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No Olimpo, na casa ou no trabalho, imagens da mulher que não é santa nem é p…

Há pessoas que acreditam que os deuses de nosso mundo saíram de férias, para alguns são as figuras do show business do momento. Por isso me valho dos antigos para falar de um tema tão caro como as imagens e imaginários do masculino e do feminino.

O mundo dos olimpianos, regido por Zeus, acompanhado por sua consorte, Hera, e por uma corte  ilustre, como a personificação do amor, Afrodite, o deus da guerra, Ares, entre outros, nos é conhecido, no entanto, pouco sabemos do mundo anterior a esta ordem. A terra em suas profundidades registra o culto à grande mãe, senhora das plantas e dos animais, portadora de fertilidade e do crescimento da natureza. Quando Zeus se instala no Olimpo, a grande mãe cede lugar às disposições do pai, mas ela ainda conserva espaço no panteão. O poder do feminino cede lugar ao masculino, marcando uma passagem de um vínculo indiscriminado e inconsciente com a natureza ao reino da palavra, ao logos, ao plano da consciência, à lei e à norma. Posteriormente, a própria multiplicidade do panteão helênico será destronada pelo deus único, onipotente, onisciente e onipresente, e agora a mulher perde o cetro e o trono de vez. Sem divindade, será responsabilizada por ter trazido a tentação aos homens, figuração do pecado ou da ignorância no melhor dos casos.

Após o advento do Cristianismo, a única imagem feminina permitida será a mãe do filho de Deus, senhora imaculada, pura, abnegada, obediente, entre outros atributos que a tornam digna de culto, mas a distanciam da humanidade das mulheres. Beleza, charme, primos da sedução, associados aos prazeres da carne, lugar do pecado e da corrosão do espírito estão banidos.

O panteão grego no qual os deuses amam e odeiam, tecem alianças e tramam vinganças responde a uma compreensão do humano sujeito a múltimas forças que desconhece, repleto de ambiguidades que ama e odeia. Ambiguidades que se perdem na idealização do mundo judaico-cristão e que a duras penas buscamos entender no século XX com o discurso da psicanálise. Idealização que nos distancia de uma visão “real” de nós mesmos e compreensiva de nossos pares no mundo.

Recupero esta ideia, pois as mulheres, hoje, estão em luta pelo poder e esta luta passa pela compreensão do imaginário. No século XX, em um século de tantas conquistas, a mulher conquista as ruas, o mundo do trabalho, a sua sexualidade, contudo persiste a crítica de que ela ainda quer ser feliz no amor e no casamento e para isso recorre a estratégias para agradar o homem e ainda pensa em comidas gostosas e se dedica a afazeres “do lar”. Uh!

 Certamente, precisamos de mais mulheres no Congresso, precisamos de igualdade, de respeito nas relações. Nenhum tipo de roupa pode ser justificativa ou atenuante para um estupro. Contudo, considero que a questão não para aí, não adianta mulheres no poder com um funcionamento masculino desqualificando outras mulheres. A própria mulher precisa conhecer e reconhecer a multiplicidade do feminino, sem buscar estabelecer a visão “certa” do feminino. Uma visão feminina não se arrola a verdades, nem busca ser a maior, compõe e não compete, alimenta e gosta do alimento, e, sem dúvida, é  tolerante e inclusiva, porque entende a vida como processo.1 a 1 a a a a mar sao carlos13 homem feminista

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O adulto e sua criança

Não é segredo para ninguém que a gente chega ao mundo como um bichinho indefeso, frágil e dependente, precisando do auxílio de alguém para tudo, se vestir,  assoar o nariz e se não tiver alguém para lhe fornecer alimento, morre. Contudo não guardamos esse registro.

O tempo passa e a gente perde a memória de nossa primeira infância, inclusive, porque até o cérebro estava em formação, a malha de conexões começava a ser formar.

Ver uma criança em seus primeiros anos é assistir os primórdios, o que fomos um dia, permite-nos perceber como coisas tão básicas com a dimensão do tempo -com suas noções como “antes” e “depois” estão ausentes- os pequeninos vivem no agora, então choram, quando a mãe some, pois sentem como se ela nunca mais fosse voltar, ou então, abrem o berreiro se não lhes dermos a mamadeira quando ela está quente, só sentem o “não ganhei a minha mamadeira”.  Nós, adultos, não temos ciência que o bebê nem morder sabe.

Da mesma forma, contemplar a sua surpresa com os pássaros ou com o vento, o susto ao subir um elevador, leva-nos a perceber que tudo é novo para os pequeninos, tão novo que, no começo, parece uma grande nebulosa para seu olhar.

A primeira infância dá-nos a possibilidade de ver a natureza agindo num ritmo vertiginoso. A natureza sempre atua, mas assim que estacionamos na altura, passamos a nos acostumar com nossas potencialidades, só depois vamos nos surpreender com as rugas, cabelos brancos e otras cositas más. Acostumamo-nos tão rápido com a  nossa habilidade para fazer contas, com a memória e tantas outras, que nos parece que nascemos com elas. E foi um longo processo, de gatinhar para andar, comer sozinho, falar então, nem se diga. Aprender a linguagem, sem dúvida, é um dos grandes desafios para o cérebro e, sem ela, não há possibilidade de nos tornarmos humanos.

Há muito por fazer para cada novo serzinho se tornar humano, pois chegamos totalmente incompletos. Assistir a transformação se processando a partir do que os estímulos vão provocando permite a compreensão de que nada chega pronto, havendo muitas possibilidades, o futuro pode revelar um físico, um escritor ou um exímio jogador de basquete, mas os talentos que o adulto mostrar, estão diretamente ligados aos estímulos que a criança encontrou e ao mundo que a recebeu. Daí a importância da sociedade olhar para todos os pequeninos.

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Relatos de Timbuktu

Na semana passada assisti a dois filmes que vale a pena comentar, pois fazia tempo que não saía tão pensativa do cinema.

Relatos Selvagens, dirigida por Damián Szifron, mostra, em seis histórias passadas na Argentina, a barbárie de nossas relações em um mundo que se pretende civilizado. Traz  à tona sentimentos do sujeito colocado no olho do furacão, mostrando-o sucumbindo a suas paixões, cólera, sexo, arrogância, dinheiro. Tem sido bastante comentado, contudo não é um filme regular, algumas tramas são melhores que outras, uma delas é a reprodução latina de Um dia de fúria, mas ascendem-se as luzes e estamos com um embrulho no estômago, pois não vemos saída, os nossos baixos instintos ainda dominam, sob o nosso verniz de civilização.

A histórica cidade de Timbuktu, fundada nos século V d. C., foi um dinâmico entreposto comercial em meio às rotas de comércio trans-Saharianas, a partir do século XV, tornou-se um importante centro cultural islâmico no continente africano. Sua Universidade de Sankoré chegou a ter 25 mil alunos, produzindo um vasto conhecimento que ficou registrado na forma de manuscritos, escondidos pela população local, permanecendo durante séculos nas areias do deserto.

A produção francesa-mauritana Timbuktu, dirigida por Abderrahmane Sissako, um cineasta nascido na Mauritânia, por sua vez, traz a história da entrada de um grupo jihadista em uma vila tuaregue, no norte do Mali, anunciando uma tragédia. Homens de rosto encoberto e fuzis na mão, chegam vociferando as proibições via megafone em diversas línguas, porque eles desconhecem o idioma local: nada de música, nada de dança, nada de futebol, as mulheres devem cobrir mãos e pés e por aí vai. Colocam-se como portadores da lei, asseverando fazer a jihad, em nome de Alá, por sua vez, a população local, também islâmica, professa uma interpretação divergente da palavra do profeta, das formas de cultuá-lo e da própria vida, resistindo numa batalha desigual. Na trama, não há reducionismo, nem melodrama, mostram-se as incongruências e as guerras fora e dentro de cada sujeito.

Nestes tempos bicudos,  em que a guerra com sua barbárie não se limita aos fronts, estando por toda a parte,  Sissako em Timbuktu não nos deixa no abismo, oferece uma preciosa chave de entendimento quando um dos personagens diz “a minha Jihad é o meu aperfeiçoamento moral”, colocando-nos a questão, qual é a nossa cruzada mesmo? Lutamos contra o quê? Contra os deuses alheios ou contra as nossas intolerâncias e equívocos? Por que ficamos tentando impor a lei e a ordem aos outros? Não será porque o nosso pensamento e nosso coração andam bem desordenados?

Cinema excelente, na forma e conteúdo e um alento nestes dias em que a sabedoria escasseia.

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Uma luta no meio do pacífico, a do povo Rapa Nui

A ilha Rapa Nui, também conhecida como ilha de Páscoa, nome dado por um holandes que lá chegou no dia da páscoa, e por seus misteriosos moais anda em luta por autonomia e reconhecimento de sua identidade. Porta de entrada da oceania, ao longo de séculos, seu povo sofreu a invasão de  piratas,  foi tomada por espanhóis  e outros povos, sofreu epidemias que dizimaram a população e teve milhares de pessoas  escravizadas no século XIX por peruanos.

No final do século XIX, um controvertido acordo entre representantes Rapa Nui e o governo chileno entrega soberania da ilha ao Chile, o que permitiu que, no século XX, as terras fossem incorporadas ao território chileno e o povo insular perdesse sua autonomia.

A partir de então, o Estado chileno não reconhece as autoridades rapa Nui, cuja administração passou por mãos de empresários  chilenos e depois da marinha, antes de ser integrada ao Chile propriamente.

O povo do pacífico sul desconheceu a existência de direitos políticos ou civis e ficou isolado ao longo de cem anos, pois o contato com o continente era feito apenas pela marinha  chilena e depois por escasos voos da Lan Chile, até o momento em que nas últimas duas décadas foi descoberto como uma rota de turismo pela existência de seus  Moais.

Hoje, vivem aproximadamente 3 mil rapa nui na ilha, suas principais demandas são a autodeterminação e direitos sobre a terra, baseados no direitos dos povos originários, direitos que o Estado chileno se recusa  reconhecer. Eles defendem  sua identidade e dignidade, pois distam de se considerar chilenos, um Estado que jamais ouviu suas necesidades e só buscou usufruir do território; percebem-se irmãos dos outros povos insulares da Polinésia e temem o destino de ilhas como o Havaí, cujo modo de vida original foi descaracterizado com a construção de uma base militar, cassinos e a indústria do turismo liderada por grandes empresas dos EUA.

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A maior batalha

Foto  mostra caminhão do Exército taleban parado em frente à maior estátua do Buda em Bamiyan, antiga rota da seda, hoje, Afeganistão. O monumento que remontava ao século II d.C.  foi dinamitado por ordem do regime Taleban em 2 de março de 2001

Todos dizem querer a paz no mundo, mas a paz habita o nosso coração? Todos querem respeito, mas eu respeito o outro? Eu escuto suas ideias? Eu o olho com simpatia? Vejo o que ele me diz ou só quero ser visto, escutado e admirado?

Jogar bombas,  incendiar bancos, quebrar concessionárias não vai melhorar o mundo, o mundo só vai melhorar  quando cada um tiver consciência dos seus atos e compromisso com a verdade e a justiça,  não fizer corpo mole e compactuar com o arbitrário, nem fechar os ouvidos à barbárie.

*

Uma árvore pode demorar séculos para crescer e ser derrubada em poucas horas.

Picaretas, mísseis e balas de canhão já abateram aviões, destruíram templos e saberes milenários e até hoje destroem escolas, creches, hospitais e matam milhares de inocentes.

Fumaça após um ataque israelense na Faixa de Gaza. O confronto nas últimas 2 semana, já matou mais de mil palestinos, a maioria civis, e 46 isralenses (Foto: Ariel Schalit/AP, fonte G1)

Uma saborosa relação de anos, um grande amor ou amizade, pode acabar por alguns segundos de desvario.

Se já é muito fácil falar bobagens cara a cara, mais ainda, no tempo da resposta instantânea da internet. Pela boca e pelas telas dos nossos iphones, sem nos darmos conta, ventilamos os nossos demônios.

Como viver é aprender, mais do que nunca vale a antiga receita das avós:

– Atenção constante, quem sabe por onde anda, inclusive por onde andam seus pensamentos, não pisa em falso, nem se ilude com ouro de tolo.

– Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Respire e conte até 20, 40, 100 se for o caso.

– E o mais importante, identificar quem está no comando, seu amor ou sua raiva? O respeito ou a intolerância?  O orgulho, a vaidade ou a luz da compreensão e da sabedoria?

Protesto contra a morte Wesley Andrade que aos 11 anos morreu atingido por uma bala perdida dentro de sua escola, na zona norte do Rio (Foto: Severino Silva / O Dia)

É muito fácil deturpar uma opinião.

É muito fácil magoar uma pessoa querida.

É muito fácil perder a cabeça.

É muito fácil entristecer um coração.

Também é muito fácil ganhar uma cicatriz.

Árduo, mas regenerador, torna-se cultivar a compreensão,  o respeito a todos os seres e o compromisso e a atitude para tornar as nossas relações e o nosso entorno melhores, nem que seja um bocadinho.

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As lições de um 7X1

Brasil x México (17.jun.2014)

A derrota de ontem não foi uma derrota comum, uma seleção que ficou entre as quatro melhores do mundo perdeu de lavada. Foi tão surreal que os vencedores nem puderam curtir a vitória em público, eles ficaram contidos, buscando não ferir ainda mais os brios do anfitrião. Penso até que eles teriam preferido vencer suando a camisa, no sofrimento.

O fato do Brasil sediar a competição mundial, pelo que se viu, trouxe uma pressão extra para os jogadores: estes viram-se obrigados a vencer o torneio. Do técnico, à presidenta, passando pelos cartolas CBF, todos exigiam da moçada, a taça. Alegria para o povo brasileiro? Sem dúvida, e cada um querendo o seu filão de troco.

A escalação reunia 23 feras, presumo eu, talentos espalhados pelo mundo, jogando em diversos esquadrões, reunidos um mês antes do torneio, para se tornarem um time. Tarefa difícil. A esperança, tal como em outros carnavais, recaía na ginga brasileira e nos talentos individuais, outrora Zico e Ronaldo, em 2014, Neymar.

Neymar, este jovem excepcional de 22 anos, cara de moleque maroto, era a maior esperança do time. Numa jogada em campo, sofre uma lesão; justamente ele, que levava o time nas costas, fraturou uma costela. Seria coincidência? Seus colegas prometeram jogar na semifinal pelo ausente, na dor o time cresce, imaginou-se; na sua falta, contudo, ficou a descoberto que não havia time preparado para tal desafio.

Uma disputa mundial reúne os grandes do esporte, acredita-se, que sabem não apenas seu ofício, mas também que ao entrar na arena, estão num jogo que, se não vale a própria vida, como em outros momentos da história universal, vale muito. No campo, trava-se uma luta e espera-se jogadores prontos para tal, para dar o sangue e porrada também -por isso há árbitros para  civilizar a disputa.

Ontem, causou espanto a inação de toda uma equipe, o próprio técnico reconheceu o apagão geral. Mas os sinais já apareciam no percurso.

Hoje, recordo certas cenas estranhas, começando pela saída do túnel, o momento que deveria ser a gloriosa entrada da seleção em campo, os  jogadores com a mão no ombro do colega, mais pareciam uma fila de crianças entrando na sala de aula. Depois, durante do hino, os jogadores de braços dados, numa posição de irmandade, agora distante de demonstrar  orgulho e respeito por um símbolo pátrio. Estavam abraçados ou se segurando? Nada apontava para a força do guerreiro.

A entrada na disputa contra a Colômbia

Foi muita pressão para um grupo que não chegou a se conformar como tal? Com certeza, pois deixaram até de fazer o que sabem: jogar. Viu-se o que são, jovens ainda imaturos, sem preparação para enfrentar a barra de uma Alemanha e do próprio Brasil. Eles têm muita vida e carreira pela frente, espero que compreendam o peso excessivo colocado em suas costas e dêem a volta por cima.

Se triste é o país que precisa de heróis, mais ainda perceber que a honra nacional ainda está concentrada no futebol. Se a seleção brasileira (ou o time do coração) ganha nossa autoestima vai às alturas e erguemos os jogadores à categoria dos heróis, se o time perde, nos sentimos miseráveis. Todas as fichas apostadas em um único jogo, catástrofe previsível.

O baque traz boas lições, ninguém gosta do sofrimento, contudo ele é vital para o crescimento, para aquele que se dispõe a olhar a sua dor e a dar um jeito nela. Ontem, a Alemanha venceu, mas em 2006, a seleção foi derrotada numa copa do mundo, disputada em casa. Para dar a volta por cima, os alemães decidiram investir pesado das bases aos treinadores. A fórmula para um bom resultado é conhecida, investimento e muito trabalho. O Brasil poderia seguir o exemplo alemão para se recuperar do apagão que domina do futebol ao setor energético, passando por hospitais e escolas públicas. Conquistando a glória de uma vida digna para todos os escalões, não precisaríamos buscar heróis de plantão.

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O velado mundo do humor sarcástico

Em tempos bicudos, o humor parece uma coisa saudável, rir é bom, existe até terapia do riso. Programas de humor estão em alta, entre eles, o stand up, no qual um comediante desfila um batalhão de piadas, em que o riso chega fácil ao se ironizar mulheres, negros, gays, deficientes, entre outras vítimas da vez.

Assumidamente longe dos padrões do politicamente correto, pois “isso é muito careta”, dizem. Os defensores deste riso colocam que o humor teria permissão para subverter os padrões de convivência -estabelecidos socialmente para respeitar os membros de uma sociedade- e, no palco, o humorista e a platéia poderiam soltar sem dolo, nem culpa as rédeas da incorreção, passeando pela intolerância e navegando pelo desrespeito.

Ironias e sarcasmos não se limitam aos palcos, elas perpassam muitas situações cotidianas, quem já não foi convidado a alguma reunião, na qual o dono de casa pode ironizar e sacanear tudo e todos, mas fica ofendidíssimo quando é com ele, ou com algo que lhe é caro? Alguns chefes, às vezes, são assim, mas quem vai contrariar um chefe? Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Outro caso bem corriqueiro é o professor que ironiza alguns alunos em sala de aula, seja porque são estrangeiros, pobres, mulheres, negros ou simplesmente porque não foi com a cara deles. Com crianças é o caso mais perverso, porque ela nem tem ferramentas para se defender, mas também ocorre com alunos adultos que ficam quietos por medo das represálias.

Dá-se risada ou ironiza-se para desqualificar um outro, pois o sujeito não ri de si mesmo. Espeta-se alguém que, no momento, não pode se defender, pois não há uma relação horizontal, mas de hierarquia. E se o outro reclama, é ele que não entendeu a brincadeira, pois é muito sensível ou porque é sério demais…

Ninguém defende a sisudez, o riso pode ser muito saudável e a ironia necessária em muitos contextos, a literatura está farta de exemplos, mas esse riso que esconde o espezinhar o outro, parece-me abominável, pela agressão velada que contém.

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Na Índia, amar o homem “errado” se paga com o estupro

A Índia, novamente, chega às manchetes de mundo. Uma jovem de 20 anos sofreu um estupro coletivo sob as ordens do conselho de anciãos na vila, de Subalpur, na parte leste do país, porque ela se apaixonou um homem de outra vila.

Os  dois foram condenados a pagar uma soma em dinheiro (algo como 400 dólares), o rapaz prometeu fazer o pagamento em uma semana, no entanto, a família da jovem se declarou sem condições de reunir a soma, daí o conselho decidiu pelo estupro coletivo e cerca de 13 homens se revezaram na barbárie incluindo os “sábios” anciões.

As modernas leis indianas proíbem os estupros coletivos, são os conselhos tribais de vilas e cidades pequenas que persistem nestas práticas, afrontando o Estado sancionam de acordo com a vontade do líder. Fico pensando o que há por trás desta perversa punição, parece revelador da perversidade (até sadismo) do grupo que este conselho queira dinheiro ou então gozo, estipula-se uma quantia que ela não pode pagar assim ganha-se a legitimidade para obter prazer sobre um corpo indefeso de uma mulher.

Com uma mitologia repleta de deusas, foi criada uma campanha para sensibilizacão para com a violência contra a mulher. Esta é uma recriação da deusa Saraswati

Quantos conselhos como esse, ainda haverá pelo mundo que reproduzem a vontade de poder de líderes insanos cuja palavra é autorizada pela tradição?

Em muitos lugares, há choque entre o que determinam as leis do país e práticas tribais que julgam de acordo com os, imagina-se, costumes. Décima economia mundial, a Índia mostra-se um país de contradições,  uma parte se quer moderno, fabricou a bomba atômica, coexiste com outra arcaica, uma sociedade de castas, onde a mulher “vale” muito menos do que o homem. Conhecido por sua milenar religiosidade, tornou-se roteiro daqueles que buscam uma iluminação, ainda aceita as desigualdades como produto do karma e se mostra um lugar da intolerância às novas ideias e a manifestações individuais.

durga ferida

Durga ferida

Estima-se que na Índia, uma mulher é estuprada a cada vinte minutos, sendo que apenas 1 a cada 50 vítimas denuncia o estupro para a polícia, e muitas vezes, a própria polícia responsabiliza a mulher pela violência sofrida. Hoje, muitas meninas e mulheres resistem, e  como vingança são assassinadas ou desfiguradas por queimaduras ou ácidos.

No século XX, em boa parte do globo, as relações entre homens  e mulheres se tornaram muito mais equilibradas, contudo uma parcela da população mundial resiste aos novos padrões de sociabilidade à mudança e sobretudo à  perda de poder.

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O julgamento de Orestes e o voto de Minerva

Orestes atormentado pelas Erínias, 380 a. C.

Das instituições que temos, talvez a justiça seja uma das que melhor apresenta o uso da racionalidade humana. Conta-se que esta forma civilizada de resolver os conflitos, limitar a “lei” do mais forte, bem como de por um fim às eternas vendetas surge em Atenas, a cidade luz da Grécia antiga.

O julgamento de Orestes, representa na mítica o momento de criação da justiça.

Conta-se que após a guerra de Tróia – travada pela disputa da bela Helena que fugira com o príncipe troiano Paris, deixando o seu esposo Menelau e Esparta-, Agamêmnon, o irmão do esposo traído e líder dos exércitos gregos, volta para seu reino, Micenas, no entanto, mal sabia ele que sua esposa, Clitemnestra, colocara em seu lugar Egisto, o seu primo e grande desafeto. Ao chegar, depois de 10 anos no campo de batalha, Agamêmnon morre apunhalado pela sua esposa e o amante na sala de banhos de seu Palácio.

Pela tradição, cabia ao filho vingar a morte do pai, assim logo após o crime, Electra, a filha mais velha do rei morto, enviou o irmão caçula Orestes para Pânope, aos cuidados do rei Estrófio, esposo da irmã de Agamêmnon. Anos mais tarde, cumprindo a determinação recebida no oráculo de Apolo, Orestes retorna a Micenas para vingar a morte do pai e mata o par traidor. Seguindo a vontade dos deuses, tornou-se assassino da mãe, um crime contra a natureza, punido pelas Erínias. As terríveis filhas da noite, deusas de uma ordem primordial, perseguiram o matricida sem lhe dar um instante de sossego, torturando-o com o remorso e o arrependimento. Orestes enlouquecido vagou errante, mas sempre protegido por Apolo, quando chegou a Delfos abrigou-se no templo do deus solar para ter um pouco de sossego. Para sair do impasse, Apolo ordenou:

– Vá para Atenas, lá  te providenciarei um tribunal justo.

Mesmo torturado pela culpa, Orestes correu para Atenas, onde a própria deusa da sabedoria escolheu o júri formado por oito pessoas de ilibada reputação e se prontificou a arbitrar em caso e empate. No dia do julgamento estavam de um lado, as Erínias, encarregadas da acusação, e do outro, Apolo que pronunciou a sua defesa.

A contagem dos votos revelou o empate e a deusa proferiu o seu voto:

– Acho que Orestes agiu de maneira certa, não matou sua mãe, mas a assassina de seu pai. Orestes precisou escolher entre dois deveres sagrados e ferir um deles, por este motivo, por maioria dos votos, fica absolvido da acusação.

Minerva

Vencera a compaixão, representada por Atená, deusa de uma nova ordem alicerçada em novos valores para a convivência social, entre eles, a própria justiça. Símbolos de uma dura ordem primordial que estava sendo desbancada, as Erínias ficaram ofendidas com o resultado, para apaziguá-las, Atená ordenou que recebessem um santuário e fossem veneradas como deusas da vingança justa.

 

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Violência no paraíso

Nas paradisíacas Ilhas Maldivas, uma jovem de 15 anos vítima de estupro foi condenada a receber 100 chibatadas por manter relações sexuais sem ser casada. Paradisíacas na beleza, porque o arquipélago islâmico com uma população de cerca de 400 mil pessoas, apresenta um sistema judiciário fundamentado na sharia (lei islâmica) que não apenas permite a violência contra as mulheres, mas depois as condena a sofrer castigos físicos e à humilhação.

As acusações contra a garota foram feitas em 2012 depois que a polícia investigou denúncias de que o padrasto a teria estuprado e matado o filho dos dois. Ele ainda será julgado.

A porta-voz do tribunal de menores, Zaima Nasheed, disse que a jovem também deverá permanecer em um reformatório por oito meses, uma vez que a sentença só pode ser cumprida antes da garota quando completar 18 anos.

O pesquisador da Anistia Internacional Ahmed Faiz disse que o açoite é “cruel, degradante e desumano” e pediu que as autoridades abandonem a prática. “Estamos muito surpresos que o governo não esteja fazendo nada para anular esse tipo de punição – removê-lo totalmente da legislação.”

“Esse não é o único caso. Está acontecendo frequentemente – no mês passado houve outra garota que foi violentada e condenada a chibatadas”, afirmou. Faiz disse ainda que não sabe quando a sentença do caso anterior foi executada, já que as pessoas não querem discutir abertamente a situação.

O caso apareceu na mídia em fevereiro, mas agora há uma petição mundial para pressionar  o governo das Maldivas a eliminar práticas cruéis e degradantes contra as mulheres. Para assinar vá até o AVAAZ.ORG

http://www.avaaz.org/po/maldives_global/?bZzmibb&v=23534

Fonte: BBC Brasil

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O talibã tenta matar o sonho no Paquistão

Os seres humanos são capazes de ações de uma violência e crueldade incomensurável. No Paquistão um homem do grupo talibã entrou num ônibus escolar perguntou por  Malala Yousafzai, uma adolescente de 14 anos, sacou uma arma e atirou. Os talibãs se caracterizam por professar um fundamentalismo islâmico, cujas regras determinam, entre outros, que as mulheres devem viver sob tutela de um homem (pai ou marido), proibindo-as de estudar e obter qualquer autonomia. Após a perseguição no Afeganistão, o grupo refugiou-se na região do Vale de Swat, no extremo norte do Paquistão, onde passou a aterrorizar a população.

Malala há três anos criou um blog onde denunciava sob um pseudônimo o regime de terror e, o pior, defendia o direito das mulheres a estudar, pelo seu “crime” de sonhar com outro mundo, sofreu um covardemente ataque. A jovem foi operada, mas seu estado ainda precisa de cuidados, por sua vez, os responsáveis, disseram que se ela sobreviver, não será perdoada.

Das desculpas que os homens dão para a sua própria violência, sem dúvida, a religião é das mais ignóbeis.

Há uma campanha internacional da Avaaz para pressionar o governo do Paquistão a implementar medidas de auxílio financeiro para todas as garotas paquistanesas irem à escola. Em alguns dias, o enviado da ONU para educação se encontrará com o presidente paquistanês Asif Ali Zardari e disse que a entrega em mãos de 1 milhão de assinaturas pode dar força à sua presença. Quem assinar a petição contribui a tornar o sonho da garota Malala realidade: http://www.avaaz.org/po/malalahopenew/?bZzmibb&v=18823

Protestos contra a violência no Paquistão 

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Verdade, memória e cidadania

Depois de 37 anos do término do regime militar, o Brasil  enfim instalou uma Comissão da Verdade com o objetivo de esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de violações de direitos humanos, como torturas, mortes e desaparecimentos, que aconteceram entre 1946 e 1988.

O Brasil foi o último dos países do cone sul a criar este tipo de comissão, a Argentina, o Chile e o Uruguai o fizeram logo após o término dos regimes de exceção.

Muitos devem se perguntar se a esta altura do campeonato, não é melhor deixar para lá, esquecer, outros encontram que a verdade é insuficiente, pois não significa punição aos criminosos. Há críticas dos dois lados.

A anistia concedida pelo governo brasileiro em 1979 foi abrangente ao ponto de incorporar presos políticos e integrantes do aparelho de repressão que gozaram de um perdão “amplo, geral e irrestrito”, para lembrar uma frase da época. Os torturadores não foram identificados ao passo que as vítimas anos depois precisaram expor a sua dor para receber indenização do Estado.

Ao longo destes anos, pressões principalmente dos segmentos militares impediram o surgimento de uma Comissão da Verdade, apenas a presidente Dilma Rousseff, ex-militante, presa e torturada, teve coragem  de enfrentá-las. Independente da avaliação que se faça do governo, sem dúvida, este foi um passo importante para o amadurecimento cidadão do Brasil.

“Quem esquece o passado está fadado a repeti-lo” registrou o filósofo George Santayana. É importante saber o que se passou, só a consciência nos torna atentos aos sinais quando algo não vai bem, apenas ela, nos permite rejeitar o que não queremos repetir.

Nos últimos tempos temos ficado cada vez mais sensíveis e menos tolerantes às diversas formas de violência. Quando ela ocorre buscamos a restauração e a punição dos responsáveis. No código penal inscrevemos o que a sociedade considera violência e como tal receberá sansão. Um problema complexo surge quando a violência parte do Estado. Verdade e registro são passos necessários para curar feridas. Dar o nome aos bois torna-se importante para não deixar criminosos na confortável posição do esquecimento.  Há coisas que não é possível se restaurar, nem a punição restaura, quem perdeu algum familiar vítima da violência sabe disso, mas a memória desempenha um grande serviço à restauração do equilíbrio e da paz social.

A verdade permite curar feridas e ao mesmo tempo construir a sociedade que desejamos, além disso é  importante dizer: é crime calar, cortar, queimar, matar e desaparecer adversários, mesmo se o autor é um “agente da lei”; assim como afirmar importância do respeito à diversidade e ao dissenso como condições para a democracia.

O amadurecimento cidadão de um país precisa disso.

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