Atená, a deusa filha do pai

Nesta semana em que as mulheres recebem homenagens no ocidente, vou recuperar algumas das facetas do feminino que já abordadas em textos anteriores, mas voltar a elas sempre nos permite uma nova compreensão.

Um feixe de luz jorrou sobre o cosmo no momento em que Atená nasceu e a cidade de Atenas foi banhada com uma chuva de neve de ouro. O radiante ouro anunciava a aurora de um mundo novo, por sua vez, a neve trazia pureza e riqueza para fecundar a terra e o homem.

Zeus apaixonado pela oceânide Mêtis, aquela do sábio conselho, regente da sabedoria e da prudência, faz dela sua primeira esposa, no entanto, o oráculo vaticina que os descendentes de deusa seriam mais fortes que o pai e o destronariam. Horrorizado com a profecia, Zeus, que havia se unido à deusa, a engole para escapar deste destino, contudo Mêtis já havia concebido Atená.

Inconsciente desta gestação, o senhor do Olimpo passou a sofrer fortes dores de cabeça, pedindo ajuda a Hefesto, o deus ferreiro, este abriu-lhe o crânio com um machado, permitindo a saída da filha.

Atená nasceu adulta, com armas em punho, pronta para lutar junto ao pai contra os gigantes, seres que ainda não aceitavam a nova organização do cosmo e a hegemonia de Zeus, única dos olimpianos a acompanhá-lo nessa batalha.

Torna-se a filha predileta de Zeus, cujos desejos e pedidos são sempre atendidos e cujas rebeldias causam profunda dor. Do pai ganhou uma espada de prata. Única no Olimpo a vestir armadura que lhe cobre o corpo, apenas a cabeça se revela. A coruja também a acompanhava, pousada em seu ombro ou sobrevoando sua cabeça. Se bem Atená é representada com armas e é guerreira, ela simboliza a inteligência e a razão, tornando-se garantidora da justiça, instituição importante na nova ordem.

Deusa virgem, ou seja, autônoma, sem marido, era ladeada, algo que poucos sabem, por uma grande serpente. Em Roma, foi conhecida como Minerva, originando a expressão “Voto de Minerva”.

A cidade de Atenas foi disputada pela deusa da sabedoria e por Posídon, o senhor dos mares. O deus ofereceu a seus habitantes o cavalo e a deusa presenteou-os com a oliveira. Os deuses julgaram os presentes, mas com o apoio das deusas, Atená ganhou a primazia sobre Atenas. Posídon ficou furioso com a derrota e suas águas inundaram a região, para aplacar sua fúria, os homens foram proibidos de usar os nomes de suas mães, inaugurando-se a linhagem paterna. A cidade destacou-se como centro intelectual e cultural da época, passando a cultivar as inovações sociais e políticas, como a democracia e a filosofia, legando-nos boa parte dos aspectos centrais da cultura ocidental.

Athena Varvakeion, cópia muito reduzida da Athena Parthenos de Fídias, século III a.C, Museu Nacional de Atenas

Na cidade de Atenas, na Grécia, um majestoso templo erguia-se no interior da Acrópole, o Parthenon. Parthenon significa virgem em grego antigo, por isso templo da virgem. Recebeu uma estátua da deusa de 39 pés de altura, feita por Fídias em ouro e marfim.

Trata-se de uma deusa guerreira que preside as atividades do espírito, sempre a vemos na companhia dos heróis. Na armadura encontra-se a imagem da medusa, com seus cabelos de serpente, decapitada por um de seus herois protegidos, Perseu, que a transformou em uma arma: aquele que olhasse seus olhos seria petrificado. A cabeça de Medusa funciona como um espelho da verdade no combate aos seus adversários, que ao contemplarem a sua própria imagem ficam petrificados de horror. Sua lança é uma arma de luz: separa, corta e fere. Entra na guerra contra a desordem, pela verdade e pela justiça.  Atená, juntamente com seu pai, Zeus, venceram o Caos, estabelecendo uma nova ordem que permite o surgimento da pólis, ou seja, a o começo da vida organizada para a humanidade na cidade. A Acrópole representava este primeiro movimento na conquista da cidadania.

Na guerra de Tróia, luta ao lado dos gregos para se vingar de Páris, por quem foi preterida quando ele escolhe Afrodite como a mais bela. Boa parte das estratagemas determinantes para a vitória dos helenos partiram da deusa de olhos de coruja que os transmitia ao engenhoso Ulisses, o seu mortal predileto.

Como grande mãe, também é uma deusa da fertilidade, da linhagem das deusas tecedoras. Puniu Aracne, uma bela e impetuosa jovem bordadeira, porque esta ousou desafiá-la a uma competição e o pior, em sua bela tapeçaria expôs as histórias de amor e traição marital seu pai, Zeus. Duplo erro, não se desafia os deuses, nem se fala do pai da deusa, a vingança chega dura e certa: Aracne foi transformada em aranha e obrigada a tecer pelo resto da vida.

*

O século XX, no ocidente, certamente foi presidido pela deusa Atená. Por todos os cantos, as mulheres travaram batalhas, rompendo um ciclo milenar, libertaram-se das amarras da natureza e da cultura, conquistando autonomia. Adquiriram direitos políticos como o voto, direitos sobre o seu corpo e sua sexualidade, bem como uma posição de igualdade com respeito ao homem na família. Ingressaram nas universidades, tornaram-se médicas, aviadoras, juízas, até militares, mostrando ao mundo seus talentos e capacidades fora do lar.

Muitas jovens afastaram-se dos instrumentais e jogos da sedução, apropriando-se das ferramentas do intelecto, não queriam repetir os destinos de suas mães e avôs, desejavam conquistar uma profissão e autonomia, nada de ficar presas a um casamento esperando o marido com o jantar pronto em casa. Para elas, ser a rainha do lar, não era a opção. Filhos? Só depois da carreira construída. Ao privilegiar o desenvolvimento intelectual e profissional, como Atená, as mulheres abriram e ganharam espaço no terreno do patriarcado.

A mulher mudou ao longo do século XX, abriu-se a novas possibilidades, no entanto, as outras facetas do feminino ficaram esquecidas e desatendidas. Como Atená, a deusa guerreira, muitas mulheres são meninas escondidas por trás de um escudo, em suas solitárias lutas diárias, protegendo-se da vida, sem conhecer nem desenvolver a plenitude da mulher.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias e mitos, Memória, Papo de áquia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s