Você gosta do que faz?

“Você gosta do que faz?”, perguntou-me uma aluna nestes dias. Parei um segundo para pensar. Revisitei o que faço, preparar e dar aulas,  corrigir provas, semanalmente, avaliar trabalhos e dar retorno aos alunos, que, nada raro, não gostam das minhas observações no texto,  prefeririam que eu lhes dissesse um tranquilizador “tudo certo”, algo que  insisto em não dizer, se não acredito, em um processo que parece não ter fim.

“Sim, bastante”, foi a resposta, posso dizer que tenho prazer no que faço.

Não consigo me imaginar passar horas a fio em um trabalho que não me proporcionasse prazer. Em todas as profissões encontram-se os “ossos do ofício”, a de professor tem muitos,  principalmente neste mundo em que as pessoas acham que só sentar na cadeira  (e olhe lá)  já dá acesso ao conhecimento,  quando não ao diploma; em que o corpo se destaca em lugar do intelecto;  em que as mensagens pipocando no celular parecem muito mais urgentes do que estudar autores que morreram há 100, 200 quando não 2 mil anos. Há momentos que parece uma luta inglória.

Mas perceber a evolução de muitos alunos dá prazer, no fim, encontrar um desenvolvimento ou uma produção que surpreende faz valer a pena.

Com isto em mente percebi que é uma pergunta que toda pessoa adulta deveria se fazer. O que você faz te dá prazer?

O retrato de Dorian Grey, uma imagem da adaptação de 1945

Sei que alguns responderão, “eu, prazer? Nem sei o que é isso? Eu vivo para o trabalho”.

O gosto pelo que se faz é vital para a alma, do contrário fica só um carregar de pedras e engolir sapos diário. Trabalho não é sofrimento, não deve ser, pelo menos, experimentar alguma satisfação nessa área e por que não dizer até instantes de gozo, torna-se fundamental para se ter uma mente saudável. O prazer não pode ser apenas coisa de fim de semana, nem pode só ficar naqueles minutos de êxtase.

A vida sem prazer fica insossa, entra no automático. O autômato, aquele ser que perdeu a sua alma, pois nem sabe mais onde ela está, repete diariamente sua rotina e se deprime só de escutar o som do fantástico no domingão.

Às vezes, fazemos aquelas permutas de Dorian Grey, do romance de Oscar Wilde, minha vitalidade por  uns cobres e ficamos presos nessa teia, não é à toa que tantas pessoas chegam em casa e precisam beber alguma coisa, fumar outra, ingerem remédios, se entregam ao sexo compulsivo sem proteção, enchem a cara de alguma forma buscando um naco de prazer.

“Onde está o seu prazer?” não é uma pergunta fácil,  pois nos questiona as nossas escolhas e respondê-la honestamente implica um novo traçado da rota; sair da zona de conforto dá trabalho e a gente vai se enganando que está tudo bem. A motivação, a energia que motiva a ação se esvaiu.

Ter prazer na vida não é bobagem,  nem é pecado, torna-se até necessário para que as doenças não se instalem, pois trata-se de nosso alimento diário, combustível necessário para a nossa jornada, sem isso, um dia o carro engasga  ou para.

De chirico, Meia noite sob o sol

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2 Comentários

Arquivado em Ideias, Papo de áquia

2 Respostas para “Você gosta do que faz?

  1. Alvaro Andres

    Hola Verónica. Felicitaciones y muchas gracias por tus, siempre enriquecedores, comentarios.Ya me atreví a compartir algunos en facebook.Espero tener la suerte de seguir recibiéndolos,Saludos y buena suerte,   

    “Existen tres cosas la fé, la esperanza y el amor, pero la más grande de todas es el amor”Cor. 13,13

    Alvaro Soto Toledo55-11 9 5605 7232 Vivo55-11 95797 3367 Tim 55-11  98965 5908   Claro

  2. Gracias por leer y por comentar, es bueno tener retorno.
    Saludos!

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