Afrodite, a pura expressão do amor

Vênus de Milo, no Louvre

O amor, ah, o amor. Tanto já se fez e ainda se faz em nome do amor. Loucuras, desatinos e transformações radicais! Embriaguês que nos leva ao céu, a viajar pelas estrelas, mas também dilacerante pode se tornar uma paixão não correspondida. E sempre pode ser o início de uma grande história.

Uma grande deusa tem personificado esta doce vertigem que todo mortal anseia viver, Afrodite, intempestiva, ela chega dos céus sublime montada em um ganso ou por terra acompanhada de um grande cortejo de ursos leões ou panteras.

O mito sobre sua origem conta que Crono, a pedido da mãe, Gaia, enfrentou o tirano Urano e, na luta, decepou os órgãos sexuais do pai, lançando-os ao oceano, o esperma, a semente do Céu, jorra pelos ares. Da espuma do mar fertilizada, nasceu uma belíssima menina, nas costas de Chipre. Afrodite foi levada pelas ondas à Grécia, onde foi recebida pelas Graças que a vestiram com trajes lindíssimos e depois a conduziram ao Olimpo. As Graças, as deusas da beleza e do encantamento tornaram-se suas companheiras, ensinando-lhe todos os seus talentos.

Na Grécia, Afrodite ganhou um lugar entre os olimpianos e um marido, pois Zeus dispôs o seu casamento com Hefesto, deus ferreiro, embora coxo. Não tiveram descendentes, mas se acredita que do encontro entre a beleza e o divino artesão nasce toda sublime forma de arte na matéria, seus filhos se encontrariam por todo canto em toda produção que reúna arte e engenhosidade.

Afrodite de Cnido

Embora tentassem conter a beleza, a graça e o amor, Afrodite não era detida por laços, nem contida em redes, sempre impetuosa, livre para ir e vir, apaixonou-se por inúmeros mortais e imortais. Ares, deus da guerra, figura entre seus grandes amores, os dois protagonizaram uma memorável cena no Olimpo. Ares deixava seu quarto antes do amanhecer e o caso ficava em segredo, no entanto, Hefesto recebeu um aviso do deus Hélio, que tudo vê. Para se vingar, bolou uma rede de fios invisíveis para prendê-los ao leito e chamou todos os deuses a testemunharem a traição. Mortos de vergonha, os amantes fugiram, cada qual para um canto remoto da terra. Da união entre Afrodite e Ares, amor e guerra, dois opostos, nasceram Fobos (o medo), Deimos (o terror) e Harmonia, esta talvez a melhor representando do resultado da união das duas energias opostas.

Afrodite amou o deus do êxtase e do entusiasmo, Dionísio, desta união nasceu Príapo, protetor dos vinhedos e dos jardins. Hermes foi outro de seus amores, juntos conceberam o Hermafrodito (Hermes + Afrodite).

A deusa apaixonava-se pela beleza e protegia os heróis, entre seus amores mortais destaca-se, o belo e jovem, Adônis, disputado com Perséfone.

Afrodite também seduzia para satisfazer seus caprichos e, quando ofendida, não titubeava em se vingar. Nenhuma mortal podia ousar se comparar a ela em beleza. Certa vez, puniu todas as mulheres da ilha de Lemmos, porque se negavam a prestar-lhe homenagens. De sua pele fez exalar um cheiro nojento que levou todos os maridos fugirem com as escravas, elas em vingança mataram os maridos e  fundaram uma república só de mulheres.

A deusa, proveniente da Ásia, era uma estranha entre os olimpianos. Seus atributos, alegria, sensualidade, beleza e graça, pura expressão da divindade, a tornam irresistivelmente encantadora, entretanto, seu poder de sedução provocou muita inveja e desconfiança das demais deusas, mas principalmente de Hera, a senhora dos casamentos. Tanto foi que logo chegar obrigaram-na a se casar com o deus coxo. Para Afrodite, o amor não precisa de rituais, nem se vincula à instituição do matrimônio, representa o desejo, uma forte energia de atração que une os corpos e assim fecunda a natureza.
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O mito aponta uma diferenciação entre duas diferentes versões de Afrodite, Afrodite Urânia e Pandêmia. Urânia, a Celeste, celestial, sublime, amor etéreo, aquele que encontra e liga as almas, desligado da materialidade; na versão Pandêmia apresenta-se como “a venerada por todo o povo”, tornando-se inspiradora dos amores comuns, até mesmo carnais. Dualidade presente no amor.

Talvez seja uma das deusas mais conhecidas e das menos entendidas, pois todos querem amar e receber amor, mas muitos não conseguem alcançar o seu mistério. Amor é o nome que damos a um sentimento vasto. Há o amor amizade, o amor fraternal, entre pais e filhos, a uma causa, entre outros. Afrodite representa o amor-paixão irresistível que cega e enlouquece os amantes, levando-os a cometer tolices aos olhos de quem observa de fora, mas também pode mobilizar profundas transformações.

Afrodite representa esse magnetismo, energia vital que estabelece a atração entre os seres, sem ela o que nos ligaria às outras pessoas? O que poderia ligar dois seres tão diferentes como um homem e uma mulher?

Dizem que passar por esta vida sem amar e quase como não viver. Há o desejo de provar esse sentimento divino e, ao mesmo tempo, tememos a perda do controle pela paixão. Queremos ouvir o canto das sereias, mas não queremos nos perder em mares e oceanos desconhecidos dos nossos sentimentos. O temor à sedução do feminino recheia de mitos o nosso imaginário: as sereias, Circe, Eva, as bruxas e feiticeiras, entre tantas outras. O amor cega, é verdade, ele transforma inclusive uma das faculdades mais fiáveis: a visão. Sob o olhar do amante, o amado resplandece e as imperfeições desaparecem, a própria vida ganha um novo e saboroso colorido. Quem experimentou sabe.

Afrodite traz uma irresistível força para a procriação: a passionalidade é a mãe de toda criação. Esta energia reúne a força que movimenta e a semente divina que fecunda, traz a fertilidade ao mundo que se traduz em vidas, ideias e arte. O percurso da criação é similar para artistas, cientistas e todo aquele que busca produzir algo novo. Para trazer alguma uma coisa nova à vida, seja uma pintura, um romance ou mesmo uma teoria cientifica, precisa-se de um amante apaixonado, dedicado e louco pela sua criação. A paixão absorvente cega, não permite espaço para outra coisa na mente do criador.

O êxtase do amor com o amante, divina comunhão entre dois corpos, movimenta as energias terrenais e divinas, levando a concepção de um novo ser. Da mesma forma para o artista, o instante de criação é um momento mágico, de encontro com as musas, celestial inspiração, contam alguns que experimentaram…

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Arquivado em Histórias e mitos, Memória

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