarântula. Na região do Mediterrâneo, onde hoje vemos o sul da Itália, há mais de dois mil anos, as meninas e jovens, muitas vezes “enlouquecidas” repentinamente eram vistas pelo clã como picadas pela tarântula. Na verdade, a loucura aparecia após sofrerem alguma violência como o abuso sexual, cometido por membros das próprias famílias, que não podia ser denunciado. A irmandade feminina fazia o ritual da tarântula, uma dança só de mulheres, de cura, para sanar e limpar as dores. Eis a origem da tarantela. A dança tem grande poder de cura, quem experimenta sabe como o movimento ao som dos tambores e acordes pode lavar e sanar a alma.

Como andamos desvinculados da natureza assustamo-nos, às vezes, com as imagens que os nossos sonhos trazem, contudo não há animal bom, nem ruim, são representações de ideias, sentimentos  ou forças presentes em conversa ou em conflito no nosso interior. Ideias do mar profundo que buscam sair à luz e nos ajudar para vivermos uma vida melhor do que o que estamos fazendo.

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Uma armadilha na roda viva da vida

Quando a gente olha para o mundo, é fácil notar que certos eventos cegam, principalmente as paixões, seja o amor ou a raiva, contudo tenho percebido que o volume imanejável de trabalho, tarefas e demandas cotidianas também pode nos levar à perda da cabeça.

Nós andamos trabalhando alucinadamente, as pendências se avolumam e sem sabermos como estamos numa roda vida. E aí se instaura o cansaço.

A exaustão é uma péssima companhia, nos faz perder o humor, o eixo e até o juízo. Leva-nos fazer coisas que não faríamos se estivéssemos atentos e alinhados com aquilo que há de mais verdadeiro e íntegro em nós mesmos; a gente pensa que está no controle, contudo não diferencia mais o joio do trigo, não consegue separar aquilo que é importante e do que não é. Além disso, o cansaço nos faz dizer coisas e até magoar pessoas que gostamos. A exaustão nos faz cair nas armadilhas da vida, como ouvir aqueles que estão à espreita para causar cizânia. Se estivéssemos em pleno uso do juízo não o faríamos…

E a gente nem se dá conta de tão cego que está. Muitos nunca se darão conta, pois o orgulho não permite, o ego não gosta de ver que fez bobagem e se defende recriminando o outro. Quem sofre mais são as pessoas que estão mais próximas, não raro a gente faz isso com os nossos amores companheiros e começa um bate boca: “eu fiz tal coisa, porque você fez isso primeiro…”

Nós, mulheres, somos particularmente tentadas a dar conta do mundo, vivemos em uma maratona, achamos que o mundo vai cair se não estivermos na função, não atentamos para o momento de diminuir o ritmo ou mudar a direção. Às vezes, será a doença que mostra que a coisa não vai bem e nos muda abruptamente o rumo.

Já vi muita gente boa perder as rédeas da própria vida.  Ao escrever isso, com pesar, me lembrei de tantas pessoas queridas que se foram, porque em meio às urgências do nosso dia a dia e à nebulosa da exaustão não perceberam que elas precisavam cuidar delas mesmas e se nutrir nas suas relações …

Um desafio permanente é evitar a cegueira, esta tem inúmeras formas, mas vale aquela velha frase, se a coisa não está bem, pare e pense. A vida não é para se ficar na função, mas para ser vivida. Já diziam os gregos, tudo na vida precisa equilíbrio.

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