Arquivo da categoria: Histórias e mitos

O simbolismo da paixão

A paixão de Cristo permite diversas interpretações, nesta data, escolhi pensar na simbologia dos instantes finais da vida de Jesus, quando de sua morte para o mundo e a ressurreição para a vida eterna.

Inicialmente uma breve recuperação da história. Jesus chega a Jerusalém, para o Pessach, onde será recebido com glória; ao entrar no templo, ao ver os comerciantes estabelecidos no espaço sagrado, enfurece, expulsando-os; seus atos despertarão a ira das autoridades judaicas. No desenrolar dos acontecimentos, um discípulo traidor, Judas, entrega Jesus aos líderes judaicos; altos sacerdotes o interrogaram, não encontrado motivo de condenação, contudo quando este disse que seria capaz de destruir o Templo e reconstruí-lo em três dias e afirmou que de fato era o Messias, foi acusado de blasfêmia e encaminhado à autoridade romana local, Pôncio Pilatos. O governante, após uma curta conversa, sentencia o Nazareno à morte; como era costume soltar um preso antes da Páscoa, Pilatos pergunta à multidão a quem liberar, o assassino Barrabás ou Jesus? A multidão libera o criminoso. Pilatos lava as mãos.

Numa interpretação simbólica, os sacerdotes representam as autoridades da natureza inferior, a ignorância,  o orgulho e a ambição. Jesus é apresentado como ameaça de subversão, certamente é uma ameaça ao ego e à parte sombria da psique ao propor uma nova forma de funcionamento, agora inspirada no amor, na compaixão e  no perdão.

Pilatos, o governante, simboliza a instância da mente que deve decidir o caminho a tomar. A mente ao lavar as mãos, justifica-se alegando não ter culpa da morte do inocente, uma vez que está apenas cedendo aos apelos da plebe, a figuração das paixões. As paixões sempre zombam da natureza divina. As paixões identificadas com o criminoso pedem sua liberação e a crucificação da parte divina do homem. Barrabás em aramaico significa “o filho do pai”. Ao libertar Barrabás, estará permitindo que o filho do Pai Celestial, mas alma errante, ignorante de sua verdadeira natureza,  continue a vagar pelo mundo até redimir-se pelos seus crimes e assim retornar à casa paterna triunfante.

O ponto culminante, a crucificação ocorre no monte Gólgota, que em aramaico significa crânio, numa clara indicação de um elevado estado de consciência. Jesus expressando a consciência divina, é crucificado entre dois ladrões, um deles seria um bom homem, este segue o Salvador  rumo ao Reino dos Céus. Os dois ladrões simbolizam os dois aspectos da psique, a luz e a sombra, o consciente e o inconsciente.

Para finalizar, o Reino dos Céus comporta a grande metáfora da unidade e da totalidade; na visão junguiana, o caminho de individuação do sujeito passa pela integração de todos os aspectos da psique, assim para alcançar a luz é preciso aprofundar na escuridão, entrar não apenas na nossa sombra, mas também no inconsciente. Passa também pelo abandono do eu mesquinho, intolerante, ambicioso e temeroso que cede lugar a um novo eu, sábio, amoroso e reconectado ao todo.

Gaudenzio Ferrari, Histórias da vida e da paixão de Cristo, afresco de 1513, Igreja de Santa Maria della Gracie, Varallo Sesia, Itália.

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A visão gnóstica de Jesus

Nestes dias, em plena semana da Paixão de Cristo, peguei-me pensando que, no Brasil, muitos pertencemos a famílias cristãs, ou católicas não praticantes, pois as práticas que a igreja católica nos proporcionava não deram conta de nossas inquietações, nem das nossas necessidades espirituais. Fazemos parte desta matriz cristã, contudo, hoje ela não nos diz muito, nem nos ecoa no coração.

Há algum tempo tomei contato com o livro de Raul Branco Os ensinamentos de Jesus e a tradição esotérica cristã que, para mim, foi um divisor de águas, ao apresentar os ensinamentos pouquíssimo conhecidos do cristianismo primitivo. Aproveito o tempo da Quaresma para compartilhar este estudo.

1150, mosaico na Capela Palatina, Palermo, Itália

A Bíblia, diz o autor, é um “repositório de ensinamentos profundos velados pela linguagem alegórica” e a própria vida de Jesus pode ser entendida como uma alegoria. “Jesus, nesses relatos, simboliza o Cristo que habita no interior do homem. Sua vida, como apresentada nos quatro evangelhos, é uma descrição da viagem de retorno de todas as almas à casa do  pai.” Pesquisador de tradições orientais e da psicologia junguiana, entre outros,  Branco fornece uma chave para entender a vida de Jesus e  traz instruções e instrumental para o caminho, algumas servem como sustentáculos aos buscadores, mas buscam, principalmente, preparar o discípulo  da verdade na senda de transformação.

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26:41), disse Jesus.  O caminho a ser trilhado recebe o nome grego de metanóia, que significa a grande transformação do estado mental do homem, entendido como mudança dos condicionamentos e do próprio pensamento. O termo foi utilizado também por Jung ao descrever as transformações vitais da segunda metade da vida.

Embora desejemos mudanças, nosso ego resiste a este movimento. “Resistimos, porque toda mudança implica uma revolução interior que demanda algum compromisso com a verdade. Esse compromisso requer humildade para aceitar a possibilidade de que alguns de nossos mais estimados conceitos foram construídos sobre a areia e, finamente, uma coragem extraordinária para enfrentar a resistência inicial de nosso ego orgulhoso e inseguro”, escreve Branco.

Esses ensinamentos de Jesus, o vivo, como o Mestre era chamado pelos gnósticos, seriam a medicação salvadora receitada pelo grande terapeuta à humanidade. Uma vez o diagnóstico feito e a medicação receitada, restaria a cada ser humano exercitar o seu livre-arbítrio e decidir se toma a medicação necessária em tempo que não raro se escoa como areia em nossas mãos.

Nesta visão, para chegar ao Reino, ou seja, para alcançar a perfeição, o homem deve encontrar e trilhar pacientemente, mas com determinação, o Caminho ao longo de transformação. Gosto desta chave de compreensão do cristianismo primitivo, permite-nos lembrar do que devemos fazer.

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Deméter e o mistério do grão da vida

Deméter

Os registros de sua origem remontam ao século XII a.C, mas talvez esta esplendorosa deusa ctônica seja bem anterior. As venturas e desventuras desta grande mãe foram registradas no Hino a Deméter, atribuído ao poeta Homero, no século VIII a.C..

Deméter e Pluto

Filha de Cronos e Reia e irmã mais velha de Zeus, conta-se que Zeus a perseguia, louco de amores, Deméter procurando escapar disfarçou-se como égua, o deus metamorfoseou-se em cavalo e a possuiu contra sua vontade em uma gruta. Dessa união nasceram dois filhos, o cavalo Aríon e uma filha cujo nome verdadeiro não se conhecia fora do templo, chamada pelo povo Déspoina, simplesmente, a Senhora. A deusa, tomada pela dor e pela vergonha, cobriu-se de véus pretos e se escondeu numa caverna. Buscou purificação para o ultraje nas águas do Rio Ládon.

Durante uma festa, a deusa embriagou-se com ambrosia e ficou fascinada por um mortal, Iásion, e com ele se uniu sobre um terreno lavrado três vezes, Zeus irado com o flerte enviou um de seus raios, fulminando o mortal. Desta união concebeu Pluto, o deus da fertilidade agrária. Deste mito surge, provavelmente, um antigo ritual de fecundidade da terra consistia na união do camponês e de sua esposa, numa noite sobre a terra que viria a ser cultivada, a fim de despertar a vegetação.

A deusa tinha uma linda filha, Coré, fruto de sua união com Zeus. A doce jovem desperta a paixão em Hades, irmão de Zeus que a rapta, levando-a para o seu reino.

Durante nove dias, Deméter chorou inconsolada, nenhum deus atreveu-se a lhe contar o paradeiro da menina, ela então deixa o Olimpo e sai à sua procura pelo mundo disfarçada de mortal. Em Elêusis, na Ática, se encontra com as filhas do rei Celeu e oferece-lhes os seus serviços como ama-seca, recebendo a tarefa de cuidar do irmão recém-nascido Demofonte, filho da rainha Metanira. Agradecida pela acolhida, a deusa começa secretamente a transformar Demofonte em imortal, alimentando o bebê com ambrosia, o alimento dos deuses e todas as noites o deita sobre carvões incandescentes num ritual da imortalidade. Antes da conclusão do processo, a rainha encontra horrorizada o filho no fogo. Deméter se revela em seu esplendor e zanga-se com Metanira pela interrupção do ritual: por sua culpa o filho estaria destinado a morrer como todos os homens.

A profunda dor da deusa pela perda da filha, causa uma grande seca na terra, o alimento começa a faltar e o futuro da vida começa a preocupar os olimpianos, buscando demover Deméter de sua tristeza, Zeus envia-lhe oferendas através dos deuses. Nada adiantou. Certo dia, a deusa chorava suas mágoas no poço das Donzelas, quando Baubo apareceu, procurou consolá-la com palavras doces, mas nada diminuía sua tristeza, nisso Baubo, sem mais, nem porque, levanta as saias e lhe mostra a vulva num gesto irreverente e obsceno. Surpreendida, a deusa solta uma risadinha, primeiro riso em meses.

Hécate comove-se com a sua dor, procurando Helios, aquele que tudo vê, para saber o paradeiro da jovem. A filha estava escondida no submundo, onde nem a luz chegava. Zeus então foi pressionando a interceder junto a Hades, a devolução da donzela. Coré, agora com o nome de Perséfone, voltaria ao mundo dos vivos se não houvesse provado alimento algum em sua jornada no reino dos mortos. Hades, apaixonado pela jovem, antes de deixá-la partir colocou em sua boca algumas sementes de romã. Assim, por ter ingerido alimento, Perséfone deveria passar uma temporada do ano junto à mãe e depois retornar junto a Hades, onde se tornara rainha. Nos quatro meses em que residia  nas profundezas, toda a vida na terra secava para renascer no retorno de Perséfone à Deméter, à terra, sua mãe.

Após este acordo, a deusa devolveu o grão da vida que ela em sua cólera havia escondido, mais do que isso, entregou o conhecimento da agricultura a Triptólemo, o outro filho de Metamira e do rei Céleu, de Elêusis, tornando-o o guardião dos seus segredos. Triptólemo também recebeu a missão de ensinar a todos os helenos os mistérios da agricultura. No templo que lhe foi construído em Elêusis, ela instituiu belos ritos, os Mistérios Eleusinos.

Deméter foi a mais cultuada das deusas gregas, do governante ao escravo, da mãe-de-família à prostituta, do ancião à criança, todos podiam ser iniciados nos rituais conhecidos hoje como Mistérios Eleusinos, desde que falassem grego para poder compreender o conteúdo das palavras e não tivessem cometido crime de sangue.

Deméter aparece como descendente direta da Deusa-Mãe da ilha de Creta, cultuada entre o terceiro e o segundo milênio a. C., cujas sacerdotisas prestavam culto ao touro, um grande símbolo da fertilidade. Acredita-se que o culto à deusa tenha chegado de Creta, por meio da cultura micênica do Peloponeso.

A Mãe da Terra, Deméter, governava o crescimento da vida, sagrou-se regente de toda a natureza e protetora das jovens criaturas indefesas. Deméter forneceu as chaves da produção dos alimentos e traduziu ensinamentos do ciclo da vida-morte-vida. Deméter estava associada à transformação, ao mistério que transforma a semente em uma planta que se tornará alimento. Acredita-se que ela ensinou os homens a arar a terra e as mulheres a moer o trigo e a fazer o pão. A cor dourada de seus cabelos reproduzia o ondulado dos trigais ao vento. O pão, central na nutrição do homem também é um símbolo do alimento espiritual. Deusa dos cereais, o seu culto marca o ritmo das estações e o ciclo da semeadura. Em referências mais antigas vemos a deusa segurando flores de amapolas em suas mãos e sementes de trigo e papoulas vermelhas em sua diadema.

O santuário de Deméter em Elêusis, construído sobre uma nascente sagrada, permaneceu ativo durante quase dois mil anos, sendo destruído no ano 396 d.C..

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Podemos encontrar o espírito de Deméter naquelas mulheres que andam rodeadas de crianças, vivem pensando na comida e nos agasalhos dos filhos, do marido e de quem estiver ao seu redor. Instintivamente cuida de tudo o que é pequeno, carente de defesa e em crescimento. A partir desta figura, a sociedade criou o estereótipo da mãezona, a protetora, que se doa incondicionalmente. O imaginário nos traz uma mulher gorda ao pé do fogão, cozinhando gostosuras. Representação útil em sociedades patriarcais, fonte de muita culpa para as mães modernas que não se encaixam no perfil.

Por outro lado, a mãe não quer perder a sua filhinha. Para boa parte das mães os namorados e os maridos estão raptando suas filhinhas… mostrando um mundo que ainda não deveriam conhecer… Interessante como todas as mães implicam com os namorados e/ou maridos das filhas, talvez porque a mãe resista a aceitar a transformação da filha em mulher e a sua própria transformação.

Este mito nos lembra que o longo percurso da vida requer transformações. O problema surge quando nos apegamos a um estágio e travamos o fluxo da vida. Vemos um exemplo naquela mãe que procura adiar o crescimento e a separação dos filhos, apegada àquele papel que já conhece tão bem. Se bem, hoje as mães andam de aspirador de pó e vão à ginástica, ainda querem os filhos ao seu lado, por outro lado, para muitos filhos hoje, a casa tornou-se um ninho tão confortável que relutam em partir para a sua própria jornada.

Este mito aborda o apego e as resistências às transformações da vida, nos conduz a reflexão acerca dos nossos comportamentos que precisam morrer: a preguiça, a língua-solta, a desatenção, a autocobrança, a autocomiseração, a intolerância? Quais apegos precisamos abrir mão para que a vida flua no seu curso? Aos filhos que querem crescer e nós os queremos sob as nossas saias? Ao conforto da vida de filhas/os (roupa lavada, comida na mesa, despreocupação com as contas no fim do mês)? Ao emprego que não nos oferece perspectiva, mas seguimos nele? A amargura que carrego comigo porque a vida não foi o conto de fadas que sonhei? À vidinha que construí e se tornou tão confortavelmente conhecida?

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Afrodite, a pura expressão do amor

Vênus de Milo, no Louvre

O amor, ah, o amor. Tanto já se fez e ainda se faz em nome do amor. Loucuras, desatinos e transformações radicais! Embriaguês que nos leva ao céu, a viajar pelas estrelas, mas também dilacerante pode se tornar uma paixão não correspondida. E sempre pode ser o início de uma grande história.

Uma grande deusa tem personificado esta doce vertigem que todo mortal anseia viver, Afrodite, intempestiva, ela chega dos céus sublime montada em um ganso ou por terra acompanhada de um grande cortejo de ursos leões ou panteras.

O mito sobre sua origem conta que Crono, a pedido da mãe, Gaia, enfrentou o tirano Urano e, na luta, decepou os órgãos sexuais do pai, lançando-os ao oceano, o esperma, a semente do Céu, jorra pelos ares. Da espuma do mar fertilizada, nasceu uma belíssima menina, nas costas de Chipre. Afrodite foi levada pelas ondas à Grécia, onde foi recebida pelas Graças que a vestiram com trajes lindíssimos e depois a conduziram ao Olimpo. As Graças, as deusas da beleza e do encantamento tornaram-se suas companheiras, ensinando-lhe todos os seus talentos.

Na Grécia, Afrodite ganhou um lugar entre os olimpianos e um marido, pois Zeus dispôs o seu casamento com Hefesto, deus ferreiro, embora coxo. Não tiveram descendentes, mas se acredita que do encontro entre a beleza e o divino artesão nasce toda sublime forma de arte na matéria, seus filhos se encontrariam por todo canto em toda produção que reúna arte e engenhosidade.

Afrodite de Cnido

Embora tentassem conter a beleza, a graça e o amor, Afrodite não era detida por laços, nem contida em redes, sempre impetuosa, livre para ir e vir, apaixonou-se por inúmeros mortais e imortais. Ares, deus da guerra, figura entre seus grandes amores, os dois protagonizaram uma memorável cena no Olimpo. Ares deixava seu quarto antes do amanhecer e o caso ficava em segredo, no entanto, Hefesto recebeu um aviso do deus Hélio, que tudo vê. Para se vingar, bolou uma rede de fios invisíveis para prendê-los ao leito e chamou todos os deuses a testemunharem a traição. Mortos de vergonha, os amantes fugiram, cada qual para um canto remoto da terra. Da união entre Afrodite e Ares, amor e guerra, dois opostos, nasceram Fobos (o medo), Deimos (o terror) e Harmonia, esta talvez a melhor representando do resultado da união das duas energias opostas.

Afrodite amou o deus do êxtase e do entusiasmo, Dionísio, desta união nasceu Príapo, protetor dos vinhedos e dos jardins. Hermes foi outro de seus amores, juntos conceberam o Hermafrodito (Hermes + Afrodite).

A deusa apaixonava-se pela beleza e protegia os heróis, entre seus amores mortais destaca-se, o belo e jovem, Adônis, disputado com Perséfone.

Afrodite também seduzia para satisfazer seus caprichos e, quando ofendida, não titubeava em se vingar. Nenhuma mortal podia ousar se comparar a ela em beleza. Certa vez, puniu todas as mulheres da ilha de Lemmos, porque se negavam a prestar-lhe homenagens. De sua pele fez exalar um cheiro nojento que levou todos os maridos fugirem com as escravas, elas em vingança mataram os maridos e  fundaram uma república só de mulheres.

A deusa, proveniente da Ásia, era uma estranha entre os olimpianos. Seus atributos, alegria, sensualidade, beleza e graça, pura expressão da divindade, a tornam irresistivelmente encantadora, entretanto, seu poder de sedução provocou muita inveja e desconfiança das demais deusas, mas principalmente de Hera, a senhora dos casamentos. Tanto foi que logo chegar obrigaram-na a se casar com o deus coxo. Para Afrodite, o amor não precisa de rituais, nem se vincula à instituição do matrimônio, representa o desejo, uma forte energia de atração que une os corpos e assim fecunda a natureza.
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O mito aponta uma diferenciação entre duas diferentes versões de Afrodite, Afrodite Urânia e Pandêmia. Urânia, a Celeste, celestial, sublime, amor etéreo, aquele que encontra e liga as almas, desligado da materialidade; na versão Pandêmia apresenta-se como “a venerada por todo o povo”, tornando-se inspiradora dos amores comuns, até mesmo carnais. Dualidade presente no amor.

Talvez seja uma das deusas mais conhecidas e das menos entendidas, pois todos querem amar e receber amor, mas muitos não conseguem alcançar o seu mistério. Amor é o nome que damos a um sentimento vasto. Há o amor amizade, o amor fraternal, entre pais e filhos, a uma causa, entre outros. Afrodite representa o amor-paixão irresistível que cega e enlouquece os amantes, levando-os a cometer tolices aos olhos de quem observa de fora, mas também pode mobilizar profundas transformações.

Afrodite representa esse magnetismo, energia vital que estabelece a atração entre os seres, sem ela o que nos ligaria às outras pessoas? O que poderia ligar dois seres tão diferentes como um homem e uma mulher?

Dizem que passar por esta vida sem amar e quase como não viver. Há o desejo de provar esse sentimento divino e, ao mesmo tempo, tememos a perda do controle pela paixão. Queremos ouvir o canto das sereias, mas não queremos nos perder em mares e oceanos desconhecidos dos nossos sentimentos. O temor à sedução do feminino recheia de mitos o nosso imaginário: as sereias, Circe, Eva, as bruxas e feiticeiras, entre tantas outras. O amor cega, é verdade, ele transforma inclusive uma das faculdades mais fiáveis: a visão. Sob o olhar do amante, o amado resplandece e as imperfeições desaparecem, a própria vida ganha um novo e saboroso colorido. Quem experimentou sabe.

Afrodite traz uma irresistível força para a procriação: a passionalidade é a mãe de toda criação. Esta energia reúne a força que movimenta e a semente divina que fecunda, traz a fertilidade ao mundo que se traduz em vidas, ideias e arte. O percurso da criação é similar para artistas, cientistas e todo aquele que busca produzir algo novo. Para trazer alguma uma coisa nova à vida, seja uma pintura, um romance ou mesmo uma teoria cientifica, precisa-se de um amante apaixonado, dedicado e louco pela sua criação. A paixão absorvente cega, não permite espaço para outra coisa na mente do criador.

O êxtase do amor com o amante, divina comunhão entre dois corpos, movimenta as energias terrenais e divinas, levando a concepção de um novo ser. Da mesma forma para o artista, o instante de criação é um momento mágico, de encontro com as musas, celestial inspiração, contam alguns que experimentaram…

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Atená, a deusa filha do pai

Nesta semana em que as mulheres recebem homenagens no ocidente, vou recuperar algumas das facetas do feminino que já abordadas em textos anteriores, mas voltar a elas sempre nos permite uma nova compreensão.

Um feixe de luz jorrou sobre o cosmo no momento em que Atená nasceu e a cidade de Atenas foi banhada com uma chuva de neve de ouro. O radiante ouro anunciava a aurora de um mundo novo, por sua vez, a neve trazia pureza e riqueza para fecundar a terra e o homem.

Zeus apaixonado pela oceânide Mêtis, aquela do sábio conselho, regente da sabedoria e da prudência, faz dela sua primeira esposa, no entanto, o oráculo vaticina que os descendentes de deusa seriam mais fortes que o pai e o destronariam. Horrorizado com a profecia, Zeus, que havia se unido à deusa, a engole para escapar deste destino, contudo Mêtis já havia concebido Atená.

Inconsciente desta gestação, o senhor do Olimpo passou a sofrer fortes dores de cabeça, pedindo ajuda a Hefesto, o deus ferreiro, este abriu-lhe o crânio com um machado, permitindo a saída da filha.

Atená nasceu adulta, com armas em punho, pronta para lutar junto ao pai contra os gigantes, seres que ainda não aceitavam a nova organização do cosmo e a hegemonia de Zeus, única dos olimpianos a acompanhá-lo nessa batalha.

Torna-se a filha predileta de Zeus, cujos desejos e pedidos são sempre atendidos e cujas rebeldias causam profunda dor. Do pai ganhou uma espada de prata. Única no Olimpo a vestir armadura que lhe cobre o corpo, apenas a cabeça se revela. A coruja também a acompanhava, pousada em seu ombro ou sobrevoando sua cabeça. Se bem Atená é representada com armas e é guerreira, ela simboliza a inteligência e a razão, tornando-se garantidora da justiça, instituição importante na nova ordem.

Deusa virgem, ou seja, autônoma, sem marido, era ladeada, algo que poucos sabem, por uma grande serpente. Em Roma, foi conhecida como Minerva, originando a expressão “Voto de Minerva”.

A cidade de Atenas foi disputada pela deusa da sabedoria e por Posídon, o senhor dos mares. O deus ofereceu a seus habitantes o cavalo e a deusa presenteou-os com a oliveira. Os deuses julgaram os presentes, mas com o apoio das deusas, Atená ganhou a primazia sobre Atenas. Posídon ficou furioso com a derrota e suas águas inundaram a região, para aplacar sua fúria, os homens foram proibidos de usar os nomes de suas mães, inaugurando-se a linhagem paterna. A cidade destacou-se como centro intelectual e cultural da época, passando a cultivar as inovações sociais e políticas, como a democracia e a filosofia, legando-nos boa parte dos aspectos centrais da cultura ocidental.

Athena Varvakeion, cópia muito reduzida da Athena Parthenos de Fídias, século III a.C, Museu Nacional de Atenas

Na cidade de Atenas, na Grécia, um majestoso templo erguia-se no interior da Acrópole, o Parthenon. Parthenon significa virgem em grego antigo, por isso templo da virgem. Recebeu uma estátua da deusa de 39 pés de altura, feita por Fídias em ouro e marfim.

Trata-se de uma deusa guerreira que preside as atividades do espírito, sempre a vemos na companhia dos heróis. Na armadura encontra-se a imagem da medusa, com seus cabelos de serpente, decapitada por um de seus herois protegidos, Perseu, que a transformou em uma arma: aquele que olhasse seus olhos seria petrificado. A cabeça de Medusa funciona como um espelho da verdade no combate aos seus adversários, que ao contemplarem a sua própria imagem ficam petrificados de horror. Sua lança é uma arma de luz: separa, corta e fere. Entra na guerra contra a desordem, pela verdade e pela justiça.  Atená, juntamente com seu pai, Zeus, venceram o Caos, estabelecendo uma nova ordem que permite o surgimento da pólis, ou seja, a o começo da vida organizada para a humanidade na cidade. A Acrópole representava este primeiro movimento na conquista da cidadania.

Na guerra de Tróia, luta ao lado dos gregos para se vingar de Páris, por quem foi preterida quando ele escolhe Afrodite como a mais bela. Boa parte das estratagemas determinantes para a vitória dos helenos partiram da deusa de olhos de coruja que os transmitia ao engenhoso Ulisses, o seu mortal predileto.

Como grande mãe, também é uma deusa da fertilidade, da linhagem das deusas tecedoras. Puniu Aracne, uma bela e impetuosa jovem bordadeira, porque esta ousou desafiá-la a uma competição e o pior, em sua bela tapeçaria expôs as histórias de amor e traição marital seu pai, Zeus. Duplo erro, não se desafia os deuses, nem se fala do pai da deusa, a vingança chega dura e certa: Aracne foi transformada em aranha e obrigada a tecer pelo resto da vida.

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O século XX, no ocidente, certamente foi presidido pela deusa Atená. Por todos os cantos, as mulheres travaram batalhas, rompendo um ciclo milenar, libertaram-se das amarras da natureza e da cultura, conquistando autonomia. Adquiriram direitos políticos como o voto, direitos sobre o seu corpo e sua sexualidade, bem como uma posição de igualdade com respeito ao homem na família. Ingressaram nas universidades, tornaram-se médicas, aviadoras, juízas, até militares, mostrando ao mundo seus talentos e capacidades fora do lar.

Muitas jovens afastaram-se dos instrumentais e jogos da sedução, apropriando-se das ferramentas do intelecto, não queriam repetir os destinos de suas mães e avôs, desejavam conquistar uma profissão e autonomia, nada de ficar presas a um casamento esperando o marido com o jantar pronto em casa. Para elas, ser a rainha do lar, não era a opção. Filhos? Só depois da carreira construída. Ao privilegiar o desenvolvimento intelectual e profissional, como Atená, as mulheres abriram e ganharam espaço no terreno do patriarcado.

A mulher mudou ao longo do século XX, abriu-se a novas possibilidades, no entanto, as outras facetas do feminino ficaram esquecidas e desatendidas. Como Atená, a deusa guerreira, muitas mulheres são meninas escondidas por trás de um escudo, em suas solitárias lutas diárias, protegendo-se da vida, sem conhecer nem desenvolver a plenitude da mulher.

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Um pedido a Iemanjá

Senhora da vida,

Imensidão transparente e azuliemanja boa

Salgada e doce

Fonte, ventre

Caminho, refúgio

Morada de mistérios

Sereia e rainha

Guardiã dos segredos submersos

Eterno balancear que treme a terra e serpenteia o ar

Senhora,

Derrube as muralhas da intolerância

Destrua os diques da incompreensão

Lave os corações

Acalmai as mentes

Quebrai toda rigidez

Mostre-nos o fluxo

Ensinai o ritmo

A navegar

A balancear, sem marejar

Inspirai a dança e a criação

Dissolva o medo

Mãe nutridora,

Renove a esperança

Prepare-nos para o novo

Engendre a beleza e a alegria e ligue-nos no amor.

*

A Sabedoria do mar

Trata-se do ritmo básico e natural que as mulheres devem compreender… E vivenciar. Captar esse ritmo reduz o medo, pois prevemos o futuro, e os maremotos e marés vazantes que ele reserva.  (…)

Entendimento dos ritmos da criatividade, da parição de filhos psíquicos e filhos humanos também, os ritmos da solidão,  da brincadeira, do descanso, da sexualidade e da caça. (…)

(Clarissa Pinkola Estés. Mulheres que correm com lobos.)

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A luz do Natal

O nacimento na Igreja do Arcanjo, na região de Trodos, Chipre. O conjunto de 10 igrejas remonta ao século XI

O Natal chegou, momento de alegria, felicidade, compartilhamento de mesas fartas e presentes para celebrar o amor. Bacana.

Se por um lado, o Natal nas propagandas está repleto de gente sorrindo, nas celebrações de fim de ano, a data desperta, no mínimo, sentimentos ambíguos. O Natal está associado a presentes, à ceia familiar, mas e se nossa família não é como a da propaganda? E se os tios encontram sempre algo chato para perguntar? Vestibular, casamento, filhos ou qualquer tema sensível?

Na infância, o Natal comporta uma magia, luzes coloridas, o velhinho simpático que chega de trenó trazendo presentes, ao lado da árvore aparece a imagem de um menino que nasce em uma manjedoura, filho de Maria e José.

Quando nos contam que o Papai Noel não existe, a realidade desaba sobre nossas cabeças. Passam os anos, vemos que os beijos e as palavras de certas figuras familiares podem não ser sinceros, algumas pessoas queridas se vão e o Natal torna-se uma festa vazia, cheia de obrigatoriedades -até de estar feliz-, em um momento que estamos todos cansados, pois é fim de ano. Ao nos tornarmos adultos, somos levados a esquecer a magia, coisa de crianças, dizem-nos. O que celebramos nesta data, mesmo?

O significado do Natal anda longe de nossas referências, quase não há presépios nas ruas. Em um mundo desencantado, as narrativas da tradição parecem conversas de velhas carolas, perderam seu valor entre homens e mulheres que se professam modernos, não admira que a celebração natalina esteja reduzida quase que somente à obrigatoriedade da reunião familiar. Inclusive muitos preferem a festa da virada, pois tem sentido despedir o ano velho e saudar a chegada do novo.

Entre os antigos, antes mesmo do judaísmo e do cristianismo, no período, celebrava-se o renascimento da luz, após a escuridão do inverno, no hemisfério norte. Eu gosto do mistério da luz que vêm depois da escuridão, quem passou por uma nebulosa, sabe da importância de se enxergar a luz.

Ao racionalizar o mundo, despovoamos o universo do mistério e banimos diversos rituais, seja para fertilizar a terra, germinar a semente, de colheita ou da poda. Ao reduzi-los a uma visão mítica do mundo nos esquecemos que eles pontuam os ciclos da vida. A primazia da racionalidade,  para muitas gerações, esvaziou a própria vida de significado, ao se desvencilhar do sentido dado pelas narrativas das diversas tradições.

Gosto dos rituais, pois aprendi que eles nos relembram que a vida é circular e cíclica, bem como de coisas importantes, das chegadas e partidas, ajudando nas transições e passagens. Longe de acreditar que esta visão é  verdade universal, mas para mim faz sentido.

O nascimento de Jesus, o tão esperado Filho de Deus que se faz carne, apresenta-se como uma grande data na tradição  cristã da qual somos herdeiros. Poucos sabem que a figura de Jesus inaugura uma nova forma de pensar e se relacionar com o divino, Deus torna-se o amor, deixa de ser a transcrição da lei. Essa nova figuração me parece importante, pois o amor é uma experiência única e irresistível, até para os mais racionais, expressão da nossa divina humanidade.

Neste Natal, aproveite, celebre a vida contida em cada nascimento, conecte no amor que você sente por todos os seus e encante uma criança, como aquela que você um dia foi.

Feliz Natal!

 

Dirck Barendsz, 1565, Igreja de Janskerk

 

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Das Senhoras e das tramas do destino

Se há um grande mistério, sem dúvida, este é o destino de cada um. De repente nós tomamos uma estrada, em lugar da outra  e isto muda o rumo de nossas vida, uma pessoa perde o avião e  se livra de um acidente, outra almoça num horário diferente e encontra o amor de sua vida, mas nem precisa tanto, sabemos que ao fazermos certas escolhas o caminho pode nos levar a lugares impensados.

Entre os gregos, as Moiras eram as deusas do destino, elas comandavam a sorte, o quinhão que caberia a cada um. Etimologicamente, a palavra Moira significa parte, lote, quinhão,  aquilo que a cada um coube por sorte, por isso, destino.

As senhoras do destino, como mulheres, elas fiam, o destino é simbolicamente “fiado” para cada um. As Moiras não foram personificadas, pairam acima dos deuses e dos homens, até Zeus, o senhor do Olimpo deve obedecer-lhes, dado que o destino é imutável não podendo ser alterado nem mesmo pelos deuses, menos ainda pelos homens, isto significa que elas representam um lei que nem mesmo os imortais podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem universal.

As Moiras são a personificação do destino individual, assim cada homem e cada mulher teria a sua Moira, ou seja, a sua parte, o seu quinhão de vida, de amores, de felicidade, de infortúnios.

No mito, seguindo sua Moira, Helena abandonaria seu reino, Esparta, seu marido, Menelau, e seu filho, para seguir o amor de Paris, levando à guerra gregos e troianos, por sua vez, o belo Aquiles estava fadado a morrer jovem nesta guerra, mesmo não querendo lutar, viu-se no campo de batalha e ao ser flechado no calcanhar encontrou a sua moira.

Essa ideia de Moira impessoal,  universal e inflexível, senhora inconteste do destino transformou-se,  acabando por se projetar em três moiras: Cloto, Laquesis e Átropos. Cloto, a que fia, ela segura o fuso e vai puxando o fio da vida. Laquesis enrola o fio da vida e deve sortear o nome de quem deve morrer. Átropos, a inflexível, é aquela que não volta atrás, ela corta o fio.

O destino desde a aurora dos tempos é um atributo do feminino. A mãe tece seu filho em seu interior, num mágico processo que de uma célula formam-se todos os nossos tecidos, do coração ao cérebro, em cerca de nove meses, quando o rebento estiver pronto virá a luz para iniciar com seus próprios pés, sua trama. O destino conjugado no feminino significa pensar que a nossa transformação vem de mãos dadas com o feminino. As deusas nos acompanham por todo o percurso, mas são sentidas nos momentos cruciais, na chegada e na partida.

Hoje somos tentados a acreditar que nós tecemos o nosso destino, que o traçamos com o nosso quinhão de inteligência, determinação, amor, orgulho ou mesmo vaidade e arrogância. Sinto que a vida, sem o notarmos, é tecida dia a dia, entre linhas e instantes, tramados de diversos coloridos, pontos e linhas. Ponto a ponto, urdida nas escolhas, tramada por nós e pelos deuses que chamamos para nos acompanhar.

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Os pharmacons da medicina do sonhar

Nestes dias uma amiga sonhou  com uma aranha que lançava um veneno a um urso, ele ficava com muitas bolhas, mas sobrevivia, depois via muitas aranhinhas, não lembro o que seguia. Estas visões a deixavam surpresa com a capacidade da mente produzir visões durante o sono.

No mundo grego antigo, phármakon definia qualquer substância capaz de atuar no organismo, seja em sentido benéfico ou maléfico. Por isso, tanto designava remédio como veneno. E o pharmakeús era um misto de preparador de remédios, mágico e envenenador. Os gregos viam uma irmandade entre veneno e remédio, talvez porque o que não mata fortalece. O termo também nos lembra que na Hélade, há milênios, já se percebia a ambiguidade e a contradição presente na natureza e na vida.

Os pharmacon representam uma visão da medicina ancestral, numa reminiscência desse termo, encontramos a palavra farmácia, o lugar onde contemporaneamente buscamos a cura através de remédios.

Cabe lembrar que durante milênios o saber das plantas foi utilizado e ficou guardado pelas mulheres. Conhecimento este que permitia a cura de muitas enfermidades, mas como tudo o que não se explica, assusta, as mulheres ganharam o estigma de feiticeiras e bruxas.

Por sua vez, a aranha tece, tal como a própria vida é tecida. Um ofício ancestral das mulheres é o tecer, cabe a elas, fio a fio, ponto a ponto, tecer a trama dos tecidos seja de roupas, mantas ou do próprio rebento. A própria tecelagem representa o acalento e a  proteção, funções primordiais do feminino.

Aranha também me lembra a dança da tarântula. Na região do Mediterrâneo, onde hoje vemos o sul da Itália, há mais de dois mil anos, as meninas e jovens, muitas vezes “enlouquecidas” repentinamente eram vistas pelo clã como picadas pela tarântula. Na verdade, a loucura aparecia após sofrerem alguma violência como o abuso sexual, cometido por membros das próprias famílias, que não podia ser denunciado. A irmandade feminina fazia o ritual da tarântula, uma dança só de mulheres, de cura, para sanar e limpar as dores. Eis a origem da tarantela. A dança tem grande poder de cura, quem experimenta sabe como o movimento ao som dos tambores e acordes pode lavar e sanar a alma.

Como andamos desvinculados da natureza assustamo-nos, às vezes, com as imagens que os nossos sonhos trazem, contudo não há animal bom, nem ruim, são representações de ideias, sentimentos  ou forças presentes em conversa ou em conflito no nosso interior. Ideias do mar profundo que buscam sair à luz e nos ajudar para vivermos uma vida melhor do que o que estamos fazendo.

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Eros, Afrodite e a flecha do amor

Escultura de Afrodite, no Museu de Atenas, Grécia

No Brasil, o dia 12 de junho tornou-se uma data para celebrar o amor, o atributo da grande deusa Afrodite e de seu filho, Eros.

Entre os gregos, a deusa da beleza era reconhecida por diferentes expressões, como Afrodite Anadiómena, a que sai do mar, Pandemia, a inspiradora dos amores comuns, a Urânia ou Celeste, a inspiradora de um amor etéreo, supremo, para alguns, superior.

Menino travesso, Eros, por sua vez, executa as vontades de sua mãe, com seu  arco e flecha atinge o coração dos deuses e dos homens, transformando-lhes o juízo. Às vezes, está de olhos vendados, porque, não raro, o amor é cego. Em uma variante, Eros nasceu do caos, a pulsão primordial, força motora do universo. A imagem de Eros como uma criança simboliza a eterna juventude de um amor profundo, mas também remete  a uma certa irresponsabilidade, quem já não cometeu alguma insensatez em nome do amor? Matar aula ou o trabalho,  transar sem camisinha, tatuar o nome dela/e, pular de paraquedas ou mesmo uma janela? Não raro, depois vem o arrependimento.

Com suas flechas, Eros contata, reúne e integra, procura superar antagonismos do masculino e feminino,  do sol e da lua, yin e yang, assimilando forças diferentes e contrárias em uma só unidade. Quando  dois seres  se encontram um ao outro e se reconhecem,  atualiza-se a centelha da libido original,  uma porção do universo se reintegra e o poder da deusa se faz presente. A magia do amor estabelece uma troca, onde duas partes se dão para, sem saberem como, conformar uma totalidade.

Afrodite e Eros, no Museu do Louvre, Paris. O corpo da estátua pertence ao século I d.C. a cabeça foi reconstruída no século XVII

Talvez, seja o nosso maior desejo e, quem sabe, o nosso maior desafio. Por toda a parte, homens e mulheres querem ser flechados e provar o doce do mel mundano e divino  do amor. Certo, mas será que estamos dispostos a pagar o preço da dádiva celeste?

Entregar o coração assusta o amante acostumado a caminhar sozinho com seus botões, em meio  às suas baladas e rotinas, temeroso de perder o juízo e ceder autonomia para viver a união. A vertigem de experimentar o que não posso controlar faz muito matuto fugir antes de sentir e muita gente muito esperta só entrar em roubada, não é à toa que, como dizia o poeta, há tanto desencontro pela vida…

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A medicina do sonhar

Neste papo delicioso sobre os sonhos Rô, uma querida e sintonizada amiga que trabalha em algumas rodas de cura, adicionou alguns elementos. Diz ela:

Também sou uma sonhadora e me instiga muito perceber que de tempos em tempos , conforme as mudanças ou as necessidades do nosso grupo espiritual,vem uma onda de sonhos refletindo este nosso inconsciente coletivo e que, por vezes, aprofundamento das instruções para estudos individuais ou para o grupo ou mesmo irradiam em aberturas de novos ciclos. Digo isso para lembrar no âmbito do grupo, pra não dizer do pessoal. Sinto mágico, misterioso e de muito poder, esta “medicina do sonhar””.

Asclépio, o curador

Essas palavras me lembraram da importância do sonho para muitas tradições. Entre os gregos havia um grande cidade de cura, Epidauro, lá praticava-se a nooterapia, a cura pela mente. “Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado. E pureza significa ter pensamentos sadios.” Assim se lia logo na entrada.

Durante a estadia, os sacerdotes prestavam especial atenção aos sonhos do paciente, principalmente quando eles dormiam no templo de Asclépio, o patrono de Epidauro, os sonhos dessas noites trariam indicações do Astral das partes enfermas e  também dos instrumentos de cura. Asclépio era Filho de  Apolo, o deus sol, irmão gêmeo de Ártemis, a deusa lunar, um grande curador na vida adulta. Epidauro era um luminoso centro espiritual e cultural, com espaço para as artes e práticas físicas, funcionou durante vários séculos, Hipócrates, o pai da medicina, estudou nele.

Os Mapuche são os povos originários do sul do Chile

Para não ficar no passado, lembrei que entre os mapuche, populações nativas do Chile, ainda hoje, o sonho está incorporado à sua vida cotidiana. Eles acreditam que o sonho se trata de uma viagem que a alma faz quando a consciência se retira e a pessoa dorme. Nesta viagem, ela toma contato com outras dimensões e visita os mundos de cima, de baixo, da “esquerda”, da “direita”. Visualizam suas questões e suas formas de cura. Sei que quando eles precisam tomar decisões utilizam o método de interpretar os sonhos dos membros da comunidade.

E  tenho percebido ouvindo os sonhos de toda família que os nossos sonhos se conversam. Não é fascinante? Nesta viagem da alma, ela passearia por diversos planos, tomando contatos com as questões não vistas durante a vigília e haveria um nível pessoal, do casal, familiar, da coletividade…

Bem, pelo menos, essas foram as minhas divagações…

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Mistérios do grande Feminino

Vênus de Milo

O dia das mulheres, 8 de março, parece um momento perfeito para lembrar um grande atributo do Feminino, a sua capacidade criativa. Todos sabemos que a mulher nas situações mais apremiantes busca caminhos, formas ou saídas, para alimentar sua família, para arranjar trabalho, para se virar em todas as suas tarefas no seu dia a dia, para conseguir uma vaga na escola para o seu filho, enfim. Embora, hoje associemos a criatividade à mente, na origem, a história é outra.

Vaso micênico

Diz-se que o Grande Feminino como um todo é o símbolo da vida criativa, que as partes de seu corpo não são apenas órgãos físicos, mas centros simbólicos de esferas inteiras de vida. As curvas de seu ventre, seus seios, seus quadris participam do mistério da geração, da concepção e da nutrição. Casa e alimento.

Para algumas culturas antigas como a cretense, desnudar os seios era uma prática sagrada, expor os seios tal como a deusa e as suas sacerdotisas faziam em rituais, simbolizava a ligação com a corrente vital nutridora.

Ártemis do Templo de Éfesos

Por outro lado, a mulher com suas curvas também se torna ventre-vaso que a tudo dá origem. Vaso—útero, o centro gerador daquele grande mistério, a vida, lugar de calor e proteção apropriado para dar origem ao novo. Recipiente onde a semente germina. A própria forma do vaso apresenta um visível aspecto simbólico, mas deve-se lembrar o significado simbólico do material com que se faz o vaso, o barro, um elemento que pertence à terra.  Assim confeccionar vasilhas, na origem, é tanto uma parte da atividade criativa do Feminino, quanto fazer uma  criança, o ser humano que – assim como o vaso – em tantos mitos aparece moldado a partir da terra.

 

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A chama dos Olímpicos

Sochi, na Rússia, neste começo de 2014, sedia os Jogos da XXII Olimpíada de Inverno, recebendo atletas de 87 países de todos os continentes. A abertura oficial do evento teve como ponto culminante a chegada da tocha proveniente da cidade grega de Olímpia, após viajar por mares, pelo espaço e até de camelo para acender a pira do conjunto olímpico. Muito da simbologia presente na abertura remonta à antiguidade: o fogo, a chama dos deuses, o desfile, o juramento dos competidores, os louros, entre outros.

No santuário, destacava-se o templo do senhor do Olimpo, em cujo centro havia uma escultura de Zeus que foi escolhida como uma das sete maravilhas do mundo antigo.

Os mais antigos registros dos jogos da cidade de Olympia remontam ao ano 776 a.C., sabe-se que estavam consagrados a Zeus, o patrono do talvez mais célebre santuário do mundo antigo, localizado na cidade.

Os jogos duravam sete dias e se iniciavam com oferendas ao pai dos deuses e dos homens. As guerras, muito frequentes entre os povos das ilhas do mar Egeu, deveriam cessar para que os jogadores e suas famílias pudessem viajar em segurança, estabelecia-se uma paz olímpica três meses antes dos jogos. Depois a própria região tornou-se sagrada.

Dos jogos, participavam apenas homens que residissem na Hélade ou nos territórios. As disputas nesta celebração em honra a Zeus, o grande fecundador e principalmente aquele que subjugou o caos e estabeleceu uma ordem no céu, na terra e no submundo, eram regradas e os homens exibiam a sua destreza, força e potência. Os ganhadores não recebiam dinheiro, mas as honras dos heróis, o prêmio mais desejado na antiguidade.

A pira em Olímpia

Estes jogos contribuíram para a criação de um sentimento de fazer parte de uma unidade para um conjunto de povos vizinhos unidos e separados pelo mar Egeu, do Bósforo, onde hoje está Istambul (capital da Turquia) à Creta, passando por Ítaca,  Esparta, Creta, Delos.

Acredito que sua instituição no mundo contemporâneo promove os mesmos ideais que conduziam os antigos, torna-se uma honra fazer parte do grupo dos olímpicos e, mais ainda, sagrar-se vencedor no torneio. E, certamente, ao ver no mesmo estádio delegações de todos os cantos do mundo, sentadas lado a lado, revive-se o sentimento de unidade: por diferentes que sejam as nossas feições, cor de pele, cabelos e olhos, fazemos parte da mesma humanidade e de um único mundo.

grecia delos

Ilha de Delos, onde nascem Ártemis e Apolo, filhos de Zeus

Os jogos de Olympia chegaram ao fim em 394 d.C., quando o imperador romano Teodósio I suprimiu todas as celebrações pagãs numa manifestação despotismo e intolerância. Os jogos foram retomados apenas em 1896 na Grécia. Sua história recente com interrupções durante as guerras mundiais e um atentado na própria vila olímpica, em Munique, em 1972, nos mostra que a paz é sempre frágil e devemos estar sempre atentos aos ataques da intolerância. Cabe a nós zelar pela continuidade desta chama.

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Para 2014, a sabedoria do Oráculo de Delfos

Eis que hoje é 31 de dezembro, por isso compartilho a lembrança de um dos mais poderosos símbolos de transformação. Diversas civilizações, dos maias aos gregos, entendiam o tempo como cíclico, um eterno movimento. Povos agrários, sabiam também que toda a natureza precisava ser trabalhada oportunamente, havia o tempo de preparar a terra, semear, regar, colher e podar, sem esquecer de ficar de olho nas pragas. Elas poderiam aparecer a qualquer instante e arruinar a colheita.

Associado ao culto da terra, estava o culto aos deuses, não podia faltar nenhum, pois a divindade esquecida cobraria o esquecimento.

Oráculo de Delfos

Para ficar com os gregos, inúmeros jogos e rituais celebravam ao longo do ano diferentes manifestações, o amor atributo de Afrodite, a  sabedoria de Atená, a correção de Apolo, havia, inclusive, o tempo de cultuar o lado dionisíaco da vida. Algumas jornadas duravam vários dias como os Mistérios Eleusinos, dedicados a Perséfone e Démeter, destinados a ritualizar as etapas da vida. Tal como se lavrava o campo, deveria se trabalhar o espírito. A palavra cultura vem do latim colere  que significa cultivar. Esta origem sugere que assim como se trabalha a natureza, nós também precisamos trabalhar (cultivar) a nossa natureza.

Deste período em que homens e mulheres estavam profundamente ligados à terra, nos chega um dos mais antigos símbolos de transformação: a serpente. Associada à força da mãe terra, ela simboliza a vida que renasce e se renova ininterruptamente. Elas aparecem como criadoras e destruidoras do universo, em diversas mitologias. Python, a serpente fêmea do oráculo de Delfos, provavelmente, seja a serpente mais famosa da antiguidade. Este oráculo, inicialmente, pertencia à deusa-mãe, Gaia, foi posteriormente conquistado por Apolo. Na Hélade, a serpente detinha atributos da sabedoria, da cura e o dom da adivinhação. Python dá origem ao nome das sacerdotisas do templo: pitonisas.

A única representação da sacerdotisa, ou pitonisa, de Delfos, da época em que o oráculo estava ativo, mostra a pitonisa sentada em um trípode. Em uma das mãos ela segura um ramo de louro (a árvore sagrada de Apolo); na outra ela segura uma taça contendo, provavelmente, água proveniente de uma fonte e que penetrava, borbulhando, na câmara. Esta cena mitológica mostra o rei Egeu de Atenas consultando a primeira pitonisa. A peça foi feita em torno de 440 a.C

Quando os antigos se encontravam com questões ou angústias existenciais partiam a Delfos para uma consulta, eram recebidos com a inscrição “Conhece-te a ti mesmo”, logo na entrada.

Muitas pessoas sonham com serpentes e ficam assustadas, eu mesma já fiquei, sem saber que se trata de um dos mais antigos símbolos de transformação.  O dom da mântica provém de uma sabedoria da terra que muito já viu. Todos os oráculos –tarô, búzios, runas, entre outros- dão pistas ao consulente, mas é o próprio que precisa reconhecer em si suas questões e fazer o que deve ser feito.

Em 2014, desejo a todos a companhia dos deuses para viver com saúde, sabedoria, alegrias e amor e das musas para atuar com inspiração e criatividade.

Verónica

Atena, ladeada pela serpente

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Um presente de Natal

Botticelli, Natividade Mística, de 1502

O que significa o Natal para você? Papai Noel? Presentes? Um encontro familiar? Por estes dias, há uma agitação geral, o ano acabando e tudo fica em função dos eventos de fim de ano. Pensando em agradar, as pessoas capricham nos presentes, na decoração, no peru, mas o homenageado da data fica um pouco para escanteio.

Muito mistério cerca o nascimento de Jesus, algumas religiões não o colocam como o filho de Deus, mas como um profeta. O relevante para mim é que, há 2 mil anos, em uma época marcada pela guerra e pelo sofrimento, a sua mensagem  trouxe esperança, ao falar de um mundo novo para gente simples, como pastores e pescadores.

Conta-se que José rumava com Maria grávida a Belém, pois, naqueles dias, Roma estava realizando um censo de sua população e todas as pessoas do Império precisavam respondê-lo no lugar de nascimento. José era um filho da casa de Davi, o grande rei que governou Israel por volta do século 1000 a.C e uma antiga profecia vaticinava o nascimento de um novo rei.

Belém, situada a 10 quilômetros de Jerusalém, era um pequeno entreposto comercial. Ali Maria dará à luz e um grande clarão estelar anuncia o grande nascimento. A estrela será vista por três reis que saem a sua procura.

Israel estava sob o governo de Herodes, que reinava com o apoio de Roma, este, com medo de perder seu trono, manda matar todas as crianças com menos de dois anos. Para salvar o seu filho, José e Maria fogem para Egito.

Adoração dos Magos, de Gentile da Fabriano, 1423

Recuperei esta história, pois Jesus coloca novas pautas para a espiritualidade, ao apontar que a relação com o divino passa, necessariamente, pelas relações entre os homens. Em um mundo em que as ofensas se resolviam no dente por dente, Ele falava em oferecer a outra face. Com humildade encorajou homens e mulheres a transformar seu pensamento e suas ações, a transformação pelo caminho do arrependimento, do perdão, da compaixão e do amor.

Em 2 mil anos muitas tradições se juntaram, chegou a árvore, o papai Noel, os presentes, são todas bonitas, mas relembrar esta dimensão do Natal é um presente para cada um de nós, para o nosso espírito e para nossas vidas.

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Asclépio, o curador da antiguidade

Asclépio no Museu de Atenas

A busca da cura para os enfermos faz parte das preocupações humanas desde a aurora dos tempos. Se por um lado a doença nos coloca frente a frente com o imponderável, desde que se sabe, homens e mulheres não se entregaram ao destino, mas buscaram curas para as dores.

No mundo antigo, Epidauro consagrou-se às artes da cura. Nessa cidade, localizada num pequeno vale do Peloponeso, um renomado santuário dedicado à Asclépio funcionou durante vários séculos.

Filho do deus Apolo e da mortal Coronis, Asclépio teve seu nascimento marcado por uma tragédia. Coronis temendo ser abandonada pelo deus, preferiu o amor do mortal Iksis, ao ver Apolo furioso, sua irmã Ártemis vingou a traição. Coronis morre, mas estava grávida, Apolo chega a tempo de salvar o filho, tirando Asclépio da barriga da mãe.

O rebento foi conduzido ao monte Pélion, onde foi educado pelo centauro Quiron, um renomado curador e preceptor de heróis. Fixou morada em Epidauro, onde desenvolveu uma escola de medicina, conta-se que Asclépio fez tantos progressos na medicina que chegou a ressuscitar os mortos. A escola funcionou do século VI a.C. até fins do século V d.C., um dos alunos mais célebres foi Hipócrates. Os homens ficaram muito contentes com o aliado curador, no entanto, o Hades passou a temer que não lhe chegassem mais as almas ao seu reino e Zeus, que a ordem fosse transformada. O filho de Apolo foi fulminado com um raio, mas logo a seguir tornou-se divino.

Sabe-se que no santuário,  havia  um misterioso labirinto, acredita-se que no centro guardava serpentes. As serpentes são animal ctônios, para os antigos, detinham o poder da adivinhação e simbolizavam a vida que renasce e se renova. Numa reminiscência a esta simbologia, a serpente enrolada num bastão tornou-se o símbolo da medicina.

Em Epidauro a cura do corpo ocorria através da cura da mente. O paciente se instalava na cidade para o tratamento. “Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado”, lia-se numa inscrição logo na entrada. Um dos pontos altos deste era dormir no santuário. Acreditava-se que Asclépio visitava os pacientes durante o sono, tocando as partes enfermas. Os sonhos dessa noite eram interpretados pelos sacerdotes, considerava-se os sonhos como manifestações do divino, pois eles traziam as comunicações inviáveis no estado de vigília, através deles o sacerdote-curador entenderia a origem da dolência e prescreveria o tratamento.

Contudo, a visão de cura desta  cidade era muito mais ampla, as instalações detinham um odeón, para a música e a poesia; um estádio para competições,  um ginásio para exercícios físicos; um teatro; uma biblioteca e obras de arte ficavam espalhadas por toda a cidade. Percebe-se a preocupação com a manutenção da atividade do corpo, mas também que havia uma comunhão entre as práticas culturais e espirituais. Artistas e sacerdotes participavam no processo de cura, através da purificação da mente, da alma e por extensão do corpo.

Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado, dizia a inscrição e pureza significa ter pensamentos sadios. A arte desempenharia um papel central neste processo. Quem já curtiu um show delicioso, sabe como a música pode transformar um “estado de espírito”.

Hoje, 25 séculos depois, a medicina ocidental, muito embora ainda se dedique à observação do corpo, já estabelece uma relação entre mente e corpo, entre psique e soma, pois as enfermidades psicosomáticas estão razoavelmente conhecidas. No entanto falta avançar na integração destas partes e na visão do humano como um todo.

Asclépio, ou sua versão romana, Esculápio, ficaria feliz.

O teatro de Epidauro, construído no século IV a. C. comportava 14 mil pessoas

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Os mistérios da lua – Hécate e as sombras

Se há uma deusa que chegou até nós com uma fama nefasta é Hécate, representada como loba, cadela ou égua, tornou-se depois a bruxa do caldeirão. Associada aos encantamentos e à magia, a sortilégios e a todo tipo de malefícios, como colocar o nome na boca do sapo e muito mais.

Na origem, na Grécia arcaica, tinha os traços de uma bela mulher sempre segurando uma tocha, às vezes, com três cabeças, cada uma olhando para uma direção. Ela descende das grandes forças de criação do Universo, pré-olímpicas, conta o mito que a deusa ajudou Zeus em sua luta contra os gigantes – matou um deles com sua tocha-, como recompensa, na nova ordem instituída, o senhor do Olimpo permitiu-lhe manter seus grandes poderes.

Deusa lunar, está associada a Ártemis e a Sêmele, acompanhava especialmente as mulheres, mas depois os escravos e populações limiares. Hécate representa o lado negro da lua nova, a mais misteriosa, a regente  da escuridão, das profundezas do mundo interior.

Hécate tudo vê, o presente, o passado e o futuro e desconhece fronteiras, circulava pelos três reinos, do céu, da terra e do submundo. A deusa vinha acompanhada de seus fiéis cães, seres psicopontos, com o passar do tempo, ganhou a forma de animais. Imaginar uma deusa onisciente, senhora do céu, da terra e do mar e, como se não bastasse, que pode andar onde ninguém quer ir, no submundo (o Hades), já para os gregos era demais. Os gregos entre o século VIII e V eram solares, apolíneos (Apolo é o irmão gêmeo de Ártemis, ele é sol, ela, a lua). Acredito que por este motivo, ao longo da civilização helênica, Hécate de portadora da luz tornou-se uma figura bizarra trazida pelos bárbaros e sua difamação continuou no mundo medieval, no qual ganhou os traços de feiticeira desdentada e com verrugas no nariz. Na tradição cristã, todos os males que assombravam o mundo, imaginava-se, partiriam do caldeirão de Hécate.

Trazia consigo o poder mágico da transformação, a transformação pela experiência de iluminar os pontos obscuros do ser, a nossa sombra. Talvez por esta associação , foi considerada um guia, auxiliando a fazer escolhas, ou seja, a seguir caminhos. Tornou-se uma deusa dos limiares: na visão popular, das encruzilhadas. Junito Brandão, renomado pesquisador de mitologia, explica o significado do culto nas encruzilhadas: “cada decisão a se tomar num trívio postula não apenas uma direção horizontal na superfície da terra, mas antes e especialmente uma direção vertical para um ou para outro dos níveis de vida escolhidos. ” (1993, p. 274)  A decisão que tomamos no presente, fruto de como entendemos o passado, afetará o futuro, refletindo nos diversos planos da vida, no alto, no mundo e no submundo.

Ao longo de milênios perdeu-se um ponto central, Hécate sempre caminha com a sua tocha, iluminando. A luz, esse elemento tão caro aos homens, porque dissipa o medo ao clarear a escuridão, permitindo a visão e o discernimento. A deusa da luz na escuridão foi transformada e renegada por povos que resistiram a olhar suas próprias sombras. A psicologia nos mostra que para nós, mortais que não enxergamos muito bem nem a nós mesmos, a principal escuridão é aquela parte sombria de nossa alma, sombria, porque sem luz, sem uma tocha a iluminá-la.

Este oceano, lugar desconhecido de nosso interior que se vislumbra pelos sonhos, contém opositivo e o negativo, aquilo que desprezamos ou nos envergonha, mas também a fonte de nossa energia criativa e onde reside o potencial de transformação. Visitá-lo traria benefícios e talvez nos assombrasse menos.

BRANDAO, J. Mitologia Grega. Vol I. Vozes, 1993. 

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Entre putas e deputados, é tempo de poda!

A deusa Vesta

Na mitologia romana, Puta era uma deusa muito importante, ligada à fecundidade da terra, presidindo a podadura. Seu nome apresenta a mesma raiz do verbo putare, “podar”, cortar os ramos de uma árvore, mas também, organizar, por em ordem calcular, pensar  e julgar. No ciclo da vida a poda permite a renovação, trata-se da ação de separar na vegetação as ervas daninhas e a parte que não nos serve mais, buscando favorecer a germinação de novas e saudáveis sementes.

Certamente a expressão “filho da puta” tornou-se uma ofensa comum, inclusive, muito ouvida nas passeatas das últimas semanas, mas cabe dizer que o verbo putare tem muitos derivados em português, como os termos deputado, amputar, computar, reputação, entre outros.

Fragmento do Templo da deusa Vesta no Fórum Romano, Roma, Itália

Fico pensando que diversos lugares mereceriam uma boa poda, a começar pelas instâncias de governo. No congresso, por exemplo, podaria salários que subiram acima da inflação, bem como todos os privilégios que os parlamentares aprovaram para si mesmos (começando com os gastos com paletó) e partidos criados para negociar a legenda. Nos executivos federais, estaduais e municipais, cortar ministérios, secretarias e principalmente, verbas para negociatas.

Estátuas da deusa Vesta na Casa das Vestais no Fórum Romano, Roma

Cada um de nós poderia também pensar no que precisa podar no seu jardim para no verão colher bons frutos, uma  boa safra, os agricultores sabem muito bem, não cai do céu, exige trabalho. Talvez podar o nosso desinteresse pela coisa pública, pois os nossos políticos que receberam tantas críticas nos últimos tempos estão  em seus cargos porque nós, os elegemos.

Entre os povos antigos a fertilidade da terra era uma questão séria, porque ligada à sobrevivência, por este motivo, as sacerdotisas das deusas ligadas à agricultura -citamos a deusa Puta romana, mas há outras, entre elas, Vesta e também a grega Àrtemis- realizavam rituais sagrados para promover a fecundidade. Nos rituais, as sacerdotisas do templo copulavam com os homens da região, acreditava-se que os rebentos nascidos dessa união teriam um futuro brilhante e desempenhariam um papel importante nas cidades.

Para nós, pessoas do século XX, pode parecer um costume bizarro, mas sem dúvida, o momento atual precisa da fertilidade de ideias e projetos para melhorar a vida das pessoas. Soluções criativas baratas, viáveis e rápidas para colher uma safra cheia de bons frutos.

Casa das Vestais no Fórum Romano

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O julgamento de Orestes e o voto de Minerva

Orestes atormentado pelas Erínias, 380 a. C.

Das instituições que temos, talvez a justiça seja uma das que melhor apresenta o uso da racionalidade humana. Conta-se que esta forma civilizada de resolver os conflitos, limitar a “lei” do mais forte, bem como de por um fim às eternas vendetas surge em Atenas, a cidade luz da Grécia antiga.

O julgamento de Orestes, representa na mítica o momento de criação da justiça.

Conta-se que após a guerra de Tróia – travada pela disputa da bela Helena que fugira com o príncipe troiano Paris, deixando o seu esposo Menelau e Esparta-, Agamêmnon, o irmão do esposo traído e líder dos exércitos gregos, volta para seu reino, Micenas, no entanto, mal sabia ele que sua esposa, Clitemnestra, colocara em seu lugar Egisto, o seu primo e grande desafeto. Ao chegar, depois de 10 anos no campo de batalha, Agamêmnon morre apunhalado pela sua esposa e o amante na sala de banhos de seu Palácio.

Pela tradição, cabia ao filho vingar a morte do pai, assim logo após o crime, Electra, a filha mais velha do rei morto, enviou o irmão caçula Orestes para Pânope, aos cuidados do rei Estrófio, esposo da irmã de Agamêmnon. Anos mais tarde, cumprindo a determinação recebida no oráculo de Apolo, Orestes retorna a Micenas para vingar a morte do pai e mata o par traidor. Seguindo a vontade dos deuses, tornou-se assassino da mãe, um crime contra a natureza, punido pelas Erínias. As terríveis filhas da noite, deusas de uma ordem primordial, perseguiram o matricida sem lhe dar um instante de sossego, torturando-o com o remorso e o arrependimento. Orestes enlouquecido vagou errante, mas sempre protegido por Apolo, quando chegou a Delfos abrigou-se no templo do deus solar para ter um pouco de sossego. Para sair do impasse, Apolo ordenou:

– Vá para Atenas, lá  te providenciarei um tribunal justo.

Mesmo torturado pela culpa, Orestes correu para Atenas, onde a própria deusa da sabedoria escolheu o júri formado por oito pessoas de ilibada reputação e se prontificou a arbitrar em caso e empate. No dia do julgamento estavam de um lado, as Erínias, encarregadas da acusação, e do outro, Apolo que pronunciou a sua defesa.

A contagem dos votos revelou o empate e a deusa proferiu o seu voto:

– Acho que Orestes agiu de maneira certa, não matou sua mãe, mas a assassina de seu pai. Orestes precisou escolher entre dois deveres sagrados e ferir um deles, por este motivo, por maioria dos votos, fica absolvido da acusação.

Minerva

Vencera a compaixão, representada por Atená, deusa de uma nova ordem alicerçada em novos valores para a convivência social, entre eles, a própria justiça. Símbolos de uma dura ordem primordial que estava sendo desbancada, as Erínias ficaram ofendidas com o resultado, para apaziguá-las, Atená ordenou que recebessem um santuário e fossem veneradas como deusas da vingança justa.

 

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As vozes de Joana d`Arc

Eu que gosto muito de histórias, nestes dias deparei-me com a história de Joana d`Arc. A vida desta camponesa que se tornou heroína da Guerra dos 100 anos e uma Santa francesa no século XX é impressionante, terminando no dia 30 de maio de 1431, quando com apenas 19 anos -acredita-se, porque na época não havia registros e nem ela sabia ao certo- foi queimada viva. Durante a guerra, quando o rei da França Carlos IV morre sem deixar descendentes masculinos, a Inglaterra e a França entram em disputa pelo trono francês.

Joana dizia ouvir vozes divinas com mensagens de São Miguel e de Santa Catarina desde os treze anos que lhe recomendavam uma vida piedosa e a se manter donzela. Aos 16 anos, as vozes lhe ordenaram uma estranha missão para uma jovem camponesa analfabeta: dirigir o exército francês, coroar o Delfim Carlos e expulsar os ingleses de país. Num primeiro momento foi rejeitada pelas tropas francesas, depois conseguiu se encontrar pessoalmente com o Delfim que a submeteu a diversas provas. Após passar por todos os interrogatórios, investigações e até por exames íntimos pelas matronas locais, a jovem o convenceu da veracidade de mensagens. Conta-se que Carlos a teria colocado à frente de 5 mil homens.

Após uma vitoriosa campanha no vale do Loire, para liberação de Reims, participou na coroação de Carlos VII como rei da França, em julho de 1429. Nesse momento, ela deixa de ouvir vozes, faz menção de deixar o exército, mas continua lutando, pois percebe que a França não estava totalmente liberada.

Ela voltou a ouvir uma voz que lhe anunciou que cairia antes do São João. Foi capturada em maio de 1430 por vassalos do Duque de Luxemburgo, aliado da Inglaterra, que negociou a virgem guerreira com os ingleses, obtendo em troca 10 mil libras. Ela é então julgada sob a acusação de bruxaria, heresia, entre outros crimes de natureza religiosa, sendo decisivo para sua condenação o fato de que ela vestia roupas masculinas, num processo que menos de um século depois seria reconhecido como irregular.

Esta história contém muitos elementos, mas hoje gostaria de destacar a nossa  interpretação de certas vozes. Até não muito tempo atrás, ouvir vozes faria de uma pessoa uma louca desvairada, levando-a ao hospício, hoje, seria diagnosticada como portadora de algum transtorno psíquico (como esquizofrenia, mas há outros) que a conduziria a tomar remédios para conter as alucinações. No século XV, um Delfim ouviu as mensagens de uma jovem camponesa e tornou-se rei.

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O encanto chega com as ondas do mar

Não há quem não se renda aos seus encantos, a sua majestade chama a reverenciá-lo, mas também a ser cuidadoso. Profundo, fértil e misterioso, o mar. Das águas marinhas, descendem Yemanjá e Afrodite, duas deusas que trazem facetas de seu poder.

Proveniente da mitologia Yoruba, Yemanjá é a guardiã dos mistérios da fertilidade e do amor, grande mãe, de coração caloroso a todos acolhe. O fluir de suas águas dissolve as dores e tristezas de homens e mulheres, confortando todo aquele que busca sanar suas mágoas.

Do panteão olímpico grego, chega Afrodite, aquela nascida das espumas do mar, representa o amor primordial e a fecundidade. Seus atributos divinos, alegria, sensualidade, beleza e graça, a tornam irresistivelmente encantadora.

As duas senhoras cada uma a sua maneira, chamam a cultuar a beleza, a cultivar a alegria e celebrar diariamente a vida.

Afrodite voando em um ganso, do séc. V, encontrada em Rodes

É tão forte a simbologia do mar que uma versões da etimologia do nome Maria remete a “oceano”, sendo assim, a Virgem Maria, a mãe de Deus, seria uma continuidade cultural destas antigas deusas do Mediterrâneo.

Em fevereiro, vale ouvir o fluir das águas, se possível, visitar o mar, passear pela praia e, por que não, celebrar a vida, tão sublime, poderosa e intrigante como o mar.

Yemanjá – dia 02/02

Afrodite – dia 06/02

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Quirón, o curador ferido

Nestes dias lendo histórias da mitologia grega, deparei-me com o centauro Quirón. Dizia-se que os centauros eram beberrões e fanfarrões, no entanto, Quirón destacou-se como curador, sábio e educador, tornando-se o rei dos centauros. Uma das versões sobre o seu nascimento conta que Cronos, o titã, pai de Zeus, transformou-se em cavalo para seduzir a ninfa Filira e desta união nasce o jovem com tronco, os braços e a cabeça de homem e o corpo de um cavalo. Logo ao nascer foi abandonado, sendo encontrado pelo deus sol, Apolo, que o criou como um filho, ensinando-lhe seus conhecimentos nas diversas artes como a música, pintura, filosofia, assim como as práticas curativas e divinatórias.

quironMeio homem e meio animal, ele conhece os dois mundos, uma parte registra a vida terrena e a outra, conhece o divino. Seus talentos tornaram-no preceptor dos jovens herois da mitologia que ensinava no Monte Pélion, seu discípulo mais conhecido foi Aquiles, mas Jasão, Héracles e muitos outros também estudaram com ele. Em sua escola, na verdade, uma caverna, antes do manuseio das armas, ensinava a ordem do cosmo, o respeito pelas leis divinas e os valores espirituais.
Certo dia, Héracles em visita ao amigo após matar a Hidra -o quarto dos seus trabalhos-, acidentalmente durante uma briga com os outros centauros, arranhou-o na coxa com uma de suas flechas embebidas com o sangue do monstro de várias cabeças, o veneno não o matou, dado que era imortal, mas obrigou-o a conviver com uma dolorosa ferida e todo o conhecimento que possuía não podia saná-lo.

Curador ferido, Quirón trocou sua imortalidade para libertar Prometeu, o herói acorrentado no alto de um penhasco por roubar o fogo e entregá-lo aos homens. Tornou-se mortal para escapar do seu sofrimento, mas recebeu como homenagem a constelação de Sagitário, para ser lembrado pelos homens todas as noites ao contemplarem o céu e as estrelas.

*

Da Índia
indiaA morte de Damini, uma jovem de 23 anos, estudante de fisioterapia, estuprada barbaramente durante horas por seis homens, em Nova Delhi, nos últimos dias de 2012, nos mostra como o mundo precisa de curadores.

Clique para enviar uma mensagem de protesto diretamente para o governo indiano:
http://www.avaaz.org/po/end_indias_war_on_women/?bliimab&v=20673

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Os maias e a profecia do fim dos tempos

Templo do sol, Palenque

  “Los que tienen poder de contar los días, tienen el poder de hablarle a los dioses.” Sabedoria tradicional nativa

Os maias cuja origem remonta a 3.OOO a.C. estabeleceram-se no sul do que hoje é o México e na América Central, construindo uma dinâmica civilização. Cidades  como Palenque e Chichen Iztzá, cujas ruínas ainda surpreendem, mostram seu vasto conhecimento. Detentores de uma escrita hieroglífica não decifrada, também foram grandes astrônomos, sabe-se que calcularam a duração do movimento de translação da terra, fixando-o em 365 dias, tal como o nosso calendário gregoriano.  Sua vida era organizada por 2 calendários, um solar para os eventos civis e outro baseado no ciclo lunar para eventos religiosos. Desapareceram por volta do século IX d.C..

Seus sábios criaram um uma astrologia particular com 13 Luas de 28 dias. De acordo com esta astrologia, o dia 21 de dezembro de 2012 marcaria o fechamento do ciclo, o último dia do grande ciclo Maia de 5.125 anos ou um total de 1.872.000 dias, cujo início foi datado pelos maias em 3.113 a.C..

Boa parte das religiões traz mitos e profecias sobre o fim dos tempos, a dos maias ganhou recentemente grande espaço na mídia, mas o Apocalipse de São João, talvez seja  uma das mais conhecidas no universo cristão.

Chichen Iztzá

A figuração da “grande destruição” que a cada certo tempo ressurge confronta-nos com um de nossos medos: o fim. A destruição ganha muitas formas: fogo que vem do céu, lava que surge das profundezas, novos dilúvios, grandes nevascas, terremotos e por aí vai…

No entanto, para os antigos a experiência do tempo, da destruição e da morte era bastante diferente da nossa, de populações urbanas e modernas. Para os antigos, a vida se passava em ciclos, com seu início, desenvolvimento e fim, este sempre sucedido por um recomeço, não do mesmo, porque o tempo não se repete, mas do ciclo. E há ciclos curtos, médios e longos.

As rodas em contínuo girar traduzem a sabedoria da vida: nada se perpetua e para o novo aparecer algo precisa morrer. O fim não representava um término absoluto, mas significava oportunidade de se fazer diferente, plantar outro produto ou semear outras ideias.

Todo fim é precedido de grandes turbulências, de um momento da verdade, como um provão que checa e decanta, para ver quem passa de ano, seguindo a jornada e quem vai ficar pelo caminho.

Temos medo do fim, mas há tanta coisa que precisa morrer na nossa sociedade para o novo nascer em seu lugar!  Faria um bem para a humanidade a morte da intolerância, do conflito, da guerra, da crueldade, da ignorância, da prepotência, da corrupção, da omissão, da falta de educação e de justiça. Como é possível, com o desenvolvimento e a riqueza que construímos ainda haver famílias abandonadas sem teto, hospitais sem médicos ou remédios, a morte de crianças por desnutrição, jovens sem perspectivas, escolas sem professores e tantas outras mazelas que permitimos?

O grande fim da profecia maia representava o término de uma longa era. Para os antigos, estes períodos abriam o portal de novos mundos, tratava-se de um momento de grandes oportunidades para o surgimento de novas civilizações.  Hoje, permite-nos sonhar com um mundo melhor.

Tikal, praça central

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No México, el día de los muertos

O día de los muertos é uma celebração cuja tradição remonta às práticas de todas as populações nativas do continente. Maias, Astecas, Quetchuas, Mapuches, Guaranis, assim como todas as outras comunidades realizavam rituais de culto aos mortos, no sincretismo com o catolicismo, fizeram-na coincidir com o dia de Finados de 2 de novembro.

O ciclo da vida e morte sempre tem causado admiração, incerteza e porque não dizer, medo, entre os humanos. No México, se acredita que as almas voltam neste dia, por isso lhe são oferecidas uma grande festa com uma mesa farta, elas muito contentes, depois vão embora.

Todos os povos criaram tradições para venerar, honrar, espantar, quando não brincar com a morte. Esta celebração nacional Mexicana foi declarada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco.

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A viagem ao Hades, a experiência liminar

Após a vitória de Zeus e seus aliados sobre os Titãs, o Universo foi dividido em 3 grandes impérios, conta a mitologia grega, cabendo a Zeus o Olimpo, a Posídon o Mar e a Hades o império localizado no seio da terra, o submundo, onde o deus Helios não conseguia penetrar. Os gregos não gostavam de proferir o seu nome, chamavam-no de Pluto, o deus da riqueza, eufemisticamente.

Para os gregos antigos, não existia inferno no formato judaico cristão, existem o reino dos vivos e o dos mortos, onde Hades governa. Vários rios de águas turbulentas separavam a entrada ao submundo, o mais famoso era o Estige. O barqueiro Caronte realizava a passagem  daquele que portava uma moeda para pagar pela travessia. Ninguém voltava de lá, dizia-se, mas alguns heróis e heroinas entraram e conseguiram sair, como Orfeu que queria reaver a sua amada Eurídice, assim como Héracles (Hércules), Odisseu (Ulisses), Teseu, Orfeu, Psiquê, entre outros.

Hades e Perséfone

Hades saiu apenas 2 vezes dos seus domínios, em uma delas, quando tomado por um profundo amor sobe para raptar Perséfone, a quem desposa, a outra, após ser ferido e experimentar uma dilacerante dor, sobe para pedir a Apolo um bálsamo curador.

O domínio de Hades e Perséfone permite tomar contato com uma grande verdade: a fim. O fim inegável da matéria, mas talvez o mais importante, a experiência da finitude que precisamos ter ao longo da vida. A morte da infância com sua inocência, da inconsequência da juventude, do filho quando da entrada no casamento, da fertilidade, da fantasia de que somos eternos, de desejos não realizados, de experiências que nos trazem sofrimento e outras tantas finalizações que devem ocorrer. Tornam-se as diversas mortes necessárias para se ganhar uma vida em plenitude. E não uma eterna repetição do mesmo.

Da descida ao Hades ninguém volta ou, pelo menos, não volta aquele que foi. Depois de vagar quase 10 anos pelo mar, para descobrir o caminho para casa, Odisseu desce ao submundo  à procura de Tirésias, o vidente cego. Tiréssias lhe responde que ele morrerá na tranquilidade de seu reino, mas que a viagem será dura e somente conseguirá retornar se ele refrear a sua cobiça. A profecia se concretiza, a fala do adivinho o leva a buscar a verdade no seu íntimo. O que de fato o heroi desejava? Lembrou-se do amor da esposa, de seu filho, da sua casa…

A viagem ao reino da morte conduz à aquisição de autoconhecimento. “Quem quer que adentre ao reino das profundezas haverá de morrer e renascer simbolicamente para um tempo novo. Quem desce aos ínferos nunca mais retorna, pois o que volta é outro ser, é o renascido”, escreve Maria Zélia Alvarenga.

Conta-se que Alceste, a bela e apaixonada rainha, aceita morrer no lugar do marido, Admeto. Hades e Perséfone admiram-se pelo seu amor e sacrifício, tempo mais tarde, será resgatada por Héracles, paradoxalmente, Alceste retorna mais jovem e mais bela aos braços do rei.

Talvez o mito queria nos dizer que a experiência do fim, embora dolorosa, permita a nossa transformação, assim nessa jornada, na subida, experimenta-se uma renovação que se traduz em juventude, beleza, alegria e tudo aquilo que celebramos a cada novo nascimento.

Fontes: Maria Zélia Alvarenga. Mitologia Simbólica. Casa do Psicólogo.

Junito Brandão. Mitologia Grega. Vozes.

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Os mistérios eleusinos, a jornada da semente

Imagem dos mistérios, séc. IV a.C., no Museu Nacional de Atenas

No dia 22 de setembro, após oito dias, intensos chegava ao fim, na Grécia antiga, a jornada dos Mistérios eleusinos. A data coincidia com o início do outono, que para os gregos era um período de fartura e prosperidade, pois deixava para trás o quente verão que secava toda a vegetação.

O mito do rapto de Core e do percurso de sua mãe Deméter para reencontrá-la definem o núcleo dos mistérios eleusinos. Deméter, a mãe na juventude despertara a paixão de Posídon, não querendo nada com ele, se esconde junto aos cavalos, mas o deus do mar não teve dúvida, metamorfoseou-se em cavalo e a possuiu contra sua vontade. Em seu sofrimento, a deusa se recolhe, escondendo-se numa caverna, consegue se purificar do estupro e recuperar sua virgindade ao banhar-se nas águas do Rio Ládon, mas aqui foi encontrada por Zeus que se transforma em uma serpente para possuí-la. Da união entre Zeus e Deméter nasce Coré.

Mãe e filha viviam felizes, mas eis que um dia Coré, desperta a paixão de Hades, irmão de Zeus e senhor do submundo, sendo por ele raptada. Demeter parte enlouquecida em busca da filha, mas não a encontra em lugar algum sobre a terra. A dor desta deusa da fertilidade faz toda a terra secar. Zeus intercede junto ao irmão, promovendo um acordo, Coré retorna, agora Perséfone, não mais menina, mas uma mulher, esposa de Hades, rainha do submundo e também mãe. Perséfone passará uma parte do ano com sua mãe e a outra com o marido, cada vez que ela retorna à mãe, a terra floresce.

Conta o mito que após o retorno de Perséfone, em Elêusis, Deméter instituiu um dos grandes rituais da antiguidade clássica. Os Mistérios tornaram-se não apenas um ritual agrário da fertilidade, mas acima de tudo, um ritual de transformação.

O mito traz duras experiências seja para os deuses ou para mortais: estupros, solidão, separações de pessoas queridas. Como processar a dor? Não há manual para isso. A vida não é brinquedo. Às vezes, nos apegamos a uma forma, a uma ideia, a um estado. Há pessoas que se apegam até às suas dores e vivem na amargura. Custa-nos entender que a vida é movimento, tal como a jornada da semente.

Apesar de terem sidos celebrados por mais de 2 mil anos, não se sabe muito dos mistérios, pois seus participantes juravam silêncio. Conhece-se um pouco do que acontecia do lado de fora dos templos: banhos no mar para purificação nas águas, oferendas que se transformariam em adubo para as sementes, caminhadas, riso, jejum, danças e, no fim, milhares de tochas acessas. Sabe-se que os participantes saíam renovados.

As jornadas eleusinas se extinguiram com o advento de novos deuses, mas temos outras experiências que permitem a cada um olhar para os seus mistérios, como as caminhadas, seja em Santiago de Compostela, Machu Pichu ou rumo a Aparecida. Sempre vale a pena uma pausa para dar uma olhada na nossa jornada.

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Ártemis, a donzela protetora

No museu Arqueológico de Atenas

Conhecida como Diana entre os romanos, Ártemis era “a sagitária com arco de ouro”. A filha de Leda e Zeus vivia pelas montanhas, na companhia de seus animais, a  cuidar das florestas e dos animais prenhes, no ombro sempre portava o seu arco de flechas certeiras, presente de seu pai.

Conta-se que Leda, grávida de gêmeos do senhor do Olimpo, despertou ira de Hera, sua esposa. Ela proibiu a terra de acolher este parto e nenhum ponto da superfície quis recebê-la e se indispor com a grande deusa. Leda vagou pelo mundo até que sua irmã, Astéria que fora convertida em um amontoado rochas vulcânicas a vagar pelo oceano, abrigou a parturiente. Leda ficou debaixo de uma palmeira sofrendo durante nove dias sem poder dar à luz, pois Ilítia, a deusa dos partos, fora proibida pela mãe -quem mais senão Hera- de ajudar a amante do marido, retendo-a, no Olimpo. E não bastante, Ilítia cruzara as pernas, fechando o caminho para os nascimentos. Todas as deusas assistiam a cena comovidas, sem poder intervir. Uma delas teve a ideia de enviar um presente a Hera, um belíssimo colar de âmbar e de fios de ouro entrelaçados (talvez fosse para Ilítia…). Bem, Hera aceita o presente, permitindo então a partida de Ilítia e Leda dá à luz a Ártemis. Logo ao nascer Ártemis faz o parto de seu irmão, Apolo. Astéria será transformada numa esplendorosa ilha e no centro do mundo.

Ao ver o sofrimento de sua mãe durante o parto, Ártemis pede a Zeus para se manter donzela, no que é atendida. Jamais se casou, permaneceu “virgem”. Na antiguidade, o termo virgem significava pureza.

Ártemis no Museu de Rodes

Algumas passagens de sua biografia mostram uma deusa bastante dura. Num episódio da guerra de Tróia, Ártemis pune Agamenon, o comandante dos exércitos gregos por matar sua corça preferida. Para aplacar sua fúria e superar a maldição, a deusa exige-lhe o sacrifício de sua filha primogênita, Ifigênia. É certo que, no último instante, Ifigênia foi substituída por uma corça e transportada para Táuris, onde se torna sacerdotisa da deusa, desfecho ignorado pelos pais. Em outro momento vemos  Ártemis punir duramente o jovem caçador Actéon. Num certo dia, ele não conteve sua curiosidade e a seguiu, espiando-a enquanto se banhava no rio junto com as ninfas, ela, ao vê-lo, o transforma em veado e ele vai ser devorado pelos seus próprios cães que não o reconhecem.

Outros mitos apresentam uma faceta diferente da deusa. Aparece na Ilíada como “leoa com as mulheres” e detentora do título “a que alimenta, a que educa as crianças”, protetora das jovens, das mulheres em trabalho de parto. A deusa acompanhava particularmente as meninas em sua fase de crescimento, zelando para que o seu corpo fosse respeitado. As noivas, à véspera de seu casamento, ofereciam-lhe uma mecha de cabelo e uma peça do enxoval, para implorar-lhe proteção e fertilidade.

O mito apresenta uma deusa com diversas facetas, tal como outro de seus símbolos, a lua, representação dos ciclos naturais, bem como do feminino. As variantes lua foram relacionadas aos humores da deusa e à própria mudança no humor nas mulheres, algo presente na expressão “ser de lua”.

A estátua de Ártemis encontrada Éfeso, hoje no Museu do Vaticano

Ártemis, uma das facetas da grande mãe, foi cultuada por todo o mundo grego, um dos seus  maiores templos foi construído na cidade de Éfeso, dele restam apenas vagos registros na terra, mas quatro de suas colunas podem se observadas no Museu de Santa Sofia em Istambul, na Turquia.

As colunas do templo de Éfeso no Museu de Santa Sofia, Turquia

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As lições do tempo – o aprendizado de Cronos

Na mitologia, Urano (o Céu) uniu-se a Gaia (a Terra) e geraram a raça dos Titãs, entre os quais Cronos era o mais jovem. Urano temendo ser destronado pelos seus filhos a medida que nasciam os trancava no ventre da mãe. Cada vez mais inchada, Gaia planejou sua vingança.  Modelou uma foice, entregando-a a Cronos, este, certa noite ao ver seu pai em sono profundo, castrou-o, jogando seus genitais ao mar. Cronos libertou seus irmãos e tornou-se senhor da Terra. Sob seu reinado, a terra tornou-se fértil, deu muitos frutos, instituiu as estações, dando ritmo à vida: nascimento, crescimento e morte. O período ficou conhecido como a Era de Outro.

No entanto, o próprio Cronos se recusava a aceitar suas próprias regras e seguir o ritmo da vida. Quando foi profetizado que um filho o destronaria, repetindo sua história com seu pai, passou a engolir sua prole, fez isto com vários? Demeter, Hera, Posidon… Reia, sua consorte, grávida do caçula, fugiu para a ilha de Creta, onde deu a luz a Zeus, mas cuidou de embrulhar uma pedra num manto, entregando-a a Cronos  para que fosse  engolida no lugar do filho. Anos mais tarde Zeus o destronará, inaugurando uma nova ordem e tornar-se-á o Senhor do Olimpo.

Cronos nos convoca a pensar a experiência da finitude. A vida tem uma regra evidente, para nós seres humanos, por mais que desejemos obviá-la: tudo chega a um fim. Nada é para sempre, nem o bom, nem o ruim, nem o alegre, nem o triste. Ninguém pode viver além do seu tempo e nada permanece imutável. A juventude, a força, a destreza entram na lista, quando nos damos conta, elas já se foram. E lutar como Cronos, contra a passagem do tempo, recusando-nos a caminhar para a nova fase, é derrota certa, perde de tempo, dinheiro ou até de dignidade. Há muito velho querendo bancar o garotão. Fica ridículo! Luta frequente nas relações familiares, pois muitos pais se recusam a passar o comando aos filhos, mesmo dando bolas fora, não querem sair do controle. Quantos transtornos eles causam!

Dizem que ao ser destronado, Cronos foi levado para as Ilhas Abençoadas, onde se dorme, esperando o início de uma nova Era de Ouro. A  lição de Cronos é aceitar que há coisas que não podemos mudar. O nosso filho querido fazendo diferente do que desejaríamos, ou mesmo a doença e a morte… o que fazer? Há momentos que nada há a fazer, só ter paciência (e força para suportar). Por isso parte da sabedoria conquistada na maturidade, atende pelo nome de paciência.

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São João, a renovação e festejos Juninos

Caros amigos,

Nestes dias, por estes lados, nos chega o inverno, tempo de recolhimento, de introspecção, de se aquecer perto do fogo, nutrir com boas ideias e formular bons projetos. A celebração do retorno do sol e o solstício de inverno era uma das festas mais importantes da antiguidade em todos os cantos do mundo, no entanto, após o advento do cristianismo, na Europa, proibiram-se as festas tidas como pagãs. A festa deixou de existir, mas escolheu-se a data de 24 de junho para celebrar São João Batista, o primo e antecessor de Jesus. As festas juninas reúnem as homenagens a grandes santos da cristandade, Antônio, João e Pedro e em alguns lugares ganham mais importância do que o Natal.

Icone de São João Batista no Mosteiro Vladimireşti, Galati, Rumania

São João batizava  na água para limpar os corações. O batizado para o adulto significava um renascimento.

Estarei fora do ar nos próximos 15 dias. Desejo a todos um lindo São João, com muitas transformações.

 

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A transformação do casamento, o rapto de Coré

“Eles foram felizes para sempre” com esta frase muitos contos de fada terminam, mas  se existe uma história que mostra que a coisa é mais complexa trata-se do mito grego de Coré-Perséfone. Vejam só.

Num certo dia de outono, Coré colhia inocentemente narcisos quando repentinamente é raptada e levada para as profundezas, onde irá casar-se com o grande deus Hades, o irmão de Zeus e senhor do reino dos mortos. Uma aura de mistério permeia a descida da jovem ao submundo, sabe-se apenas que ao seu retorno, ela volta tão diferente que ganha outro nome: Perséfone.

Perséfone e Hades, jarro do séc. V a. C.

Dizer que Perséfone se casa com Hades é dizer que ela se casa com a morte. Talvez porque toda transformação comporta uma morte, a morte daquilo que já não somos mais.

O rapto simboliza a separação da família de origem e principalmente da mãe, processo que não ocorre sem dor, mas torna-se uma etapa necessária para o crescimento da jovem, o distanciamento permite-lhe construir a sua própria família. E do jovem também, pois ele precisa “bancar” o rapto, a situação que ele provocou, pelo menos na mítica, não dá para devolver a que não é mais donzela ao pai, muito diferente dos dias de hoje, quando a gente não gosta de qualquer coisinha e tchau.

O retorno de Perséfone à sua mãe, Deméter, não é o retorno de uma donzela, sua inocência morreu para dar lugar a uma deusa madura, que conhece a sexualidade e os ciclos da natureza: fecundação, nascimento, crescimento e morte.

Neste percurso, a deusa lunar Hécate, aquela que anda com uma tocha e conhece todos os caminhos, torna-se sua aliada e companheira. Sua proximidade insinua que a fonte da transformação de Perséfone ocorre pelo contato com a sabedoria das profundezas abissais da alma, é preciso luz para enxergar na escuridão. Seu maior desafio é unir o lado escuro e o luminoso da deusa em si mesma, tornando-se a deusa madura da noite.

Em sua jornada, a jovem desenvolve novos talentos e atributos,  entre eles, a sabedoria (representada tocha), a intuição (simbolizada pelos cachorros que acompanham Hécate), a flexibilidade (o ciclo) e a receptividade incondicional.

Gosto muito deste mito, pois ele nos lembra que deixar a posição de filha e assumir o papel da esposa não é fácil. O amadurecimento comporta uma certa dor. Aprender a caminhar com as próprias pernas requer esforço e o casamento exige abdicar daquele mundo da família  conhecida (e por isso confortável), para assim, passo a passo conformarmos a nossa. Muitas vezes, a gente quer fazer do nosso amor um marido, contrair núpcias, mas um lado de nós reluta em pagar o preço da união.

É preciso lembrar que tudo na vida tem um preço, não assumir este novo papel pode custar muito mais do que se imagina: viver na eterna adolescência como Peter Pan ou mesmo a solidão.

Na primavera, Perséfone retorna trazendo consigo o filho Dionísio. Passado o duro inverno, no interior da terra, a semente brotou.

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