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No Olimpo, na casa ou no trabalho, imagens da mulher que não é santa nem é p…

Há pessoas que acreditam que os deuses de nosso mundo saíram de férias, para alguns são as figuras do show business do momento. Por isso me valho dos antigos para falar de um tema tão caro como as imagens e imaginários do masculino e do feminino.

O mundo dos olimpianos, regido por Zeus, acompanhado por sua consorte, Hera, e por uma corte  ilustre, como a personificação do amor, Afrodite, o deus da guerra, Ares, entre outros, nos é conhecido, no entanto, pouco sabemos do mundo anterior a esta ordem. A terra em suas profundidades registra o culto à grande mãe, senhora das plantas e dos animais, portadora de fertilidade e do crescimento da natureza. Quando Zeus se instala no Olimpo, a grande mãe cede lugar às disposições do pai, mas ela ainda conserva espaço no panteão. O poder do feminino cede lugar ao masculino, marcando uma passagem de um vínculo indiscriminado e inconsciente com a natureza ao reino da palavra, ao logos, ao plano da consciência, à lei e à norma. Posteriormente, a própria multiplicidade do panteão helênico será destronada pelo deus único, onipotente, onisciente e onipresente, e agora a mulher perde o cetro e o trono de vez. Sem divindade, será responsabilizada por ter trazido a tentação aos homens, figuração do pecado ou da ignorância no melhor dos casos.

Após o advento do Cristianismo, a única imagem feminina permitida será a mãe do filho de Deus, senhora imaculada, pura, abnegada, obediente, entre outros atributos que a tornam digna de culto, mas a distanciam da humanidade das mulheres. Beleza, charme, primos da sedução, associados aos prazeres da carne, lugar do pecado e da corrosão do espírito estão banidos.

O panteão grego no qual os deuses amam e odeiam, tecem alianças e tramam vinganças responde a uma compreensão do humano sujeito a múltimas forças que desconhece, repleto de ambiguidades que ama e odeia. Ambiguidades que se perdem na idealização do mundo judaico-cristão e que a duras penas buscamos entender no século XX com o discurso da psicanálise. Idealização que nos distancia de uma visão “real” de nós mesmos e compreensiva de nossos pares no mundo.

Recupero esta ideia, pois as mulheres, hoje, estão em luta pelo poder e esta luta passa pela compreensão do imaginário. No século XX, em um século de tantas conquistas, a mulher conquista as ruas, o mundo do trabalho, a sua sexualidade, contudo persiste a crítica de que ela ainda quer ser feliz no amor e no casamento e para isso recorre a estratégias para agradar o homem e ainda pensa em comidas gostosas e se dedica a afazeres “do lar”. Uh!

 Certamente, precisamos de mais mulheres no Congresso, precisamos de igualdade, de respeito nas relações. Nenhum tipo de roupa pode ser justificativa ou atenuante para um estupro. Contudo, considero que a questão não para aí, não adianta mulheres no poder com um funcionamento masculino desqualificando outras mulheres. A própria mulher precisa conhecer e reconhecer a multiplicidade do feminino, sem buscar estabelecer a visão “certa” do feminino. Uma visão feminina não se arrola a verdades, nem busca ser a maior, compõe e não compete, alimenta e gosta do alimento, e, sem dúvida, é  tolerante e inclusiva, porque entende a vida como processo.1 a 1 a a a a mar sao carlos13 homem feminista

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O adulto e sua criança

Não é segredo para ninguém que a gente chega ao mundo como um bichinho indefeso, frágil e dependente, precisando do auxílio de alguém para tudo, se vestir,  assoar o nariz e se não tiver alguém para lhe fornecer alimento, morre. Contudo não guardamos esse registro.

O tempo passa e a gente perde a memória de nossa primeira infância, inclusive, porque até o cérebro estava em formação, a malha de conexões começava a ser formar.

Ver uma criança em seus primeiros anos é assistir os primórdios, o que fomos um dia, permite-nos perceber como coisas tão básicas com a dimensão do tempo -com suas noções como “antes” e “depois” estão ausentes- os pequeninos vivem no agora, então choram, quando a mãe some, pois sentem como se ela nunca mais fosse voltar, ou então, abrem o berreiro se não lhes dermos a mamadeira quando ela está quente, só sentem o “não ganhei a minha mamadeira”.  Nós, adultos, não temos ciência que o bebê nem morder sabe.

Da mesma forma, contemplar a sua surpresa com os pássaros ou com o vento, o susto ao subir um elevador, leva-nos a perceber que tudo é novo para os pequeninos, tão novo que, no começo, parece uma grande nebulosa para seu olhar.

A primeira infância dá-nos a possibilidade de ver a natureza agindo num ritmo vertiginoso. A natureza sempre atua, mas assim que estacionamos na altura, passamos a nos acostumar com nossas potencialidades, só depois vamos nos surpreender com as rugas, cabelos brancos e otras cositas más. Acostumamo-nos tão rápido com a  nossa habilidade para fazer contas, com a memória e tantas outras, que nos parece que nascemos com elas. E foi um longo processo, de gatinhar para andar, comer sozinho, falar então, nem se diga. Aprender a linguagem, sem dúvida, é um dos grandes desafios para o cérebro e, sem ela, não há possibilidade de nos tornarmos humanos.

Há muito por fazer para cada novo serzinho se tornar humano, pois chegamos totalmente incompletos. Assistir a transformação se processando a partir do que os estímulos vão provocando permite a compreensão de que nada chega pronto, havendo muitas possibilidades, o futuro pode revelar um físico, um escritor ou um exímio jogador de basquete, mas os talentos que o adulto mostrar, estão diretamente ligados aos estímulos que a criança encontrou e ao mundo que a recebeu. Daí a importância da sociedade olhar para todos os pequeninos.

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O voo da tarde

A arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as artes escreve Jung. O nascimento marca o início da vida, o bebê, paulatinamente, será obrigado a conquistar autonomia e crescer. No percurso, vai adquirir músculos, altura e consciência, a grande ferramenta da espécie. Na caminhada, o indivíduo, com mais ou menos dificuldades se esforça para tomar as rédeas de sua vida, quando consegue, estuda, trabalha, travando lutas para conquistar uma posição social, construir uma carreira e/ou uma família.

Em certo momento, depois de muito quebrar a cabeça, fazer horas extras, aguentar chefes e muitos sapos engolir, tudo leva a pensar que enfim se encontrou o “curso da vida”, pois esta parece encaminhada, eis que sem saber como, nem porque, nada agora parece ter sentido. Neste momento atordoante, as conquistas deixam de produzir alegria, aparecem saudades do que não se viveu, desejos loucos, devaneios. Fala-se em crise da meia idade, nome inapropriado, pois na verdade, é a vida que está no final do primeiro tempo. Nesta etapa, os filhos saem de casa, de repente, a casa fica vazia, por outro lado, os papéis com os pais se invertem, ou mesmo, ocorre a perda dos pais. Não raro, uma paixão fulminante leva um sujeito a largar a família para viver amores com uma jovem recém conhecida, ou uma mulher passa a buscar parceiros na academia ou a se comportar como as jovens da idade de sua filha. Trata-se de um período de limiar,  primeiro, ouve-se o badalo de um sino, há um desconforto com a vida quase imperceptível, depois advém uma urgência e, quando as badaladas não são ouvidas, instala-se a crise.

Jung compara as tensões e turbulência da adolescência às tensões no meio da vida. Agora a tensão está entre o modo de funcionamento conhecido -mesmo que recheado de problemas- e o desconhecido que assusta. Se, na adolescência, muitos evitavam a vida adulta, no meio da vida, procura-se evitar o amadurecimento necessário para viver o segundo tempo da jornada. Repete-se a resistência, assim como o indivíduo preso à infância recua apavorado diante da incógnita do mundo e da existência humana, também o adulto recua assustado diante do que precisa fazer. Talvez com receio das perdas por vir e, certamente, de deixar para trás alguma coisa muito preciosa: o passado, aqueles anos moços. Anos idealizados, sem dúvida, mas a memória retém o que quer, da forma que se lhe apraz, na memória tudo pode ser lindo, cheiroso e gostoso.

Muitos fazem ouvidos moucos e formulam pensamentos para se enganar: “o emprego não é tão ruim”, “estou ganhando bem, para quê sair?”, “tudo ficará bem com os netos”, “ só preciso de uma plástica para me sentir bem”.

O meio da vida apresenta questões e desafios de uma nova etapa que se aproxima, no entanto, chega-se mal preparado para a segunda metade da vida e, o pior, damos esse passo, sob a falsa suposição de que nossas verdades continuarão como dantes. Muitos ficam perseguindo metas antigas, sem perceber que a configuração mudou. Não podemos viver a tarde de nossas vida segundo o programa da manhã, escreve Jung, porque aquilo que era muito na manhã,  será pouco na tarde e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer.

O momento exige um olhar para o interior, um balanço e um apaziguamento com o passado. Na caminhada, há perdas, de amores e amizades, da inocência, da beleza, para citar algumas. Há sonhos não vividos, outros que se converteram em pesadelos, o príncipe que virou um sapo, como cantou Cássia Eller. Não raro, o próprio indivíduo se perdeu nas tramas da vida e retomar o fio da meada parece uma missão impossível, daí a angústia.

O momento exige uma busca da verdade da alma, recuperar enquanto há tempo, aspectos que ficaram para trás. Alguns têm medo de suas sombras, outros têm medo da própria luz, daquilo que era tão bacana, mas que se abriu mão. A sombra precisa ser vista e integrada para deixar de assombrar e os talentos precisam ser reconhecidos para darmos um novo sentido ao segundo tempo da jornada.

Quando a crise se instala, parece-nos que alguma coisa saiu do controle, pelo contrário, é a alma querendo assumir o controle, mostrando que nossa vida precisa de alguns “ajustes” para o melhor de nós se libertar e voar.

The Dark Hedges, Irlanda

 

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As surpresas de uma brincadeira de verão

Nestes dias de calor, me distraí observando alguns garotos em uma piscina em meio a uma sonora brincadeira. Os rapazes de diversas idades, alguns, quase adolescentes, outros ainda meninos, brincavam de “terrorista”. No faz-de-conta, um deles tornava-se o “terrorista” que precisava ser caçado pelo grupo, ao ser capturado, acabava lançado à água. Tratava-se de uma mistura contemporânea do antigo mocinho contra o bandido com filmes de piratas. Certamente, os gritos chegavam ao outro lado da rua:

– Pega! Tá fugindo! Canalha!

– Nãaaao!

Havia resistência, eles lutavam, era um tal de puxa pra lá e pra cá que cada terrorista-mirim caía na água todo esgarçado. Nisso um garoto magrinho, dos menores, recusou-se a continuar, o mais velho ficou de pé e falou:

– Você não pode sair! É contra as regras! Você tem que seguir como todo mundo!

-Não,  nãaaaaao quero mais brincar! -Respondeu o menor.

O mais velho insistia em tom alto e firme, no entanto, o garoto não cedeu, deitou na espreguiçadeira, fechando os olhos a tomar sol.

– Não!

Nem o discurso da regra, nem a autoridade da idade ou o temor da força -que não foi usada-haviam funcionado, restou ao colega dar de ombros, a brincadeira cessou, após alguns minutos todos juntos passaram a brincar de outra coisa.

Fiquei admirada com a capacidade do garoto dizer “não” e depois não se intimidar com a pressão do colega, correndo o risco, entre outros, de ficar de fora da turma. Capacidade que muitas pessoas de diversas idades não têm, enfrentam maus bocados e sofrem caladas. Dizer “não” é difícil, quem diz passa a ser “o” chato, algo que ninguém quer, exige discernimento e autoconfiança, pois requer perceber que algo não está nada legal, bem como ter força para aguentar o tranco.

O interessante é que colocar este limite comporta aprendizagens bacanas para todas as partes, para um que sua vontade pode ser respeitada pelos pares e, de quebra, vai construindo sua autoconfiança, para o outro, a conviver com o dissenso e a respeitar o outro. Assim, no conflito e superando-o aprendem todos. Aprendizagem importante em qualquer época da vida.

Gostei de ver essa garotada.

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Relatos de Timbuktu

Na semana passada assisti a dois filmes que vale a pena comentar, pois fazia tempo que não saía tão pensativa do cinema.

Relatos Selvagens, dirigida por Damián Szifron, mostra, em seis histórias passadas na Argentina, a barbárie de nossas relações em um mundo que se pretende civilizado. Traz  à tona sentimentos do sujeito colocado no olho do furacão, mostrando-o sucumbindo a suas paixões, cólera, sexo, arrogância, dinheiro. Tem sido bastante comentado, contudo não é um filme regular, algumas tramas são melhores que outras, uma delas é a reprodução latina de Um dia de fúria, mas ascendem-se as luzes e estamos com um embrulho no estômago, pois não vemos saída, os nossos baixos instintos ainda dominam, sob o nosso verniz de civilização.

A histórica cidade de Timbuktu, fundada nos século V d. C., foi um dinâmico entreposto comercial em meio às rotas de comércio trans-Saharianas, a partir do século XV, tornou-se um importante centro cultural islâmico no continente africano. Sua Universidade de Sankoré chegou a ter 25 mil alunos, produzindo um vasto conhecimento que ficou registrado na forma de manuscritos, escondidos pela população local, permanecendo durante séculos nas areias do deserto.

A produção francesa-mauritana Timbuktu, dirigida por Abderrahmane Sissako, um cineasta nascido na Mauritânia, por sua vez, traz a história da entrada de um grupo jihadista em uma vila tuaregue, no norte do Mali, anunciando uma tragédia. Homens de rosto encoberto e fuzis na mão, chegam vociferando as proibições via megafone em diversas línguas, porque eles desconhecem o idioma local: nada de música, nada de dança, nada de futebol, as mulheres devem cobrir mãos e pés e por aí vai. Colocam-se como portadores da lei, asseverando fazer a jihad, em nome de Alá, por sua vez, a população local, também islâmica, professa uma interpretação divergente da palavra do profeta, das formas de cultuá-lo e da própria vida, resistindo numa batalha desigual. Na trama, não há reducionismo, nem melodrama, mostram-se as incongruências e as guerras fora e dentro de cada sujeito.

Nestes tempos bicudos,  em que a guerra com sua barbárie não se limita aos fronts, estando por toda a parte,  Sissako em Timbuktu não nos deixa no abismo, oferece uma preciosa chave de entendimento quando um dos personagens diz “a minha Jihad é o meu aperfeiçoamento moral”, colocando-nos a questão, qual é a nossa cruzada mesmo? Lutamos contra o quê? Contra os deuses alheios ou contra as nossas intolerâncias e equívocos? Por que ficamos tentando impor a lei e a ordem aos outros? Não será porque o nosso pensamento e nosso coração andam bem desordenados?

Cinema excelente, na forma e conteúdo e um alento nestes dias em que a sabedoria escasseia.

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A luz do Natal

O nacimento na Igreja do Arcanjo, na região de Trodos, Chipre. O conjunto de 10 igrejas remonta ao século XI

O Natal chegou, momento de alegria, felicidade, compartilhamento de mesas fartas e presentes para celebrar o amor. Bacana.

Se por um lado, o Natal nas propagandas está repleto de gente sorrindo, nas celebrações de fim de ano, a data desperta, no mínimo, sentimentos ambíguos. O Natal está associado a presentes, à ceia familiar, mas e se nossa família não é como a da propaganda? E se os tios encontram sempre algo chato para perguntar? Vestibular, casamento, filhos ou qualquer tema sensível?

Na infância, o Natal comporta uma magia, luzes coloridas, o velhinho simpático que chega de trenó trazendo presentes, ao lado da árvore aparece a imagem de um menino que nasce em uma manjedoura, filho de Maria e José.

Quando nos contam que o Papai Noel não existe, a realidade desaba sobre nossas cabeças. Passam os anos, vemos que os beijos e as palavras de certas figuras familiares podem não ser sinceros, algumas pessoas queridas se vão e o Natal torna-se uma festa vazia, cheia de obrigatoriedades -até de estar feliz-, em um momento que estamos todos cansados, pois é fim de ano. Ao nos tornarmos adultos, somos levados a esquecer a magia, coisa de crianças, dizem-nos. O que celebramos nesta data, mesmo?

O significado do Natal anda longe de nossas referências, quase não há presépios nas ruas. Em um mundo desencantado, as narrativas da tradição parecem conversas de velhas carolas, perderam seu valor entre homens e mulheres que se professam modernos, não admira que a celebração natalina esteja reduzida quase que somente à obrigatoriedade da reunião familiar. Inclusive muitos preferem a festa da virada, pois tem sentido despedir o ano velho e saudar a chegada do novo.

Entre os antigos, antes mesmo do judaísmo e do cristianismo, no período, celebrava-se o renascimento da luz, após a escuridão do inverno, no hemisfério norte. Eu gosto do mistério da luz que vêm depois da escuridão, quem passou por uma nebulosa, sabe da importância de se enxergar a luz.

Ao racionalizar o mundo, despovoamos o universo do mistério e banimos diversos rituais, seja para fertilizar a terra, germinar a semente, de colheita ou da poda. Ao reduzi-los a uma visão mítica do mundo nos esquecemos que eles pontuam os ciclos da vida. A primazia da racionalidade,  para muitas gerações, esvaziou a própria vida de significado, ao se desvencilhar do sentido dado pelas narrativas das diversas tradições.

Gosto dos rituais, pois aprendi que eles nos relembram que a vida é circular e cíclica, bem como de coisas importantes, das chegadas e partidas, ajudando nas transições e passagens. Longe de acreditar que esta visão é  verdade universal, mas para mim faz sentido.

O nascimento de Jesus, o tão esperado Filho de Deus que se faz carne, apresenta-se como uma grande data na tradição  cristã da qual somos herdeiros. Poucos sabem que a figura de Jesus inaugura uma nova forma de pensar e se relacionar com o divino, Deus torna-se o amor, deixa de ser a transcrição da lei. Essa nova figuração me parece importante, pois o amor é uma experiência única e irresistível, até para os mais racionais, expressão da nossa divina humanidade.

Neste Natal, aproveite, celebre a vida contida em cada nascimento, conecte no amor que você sente por todos os seus e encante uma criança, como aquela que você um dia foi.

Feliz Natal!

 

Dirck Barendsz, 1565, Igreja de Janskerk

 

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Você gosta do que faz?

“Você gosta do que faz?”, perguntou-me uma aluna nestes dias. Parei um segundo para pensar. Revisitei o que faço, preparar e dar aulas,  corrigir provas, semanalmente, avaliar trabalhos e dar retorno aos alunos, que, nada raro, não gostam das minhas observações no texto,  prefeririam que eu lhes dissesse um tranquilizador “tudo certo”, algo que  insisto em não dizer, se não acredito, em um processo que parece não ter fim.

“Sim, bastante”, foi a resposta, posso dizer que tenho prazer no que faço.

Não consigo me imaginar passar horas a fio em um trabalho que não me proporcionasse prazer. Em todas as profissões encontram-se os “ossos do ofício”, a de professor tem muitos,  principalmente neste mundo em que as pessoas acham que só sentar na cadeira  (e olhe lá)  já dá acesso ao conhecimento,  quando não ao diploma; em que o corpo se destaca em lugar do intelecto;  em que as mensagens pipocando no celular parecem muito mais urgentes do que estudar autores que morreram há 100, 200 quando não 2 mil anos. Há momentos que parece uma luta inglória.

Mas perceber a evolução de muitos alunos dá prazer, no fim, encontrar um desenvolvimento ou uma produção que surpreende faz valer a pena.

Com isto em mente percebi que é uma pergunta que toda pessoa adulta deveria se fazer. O que você faz te dá prazer?

O retrato de Dorian Grey, uma imagem da adaptação de 1945

Sei que alguns responderão, “eu, prazer? Nem sei o que é isso? Eu vivo para o trabalho”.

O gosto pelo que se faz é vital para a alma, do contrário fica só um carregar de pedras e engolir sapos diário. Trabalho não é sofrimento, não deve ser, pelo menos, experimentar alguma satisfação nessa área e por que não dizer até instantes de gozo, torna-se fundamental para se ter uma mente saudável. O prazer não pode ser apenas coisa de fim de semana, nem pode só ficar naqueles minutos de êxtase.

A vida sem prazer fica insossa, entra no automático. O autômato, aquele ser que perdeu a sua alma, pois nem sabe mais onde ela está, repete diariamente sua rotina e se deprime só de escutar o som do fantástico no domingão.

Às vezes, fazemos aquelas permutas de Dorian Grey, do romance de Oscar Wilde, minha vitalidade por  uns cobres e ficamos presos nessa teia, não é à toa que tantas pessoas chegam em casa e precisam beber alguma coisa, fumar outra, ingerem remédios, se entregam ao sexo compulsivo sem proteção, enchem a cara de alguma forma buscando um naco de prazer.

“Onde está o seu prazer?” não é uma pergunta fácil,  pois nos questiona as nossas escolhas e respondê-la honestamente implica um novo traçado da rota; sair da zona de conforto dá trabalho e a gente vai se enganando que está tudo bem. A motivação, a energia que motiva a ação se esvaiu.

Ter prazer na vida não é bobagem,  nem é pecado, torna-se até necessário para que as doenças não se instalem, pois trata-se de nosso alimento diário, combustível necessário para a nossa jornada, sem isso, um dia o carro engasga  ou para.

De chirico, Meia noite sob o sol

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Nos giros da roda da vida – uma homenagem àqueles que se foram

pai clau euHá tarefas na vida que jamais imaginamos que vamos a desempenhar, nem queremos pensar nisso, sem sabermos como, um dia estamos com a missão nas mãos.

A roda da vida gira, imperceptivelmente, na maior parte do tempo, em outras o giro é brusco, como a dizer:  Terminou aqui.

Nestes dias de experiências familiares fortes, começamos com a minha irmã a dura experiência de fechar as portas da casa de nossos pais. Vender os móveis,  doar roupas e utensílios,  jogar fora o que não presta. Passar para frente uma casa que abrigou nossas vidas por quase 25 anos. Até o pó da casa tem a nossa história familiar, nossas  lágrimas, nossas risadas, nossas dores, pensamentos, esperanças e projetos.

Ao limpar, repassamos cada canto, cada folha de papel, objetos cotidianos,  bem como aqueles perdidos lá no fundo do baú de nossas lembranças,  aquelas que imaginávamos perdidas para sempre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo percurso me vi  confrontando aquilo que imaginaram para nós principalmente os pais -que sempre têm muitas ideias para nós…-  com aquilo que fizemos… é bom poder passar a limpo e jogar fora o que não foi.

O momento permite revisitar aquela criança que fomos, pequena, medrosa, frágil, talvez sentir que ela ainda está lá escondida dentro do armário e possamos dizer-lhe:

– Bom te ver, tudo certo. Você era uma menina,  mas foi muito forte e corajosa! Já fez tanta coisa que sequer imaginava!!! Olhe só! !

Como se a vida estivesse a nos colocar uma oportunidade para limpar dores e ressignificar visões, ideias e pensamentos.

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O aprendizado do momento é perceber que tudo um dia chega ao seu fim… A alegria e o sofrimento, até o que parece mais sólido se esvai, parafraseando o filósofo.  No fim, só restam as memórias.

O momento parece estar a dizer-nos, aproveite a vida, lembre que a semente morre para renascer. A vida caminha em ciclos. Nossos avôs  deixaram suas sementes,  nossos pais, e estes a nós, cabe a nós seguir a senda e ir semeando coisas boas.

Papai gostava bastante de plantar, na sua horta no pequeno terraço tinha morangos que saía distribuindo pela vizinhança, como me lembrou Anita, a vizinha do apartamento de cima, mas acho mesmo que ele gostava de árvores e vê-las crescer… Fico muito contente que nos últimos anos ele pode plantar várias, cerejeiras, pessegueiros, atrapalhando o jardim da minha irmã, mas ele era assim mesmo…famila pai

pai + orlando antiga

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Os pharmacons da medicina do sonhar

Nestes dias uma amiga sonhou  com uma aranha que lançava um veneno a um urso, ele ficava com muitas bolhas, mas sobrevivia, depois via muitas aranhinhas, não lembro o que seguia. Estas visões a deixavam surpresa com a capacidade da mente produzir visões durante o sono.

No mundo grego antigo, phármakon definia qualquer substância capaz de atuar no organismo, seja em sentido benéfico ou maléfico. Por isso, tanto designava remédio como veneno. E o pharmakeús era um misto de preparador de remédios, mágico e envenenador. Os gregos viam uma irmandade entre veneno e remédio, talvez porque o que não mata fortalece. O termo também nos lembra que na Hélade, há milênios, já se percebia a ambiguidade e a contradição presente na natureza e na vida.

Os pharmacon representam uma visão da medicina ancestral, numa reminiscência desse termo, encontramos a palavra farmácia, o lugar onde contemporaneamente buscamos a cura através de remédios.

Cabe lembrar que durante milênios o saber das plantas foi utilizado e ficou guardado pelas mulheres. Conhecimento este que permitia a cura de muitas enfermidades, mas como tudo o que não se explica, assusta, as mulheres ganharam o estigma de feiticeiras e bruxas.

Por sua vez, a aranha tece, tal como a própria vida é tecida. Um ofício ancestral das mulheres é o tecer, cabe a elas, fio a fio, ponto a ponto, tecer a trama dos tecidos seja de roupas, mantas ou do próprio rebento. A própria tecelagem representa o acalento e a  proteção, funções primordiais do feminino.

Aranha também me lembra a dança da tarântula. Na região do Mediterrâneo, onde hoje vemos o sul da Itália, há mais de dois mil anos, as meninas e jovens, muitas vezes “enlouquecidas” repentinamente eram vistas pelo clã como picadas pela tarântula. Na verdade, a loucura aparecia após sofrerem alguma violência como o abuso sexual, cometido por membros das próprias famílias, que não podia ser denunciado. A irmandade feminina fazia o ritual da tarântula, uma dança só de mulheres, de cura, para sanar e limpar as dores. Eis a origem da tarantela. A dança tem grande poder de cura, quem experimenta sabe como o movimento ao som dos tambores e acordes pode lavar e sanar a alma.

Como andamos desvinculados da natureza assustamo-nos, às vezes, com as imagens que os nossos sonhos trazem, contudo não há animal bom, nem ruim, são representações de ideias, sentimentos  ou forças presentes em conversa ou em conflito no nosso interior. Ideias do mar profundo que buscam sair à luz e nos ajudar para vivermos uma vida melhor do que o que estamos fazendo.

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Uma armadilha na roda viva da vida

Quando a gente olha para o mundo, é fácil notar que certos eventos cegam, principalmente as paixões, seja o amor ou a raiva, contudo tenho percebido que o volume imanejável de trabalho, tarefas e demandas cotidianas também pode nos levar à perda da cabeça.

Nós andamos trabalhando alucinadamente, as pendências se avolumam e sem sabermos como estamos numa roda vida. E aí se instaura o cansaço.

A exaustão é uma péssima companhia, nos faz perder o humor, o eixo e até o juízo. Leva-nos fazer coisas que não faríamos se estivéssemos atentos e alinhados com aquilo que há de mais verdadeiro e íntegro em nós mesmos; a gente pensa que está no controle, contudo não diferencia mais o joio do trigo, não consegue separar aquilo que é importante e do que não é. Além disso, o cansaço nos faz dizer coisas e até magoar pessoas que gostamos. A exaustão nos faz cair nas armadilhas da vida, como ouvir aqueles que estão à espreita para causar cizânia. Se estivéssemos em pleno uso do juízo não o faríamos…

E a gente nem se dá conta de tão cego que está. Muitos nunca se darão conta, pois o orgulho não permite, o ego não gosta de ver que fez bobagem e se defende recriminando o outro. Quem sofre mais são as pessoas que estão mais próximas, não raro a gente faz isso com os nossos amores companheiros e começa um bate boca: “eu fiz tal coisa, porque você fez isso primeiro…”

Nós, mulheres, somos particularmente tentadas a dar conta do mundo, vivemos em uma maratona, achamos que o mundo vai cair se não estivermos na função, não atentamos para o momento de diminuir o ritmo ou mudar a direção. Às vezes, será a doença que mostra que a coisa não vai bem e nos muda abruptamente o rumo.

Já vi muita gente boa perder as rédeas da própria vida.  Ao escrever isso, com pesar, me lembrei de tantas pessoas queridas que se foram, porque em meio às urgências do nosso dia a dia e à nebulosa da exaustão não perceberam que elas precisavam cuidar delas mesmas e se nutrir nas suas relações …

Um desafio permanente é evitar a cegueira, esta tem inúmeras formas, mas vale aquela velha frase, se a coisa não está bem, pare e pense. A vida não é para se ficar na função, mas para ser vivida. Já diziam os gregos, tudo na vida precisa equilíbrio.

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A maior batalha

Foto  mostra caminhão do Exército taleban parado em frente à maior estátua do Buda em Bamiyan, antiga rota da seda, hoje, Afeganistão. O monumento que remontava ao século II d.C.  foi dinamitado por ordem do regime Taleban em 2 de março de 2001

Todos dizem querer a paz no mundo, mas a paz habita o nosso coração? Todos querem respeito, mas eu respeito o outro? Eu escuto suas ideias? Eu o olho com simpatia? Vejo o que ele me diz ou só quero ser visto, escutado e admirado?

Jogar bombas,  incendiar bancos, quebrar concessionárias não vai melhorar o mundo, o mundo só vai melhorar  quando cada um tiver consciência dos seus atos e compromisso com a verdade e a justiça,  não fizer corpo mole e compactuar com o arbitrário, nem fechar os ouvidos à barbárie.

*

Uma árvore pode demorar séculos para crescer e ser derrubada em poucas horas.

Picaretas, mísseis e balas de canhão já abateram aviões, destruíram templos e saberes milenários e até hoje destroem escolas, creches, hospitais e matam milhares de inocentes.

Fumaça após um ataque israelense na Faixa de Gaza. O confronto nas últimas 2 semana, já matou mais de mil palestinos, a maioria civis, e 46 isralenses (Foto: Ariel Schalit/AP, fonte G1)

Uma saborosa relação de anos, um grande amor ou amizade, pode acabar por alguns segundos de desvario.

Se já é muito fácil falar bobagens cara a cara, mais ainda, no tempo da resposta instantânea da internet. Pela boca e pelas telas dos nossos iphones, sem nos darmos conta, ventilamos os nossos demônios.

Como viver é aprender, mais do que nunca vale a antiga receita das avós:

– Atenção constante, quem sabe por onde anda, inclusive por onde andam seus pensamentos, não pisa em falso, nem se ilude com ouro de tolo.

– Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Respire e conte até 20, 40, 100 se for o caso.

– E o mais importante, identificar quem está no comando, seu amor ou sua raiva? O respeito ou a intolerância?  O orgulho, a vaidade ou a luz da compreensão e da sabedoria?

Protesto contra a morte Wesley Andrade que aos 11 anos morreu atingido por uma bala perdida dentro de sua escola, na zona norte do Rio (Foto: Severino Silva / O Dia)

É muito fácil deturpar uma opinião.

É muito fácil magoar uma pessoa querida.

É muito fácil perder a cabeça.

É muito fácil entristecer um coração.

Também é muito fácil ganhar uma cicatriz.

Árduo, mas regenerador, torna-se cultivar a compreensão,  o respeito a todos os seres e o compromisso e a atitude para tornar as nossas relações e o nosso entorno melhores, nem que seja um bocadinho.

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As lições de um 7X1

Brasil x México (17.jun.2014)

A derrota de ontem não foi uma derrota comum, uma seleção que ficou entre as quatro melhores do mundo perdeu de lavada. Foi tão surreal que os vencedores nem puderam curtir a vitória em público, eles ficaram contidos, buscando não ferir ainda mais os brios do anfitrião. Penso até que eles teriam preferido vencer suando a camisa, no sofrimento.

O fato do Brasil sediar a competição mundial, pelo que se viu, trouxe uma pressão extra para os jogadores: estes viram-se obrigados a vencer o torneio. Do técnico, à presidenta, passando pelos cartolas CBF, todos exigiam da moçada, a taça. Alegria para o povo brasileiro? Sem dúvida, e cada um querendo o seu filão de troco.

A escalação reunia 23 feras, presumo eu, talentos espalhados pelo mundo, jogando em diversos esquadrões, reunidos um mês antes do torneio, para se tornarem um time. Tarefa difícil. A esperança, tal como em outros carnavais, recaía na ginga brasileira e nos talentos individuais, outrora Zico e Ronaldo, em 2014, Neymar.

Neymar, este jovem excepcional de 22 anos, cara de moleque maroto, era a maior esperança do time. Numa jogada em campo, sofre uma lesão; justamente ele, que levava o time nas costas, fraturou uma costela. Seria coincidência? Seus colegas prometeram jogar na semifinal pelo ausente, na dor o time cresce, imaginou-se; na sua falta, contudo, ficou a descoberto que não havia time preparado para tal desafio.

Uma disputa mundial reúne os grandes do esporte, acredita-se, que sabem não apenas seu ofício, mas também que ao entrar na arena, estão num jogo que, se não vale a própria vida, como em outros momentos da história universal, vale muito. No campo, trava-se uma luta e espera-se jogadores prontos para tal, para dar o sangue e porrada também -por isso há árbitros para  civilizar a disputa.

Ontem, causou espanto a inação de toda uma equipe, o próprio técnico reconheceu o apagão geral. Mas os sinais já apareciam no percurso.

Hoje, recordo certas cenas estranhas, começando pela saída do túnel, o momento que deveria ser a gloriosa entrada da seleção em campo, os  jogadores com a mão no ombro do colega, mais pareciam uma fila de crianças entrando na sala de aula. Depois, durante do hino, os jogadores de braços dados, numa posição de irmandade, agora distante de demonstrar  orgulho e respeito por um símbolo pátrio. Estavam abraçados ou se segurando? Nada apontava para a força do guerreiro.

A entrada na disputa contra a Colômbia

Foi muita pressão para um grupo que não chegou a se conformar como tal? Com certeza, pois deixaram até de fazer o que sabem: jogar. Viu-se o que são, jovens ainda imaturos, sem preparação para enfrentar a barra de uma Alemanha e do próprio Brasil. Eles têm muita vida e carreira pela frente, espero que compreendam o peso excessivo colocado em suas costas e dêem a volta por cima.

Se triste é o país que precisa de heróis, mais ainda perceber que a honra nacional ainda está concentrada no futebol. Se a seleção brasileira (ou o time do coração) ganha nossa autoestima vai às alturas e erguemos os jogadores à categoria dos heróis, se o time perde, nos sentimos miseráveis. Todas as fichas apostadas em um único jogo, catástrofe previsível.

O baque traz boas lições, ninguém gosta do sofrimento, contudo ele é vital para o crescimento, para aquele que se dispõe a olhar a sua dor e a dar um jeito nela. Ontem, a Alemanha venceu, mas em 2006, a seleção foi derrotada numa copa do mundo, disputada em casa. Para dar a volta por cima, os alemães decidiram investir pesado das bases aos treinadores. A fórmula para um bom resultado é conhecida, investimento e muito trabalho. O Brasil poderia seguir o exemplo alemão para se recuperar do apagão que domina do futebol ao setor energético, passando por hospitais e escolas públicas. Conquistando a glória de uma vida digna para todos os escalões, não precisaríamos buscar heróis de plantão.

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A pergunta do amor

O encontro do amor talvez seja o maior desejo de homens e mulheres, quem já o viveu sabe que ao encontrá-lo somos mais do que duas unidades que se fundem e se tornam uma terceira, surge algo muito maior. Agora, é preciso dizer, estar num relacionamento é aceitar um dos maiores desafios do universo. Tendo isto em mente, andei pensando no que seria necessário para fortalecer o amor e os relacionamentos.

Penso que cada membro de um casal deveria fazer uma pergunta aos seus botões de vez em quando, principalmente, em momentos chaves, quando se quer muuuuito casar, quando algo parece não andar como a gente quer, ou quando eu acho que as mulheres são de Marte e os homens de Vênus, ou talvez o contrário…

A pergunta do milhão: o que eu espero do outro?

Espero que ele cuide de mim? Que me proteja? Que me alivie das agruras do dia a dia? Para não dizer que pague minhas contas…

Desejo que ele/a me ame e que esse amor me complete?

Desejo que ele/a preencha meu vazio existencial? Minha fome de vida?

Desejo que ele/a faça eu me sentir nas nuvens?

Se ele/a não me amar não sou nada? Penso que ele/a me amando, tenho motivos para me amar? Ou seja, desejo que seu amor melhore minha autoestima?

Se estas forem as respostas, cada um precisaria fazer uma nova pergunta – esta agora vale mais do que bilhões, vale o sentido da própria existência-, porque eu não consigo encontrar isso em mim? Por que não consigo cuidar de mim, por que não consigo lidar com os desafios do dia a dia, por que não consigo encontrar o meu próprio projeto de vida, por que não me sinto bem comigo mesmo e fico esperando encontrar isso no parceiro…

A gente fica cobrando, sentindo falta de uma coisa que não tem, mas será que é dever do outro provê-la?

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A grande mãe

A genética, há algumas décadas, desvendou a parte biológica da concepção, mostrando o longo e cheio de obstáculos percurso que o espermatozóide realiza à procura de um óvulo para fecundar, sendo que boa parte das vezes eles saem da toca e nada há do outro lado esperando.

Certo dia, algo acontece e os dois gametas se encontram, dando início ao mistério de uma única célula se dividindo para formar um novo serzinho. Procedimento complexo, na divisão formam-se tecidos com funções tão diferentes como a massa cerebral e o estômago. A natureza desenvolveu este método para sua criação.

A mulher empresta seu ventre para esta divina criação, em seu vaso-útero durante nove meses esta grande alquimia da vida vai se construindo. Nove meses de gestação, nove meses em que o bebê tem alimento, calor, proteção, um espaço só dele, bem a maioria, pois alguns chegam ao pares ou em trios. Até que esse espaço fica apertado, não comportando mais a expansão desta criatura, tal como a lagarta precisa se livrar do casulo para virar borboleta, o bebê precisa sair e, quando ocorre de forma natural, ele o faz apenas com a ajuda da mãe, o médico ou a parteira ficam só na supervisão.

Mãe e filha. Tribo Araweté (conhecida também como Bide) – Pará

Para o bebê trata-se de um exercício instintivo de luta pela sobrevivência, mas também de confiança. Nascer é uma entrada num universo desconhecido, sublime, nos liga ao divino que fornece a centelha da vida.

Na nossa espécie, os bebês não nascem prontos, muito pelo contrário,  chegam precisando simplesmente tudo, sem sequer identificar o que precisam, na total dependência de sua mãe que deve descobrir se ele tem fome, sede, frio ou doenças e proteger de todas as formas este serzinho tão vulnerável.

E isso é só o começo da história, pois o rebento precisa receber muitos ensinamentos, desde fazer xixi no piniquinho até matemática,  passando pela linguagem e pela distinção do certo do errado. Em suma, todos os elementos da cultura, suas ferramentas para a vida e para seu aperfeiçoamento moral. A mãe tem um trabalho diário de formiguinha, o pai também, é preciso dizer. Só no amor para dar conta do recado…

A maternidade inaugura uma relação para toda vida, o filho vai lhe fazer rir e chorar, pode rodar o mundo ou rodar no mundo, ele será sempre seu filho. E a sabedoria da grande mãe é continente, como a terra que espera o tempo da árvore para dar flores e frutos e sempre a tudo acolhe.

Parabéns a todas as mães do mundo e principalmente à minha, dona Patrícia, a minha mãe.

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A medicina do sonhar

Neste papo delicioso sobre os sonhos Rô, uma querida e sintonizada amiga que trabalha em algumas rodas de cura, adicionou alguns elementos. Diz ela:

Também sou uma sonhadora e me instiga muito perceber que de tempos em tempos , conforme as mudanças ou as necessidades do nosso grupo espiritual,vem uma onda de sonhos refletindo este nosso inconsciente coletivo e que, por vezes, aprofundamento das instruções para estudos individuais ou para o grupo ou mesmo irradiam em aberturas de novos ciclos. Digo isso para lembrar no âmbito do grupo, pra não dizer do pessoal. Sinto mágico, misterioso e de muito poder, esta “medicina do sonhar””.

Asclépio, o curador

Essas palavras me lembraram da importância do sonho para muitas tradições. Entre os gregos havia um grande cidade de cura, Epidauro, lá praticava-se a nooterapia, a cura pela mente. “Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado. E pureza significa ter pensamentos sadios.” Assim se lia logo na entrada.

Durante a estadia, os sacerdotes prestavam especial atenção aos sonhos do paciente, principalmente quando eles dormiam no templo de Asclépio, o patrono de Epidauro, os sonhos dessas noites trariam indicações do Astral das partes enfermas e  também dos instrumentos de cura. Asclépio era Filho de  Apolo, o deus sol, irmão gêmeo de Ártemis, a deusa lunar, um grande curador na vida adulta. Epidauro era um luminoso centro espiritual e cultural, com espaço para as artes e práticas físicas, funcionou durante vários séculos, Hipócrates, o pai da medicina, estudou nele.

Os Mapuche são os povos originários do sul do Chile

Para não ficar no passado, lembrei que entre os mapuche, populações nativas do Chile, ainda hoje, o sonho está incorporado à sua vida cotidiana. Eles acreditam que o sonho se trata de uma viagem que a alma faz quando a consciência se retira e a pessoa dorme. Nesta viagem, ela toma contato com outras dimensões e visita os mundos de cima, de baixo, da “esquerda”, da “direita”. Visualizam suas questões e suas formas de cura. Sei que quando eles precisam tomar decisões utilizam o método de interpretar os sonhos dos membros da comunidade.

E  tenho percebido ouvindo os sonhos de toda família que os nossos sonhos se conversam. Não é fascinante? Nesta viagem da alma, ela passearia por diversos planos, tomando contatos com as questões não vistas durante a vigília e haveria um nível pessoal, do casal, familiar, da coletividade…

Bem, pelo menos, essas foram as minhas divagações…

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Conversas com amigos sonhadores

Salvador Dali, O sono, 1937

Entre os amigos sonhadores, que são muitos, o post suscitou preciosas reflexões, o Carone comentou que “O fato de que no sonho todos os personagens se referem a nós mesmos é algo difícil de se reconhecer – cada um uma sub-personalidade querendo emergir de nossas sombras para a luz. É mais fácil projetá-los nos outros e raciocinar em termos de premonição ou coisa que o valha”.

Você tem razão, mas fico pensando que como certas verdades são difíceis, as pessoas não as enxergam nelas, pois a maior parte dos humanos constrói uma imagem bacana de si mesmo e buscamos esquecer os conflitos que aparecem, mas é um tema sensível, por isso aparece no incômodo que o comportamento no outro provoca em nós.

Gala, a esposa de Dali, aparece em boa parte de sua obra, como neste quadro “Galatea das esferas”

Agora esse conteúdo que emerge de nossas sombras –e para Jung sombras  significam o que  não é consciente- tem um grande potencial, pois é o que pede, às vezes a gritos, uma transformação, seja ela uma mudança de comportamento, parceiros, quando não de área, entre outros. Em suma, ver nossas sombras nos permitiria não tropeçar eternamente na mesma pedra e ficar reclamando.

A Dani Smania escreveu:

“Sabe que já tive pelo menos três sonhos que aconteceram… A realidade não foi uma cópia perfeita dos sonhos, mas alguns itens de seu conteúdo foram muito idênticos. Uma vez vi um objeto em um sonho. Passaram umas duas semanas e lá estava ele… praticamente igualzinho. (…) Sei lá… Para mim sonhos são um grande mistério. Não consigo ter uma certeza absoluta quanto à compreensão de todas as suas funções no aparelho humano.”

Querida, é verdade, os sonhos, tal como a vida, são um grande mistério…

Quem quiser ler um post antigo pode visitar o “Sonhos as conversas com o nosso inconsciente”

https://ocladaslobas.wordpress.com/2012/10/23/sonhos-as-conversas-com-o-nosso-inconsciente/

 

Dali, Crianças Geopolíticas Assistindo ao Nascimento do Novo Homem, 1943

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“Ano novo, vida nova!”

Lembro que quando era jovem, chegava o fim de ano e com a minha mãe adorávamos ler o horóscopo, ver o que  ano entrante nos traria. Nas páginas das revistas encontrávamos coisas do tipo: Há boas oportunidades trabalhos entre julho e setembro; Vênus entra no seu signo em junho, quando você terá grandes chances de encontrar o seu amor; neste ano, preste atenção na saúde… Estou simplificando, mas era uma época em que eu ainda acreditava que o destino nos encontraria ali na próxima esquina.

Fim de ano em Copacabana, Rio de Janeiro

Naqueles anos, na noite da virada, com os amigos fazíamos inúmeras simpatias:  rosas debaixo do colchão para conseguir um amor, comer lentilhas e uvas para a prosperidade, um bilhete dentro do sapato para atrair dinheiro, dar a volta no quarteirão com uma mala para viajar… Queríamos tudo, afinal de contas, o futuro nos esperava.

Hoje, percebo que as pessoas constroem muitas expectativas para a virada do ano. Ano novo, vida nova! Será? Ao dar adeus ao ano que termina, desejamos nos despedir o chefe chato, do emprego maçante, da dor de cotovelo pelo amor que se foi, das notas ruins do filho na escola… enfim, de tudo o que não foi legal. Algumas pessoas gostariam que, de fato, a virada desse uma virada em suas vidas e os tirasse da mesmice.

Parece que desejamos um passe de mágica, tal como nos contos, ir dormir e acordar com o beijo de um príncipe.  Em lugar das dívidas, acordar com a conta cheia, encontrar filhos educados e ordeiros que preparam o café da manhã, em lugar dos bagunceiros e desbocados de todo dia.

Eu acredito na virada, mas hoje sei que não é o calendário, nem os astros, nem poções mágicas vendidas no mercado por diferentes preços, é a gente quem faz. Penso que a gente escolhe a direção e assim constrói o próprio caminho, o que nos prepara para a sorte que encontraremos na esquina, pois não adianta cruzar com o amor da vida se eu não souber reconhecê-lo ou não estiver preparada(o) para amar, nem sonhar com a prosperidade se eu fico sentadinho esperando  ela chegar…

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“A vida é um sonho…”

É o título de uma obra do escritor espanhol Calderón de la Barca, mas ouvi a frase nestes dias, dita por Oscar Niemeyer num documentário. Ele já bem velhinho contava sobre as coisas que gostava de fazer. Reunir-se com os amigos era uma delas, “fingimos que ainda somos jovens”, dizia ele.

Apesar de vivermos um tempo razoável e de nos acharmos muito espertos, não sabemos o que é a vida. Será um presente ou uma provação? Um jogo ou uma charada? Uma escola ou um hospital? Afinal, de sábio e de louco todo mundo tem um pouco, se diz por aí … Talvez tudo isso e mais um pouco.

Trata-se se de uma ilusão ou é real? Afinal, somos de carne e osso… Mesmo queimando nossos neurônios (e eles existem), não podemos chegar à resposta. O certo é que todo dia, ao acordamos, abrirmos os olhos e ao encontramos o nosso entorno conhecido, nos percebemos vivos, depois do banho, quando a sonolência se esvai, a gente sai para trabalhar e nem pensa mais nisso.

Se a vida é uma ilusão é uma ilusão cheia de encanto, não é à toa que desde a época de Ulisses, muitos se perdem nos encantos das sereias.

Se a vida for um filme, ele mistura ação, drama e até comédia.

Talvez a vida seja uma dança ou quem sabe um voo como o das borboletas.

Quem sabe, seja uma descida de montanhas repletas de neve num snowboard.

Quem sabe, seja uma grande viagem de navio, talvez numa jangada, sujeita a calmarias, balanços e tempestades. E nós, como marinheiros, vamos chegando a diferentes portos, fazendo entregas, encontrando amores, entrando em tretas, saindo delas ou fugindo com o barco a zarpar.

Rafting no rio Trancura em Pucon, Chile

Certamente o sentido da vida nos escapa e hoje creio que mais importante não é o que a mente nos diz, pois apesar de seus bilhões de neurônios, esta não alcança aquilo que sua lógica -que não ultrapassa o 2 + 2- não entende ou não vê.

Não sei se a vida dura um segundo ou uma eternidade, não sei se o que chamamos de vida é o todo ou apenas um fragmento. Como não sabemos nada, tudo é possível, tal como num conto chinês.  Creio que mais importante não é o que achamos, mas o saldo do que fizemos e sentimos ao longo da jornada.

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A ilusão do olhar

 A forma mais básica de experimentar e conhecer o mundo vem por meio dos sentidos e, de todos, a visão parece ser aquele que mais confiamos, como apontam muitas expressões: “ver para crer”, “olhos que não vêem, coração que não sente…” A visão nos dá uma sensação de domínio do espaço, de um controle da situação e nós confiamos nessa ferramenta como garantia de verdade de nossa experiência.

Embora a física nos conte que enxergamos apenas uma fração do real, uma porção do espectro de ondas da luz, mesmo assim nos fiamos na visão. E se o que a gente enxergar da realidade for uma parte muuuito pequena mesmo, qual será o grau de verdade da experiência, mas também da consciência que temos das coisas? Esta questão acompanha o ser humano.

bosforo turquia

Em Istambul, Turquia, o estreito de Bósforo

Nossa racionalidade desenvolveu os pensamentos lógico-dedutivos, base do desenvolvimento da ciência, que permitiu o conhecimento de inúmeras regras do funcionamento do mundo. Além disso, no ocidente somos herdeiros de uma era que pensou que a razão, esta luz natural, nos tornaria senhores da natureza e, claro, de nossa própria natureza.

Homens e mulheres, 500 anos atrás, viam morrer misteriosamente boa parte da população e só podiam pensar que se tratava de alguma praga divina. Hoje, sabemos que se bebemos da mesma água na qual jogamos as fezes, ficaremos doentes, ao longo de séculos, populações inteiras foram dizimadas sem entender o porquê. Hoje, o povo não mais procura o padre para apaziguar a ira divina, vai ao médico.

E a medicina caminhou por outros campos também, um médico vienense na virada do século XX, o doutor Freud, descobriu que a parte que temos consciência da mente é como se fosse a ponta de um iceberg: há um universo muito maior que fica submerso, ao qual não temos acesso, apenas por lapsos ou sonhos. A hipótese da existência do inconsciente explica porque fazemos certas coisas sendo que conscientemente queríamos fazer outras… sabemos que não podemos pronunciar certos nomes ou palavras em certos espaços ou na frente de certas pessoas e damos bolas fora!

Sinto que, neste mundo solar e belíssimo -onde as coisas parecem ter uma lógica ancorada nas relações de causa e efeito-, tudo contribui para a gente ter esta ilusão do controle, inclusive, a própria visão confabula para construir esta ilusão, até porque o desejo de controle é uma das questões do nosso ego. Certamente, precisamos ter controle no que fazemos e dizemos, ao ter raiva de alguém, não podemos pular no seu pescoço. Ocorre que boa parte das pessoas sequer se contém, pula no pescoço, mas quer controlar os demais…

 O controle reduz o medo do desconhecido, o desconhecido não apenas nos incomoda: nos assusta. Há um medo mítico de perder o próprio eu, mas o que não sabemos é que uma parte do desconhecido somos nós mesmos, o nosso inconsciente e, na verdade, por mais que desejemos controle, a vida nos surpreende, pois temos uma jornada que nos é desconhecida. Para começar, assim como chegamos, partiremos.

Gosto mais da palavra atenção. Atenção aos nossos pensamentos e sentimentos. Curiosidade e coragem não apenas para olhar, mas também para enxergar o que eles querem dizer. 

grecia rodes

Ilha de Rodes – Grécia

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Mulheres em marcha para mudar o mundo

Nesta semana, São Paulo sediou o 9º Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres realizado no Memorial da América Latina que terminou com o ato “Feminismo em Marcha para Mudar o Mundo” na avenida Paulista na tarde de ontem.

“Estamos em marcha para transformar a sociedade! Queremos acabar com o machismo e o capitalismo, que também é racista, lesbofóbico e depredador da natureza. Afirmamos as alternativas feministas construídas pelas mulheres em todo o  mundo! Defendemos uma nova sociedade, que reconheça o trabalho doméstico e de cuidados feito pelas mulheres e o compartilhe com os homens e com o Estado.” Lia-se na convocação.

Mulheres em marcha, SP 31 de agosto de 2013

Mulheres em marcha, SP 31 de agosto de 2013

As mulheres do século XXI devemos muito ao histórico movimento feminista, sem ele, muitas das relações que conhecemos de nosso mundo não existiriam, tenho dúvida se frequentaríamos os bancos universitários, ainda seríamos cidadãs de 2ª classe, o homem ainda seria chefe da família e, talvez, o pior, a violência no interior da família contra mulher ainda seria vista como natural, lembram-se do “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”?

Mas, sem dúvida, há muita coisa para mudar no mundo.

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O desafio de crescer e aprender

Uma amiga, companheira de caminhada, Simone, escreveu comentando o post “Histórias de um fim de semana na neve”:

“Uma metáfora de tantas outras ocasiões em que caímos e levantamos, né, nos esquecendo de que as quedas são oportunidades de aprender a reencontrar o eixo — na vida, na neve, na espiritualidade… Até vermos o quanto foi útil passar por aquilo: porque aí desfrutamos o prazer do aprendizado, o vento no rosto, o equilíbrio e o deslizar sobre montanhas.”

A gente cresce e esquece que  foi preciso engatinhar para aprender a andar e até levar alguns quantos tombos. Eu ainda me lembro do que foi aprender a andar de bicicleta! Entretanto, a memória apaga o processo e só registra o resultado, além disso, em muitos de nós há um eguinho que cresce um pouquinho e já se acha o rei da cocada preta. Inflação do ego diria o pessoal da psi.

A gente fica velha não quando tem idade, mas quando deixa de aprender novas coisas ou quando não quer expor que não sabe, com medo de perder a autoridade. E nisso vai perdendo os diversos prazeres da vida.

Vi nestes dias o filme “Um método perigoso”, sobre a relação entre Jung e Freud. Não é lá um grande filme, mas um certo momento Jung que contava seus sonhos para Freud pede para criador do método da psicanálise compartilhar um dos seus, Freud recusa dizendo algo como:

– Se eu contar vou perder a minha autoridade.
Grande receio de boa parte das pessoas a perda da autoridade. Não sabem que na busca de mantê-la a qualquer preço e no medo já se perde…

Este esquema apresenta alguns pontos dos dois autores. Jung tem uma vasta obra, não acredito que o Livro Vermelho seja o mais importante…

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Histórias de um fim de semana na neve

Em julho, estive nas Termas de Chillán uma estação de Sky, nas montanhas no sul do Chile, próximo à região onde nasci. De norte a sul, a cordilheira dos Andes está no horizonte, todos os dias o sol desponta  entre as montanhas, lá voltei a me sentir uma criança.

Na pista de Sky, jovens de todas as idades desciam com as suas roupas multicoloridas,  cortando o ar gelado do inverno,  serpenteando em meio às árvores pela neve branca. A temperatura mais parecia a de dentro do freezer, mas o clima era de uma praia fashion, o pessoal super descolado, divertindo-se esquiando ou com os snow boards, conversando, paquerando, enfim. Depois de passar um dia olhando, meu marido me puxou para  experimentar e lá fomos nós a esquiar. Bem, talvez seja muito dizer.

Alugamos a roupa, botas, esquis, eu já queria subir no teleférico,  mas o instrutor recomendou-nos começar pelo começo, aprender ficar em pé sem sair deslizando, a frear, o equilíbrio no solo deslizante, no “chiqueirinho” junto a todos os iniciantes. Aquilo que parece tão simples nos filmes, é um tanto mais complicado, só que quem entra na chuva é pra se molhar, quem vai para a neve precisa cair. Ouvimos algumas instruções, demos algumas deslizadas e já achamos que estava na hora de sair do cercadinho e nos arriscarmos na pista de categoria muy facil.

Foi um tal de cair e levantar,  cair novamente, levantar mais uma vez e outra vez até perder a conta. Me senti como as crianças quando dão seus primeiros passos, sei que a temperatura estava abaixo de zero, mas a gente suava.

O melhor da história é que sem saber como, a gente começa a se equilibrar e a curtir a brincadeira.

No vôo de volta a São Paulo,  na fila  de embarque, ao meu lado dois jovens  casais contavam suas experiências na neve, um deles não havia ficado mais de uma tarde, a garota dizia:

– Não dava para ficar em pé, cai tanto, me enchi, larguei o grupo e o professor, meu marido veio atrás de mim, no pacote estavam incluídos quatro dias de aula, eu não ia ficar lá caindo o tempo todo, fui embora…

neve 1 blogDe fato, para um adulto super acostumado a caminhar sem nem pensar sobre dois pés, ficar tombando não é muito agradável, trata-se mesmo de um grande desafio começar algo do zero. Agora, nesse exercício, recuperam-se  algumas singelas lembranças daqueles momentos dos nossos primeiros anos quando nada sabíamos, que ficaram perdidos em algum lugar da memória. Por exemplo, que do chão não se passa … que o tombo pode doer, mas fazendo uma forcinha dá para levantar e seguir adiante e como, às vezes, pode ser difícil levantar com as próprias pernas e que fica mais fácil com alguém dando uma mãozinha.

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Porque nem fila, nem chuva de canivete afugentam um peregrino

Acompanhando a cobertura da visita do Papa Francisco pela TV, nos primeiros dias, parecia que tudo ia ser um grande mico, depois, nas pautas viam-se os temas cotidianos numa versão mega evento religioso: o trânsito, as dificuldades no acesso aos serviços e no transporte, as filas, os transtornos para a população de Copacabana.  As/os repórteres no meio da multidão, como se cobrissem a copa do mundo, reiteradamente, perguntavam:

– De onde você vem? Manaus, Salvador, Colômbia? Oh que grupo animado! Telespectador, veja a diversidade em nossas areias!

foto de Wanderley Almeida

foto de Wanderley Almeida

E, no fim de tudo, o lixo e o trabalho dos garis, tal como após a passagem das escolas de samba no carnaval. Mas, os repórteres se admiravam que os peregrinos não reclamavam, ao contrário, nem a chuva de canivete tirava o entusiasmo.

-Vale a pena este esforço? – Perguntavam.

Unanimidade na resposta: sem dúvida.

Certamente, a fala do Papa tocava, suas mensagens sobre o papel da igreja e a indignidade da existência da pobreza num mundo com tantos recursos, ganharam manchetes, mas milhões de pessoas saíram de suas cidades em diversos cantos do mundo só para ver o papa? Não, saíram em peregrinação para participar de uma grande jornada.

rio papa 2Peregrinar é um ritual comum à imensa maioria das religiões, mas também trata-se de uma prática realizada por pessoas que não necessariamente professam alguma confissão religiosa. Acredita-se que o peregrino sai em uma busca e recebe benefícios especiais  ao empreender a jornada, jornada que nunca é fácil, sempre está recheada de subidas, descidas, desvios –principalmente quando ocorre na natureza- e muitos obstáculos e bolhas no pé a serem superados. Neste caminhar, muitas descobertas e compreensões para levar por toda a vida.

O que busca o peregrino? Talvez um sentido para a loucura no mundo e para o sofrimento. Talvez força para viver ou ferramentas para lidar com os problemas da vida. Quiçá, formas para transmutar a tristeza e a dor. Uma esperança. Uma luz para dissipar a neblina e a confusão…  Embora cada um tenha a sua busca, cada qual encontra uma parcela si mesmo.

Uma cidade marcada pelo Carnaval, a grande festa da carne, viveu uma semana de culto espiritual que terminou com 3,5 milhões de pessoas em vigília e comunhão nas areias da praia. Se o Papa conseguiu esse feito, viva o Papa, ele parece um cara legal, mas prefiro dar vivas aos peregrinos e às caminhadas!

PS. A palavra “entusiasmo” vem do grego e significa literalmente “sopro divino” ou “o Deus que habita dentro”. Assim ser entusiasmado quer dizer estar “cheio de Deus”.

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Entre putas e deputados, é tempo de poda!

A deusa Vesta

Na mitologia romana, Puta era uma deusa muito importante, ligada à fecundidade da terra, presidindo a podadura. Seu nome apresenta a mesma raiz do verbo putare, “podar”, cortar os ramos de uma árvore, mas também, organizar, por em ordem calcular, pensar  e julgar. No ciclo da vida a poda permite a renovação, trata-se da ação de separar na vegetação as ervas daninhas e a parte que não nos serve mais, buscando favorecer a germinação de novas e saudáveis sementes.

Certamente a expressão “filho da puta” tornou-se uma ofensa comum, inclusive, muito ouvida nas passeatas das últimas semanas, mas cabe dizer que o verbo putare tem muitos derivados em português, como os termos deputado, amputar, computar, reputação, entre outros.

Fragmento do Templo da deusa Vesta no Fórum Romano, Roma, Itália

Fico pensando que diversos lugares mereceriam uma boa poda, a começar pelas instâncias de governo. No congresso, por exemplo, podaria salários que subiram acima da inflação, bem como todos os privilégios que os parlamentares aprovaram para si mesmos (começando com os gastos com paletó) e partidos criados para negociar a legenda. Nos executivos federais, estaduais e municipais, cortar ministérios, secretarias e principalmente, verbas para negociatas.

Estátuas da deusa Vesta na Casa das Vestais no Fórum Romano, Roma

Cada um de nós poderia também pensar no que precisa podar no seu jardim para no verão colher bons frutos, uma  boa safra, os agricultores sabem muito bem, não cai do céu, exige trabalho. Talvez podar o nosso desinteresse pela coisa pública, pois os nossos políticos que receberam tantas críticas nos últimos tempos estão  em seus cargos porque nós, os elegemos.

Entre os povos antigos a fertilidade da terra era uma questão séria, porque ligada à sobrevivência, por este motivo, as sacerdotisas das deusas ligadas à agricultura -citamos a deusa Puta romana, mas há outras, entre elas, Vesta e também a grega Àrtemis- realizavam rituais sagrados para promover a fecundidade. Nos rituais, as sacerdotisas do templo copulavam com os homens da região, acreditava-se que os rebentos nascidos dessa união teriam um futuro brilhante e desempenhariam um papel importante nas cidades.

Para nós, pessoas do século XX, pode parecer um costume bizarro, mas sem dúvida, o momento atual precisa da fertilidade de ideias e projetos para melhorar a vida das pessoas. Soluções criativas baratas, viáveis e rápidas para colher uma safra cheia de bons frutos.

Casa das Vestais no Fórum Romano

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“Não é Turquia nem é Grécia, é o Brasil saindo da inércia”

“Vem pra rua vem!” Diziam as palavras de ordem e milhares de pessoas responderam ao chamado.

Tudo começou no dia 6 de junho com um protesto em algumas capitais, contra o aumento da tarifa dos ônibus -algo que atinge o bolso de grande parte da população-, em São Paulo houve cerca de 3 mil manifestantes. Uma semana depois, no dia 13, durante o 4º protesto, já eram 50 mil pessoas. A polícia usou seus velhos métodos de dissuasão: tropa de choque na linha de frente, armada de balas de borracha, gás pimenta e bombas de efeito moral. Em Brasília,  no sábado 15,  a Copa das Confederações estava prestes a começar e uma multidão dirigia-se ao Estádio Mané Garrincha, ameaçando conturbar a festa. Nesta 2a feira, 17, o Largo da Batata, em São Paulo, não comportou os 65 mil manifestantes que se dividiram, alguns milhares caminharam pela marginal Pinheiros outros rumaram em direção à av.Paulista.

“Vamos escrever outra história”

O que querem os manifestantes? Boa parte nem anda de ônibus, o aumento foi o estopim para protestar contra muita coisa que está engasgada na garganta, seja os gastos (superfaturados) com a copa, a corrupção, pela saúde, pela educação, viu-se até o pedido de mais respeito e menos repressão ao direito legítimo de protestar.

Novidade no Brasil, um país no qual a população é pouco dada a sair às ruas, mas uma novidade também pela forma, pois são mobilizações sem articulação centralizada que querem distância dos partidos políticos.

Parece que ver manifestantes pelas ruas na Grécia ou na Turquia incentivou os protestos para mostrar aos governantes que não está tudo bem. Percebe-se que a população já cansou da democracia que se restringe ao dia das eleições.

Por todo o Brasil, as manifestações têm sido pacíficas, no geral, mas alguns episódios de vandalismo realizados por uma ínfima minoria que sai para barbarizar, preocupam e nublam o momento. Alvos como assembléia, palácios de governo, o congresso e bancos mostram que há muita vontade de ferir as instâncias de poder, sinalizando uma necessidade de rever as velhas formas de se fazer política. Resta acreditar nas principais armas da democracia para de fato construir um país melhor: o diálogo e a negociação.protestos 1

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Eu não sou uma ostra e o estresse não faz pérola

Ostra feliz não faz pérola diz o ditado, para lembrar que a vida precisa de uma certa “perturbação” para o nosso amadurecimento, só que nós não somos moluscos e as irritações eventuais, para muitos, têm se tornado um estresse cotidiano, estando associado ao aumento de úlceras, problemas no coração, bem como de transtornos de ansiedade –de fobias a síndrome do pânico- e da depressão.

O estresse é daqueles mecanismos biológicos fundamentais para a nossa sobrevivência, ele levou o homem das cavernas, ao ver um predador pronto para atacá-lo, correr para longe, antes mesmo de pensar, preservando a espécie. Hoje, é mecanismo que leva uma mãe ou pai, ao ver o filho cair e sangrar, no maior “sangue frio”, pegar os documentos, dirigir “voando” até o hospital e só quando o filho já está com os pontos e medicado, descansar.

Na hora do perigo, o corpo se prepara, a noradrenalina e a serotonina, – os neurotransmissores  do alarme e da prontidão- inundam  o sistema nervoso central, o coração bate a mil, aumenta da pressão arterial e a concentração de açúcar no sangue. Energia pura: o metabolismo geral do corpo é ativado de forma automática e independentemente da nossa vontade, eis o sistema nervoso simpático entrando em ação. Lembra daquela entrevista ou encontro importante em que você estava gelado como pedra ou suando bicas? Tudo faz parte do mecanismo fisiológico desenvolvido para nos ajudar a buscar uma resposta adequada para resolver o “problema”.

Uma mudança de emprego ou de casa, são eventos estressores pontuais, outros, como um chefe intransigente ou assediante ou as contas que se acumulam todo mês e tantos outros, tornam-se pressões constantes, desencadeando respostas fisiológicas permanentes que afetam o corpo e a mente, podem debilitar o sistema imunológico, aumentar o risco de problemas no coração, arritmias, hipertensão, formação de trombos, problemas gástricos (como úlceras), entre outros.

Na vida moderna, este mecanismo planejado para ser utilizado de forma esparsa anda bastante requisitado, contudo não fomos projetados fisiologicamente para viver rotineiramente com o estresse.

Estudos recentes comprovam que as respostas às situações estressantes variam. Há pessoas que fogem delas, estão num trabalho com ambiente ruim ou numa relação sofrível, caem fora, outras parecem escolher “a dedo” essas situações, saem de uma, caem noutra… São mais vulneráveis a dar uma resposta inadequada ao estressor diria o pessoal da psi.

Há saída? Sem dúvida, mas todas passam por viver com mais prazer. O prazer ameniza o impacto do estresse, pessoas estressadas não se permitem curtir, seja uma tarefa cumprida ou um banho de mar. Assim não dão refresco para a fisiologia. Pense nisso. O corpo, a mente e sua família agradecem.

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Drops sobre o cérebro e a memória

Entendermos o cérebro, essa complexa ferramenta que trazemos como espécie, é central para entendermos o ser humano. Ele é responsável por nossas ações, pensamentos e até pelo que fazemos sem pensar como respirar, havendo inclusive uma parte associada à moralidade. Sistema fascinante, por isso decidi compartilhar um debate importante para todos os que têm cérebro, a memória.

A vida em sociedade requer do indivíduo o armazenamento de informações, a memória permite-lhe resolver melhor suas necessidades biológicas, saber quem ele é -e assim construir sua identidade-, incorporar as regras de funcionamento da vida social, entre tantos outros. O aprendizado torna-se o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre o mundo, estando totalmente vinculado à memória, nele o dado é adquirido, estocado e depois recuperado para utilização. Um processo em três estágios: codificação, armazenamento e recuperação. Bem, este é o percurso padrão, mas pode haver um dano no trajeto ou o mesmo, o arquivador pode se atrapalhar no seu serviço. Há pessoas que sofrem lesões em alguma parte de cérebro e apresentam problemas para fazer o resgate, outras, para realizar novos registros, ou seja, incorporar novos aprendizados.

Os pesquisadores identificam dois grandes tipos de memória: curto prazo e longo prazo. A memória de curto prazo é momentânea, dura em média 20 segundos, apresentando pouca capacidade de armazenamento, por isso também denominada memória de trabalho. Por exemplo, procuro um certo número numa rua, guardo-o na mente, achei o número, “descarto” informação. Para que um conhecimento seja incorporado, seja o nome de uma pessoa, uma música, uma receita, uma matéria, ele precisa ser repetido até sua consolidação. Em termos fisiológicos, formam-se caminhos, denominados “traços de memória”. Uma andorinha não faz um verão, uma olhadinha na matéria não significa “arquivamento”, nem se transforma em conhecimento. As sinapses precisam do reforço, sem ele, o traço formado nas redes neurais se perde, mas se houver reforço o conhecimento pode durar toda a vida, ou seja, vira memória de longo prazo -o grande arquivo disponível para ser reutilizado mais tarde. Podemos passar anos sem andar de bicicleta, um dia subir em uma e sair andando.

Num mundo com tanta informação disponível e tão volátil, certamente muitos gostariam de ter mais memória do que têm, ou seja, poder armazenar mais e por mais tempo, desejariam também poder evitar o esquecimento e até transtornos que afetam a memória como o Alzheimer. Algumas pessoas se iludem pensando que tomando uma pastilha todos os dias está tudo certo… sem tirar a importância dos componentes como cálcio e magnésio. Há muito a se conhecer sobre o funcionamento da nossa mente, mas o que já se sabe é que habilidade (ferramenta) que não se usa, se atrofia, cabe a cada um cuidar da (e usar) sua memória para não dar espaço para o alemão.

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Violência no paraíso

Nas paradisíacas Ilhas Maldivas, uma jovem de 15 anos vítima de estupro foi condenada a receber 100 chibatadas por manter relações sexuais sem ser casada. Paradisíacas na beleza, porque o arquipélago islâmico com uma população de cerca de 400 mil pessoas, apresenta um sistema judiciário fundamentado na sharia (lei islâmica) que não apenas permite a violência contra as mulheres, mas depois as condena a sofrer castigos físicos e à humilhação.

As acusações contra a garota foram feitas em 2012 depois que a polícia investigou denúncias de que o padrasto a teria estuprado e matado o filho dos dois. Ele ainda será julgado.

A porta-voz do tribunal de menores, Zaima Nasheed, disse que a jovem também deverá permanecer em um reformatório por oito meses, uma vez que a sentença só pode ser cumprida antes da garota quando completar 18 anos.

O pesquisador da Anistia Internacional Ahmed Faiz disse que o açoite é “cruel, degradante e desumano” e pediu que as autoridades abandonem a prática. “Estamos muito surpresos que o governo não esteja fazendo nada para anular esse tipo de punição – removê-lo totalmente da legislação.”

“Esse não é o único caso. Está acontecendo frequentemente – no mês passado houve outra garota que foi violentada e condenada a chibatadas”, afirmou. Faiz disse ainda que não sabe quando a sentença do caso anterior foi executada, já que as pessoas não querem discutir abertamente a situação.

O caso apareceu na mídia em fevereiro, mas agora há uma petição mundial para pressionar  o governo das Maldivas a eliminar práticas cruéis e degradantes contra as mulheres. Para assinar vá até o AVAAZ.ORG

http://www.avaaz.org/po/maldives_global/?bZzmibb&v=23534

Fonte: BBC Brasil

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Não apenas Freud explica, a biologia também!

Nestas últimas semanas, já mergulhada na aventura do estudo dos neurônios, comecei a perceber (antes tarde do que nunca…) que o corpo humano é um aparelho bastante complexo e o cérebro, ou melhor, encéfalo, seu nome técnico, um aparelho sofisticadíssimo.

Não é novidade que as mulheres são associadas às emoções e os homens à racionalidade, no passado se dizia que as mulheres teriam dificuldade com o pensamento lógico dedutivo, hoje, por sua vez se fala abertamente das dificuldades dos homens com o plano das emoções. Nestes dias, estudando o encéfalo, descobri que pelo menos a 2ª parte dessa afirmação pode ser verdadeira.

O cérebro está dividido em dois hemisférios, esquerdo e direito, entre os destros, o hemisfério esquerdo se “especializa” na articulação da linguagem, no informação lógica, entre outros, por sua vez, o hemisfério direito é quem cuida do pensamento simbólico e da criatividade.  O corpo caloso, uma região localizada logo abaixo do córtex cerebral, torna-se responsável pela comunicação entre os hemisférios, nela uma série de  feixes de nervos cruzam os dois lados, o que possibilita a troca de informação entre as partes.

Nas mulheres há consideravelmente mais feixes cruzando, ou seja, a estrada nelas fica maior. Dizem os pesquisadores que esta diferença anatômica pode ser responsável por diferenças nas respostas emocionais entre os dois sexos. Nos homens, cujo corpo caloso é menor, o fluxo de informações é mais lento entre o lado emocional (direito) e o lado verbal (esquerdo), fato que os levaria a expressar as emoções menos efetivamente do que as mulheres. Parece que o telencéfalo masculino tem capacidades emocionais em apenas um hemisfério (lado direito), enquanto que o feminino teria capacidades em ambos os hemisférios devido à maior comunicação.

Neste esquema encontram-se os elementos relacionados a cada um dos lados dos hemisférios

Não apenas Freud explica, a biologia também!

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Agora virei “bixo”

Nesta semana, voltei aos bancos universitários. Os que me conhecem sabem que desde que entrei nunca sai da universidade, mas agora é diferente, estarei sentadinha tomando nota da matéria.

Há quase 20 anos sou professora nos cursos de Jornalismo e Ciências Sociais, sempre trabalhando com jovens que buscam uma profissão. Algo muito bacana, me permitiu aprender muito, mas senti que preciso novos desafios.

Na minha formação circulei por vários campos do saber, da filosofia ao jornalismo, passando pela sociologia. Aos 17 anos tinha dificuldade de escolher uma carreira, pois gostava de tudo, matemática, física, história, literatura… Naquele momento era uma angústia, que dilema escolher algo para “toda a vida!” Nada como o tempo para a gente saber que esta é apenas uma primeira escolha, não uma prisão a uma área, eu acabei circulando (e me formando) pelas ciências humanas.

Há alguns anos, a mente e o comportamento humano têm me apaixonado, já vinha fazendo cursos, participando de grupos de estudo, agora decidi agora pegar o “bicho” pelo chifre e não ficar mais dando voltas: vou me preparar para uma nova profissão.

Estou com 44 anos, por isso muitos me perguntaram por que não uma pós? Não era mais fácil? Seria, só que uma pós me permitiria apenas dar aulas na PSI e para os meus próximos 20 anos de vida laboral quero abraçar outro campo de atuação mesmo.

Se bem a expectativa de vida está perto da casa dos 80 anos, sempre achei que eu vou viver até depois dos 90, tal como minha bisavó que morreu aos 98 anos. Quase um século de vida!  Sou dessa linha, acho eu, se a providência não determinar o contrário. Como ainda tenho um certo tempo pela frente, achei melhor escolher o que quero fazer a próxima meia jornada de minha vida. A aposentadoria está fora de cogitação.

Hoje acabo por aqui porque agora tenho muita matéria para estudar.

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