Arquivo da categoria: Inspiradores

Biblioteca do clã. Artigos, poemas, pinturas que vale a pena citar e ler a qualquer hora.

A visão gnóstica de Jesus

Nestes dias, em plena semana da Paixão de Cristo, peguei-me pensando que, no Brasil, muitos pertencemos a famílias cristãs, ou católicas não praticantes, pois as práticas que a igreja católica nos proporcionava não deram conta de nossas inquietações, nem das nossas necessidades espirituais. Fazemos parte desta matriz cristã, contudo, hoje ela não nos diz muito, nem nos ecoa no coração.

Há algum tempo tomei contato com o livro de Raul Branco Os ensinamentos de Jesus e a tradição esotérica cristã que, para mim, foi um divisor de águas, ao apresentar os ensinamentos pouquíssimo conhecidos do cristianismo primitivo. Aproveito o tempo da Quaresma para compartilhar este estudo.

1150, mosaico na Capela Palatina, Palermo, Itália

A Bíblia, diz o autor, é um “repositório de ensinamentos profundos velados pela linguagem alegórica” e a própria vida de Jesus pode ser entendida como uma alegoria. “Jesus, nesses relatos, simboliza o Cristo que habita no interior do homem. Sua vida, como apresentada nos quatro evangelhos, é uma descrição da viagem de retorno de todas as almas à casa do  pai.” Pesquisador de tradições orientais e da psicologia junguiana, entre outros,  Branco fornece uma chave para entender a vida de Jesus e  traz instruções e instrumental para o caminho, algumas servem como sustentáculos aos buscadores, mas buscam, principalmente, preparar o discípulo  da verdade na senda de transformação.

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26:41), disse Jesus.  O caminho a ser trilhado recebe o nome grego de metanóia, que significa a grande transformação do estado mental do homem, entendido como mudança dos condicionamentos e do próprio pensamento. O termo foi utilizado também por Jung ao descrever as transformações vitais da segunda metade da vida.

Embora desejemos mudanças, nosso ego resiste a este movimento. “Resistimos, porque toda mudança implica uma revolução interior que demanda algum compromisso com a verdade. Esse compromisso requer humildade para aceitar a possibilidade de que alguns de nossos mais estimados conceitos foram construídos sobre a areia e, finamente, uma coragem extraordinária para enfrentar a resistência inicial de nosso ego orgulhoso e inseguro”, escreve Branco.

Esses ensinamentos de Jesus, o vivo, como o Mestre era chamado pelos gnósticos, seriam a medicação salvadora receitada pelo grande terapeuta à humanidade. Uma vez o diagnóstico feito e a medicação receitada, restaria a cada ser humano exercitar o seu livre-arbítrio e decidir se toma a medicação necessária em tempo que não raro se escoa como areia em nossas mãos.

Nesta visão, para chegar ao Reino, ou seja, para alcançar a perfeição, o homem deve encontrar e trilhar pacientemente, mas com determinação, o Caminho ao longo de transformação. Gosto desta chave de compreensão do cristianismo primitivo, permite-nos lembrar do que devemos fazer.

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Histórias e mitos, Inspiradores, Memória

Um pedido a Iemanjá

Senhora da vida,

Imensidão transparente e azuliemanja boa

Salgada e doce

Fonte, ventre

Caminho, refúgio

Morada de mistérios

Sereia e rainha

Guardiã dos segredos submersos

Eterno balancear que treme a terra e serpenteia o ar

Senhora,

Derrube as muralhas da intolerância

Destrua os diques da incompreensão

Lave os corações

Acalmai as mentes

Quebrai toda rigidez

Mostre-nos o fluxo

Ensinai o ritmo

A navegar

A balancear, sem marejar

Inspirai a dança e a criação

Dissolva o medo

Mãe nutridora,

Renove a esperança

Prepare-nos para o novo

Engendre a beleza e a alegria e ligue-nos no amor.

*

A Sabedoria do mar

Trata-se do ritmo básico e natural que as mulheres devem compreender… E vivenciar. Captar esse ritmo reduz o medo, pois prevemos o futuro, e os maremotos e marés vazantes que ele reserva.  (…)

Entendimento dos ritmos da criatividade, da parição de filhos psíquicos e filhos humanos também, os ritmos da solidão,  da brincadeira, do descanso, da sexualidade e da caça. (…)

(Clarissa Pinkola Estés. Mulheres que correm com lobos.)

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias e mitos, Inspiradores, Poesia

Rumo à Estrela do Oriente

Contemplar a abóboda celeste, vendo uma infinidade de pontos a brilhar em um noite escura talvez seja observar um dos maiores mistérios da natureza. Luminosidades de diferentes tamanhos têm nos surpreendido desde a aurora dos tempos, todas as civilizações registram a presença dos belos e enigmáticos pontos no céu, não raro, ligando-os a feitos extraordinários.

Conta-se que há mais de dois mil anos, três reis deixaram seus reinos guiados pela convicção de que deveriam largar tudo e seguir a luz avistada no céu, abandonaram poder, honras e conforto. Outras leituras dizem que Gaspar, Melchior e Baltazar não eram reis e sim magos, ou seja, sacerdotes de outras religiões. Sozinhos cruzaram desertos, florestas e montanhas, seguem a Estrela do Oriente, que os conduz a um estábulo, onde encontram Maria,  José e Jesús recém-nascido.  Após apresentarem seus louvores e presentes, ouro, incenso e mirra, os reis magos fazem um longo retorno,  para evitar o encontro com o rei de Israel, Herodes, que desejava matar o Cristo. O temor ao recém-nascido leva-o a ordenar o assassinato todas as crianças com menos de dois anos.

Maria e José fogem com o filho para o Egito, onde viverão  escondidos por alguns anos. Não surpreende,  pois terras ao redor do Nilo abrigavam centros com uma tradição milenar de estudo dos mistérios da vida. Os antigos egípcios foram mestres na construção de templos e pirâmides, na confecção de cerveja, bem como na técnica de embalsamamento, cujos produtos podem ser vistos até hoje.

*

Olharmos pouco para o céu, conquistamos os ares, mas deixamos de guiar-nos pelas estrelas, ficamos presos ao nosso metro quadrado, quando não ao nosso umbigo. Deixamos de encontrar estrelas cadentes, conversar com as constelações ou rumar pelas estradas no firmamento.

Nunca vi uma estrela cadente, mas já contemplei em diversas ocasioes a via láctea em uma noite escura, no sul do Chile,  longe das luzes da cidade, deliciando-me com a profusão de luzes que os antigos associaram a uma mancha de leite. Leite, alimento vital. Na mítica, as estrelas trazem o saber e, sempre, a esperança .

Levantar os olhos para o céu em busca daquela luz, que nos conduz ao desconhecido, prática tão antiga quanto o mundo e tão mágica quanto todo nascimento, eventos a se festejar tal como os sábios de outras eras.

Baílica Sant’Apollinare Nuovo, Ravenna, finalizada em 526 d.C.

Deixe um comentário

Arquivado em Inspiradores, Memória, Papo de áquia

Jung, o tarô e o círculo

Compartilho esta ideia de um autor que há anos me acompanha.

Para trilhar a jornada da vida, não raro, mergulho neste estudo.

Deixe um comentário

Arquivado em Inspiradores, Papo de áquia

Nos giros da roda da vida – uma homenagem àqueles que se foram

pai clau euHá tarefas na vida que jamais imaginamos que vamos a desempenhar, nem queremos pensar nisso, sem sabermos como, um dia estamos com a missão nas mãos.

A roda da vida gira, imperceptivelmente, na maior parte do tempo, em outras o giro é brusco, como a dizer:  Terminou aqui.

Nestes dias de experiências familiares fortes, começamos com a minha irmã a dura experiência de fechar as portas da casa de nossos pais. Vender os móveis,  doar roupas e utensílios,  jogar fora o que não presta. Passar para frente uma casa que abrigou nossas vidas por quase 25 anos. Até o pó da casa tem a nossa história familiar, nossas  lágrimas, nossas risadas, nossas dores, pensamentos, esperanças e projetos.

Ao limpar, repassamos cada canto, cada folha de papel, objetos cotidianos,  bem como aqueles perdidos lá no fundo do baú de nossas lembranças,  aquelas que imaginávamos perdidas para sempre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo percurso me vi  confrontando aquilo que imaginaram para nós principalmente os pais -que sempre têm muitas ideias para nós…-  com aquilo que fizemos… é bom poder passar a limpo e jogar fora o que não foi.

O momento permite revisitar aquela criança que fomos, pequena, medrosa, frágil, talvez sentir que ela ainda está lá escondida dentro do armário e possamos dizer-lhe:

– Bom te ver, tudo certo. Você era uma menina,  mas foi muito forte e corajosa! Já fez tanta coisa que sequer imaginava!!! Olhe só! !

Como se a vida estivesse a nos colocar uma oportunidade para limpar dores e ressignificar visões, ideias e pensamentos.

DSC05423

O aprendizado do momento é perceber que tudo um dia chega ao seu fim… A alegria e o sofrimento, até o que parece mais sólido se esvai, parafraseando o filósofo.  No fim, só restam as memórias.

O momento parece estar a dizer-nos, aproveite a vida, lembre que a semente morre para renascer. A vida caminha em ciclos. Nossos avôs  deixaram suas sementes,  nossos pais, e estes a nós, cabe a nós seguir a senda e ir semeando coisas boas.

Papai gostava bastante de plantar, na sua horta no pequeno terraço tinha morangos que saía distribuindo pela vizinhança, como me lembrou Anita, a vizinha do apartamento de cima, mas acho mesmo que ele gostava de árvores e vê-las crescer… Fico muito contente que nos últimos anos ele pode plantar várias, cerejeiras, pessegueiros, atrapalhando o jardim da minha irmã, mas ele era assim mesmo…famila pai

pai + orlando antiga

IMG_0035DSC04775OLYMPUS DIGITAL CAMERA

1 comentário

Arquivado em Ideias, Inspiradores, Memória, Papo de áquia

Das Senhoras e das tramas do destino

Se há um grande mistério, sem dúvida, este é o destino de cada um. De repente nós tomamos uma estrada, em lugar da outra  e isto muda o rumo de nossas vida, uma pessoa perde o avião e  se livra de um acidente, outra almoça num horário diferente e encontra o amor de sua vida, mas nem precisa tanto, sabemos que ao fazermos certas escolhas o caminho pode nos levar a lugares impensados.

Entre os gregos, as Moiras eram as deusas do destino, elas comandavam a sorte, o quinhão que caberia a cada um. Etimologicamente, a palavra Moira significa parte, lote, quinhão,  aquilo que a cada um coube por sorte, por isso, destino.

As senhoras do destino, como mulheres, elas fiam, o destino é simbolicamente “fiado” para cada um. As Moiras não foram personificadas, pairam acima dos deuses e dos homens, até Zeus, o senhor do Olimpo deve obedecer-lhes, dado que o destino é imutável não podendo ser alterado nem mesmo pelos deuses, menos ainda pelos homens, isto significa que elas representam um lei que nem mesmo os imortais podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem universal.

As Moiras são a personificação do destino individual, assim cada homem e cada mulher teria a sua Moira, ou seja, a sua parte, o seu quinhão de vida, de amores, de felicidade, de infortúnios.

No mito, seguindo sua Moira, Helena abandonaria seu reino, Esparta, seu marido, Menelau, e seu filho, para seguir o amor de Paris, levando à guerra gregos e troianos, por sua vez, o belo Aquiles estava fadado a morrer jovem nesta guerra, mesmo não querendo lutar, viu-se no campo de batalha e ao ser flechado no calcanhar encontrou a sua moira.

Essa ideia de Moira impessoal,  universal e inflexível, senhora inconteste do destino transformou-se,  acabando por se projetar em três moiras: Cloto, Laquesis e Átropos. Cloto, a que fia, ela segura o fuso e vai puxando o fio da vida. Laquesis enrola o fio da vida e deve sortear o nome de quem deve morrer. Átropos, a inflexível, é aquela que não volta atrás, ela corta o fio.

O destino desde a aurora dos tempos é um atributo do feminino. A mãe tece seu filho em seu interior, num mágico processo que de uma célula formam-se todos os nossos tecidos, do coração ao cérebro, em cerca de nove meses, quando o rebento estiver pronto virá a luz para iniciar com seus próprios pés, sua trama. O destino conjugado no feminino significa pensar que a nossa transformação vem de mãos dadas com o feminino. As deusas nos acompanham por todo o percurso, mas são sentidas nos momentos cruciais, na chegada e na partida.

Hoje somos tentados a acreditar que nós tecemos o nosso destino, que o traçamos com o nosso quinhão de inteligência, determinação, amor, orgulho ou mesmo vaidade e arrogância. Sinto que a vida, sem o notarmos, é tecida dia a dia, entre linhas e instantes, tramados de diversos coloridos, pontos e linhas. Ponto a ponto, urdida nas escolhas, tramada por nós e pelos deuses que chamamos para nos acompanhar.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias e mitos, Inspiradores, Memória, Papo de áquia

Frida Calor e Frio

frida museu

Nestes dias fui assistir Frida calor e frio com a companhia Estelar de Teatro, no espaço Viga, em Pinheiros. Sempre é fascinante reviver a história desta pintora mexicana marcada pela poliomielite na infância e depois, aos 18 anos, por um grave acidente que destruiu o ônibus em que a jovem voltava da escola. Na fatalidade, sua coluna foi fraturada em três partes, a perna direita, em onze e um ferro entrou pelo quadril esquerdo para sair pela pelve, ela costumava dizer que esta havia sido a forma brutal em que havia perdido sua virgindade. Passou por mil e um tratamentos da ciência médica da época, em meio à dor, pede tela e pincéis para passar o tempo.

Esta mulher encantou o muralista Diego Rivera que veio a se tornar seu marido, em 1929, conta-se que formavam um casal e tanto, numa relação de amor e ódio conhecida por toda a capital; seus saraus e festas reuniam a intelectualidade do país e, por vezes, até do mundo em visita ao México em seus dias revolucionários, como catalão Pablo Picasso, o francês André Breton e o chileno Pablo Neruda. No final da década de 1930, Diego e Frida hospedaram Trotsky exilado no país, por recebê-lo foram alvo de constantes perseguições policiais, mas o evento mais ruidoso foi o caso entre o russo a pintora.

A deliciosa peça nos leva a este universo desta mulher intensa que não fez da fatalidade um destino, embora a dor tenha sido uma companheira, jamais conseguiu vencê-la. Sua arte tornou-se sua vida e sua vida ficou registrada em sua arte.

“A arte é uma das múltiplas possibilidades do real” nos disseram. Que sorte a nossa termos a arte!

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Inspiradores, Memória, Papo de áquia, Saúde

Uma armadilha na roda viva da vida

Quando a gente olha para o mundo, é fácil notar que certos eventos cegam, principalmente as paixões, seja o amor ou a raiva, contudo tenho percebido que o volume imanejável de trabalho, tarefas e demandas cotidianas também pode nos levar à perda da cabeça.

Nós andamos trabalhando alucinadamente, as pendências se avolumam e sem sabermos como estamos numa roda vida. E aí se instaura o cansaço.

A exaustão é uma péssima companhia, nos faz perder o humor, o eixo e até o juízo. Leva-nos fazer coisas que não faríamos se estivéssemos atentos e alinhados com aquilo que há de mais verdadeiro e íntegro em nós mesmos; a gente pensa que está no controle, contudo não diferencia mais o joio do trigo, não consegue separar aquilo que é importante e do que não é. Além disso, o cansaço nos faz dizer coisas e até magoar pessoas que gostamos. A exaustão nos faz cair nas armadilhas da vida, como ouvir aqueles que estão à espreita para causar cizânia. Se estivéssemos em pleno uso do juízo não o faríamos…

E a gente nem se dá conta de tão cego que está. Muitos nunca se darão conta, pois o orgulho não permite, o ego não gosta de ver que fez bobagem e se defende recriminando o outro. Quem sofre mais são as pessoas que estão mais próximas, não raro a gente faz isso com os nossos amores companheiros e começa um bate boca: “eu fiz tal coisa, porque você fez isso primeiro…”

Nós, mulheres, somos particularmente tentadas a dar conta do mundo, vivemos em uma maratona, achamos que o mundo vai cair se não estivermos na função, não atentamos para o momento de diminuir o ritmo ou mudar a direção. Às vezes, será a doença que mostra que a coisa não vai bem e nos muda abruptamente o rumo.

Já vi muita gente boa perder as rédeas da própria vida.  Ao escrever isso, com pesar, me lembrei de tantas pessoas queridas que se foram, porque em meio às urgências do nosso dia a dia e à nebulosa da exaustão não perceberam que elas precisavam cuidar delas mesmas e se nutrir nas suas relações …

Um desafio permanente é evitar a cegueira, esta tem inúmeras formas, mas vale aquela velha frase, se a coisa não está bem, pare e pense. A vida não é para se ficar na função, mas para ser vivida. Já diziam os gregos, tudo na vida precisa equilíbrio.

Deixe um comentário

Arquivado em Ideias, Inspiradores, Papo de áquia

O segredo da criação

Leonardo da Vinci, Virgem das Rocas

A arte nos toca, admiramos cada obra de Leonardo da Vinci, cada traço de Picasso, somos embalados pela magia de Giberto Gil, da poesia de Drumond e tantos outros. Um atributo eminentemente humano que nos iguala aos deuses, a arte, contudo parece haver-se distanciado do cotidiano das pessoas, parece talento de seres especiais, dotados de maior sensibilidade e fica  guardada em lugares especiais, nos museus.

Nesta visão, esquecemos que  ao cuidar do jardim,  preparar um saboroso prato, tecer um suéter,  bordar um pano de prato e, sem dúvida, o momento mais mágico, ao gestar um filho, homens e mulheres estão criando.

Não raro, somos nós que podamos as asas da nossa criação, nosso julgamento cai como uma lâmina cortando as nossas ideias, algumas vezes já matamos a semente do projeto “não vai dar certo”, “é muito ingênuo”, “vão dar risada”, pensamos, quando não é alguma dificuldade que nos faz esmorecer e deixamos para lá, afinal “quem disse que ia dar certo?” Em outros momentos, deixamos o trabalho dentro da gaveta, seja porque o texto não está à altura do García Marquez, a pintura não chegou ao nível do Picasso, não alcançamos a expressividade de um Caetano Veloso, enfim. Como se Picasso, Gabo ou Caetano não tivessem sido crianças a brincar com cores, sons e letras. O nosso julgamento  é cruel conosco.

Também ocorre que a gente muitas vezes só quer produzir belezas e se espanta com o que sai, mas criação é muito mais do que produzir belezas, a arte permite dar forma à dor, ao estranho, às angústias, possibilita expressar nossos medos, colorir as sombras e fantasmas que nos assolam. Quem já viu a pintura de Salvador Dali sabe, ele desenhava seus sonhos, um material riquíssimo e perturbador, ao mesmo tempo. E a angústia de Edward Munch em O Grito, um quadro de dimensões pequenas, mas que traduziu sentimentos que assolam  em algum momento a tantos de nós. Imagino que estes autores criavam por absoluta necessidade.

Acima de qualquer coisa, a criação precisa fazer sentido para nós, quando deixa de fazer sentido, ficamos “de mal” com a criação e até a vida parece insossa.

Dalí, A tentação de Santo Antonio (1946)

A arte, como tudo na vida requer treino, dedicação, dizem que o Salvador Dalí acordava e ia para o seu estúdio,  de onde quase não saía,  ele dizia que ele queria que quando as musas o visitassem,  o encontrassem trabalhando… os chefs de cozinha também conhecem este segredo.

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Inspiradores, Papo de áquia

A pergunta do amor

O encontro do amor talvez seja o maior desejo de homens e mulheres, quem já o viveu sabe que ao encontrá-lo somos mais do que duas unidades que se fundem e se tornam uma terceira, surge algo muito maior. Agora, é preciso dizer, estar num relacionamento é aceitar um dos maiores desafios do universo. Tendo isto em mente, andei pensando no que seria necessário para fortalecer o amor e os relacionamentos.

Penso que cada membro de um casal deveria fazer uma pergunta aos seus botões de vez em quando, principalmente, em momentos chaves, quando se quer muuuuito casar, quando algo parece não andar como a gente quer, ou quando eu acho que as mulheres são de Marte e os homens de Vênus, ou talvez o contrário…

A pergunta do milhão: o que eu espero do outro?

Espero que ele cuide de mim? Que me proteja? Que me alivie das agruras do dia a dia? Para não dizer que pague minhas contas…

Desejo que ele/a me ame e que esse amor me complete?

Desejo que ele/a preencha meu vazio existencial? Minha fome de vida?

Desejo que ele/a faça eu me sentir nas nuvens?

Se ele/a não me amar não sou nada? Penso que ele/a me amando, tenho motivos para me amar? Ou seja, desejo que seu amor melhore minha autoestima?

Se estas forem as respostas, cada um precisaria fazer uma nova pergunta – esta agora vale mais do que bilhões, vale o sentido da própria existência-, porque eu não consigo encontrar isso em mim? Por que não consigo cuidar de mim, por que não consigo lidar com os desafios do dia a dia, por que não consigo encontrar o meu próprio projeto de vida, por que não me sinto bem comigo mesmo e fico esperando encontrar isso no parceiro…

A gente fica cobrando, sentindo falta de uma coisa que não tem, mas será que é dever do outro provê-la?

Deixe um comentário

Arquivado em Ideias, Inspiradores, Papo de áquia

Uma história de um goleiro perna de pau

Nestes dias em que tudo gira em torno ao futebol, lembrei-me uma história familiar. A família de papai pertence a Corinto, um  pequeno vilarejo encravado nas montanhas, em uma tradicional região vinícola, Talca. Embora pequeno, Corinto possuía um time de futebol, estamos falando da década de 1940. Aos domingos, principalmente no verão, o time saía em excursão para jogar em outros povoados, meu avó e toda a garotada caminhavam alguns quilômetros rumo a Pencahue, La Aguada ou outro vilarejo da região.

O campinho permanece onde sempre, logo na entrada, depois da Virgem e do cemitério, no vale que se destaca em meio a aridez da região,   um dia ao chegar,  meu pai tirando as lembranças do fundo do baú falou:

-Aqui jogava seu pai quando menino.

Eu que jamais soubera  dessa faceta deste engenheiro, mais conhecido pelo seu gosto das matemáticas, fiquei surpresa:

-Pai, você hein, escondendo o ouro,  nunca contou nada! Ironizei.

– O bom de bola era meu irmão Miguel,  eu estava mais para perna de pau, só jogava,  porque teu avó era o treinador e ele gostava de sair com os dois filhos, então,  ele me colocou no gol.

Um dia, tio Miguel, o irmão mais velho,   contou-nos sua versão, papai completava o time, mas  era sempre uma incógnita, “havia que rogar-lhe que jogasse, pois ele estava sempre em meio a seus livros.”

Alfredo, certamente não ficou nos anais do futebol, mas saiu de Corinto. Papai lembrava que seu grande apoiador fora seu próprio pai que logo cedo o encaminhou a morar com parentes em outras cidades,  para estudar, pois não havia  nenhum recurso financeiro para custeá-lo.

Passou no vestibular em Santiago, na Universidad técnica, hoje Universidad de Santiago, um centro de estudos público, no primeiro ano, ele estudou depois conquistando bolsas, sei que teve de moradia e alimentação.

Ele dizia que muito cedo se fixou uma meta, obter um diploma, com isso em mente, pouco ligou para bailes ou futebol. Gosto dessa história, me lembra que as vitórias são produto de um grande esforço e muita determinação.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Inspiradores, Memória

A grande mãe

A genética, há algumas décadas, desvendou a parte biológica da concepção, mostrando o longo e cheio de obstáculos percurso que o espermatozóide realiza à procura de um óvulo para fecundar, sendo que boa parte das vezes eles saem da toca e nada há do outro lado esperando.

Certo dia, algo acontece e os dois gametas se encontram, dando início ao mistério de uma única célula se dividindo para formar um novo serzinho. Procedimento complexo, na divisão formam-se tecidos com funções tão diferentes como a massa cerebral e o estômago. A natureza desenvolveu este método para sua criação.

A mulher empresta seu ventre para esta divina criação, em seu vaso-útero durante nove meses esta grande alquimia da vida vai se construindo. Nove meses de gestação, nove meses em que o bebê tem alimento, calor, proteção, um espaço só dele, bem a maioria, pois alguns chegam ao pares ou em trios. Até que esse espaço fica apertado, não comportando mais a expansão desta criatura, tal como a lagarta precisa se livrar do casulo para virar borboleta, o bebê precisa sair e, quando ocorre de forma natural, ele o faz apenas com a ajuda da mãe, o médico ou a parteira ficam só na supervisão.

Mãe e filha. Tribo Araweté (conhecida também como Bide) – Pará

Para o bebê trata-se de um exercício instintivo de luta pela sobrevivência, mas também de confiança. Nascer é uma entrada num universo desconhecido, sublime, nos liga ao divino que fornece a centelha da vida.

Na nossa espécie, os bebês não nascem prontos, muito pelo contrário,  chegam precisando simplesmente tudo, sem sequer identificar o que precisam, na total dependência de sua mãe que deve descobrir se ele tem fome, sede, frio ou doenças e proteger de todas as formas este serzinho tão vulnerável.

E isso é só o começo da história, pois o rebento precisa receber muitos ensinamentos, desde fazer xixi no piniquinho até matemática,  passando pela linguagem e pela distinção do certo do errado. Em suma, todos os elementos da cultura, suas ferramentas para a vida e para seu aperfeiçoamento moral. A mãe tem um trabalho diário de formiguinha, o pai também, é preciso dizer. Só no amor para dar conta do recado…

A maternidade inaugura uma relação para toda vida, o filho vai lhe fazer rir e chorar, pode rodar o mundo ou rodar no mundo, ele será sempre seu filho. E a sabedoria da grande mãe é continente, como a terra que espera o tempo da árvore para dar flores e frutos e sempre a tudo acolhe.

Parabéns a todas as mães do mundo e principalmente à minha, dona Patrícia, a minha mãe.

Deixe um comentário

Arquivado em Ideias, Inspiradores, Papo de áquia

Uma história de domingo de Ramos

Entrada triunfal em Jerusalém, de Giotto, em Pádua, Itália

Hoje, domingo de Ramos fui à missa, seguindo uma tradição familiar que me relembra a infância. Quando criança, minha mãe nos tirava cedinho da cama -a meu pai, à minha irmã e  a mim-, para ir à missa de domingo de Ramos. Todos sempre reclamávamos, porque queríamos continuar dormindo, mas sempre fomos, pois se tratava de um dos principais eventos familiares. Pegávamos os ramos de palma, fazíamos a procissão, rezávamos, cantávamos, enfim.

Esta missa marca o início da Semana Santa, relembrava a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Uma entrada triunfal do filho de Deus, montado em um burrico.

Dona Patrícia, minha mãe, como filha única, passou uma infância muito solitária e não queria que sua filha, no caso, esta que escreve, crescesse sem irmãos. Logo após o meu nascimento, ela engravidou,  mas perdeu o bebê,  ficou meses muito mal no hospital e os médicos vaticinaram que ela nunca poderia ter outros filhos.

Alguns anos se passam, quando ela, uma mulher católica à sua maneira, vai à missa num domingo de Ramos, muito triste, pede a graça de conceber outra criança, ela promete que durante todos os anos de sua vida, nunca deixará de assistir a uma missa de Ramos, junto com a sua família. Dona Patrícia sempre fazia promessas familiares.

No final de janeiro do ano seguinte, nascia Claudia, minha irmã, eterna amiga e companheira,  com quem temos compartilhado tantos momentos e experiências. Com quem aprendi tanta coisa, desde a importância das parcerias à lealdade incondicional.

Sempre gostei muito dessa história, por isso vou às missas de Ramos, pego folhinhas de oliveira, quando posso como neste domingo, vou à procissão e com muita alegria eu canto:

Entrada triunfal em Jerusalém, 1320, Lorenzetti, em Assis, na Itália

Hosana hei hosana ha
Hosana hei hosana hei, hosana ha 

Ele é o santo é o filho de Maria
Ele é o Deus de Israel
Ele é o filho de Davi
Santo é o Seu nome é o senhor Deus do universo 
Gloria Deus de Israel 
Nosso rei e salvador

1 comentário

Arquivado em Inspiradores, Memória

Para 2014, a sabedoria do Oráculo de Delfos

Eis que hoje é 31 de dezembro, por isso compartilho a lembrança de um dos mais poderosos símbolos de transformação. Diversas civilizações, dos maias aos gregos, entendiam o tempo como cíclico, um eterno movimento. Povos agrários, sabiam também que toda a natureza precisava ser trabalhada oportunamente, havia o tempo de preparar a terra, semear, regar, colher e podar, sem esquecer de ficar de olho nas pragas. Elas poderiam aparecer a qualquer instante e arruinar a colheita.

Associado ao culto da terra, estava o culto aos deuses, não podia faltar nenhum, pois a divindade esquecida cobraria o esquecimento.

Oráculo de Delfos

Para ficar com os gregos, inúmeros jogos e rituais celebravam ao longo do ano diferentes manifestações, o amor atributo de Afrodite, a  sabedoria de Atená, a correção de Apolo, havia, inclusive, o tempo de cultuar o lado dionisíaco da vida. Algumas jornadas duravam vários dias como os Mistérios Eleusinos, dedicados a Perséfone e Démeter, destinados a ritualizar as etapas da vida. Tal como se lavrava o campo, deveria se trabalhar o espírito. A palavra cultura vem do latim colere  que significa cultivar. Esta origem sugere que assim como se trabalha a natureza, nós também precisamos trabalhar (cultivar) a nossa natureza.

Deste período em que homens e mulheres estavam profundamente ligados à terra, nos chega um dos mais antigos símbolos de transformação: a serpente. Associada à força da mãe terra, ela simboliza a vida que renasce e se renova ininterruptamente. Elas aparecem como criadoras e destruidoras do universo, em diversas mitologias. Python, a serpente fêmea do oráculo de Delfos, provavelmente, seja a serpente mais famosa da antiguidade. Este oráculo, inicialmente, pertencia à deusa-mãe, Gaia, foi posteriormente conquistado por Apolo. Na Hélade, a serpente detinha atributos da sabedoria, da cura e o dom da adivinhação. Python dá origem ao nome das sacerdotisas do templo: pitonisas.

A única representação da sacerdotisa, ou pitonisa, de Delfos, da época em que o oráculo estava ativo, mostra a pitonisa sentada em um trípode. Em uma das mãos ela segura um ramo de louro (a árvore sagrada de Apolo); na outra ela segura uma taça contendo, provavelmente, água proveniente de uma fonte e que penetrava, borbulhando, na câmara. Esta cena mitológica mostra o rei Egeu de Atenas consultando a primeira pitonisa. A peça foi feita em torno de 440 a.C

Quando os antigos se encontravam com questões ou angústias existenciais partiam a Delfos para uma consulta, eram recebidos com a inscrição “Conhece-te a ti mesmo”, logo na entrada.

Muitas pessoas sonham com serpentes e ficam assustadas, eu mesma já fiquei, sem saber que se trata de um dos mais antigos símbolos de transformação.  O dom da mântica provém de uma sabedoria da terra que muito já viu. Todos os oráculos –tarô, búzios, runas, entre outros- dão pistas ao consulente, mas é o próprio que precisa reconhecer em si suas questões e fazer o que deve ser feito.

Em 2014, desejo a todos a companhia dos deuses para viver com saúde, sabedoria, alegrias e amor e das musas para atuar com inspiração e criatividade.

Verónica

Atena, ladeada pela serpente

1 comentário

Arquivado em Histórias e mitos, Inspiradores, Uncategorized

“Ano novo, vida nova!”

Lembro que quando era jovem, chegava o fim de ano e com a minha mãe adorávamos ler o horóscopo, ver o que  ano entrante nos traria. Nas páginas das revistas encontrávamos coisas do tipo: Há boas oportunidades trabalhos entre julho e setembro; Vênus entra no seu signo em junho, quando você terá grandes chances de encontrar o seu amor; neste ano, preste atenção na saúde… Estou simplificando, mas era uma época em que eu ainda acreditava que o destino nos encontraria ali na próxima esquina.

Fim de ano em Copacabana, Rio de Janeiro

Naqueles anos, na noite da virada, com os amigos fazíamos inúmeras simpatias:  rosas debaixo do colchão para conseguir um amor, comer lentilhas e uvas para a prosperidade, um bilhete dentro do sapato para atrair dinheiro, dar a volta no quarteirão com uma mala para viajar… Queríamos tudo, afinal de contas, o futuro nos esperava.

Hoje, percebo que as pessoas constroem muitas expectativas para a virada do ano. Ano novo, vida nova! Será? Ao dar adeus ao ano que termina, desejamos nos despedir o chefe chato, do emprego maçante, da dor de cotovelo pelo amor que se foi, das notas ruins do filho na escola… enfim, de tudo o que não foi legal. Algumas pessoas gostariam que, de fato, a virada desse uma virada em suas vidas e os tirasse da mesmice.

Parece que desejamos um passe de mágica, tal como nos contos, ir dormir e acordar com o beijo de um príncipe.  Em lugar das dívidas, acordar com a conta cheia, encontrar filhos educados e ordeiros que preparam o café da manhã, em lugar dos bagunceiros e desbocados de todo dia.

Eu acredito na virada, mas hoje sei que não é o calendário, nem os astros, nem poções mágicas vendidas no mercado por diferentes preços, é a gente quem faz. Penso que a gente escolhe a direção e assim constrói o próprio caminho, o que nos prepara para a sorte que encontraremos na esquina, pois não adianta cruzar com o amor da vida se eu não souber reconhecê-lo ou não estiver preparada(o) para amar, nem sonhar com a prosperidade se eu fico sentadinho esperando  ela chegar…

Deixe um comentário

Arquivado em Ideias, Inspiradores, Papo de áquia

Um presente de Natal

Botticelli, Natividade Mística, de 1502

O que significa o Natal para você? Papai Noel? Presentes? Um encontro familiar? Por estes dias, há uma agitação geral, o ano acabando e tudo fica em função dos eventos de fim de ano. Pensando em agradar, as pessoas capricham nos presentes, na decoração, no peru, mas o homenageado da data fica um pouco para escanteio.

Muito mistério cerca o nascimento de Jesus, algumas religiões não o colocam como o filho de Deus, mas como um profeta. O relevante para mim é que, há 2 mil anos, em uma época marcada pela guerra e pelo sofrimento, a sua mensagem  trouxe esperança, ao falar de um mundo novo para gente simples, como pastores e pescadores.

Conta-se que José rumava com Maria grávida a Belém, pois, naqueles dias, Roma estava realizando um censo de sua população e todas as pessoas do Império precisavam respondê-lo no lugar de nascimento. José era um filho da casa de Davi, o grande rei que governou Israel por volta do século 1000 a.C e uma antiga profecia vaticinava o nascimento de um novo rei.

Belém, situada a 10 quilômetros de Jerusalém, era um pequeno entreposto comercial. Ali Maria dará à luz e um grande clarão estelar anuncia o grande nascimento. A estrela será vista por três reis que saem a sua procura.

Israel estava sob o governo de Herodes, que reinava com o apoio de Roma, este, com medo de perder seu trono, manda matar todas as crianças com menos de dois anos. Para salvar o seu filho, José e Maria fogem para Egito.

Adoração dos Magos, de Gentile da Fabriano, 1423

Recuperei esta história, pois Jesus coloca novas pautas para a espiritualidade, ao apontar que a relação com o divino passa, necessariamente, pelas relações entre os homens. Em um mundo em que as ofensas se resolviam no dente por dente, Ele falava em oferecer a outra face. Com humildade encorajou homens e mulheres a transformar seu pensamento e suas ações, a transformação pelo caminho do arrependimento, do perdão, da compaixão e do amor.

Em 2 mil anos muitas tradições se juntaram, chegou a árvore, o papai Noel, os presentes, são todas bonitas, mas relembrar esta dimensão do Natal é um presente para cada um de nós, para o nosso espírito e para nossas vidas.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias e mitos, Inspiradores, Memória

Na roda da vida

O dia de finados traz à memória os seres queridos que  já não estão mais entre nós, nossos ancestrais e, por todo o globo, há rituais para reverenciá-los.

Embora diariamente sejamos movidos por uma força vital, pouco nos detemos a pensar na vida. A biologia tem teorias explicativas bastante plausíveis, mas sem dúvida, trata-se de um mistério, o surgimento desta chama que se transmite de geração a geração. Louvar os ancestrais nos permite reverenciar aqueles que nos legaram essa chama.

Louvar os ancestrais também traz à memória todos aqueles que pisaram sobre a terra, gente que fez das tripas coração para sobreviver em paragens inóspitas ou então saiu caminhando rumo ao desconhecido para encontrar uma terra melhor. Na aurora da humanidade, nossos ancestrais foram caçadores nômades, que fugiam de predadores, depois quando a humanidade se assentou, a partir do desenvolvimento da agricultura, surgiu um novo estilo de vida, e com ele,  o desafio da vida em coletividade, no qual a lei de Talião -olho por olho, dente por dente- constituiu um avanço civilizatório.

Em pleno século XXI, num momento em que nossos pensamentos estão voltados para o presente que nos envolve e para o futuro que se descortina, considero importante lembrar que nossos genes carregam a memória daqueles tempos. Nosso sangue carrega uma tremenda força de luta e resistência de quem comeu o pão que o diabo amassou e tirou leite de pedra, como se diz por aí.

As lutas dessas gentes nos permitem estar neste mundo hoje, pisar o mesmo chão, navegar pelas mesmas águas, olhar o mesmo céu, as mesmas estrelas, respirar o mesmo ar e ver as mesmas montanhas. E permite a muitos travar suas lutas diárias contra a opressão, a manipulação, o engano e contra todas diversas e sutis formas de violência, buscando conquistar uma vida digna para nós, para os outros habitantes deste mundo e até, quem sabe, para as futuras gerações.

Em meio ao turbilhão das urgências, este post demorou uma semana para ser concluído, comecei meditando no dia de finados, mas acredito que todo dia é bom para pensarmos na Roda da vida, na qual o importante é a chama e passar o bastão, porque como diz o hino, “na senda da vida nós todos somos Um só.”

Deixe um comentário

Arquivado em Inspiradores, Memória, Papo de áquia

O mundo misterioso dos bebês

Nestes dias, meus estudos me levaram a olhar e pensar nos bebês. A gente vê aquelas coisinhas gostosas e frágeis que contêm um projeto de gente, tal como nós já fomos um dia e que se tornarão o futuro de nossa espécie.

Os bebês nascem e, mal sabem eles, começam seus desafios. Saem da barriga da mãe, aquele hotel, onde tudo era fornecido -alimento, imunidade e uma temperatura sempre constante- e, logo no primeiro minuto, eles precisam começar a se virar e respirar. “Cara, agora é contigo!”, parece dizer o mundo, não à toa eles choram.

De todos os animais, os bebês humanos são os que nascem mais incompletos. Uma girafinha e um hipopótamo andam nas primeiras horas, agora o bebê humano chega sem um aparelho sensório-motor pronto e sem completar a formação de seu sistema neurológico. Eles chegam munidos de reflexos, ferramentas da espécie, transmitidas geneticamente, para se virarem nos primeiros tempos, como o reflexo de sucção que lhe permite mamar. Alguns reflexos desaparecem nos primeiros meses, outros serão incorporados pelo uso.

Estima-se que se formam 250 mil células nervosas a cada minuto durante a gestação  e, no nascimento, a maioria das 100 bilhões de células do sistema nervoso já está formada, embora não completamente ativada. Logo ao nascer, o peso do encéfalo equivale a apenas 25% do peso de um adulto. O tronco encefálico, parte responsável pelo funcionamento de partes biológicas vitais, como a respiração, ao nascer já está desenvolvido, mas o cerebelo, responsável pelo equilíbrio e pelas funções motoras, se desenvolve no curso do primeiro ano de vida do bebê, sendo que o córtex apresenta-se como a parte menos desenvolvida, ele é responsável pela percepção e pelo complexo processo de pensamento e linguagem.

Embora o cérebro, o nosso computador central, chegue com uma minuciosa programação genética, ele pode ser “moldado” pela experiência, principalmente durante os primeiros anos de vida, uma vez que o material base –os neurônios- está presente, mas as conexões estão sendo construídas e as células que não são usadas ou não funcionam bem, morrem nos primeiros anos da criança. Ativar as conexões requer estímulos de todas as ordens: sensoriais, emocionais, cognitivos. Assim brincadeiras, cores, conversas, toques, histórias, tornam-se fundamentais para criança, pois tudo nela, no corpo e na mente, precisa se desenvolver. 

Sabe-se, hoje, que a desnutrição do feto ou durante nos primeiros anos pode provocar danos cerebrais e estudos com animais mostram que não experimentar certos eventos deixa marcas no cérebro. Isto nos leva a perceber as consequências trágicas da desnutrição e da falta de estímulo nas crianças: os cérebros não se desenvolvem em plenitude, ou seja, atrofiam. Este conhecimento nos torna responsáveis pelo cuidado com as futuras gerações.

Arte com bebês no Espaço nascente http://espaco-nascente.blogspot.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Inspiradores, Papo de áquia

Do Chile, uma história para a alma

mafalda 1A Mafalda me acompanhou na semana passada com os seus questionamentos. Em meio a lembranças suscitadas pelos 40 anos do golpe militar que dividiu o Chile e ainda provoca tanto sofrimento, reiteradamente vinha à minha mente pergunta desta argentina irreverente. Neste mundo tão errado, como fazer para confortar o coração e assim quem sabe aliviar a alma?

mafalda 2Há respostas individuais e coletivas. O conhecimento e o registro da barbárie em Museus da Memória permitem que não os apaguemos os fatos de nossa história. Se não diminui a dor, conforta saber que muitos caíram, mas sua memória não ficou vilipendiada na sarjeta. A consciência pode também funcionar como antídoto para novas ocorrências, o que não se sabe, nem se vê, quando menos se espera, reaparece.

Há também respostas individuais. Aqui aproveito para contar um pouco da trajetória de Michelle Bachelet, a nossa primeira mulher a chegar à presidência da República. Filha de uma arqueóloga e de general da Força Aérea, que foi acusado de traição à pátria e morto nos porões da ditadura em 1974. Nesses anos, ela cursava medicina na Universidade de Chile e passa a apoiar o Partido Socialista que estava na clandestinidade desde o golpe. Em 1975, junto com a sua mãe será presa e torturada, depois de um ano na prisão partem para o exílio, ela encontrará acolhida na Alemanha Oriental. Em 1979, retorna ao Chile, onde conclui o curso de Medicina.

Ao longo da década de 80, enfrenta dificuldades para exercer a profissão no serviço público, seu nome desperta desconfiança, mas trabalha de forma voluntária na ONG Protección a la infancia dañada por los Estados de Emergencia, que fornecia apoio aos filhos das vítimas do Regime Militar.

Com o pai, Alberto Bachelet

Nos anos 90, inicia estudos na área de defesa, destaca-se em 1996 como a melhor de sua turma na Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos, como prêmio ganha uma bolsa da Presidência da República para estudar no Colégio Interamericano de Defesa em Washington DC, nos EUA.

Daí sua história é mais conhecida, participa do governo de Ricardo Lagos, da Concertación, primeiro como Ministro da Saúde e depois ocupa a pasta de Defesa, primeira mulher a ocupar este cargo no país, depois será eleita presidente da República, cargo que ocupa até 2010, isto para resumir a biografia política.

No Chile, não há reeleição, mas neste ano, 2013, ela está concorrendo para um novo mandato. Ironia do destino, disputa com a filha de um general que participou do golpe militar e esteve à frente da Aviação durante o governo Pinochet.

Na semana passada a vimos à frente de manifestações pela memória das vítimas do regime militar. Poucas pessoas já passaram por momentos tão dolorosos como ela, mas hoje torna-se um exemplo de mulher cuja vida foi bem maior do que a sua dor.

Em 2013 liderando uma homenagem às vítimas do golpe.

Deixe um comentário

Arquivado em Inspiradores, Memória, Papo de áquia

Porque nem fila, nem chuva de canivete afugentam um peregrino

Acompanhando a cobertura da visita do Papa Francisco pela TV, nos primeiros dias, parecia que tudo ia ser um grande mico, depois, nas pautas viam-se os temas cotidianos numa versão mega evento religioso: o trânsito, as dificuldades no acesso aos serviços e no transporte, as filas, os transtornos para a população de Copacabana.  As/os repórteres no meio da multidão, como se cobrissem a copa do mundo, reiteradamente, perguntavam:

– De onde você vem? Manaus, Salvador, Colômbia? Oh que grupo animado! Telespectador, veja a diversidade em nossas areias!

foto de Wanderley Almeida

foto de Wanderley Almeida

E, no fim de tudo, o lixo e o trabalho dos garis, tal como após a passagem das escolas de samba no carnaval. Mas, os repórteres se admiravam que os peregrinos não reclamavam, ao contrário, nem a chuva de canivete tirava o entusiasmo.

-Vale a pena este esforço? – Perguntavam.

Unanimidade na resposta: sem dúvida.

Certamente, a fala do Papa tocava, suas mensagens sobre o papel da igreja e a indignidade da existência da pobreza num mundo com tantos recursos, ganharam manchetes, mas milhões de pessoas saíram de suas cidades em diversos cantos do mundo só para ver o papa? Não, saíram em peregrinação para participar de uma grande jornada.

rio papa 2Peregrinar é um ritual comum à imensa maioria das religiões, mas também trata-se de uma prática realizada por pessoas que não necessariamente professam alguma confissão religiosa. Acredita-se que o peregrino sai em uma busca e recebe benefícios especiais  ao empreender a jornada, jornada que nunca é fácil, sempre está recheada de subidas, descidas, desvios –principalmente quando ocorre na natureza- e muitos obstáculos e bolhas no pé a serem superados. Neste caminhar, muitas descobertas e compreensões para levar por toda a vida.

O que busca o peregrino? Talvez um sentido para a loucura no mundo e para o sofrimento. Talvez força para viver ou ferramentas para lidar com os problemas da vida. Quiçá, formas para transmutar a tristeza e a dor. Uma esperança. Uma luz para dissipar a neblina e a confusão…  Embora cada um tenha a sua busca, cada qual encontra uma parcela si mesmo.

Uma cidade marcada pelo Carnaval, a grande festa da carne, viveu uma semana de culto espiritual que terminou com 3,5 milhões de pessoas em vigília e comunhão nas areias da praia. Se o Papa conseguiu esse feito, viva o Papa, ele parece um cara legal, mas prefiro dar vivas aos peregrinos e às caminhadas!

PS. A palavra “entusiasmo” vem do grego e significa literalmente “sopro divino” ou “o Deus que habita dentro”. Assim ser entusiasmado quer dizer estar “cheio de Deus”.

Deixe um comentário

Arquivado em Ideias, Inspiradores, Papo de áquia

Entre putas e deputados, é tempo de poda!

A deusa Vesta

Na mitologia romana, Puta era uma deusa muito importante, ligada à fecundidade da terra, presidindo a podadura. Seu nome apresenta a mesma raiz do verbo putare, “podar”, cortar os ramos de uma árvore, mas também, organizar, por em ordem calcular, pensar  e julgar. No ciclo da vida a poda permite a renovação, trata-se da ação de separar na vegetação as ervas daninhas e a parte que não nos serve mais, buscando favorecer a germinação de novas e saudáveis sementes.

Certamente a expressão “filho da puta” tornou-se uma ofensa comum, inclusive, muito ouvida nas passeatas das últimas semanas, mas cabe dizer que o verbo putare tem muitos derivados em português, como os termos deputado, amputar, computar, reputação, entre outros.

Fragmento do Templo da deusa Vesta no Fórum Romano, Roma, Itália

Fico pensando que diversos lugares mereceriam uma boa poda, a começar pelas instâncias de governo. No congresso, por exemplo, podaria salários que subiram acima da inflação, bem como todos os privilégios que os parlamentares aprovaram para si mesmos (começando com os gastos com paletó) e partidos criados para negociar a legenda. Nos executivos federais, estaduais e municipais, cortar ministérios, secretarias e principalmente, verbas para negociatas.

Estátuas da deusa Vesta na Casa das Vestais no Fórum Romano, Roma

Cada um de nós poderia também pensar no que precisa podar no seu jardim para no verão colher bons frutos, uma  boa safra, os agricultores sabem muito bem, não cai do céu, exige trabalho. Talvez podar o nosso desinteresse pela coisa pública, pois os nossos políticos que receberam tantas críticas nos últimos tempos estão  em seus cargos porque nós, os elegemos.

Entre os povos antigos a fertilidade da terra era uma questão séria, porque ligada à sobrevivência, por este motivo, as sacerdotisas das deusas ligadas à agricultura -citamos a deusa Puta romana, mas há outras, entre elas, Vesta e também a grega Àrtemis- realizavam rituais sagrados para promover a fecundidade. Nos rituais, as sacerdotisas do templo copulavam com os homens da região, acreditava-se que os rebentos nascidos dessa união teriam um futuro brilhante e desempenhariam um papel importante nas cidades.

Para nós, pessoas do século XX, pode parecer um costume bizarro, mas sem dúvida, o momento atual precisa da fertilidade de ideias e projetos para melhorar a vida das pessoas. Soluções criativas baratas, viáveis e rápidas para colher uma safra cheia de bons frutos.

Casa das Vestais no Fórum Romano

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias e mitos, Ideias, Inspiradores, Papo de áquia

Lembranças do grande arquétipo do feminino

Amazona

Neste mundo, no qual as mulheres fazem tudo o que os homens fazem, trocam lâmpadas, constroem pontes, são cientistas, entre outros, muitos se perguntam, qual seria a essência do feminino? O que caracterizaria a própria mulher? No plano simbólico, o elemento central do feminino é o vaso. O próprio útero pode ser pensado como um vaso invertido, o vaso que acolhe a semente e a transforma em criação-criatura.

O vaso comporta diferentes usos e funções. Existe o vaso-recipiente que preserva, contém e protege, por sua vez, o vaso-alimento nutre o nasciturno, mas sem dúvida o atributo mais misterioso é sua possibilidade de gerar vida e parir.  A criação, o lado numinoso, o mistério que nos vincula ao sagrado.

Cultura mexica (Astecas)

A fabricação da cerâmica desde os primórdios era uma tarefa da mulher, a magia da terra  e da água que se transformam com o poder do fogo. Por sua vez, a transformação que se processa em seu interior o ligam ao irromper, nascer, à movimentação criativa. Crianças, pensamentos, arte vem à luz do interior obscuro deste corpo-vaso-ventre. Mas também a transformação da menina em jovem e depois da jovem em mãe.

vaso2Os antigos colocavam o corpo ou as cinzas num vaso-urna funerária, para que estes ficassem guardados, assim como se chegou ao mundo. O vaso, um recipiente feito a partir da terra recebe aquele que se foi de volta para si, tal como a mãe terra, que nos nutre nesta vida e depois da morte nos acolhe.

Recipiente cujo interior é desconhecido, tal como a alma da mulher, foi associado a uma caverna  protetora e  porta de entrada da montanha. No plano simbólico, a caverna e a montanha representam a forma natural de símbolos como o templo e da casa.

Todos estes elementos o ligam à personalidade arquetípica da mulher, tornam-se o fundamento de sua grandeza, a sua contribuição particular na relação com o masculino, central na manutenção da espécie, mas também na transmissão da cultura, algo que nos torna humanos.

atena vasNos dias 8 de março lembramos as conquistas das mulheres, penso que uma conquista ainda por vir é a do seu feminino. O útero é responsabilizado pela TPM,  o sangue ficou associado à impureza e ainda hoje, em alguns espaços, vemos mulheres sendo discriminadas no trabalho, porque engravidavam. Sem contar que na busca em se igualar ao homem, o corpo-vaso anda um tanto malbaratado, mais parece um vaso sem alma.

A conexão da mulher com o seu feminino começa pelo entendimento de seu vaso, de suas águas e da terra que o conforma, passa pelo desvencilhamento dos preconceitos apreendidos até se chegar à reconquista de sua dignidade. Ainda temos um trecho a percorrer.

1 comentário

Arquivado em Inspiradores, Memória, Papo de áquia

Agora virei “bixo”

Nesta semana, voltei aos bancos universitários. Os que me conhecem sabem que desde que entrei nunca sai da universidade, mas agora é diferente, estarei sentadinha tomando nota da matéria.

Há quase 20 anos sou professora nos cursos de Jornalismo e Ciências Sociais, sempre trabalhando com jovens que buscam uma profissão. Algo muito bacana, me permitiu aprender muito, mas senti que preciso novos desafios.

Na minha formação circulei por vários campos do saber, da filosofia ao jornalismo, passando pela sociologia. Aos 17 anos tinha dificuldade de escolher uma carreira, pois gostava de tudo, matemática, física, história, literatura… Naquele momento era uma angústia, que dilema escolher algo para “toda a vida!” Nada como o tempo para a gente saber que esta é apenas uma primeira escolha, não uma prisão a uma área, eu acabei circulando (e me formando) pelas ciências humanas.

Há alguns anos, a mente e o comportamento humano têm me apaixonado, já vinha fazendo cursos, participando de grupos de estudo, agora decidi agora pegar o “bicho” pelo chifre e não ficar mais dando voltas: vou me preparar para uma nova profissão.

Estou com 44 anos, por isso muitos me perguntaram por que não uma pós? Não era mais fácil? Seria, só que uma pós me permitiria apenas dar aulas na PSI e para os meus próximos 20 anos de vida laboral quero abraçar outro campo de atuação mesmo.

Se bem a expectativa de vida está perto da casa dos 80 anos, sempre achei que eu vou viver até depois dos 90, tal como minha bisavó que morreu aos 98 anos. Quase um século de vida!  Sou dessa linha, acho eu, se a providência não determinar o contrário. Como ainda tenho um certo tempo pela frente, achei melhor escolher o que quero fazer a próxima meia jornada de minha vida. A aposentadoria está fora de cogitação.

Hoje acabo por aqui porque agora tenho muita matéria para estudar.

3 Comentários

Arquivado em Ideias, Inspiradores, Papo de áquia

O encanto chega com as ondas do mar

Não há quem não se renda aos seus encantos, a sua majestade chama a reverenciá-lo, mas também a ser cuidadoso. Profundo, fértil e misterioso, o mar. Das águas marinhas, descendem Yemanjá e Afrodite, duas deusas que trazem facetas de seu poder.

Proveniente da mitologia Yoruba, Yemanjá é a guardiã dos mistérios da fertilidade e do amor, grande mãe, de coração caloroso a todos acolhe. O fluir de suas águas dissolve as dores e tristezas de homens e mulheres, confortando todo aquele que busca sanar suas mágoas.

Do panteão olímpico grego, chega Afrodite, aquela nascida das espumas do mar, representa o amor primordial e a fecundidade. Seus atributos divinos, alegria, sensualidade, beleza e graça, a tornam irresistivelmente encantadora.

As duas senhoras cada uma a sua maneira, chamam a cultuar a beleza, a cultivar a alegria e celebrar diariamente a vida.

Afrodite voando em um ganso, do séc. V, encontrada em Rodes

É tão forte a simbologia do mar que uma versões da etimologia do nome Maria remete a “oceano”, sendo assim, a Virgem Maria, a mãe de Deus, seria uma continuidade cultural destas antigas deusas do Mediterrâneo.

Em fevereiro, vale ouvir o fluir das águas, se possível, visitar o mar, passear pela praia e, por que não, celebrar a vida, tão sublime, poderosa e intrigante como o mar.

Yemanjá – dia 02/02

Afrodite – dia 06/02

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias e mitos, Inspiradores

Na trilha, rumo à Aparecida

Hoje, no dia da padroeira do Brasil, dia de Nossa Senhora, me lembrei de uma das melhores viagens que fiz. Foi em julho de 2007, a Caminhada da Fé, junto a um grupo rumo à Aparecida. Durante 10 dias, com uma mochila nas costas, transitei pela serra da Mantiqueira na divisa entre o sul de Minas, São Paulo e Rio de janeiro. Minha mochila não pesava mais de 5 kg, mas havia momentos em que parecia que carregava toneladas.

Um exercício radicalmente diferente do nosso urbano dia a dia, acordar antes do sol raiar e sair para caminhar até o sol se pôr, sentir o cortante frio da manhã do inverno, o calor dos campos ao meio dia, perceber o valor de uma sombrinha, da brisa e principalmente da água. No percurso, ver a vida que corre no seu ritmo, as crianças brincando com bonecos de trapo, as mulheres cozinhando, os trabalhadores cortando cana de açúcar ou colhendo café. Na beira da estrada, as pessoas, por vezes, ofereciam um cafezinho e um dedinho de prosa, dava vontade de ficar papeando, pena que o meu passo devagar e sempre não me permitia muitas paradas.

Neste tipo de jornada cada um sente o seu ritmo, como encara os bichos no meio da trilha, o desfiladeiro, como sobe a subida e depois a outra subida, até chegar ao destino. Lembro como se fosse hoje a subida ao Pico do Gavião, 30 kms de caminhada, nesse dia nem sei como cheguei, as pernas quase não respondiam. E na manhã seguinte de novo tudo outra vez. A gente sempre pensa que não vai dar conta, sem saber como, o corpo segue. Pisada trás pisada, as dores vão ficando pela estrada, as mágoas vão se lavando nas cachoeiras e, um dia, a gente chega até o destino.  Lá estávamos nós todos cansados percorrendo as ruas de Aparecida para entrar na Basílica. Que satisfação! E que emoção ver a Virgem no altar!

Aí se vislumbra que  a chegada não é o fim do caminho, trata-se apenas de uma parada.

O fim do caminho é sempre caminhar.

Deixe um comentário

Arquivado em Ideias, Inspiradores

Alquimia para o dia a dia

Alquimia

Derreter as dores

Descongelar o coração

Arejar o pensamento

Sacudir a raiva

Fluir a tristeza

Queimar a mágoas

Germinar a alegria

Embalar o perdão

Acalentar a esperança

Aninhar o amor

Perguntas para mentes e corações

Por que insistimos em trombar com a montanha?

Em provocar o touro brabo?

Em mexer em casa de marimbondos?

Em dar murro em ponta de faca?

 

Por que a gente quer chegar sem ter feito a caminhada?

Calmaria se o nosso céu de repente às vezes fica tomado de nuvens cinzentas e trovoadas?

A vitória se a gente  desistiu antes de tentar?

O tesouro se a gente não saiu pra procurar?

 

1 comentário

Arquivado em Inspiradores, Papo de áquia

A busca da verdade e a disposição de conhecer

Nestes dias me perguntaram durante uma aula, se nas ciências algum dia se alcançaria a verdade absoluta. Grande questão.

Os seres humanos anseiam por verdades absolutas, porque desejam certezas absolutas, talvez para contrabalançar o desconhecimento de questões cruciais de nossa existência, como as nossas origens ou nosso futuro. A vida é um grande mistério. As religiões desde os primórdios buscam dar sentido às nossas inquietações. Na tradição ocidental, a busca da verdade nos acompanha, pelo menos, desde os primeiros filósofos gregos e em cada época assume uma feição distinta.

A ciência busca entender o mundo, seguindo certos valores e um método, procura vê-lo como realmente é, aceitando quando o que aparece na pesquisa não é bem como imaginamos, ou seja, mesmo quando não se ajusta às nossas pré-concepções.

A ciência e a religião buscam, cada qual com suas ferramentas, dar sentido o mundo. Algumas religiões se professam donas da verdade absoluta, diferentemente, através da ciência aprendemos que os conhecimentos estão sempre em aperfeiçoamento, podem ser substituídos amanhã, por uma teoria melhor. A história da ciência está aí para mostrar.

Não vou entrar nas miudezas do método científico, gostaria apenas destacar que a ciência requer uma atitude crítica em relação ao conhecimento, liberdade de pensamento, transparência e humildade.

“Só sei que nada sei”, disse Sócrates, no século V a.C, reconhecendo sua ignorância. Ao instalar a dúvida, o filósofo, introduziu as bases da atitude científica,

25 séculos se passaram, mas ainda valem os seus ensinamentos para compreender as especificidades da ciência.

Deixe um comentário

Arquivado em Ideias, Inspiradores, Papo de áquia

Sublime solução

Troglodita, paralelepípedo, pudim

Palavras afagam, trafegam, constroem.

Palavras mordem, doem, destroem.

Imagem que se faz som.

Silêncio que cria música.

Pulsar, ritmo e vibração.

Flor, amor, dor

Dom ou construção?

Criação

do humano.

Chave,

de portas deste e de outros mundos,

do meu e do seu,

do ontem e para o amanhã.

Imperfeita tradução

Sem medida,

a palavra é poluição

Sem discernimento, é dragão.

Magia, cultura  e canção.

Solução

Verónica

1 comentário

Arquivado em Inspiradores

A dança do casamento

Nestes dias participei de uma festa de casamento. Tratava-se de um casal, vivendo sob o mesmo teto há vários anos  que desejava consagrar sua união. Eles mobilizaram a família do outro lado do continente, amigos recentes e de toda a vida e fizeram a coisa acontecer. No dia, como de praxe, os noivos estavam nervosos, o juiz fez piadinha e as mães choraram. O violinista desafinou na hora da cerimônia, o tio cantou a valsa, os noivos dançaram, um pra lá, um pra cá, meio durinhos, denunciando que não haviam ensaiado previamente. Os animados inauguram a pista e a eles se juntaram os mais acanhados, todos queriam curtir aqueles clássicos de sempre que a banda tocava.

O casamento é um rito, no qual as duas partes afirmam perante todo o universo a vontade de traçar uma caminhada juntos, para o que der e vier, na alegria e na tristeza. Um compromisso para dar o melhor de si sempre e estimular o melhor no companheiro por toda a vida. Não é brinquedo não… Nas últimas décadas quando as tradições perderam a força e os costumes se liberalizaram, muitos casais, se juntam, mas fogem do sim do ritual. No Brasil, assim com em outros países, criou-se a figura da união estável para garantir os direitos àqueles que compartilham suas vidas, há mais de dois anos.

Casar hoje em dia, num tempo de sexo fácil e relações tão fluidas, líquidas como diria Bauman, parece um anacronismo. Jovens românticas/os sonham com o casamento, mas quando o pai entrega a moça no altar ao marido rola um frio na barriga na hora do sim, porque daí não há mais volta. Bem, alguns acabam voltando para a casa, mas não são os mesmos, muita água já rolou debaixo dessa ponte.

No caso, os meus amigos não são tão moços, sentiram mesmo é vontade de selar uma aliança e festejar com todas as pessoas queridas.

Eu curti.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Ideias, Inspiradores, Papo de áquia

Voo noturno

Nesta semana me encontrei em um voo noturno Santiago-São Paulo. Na hora da partida, com as luzes reduzidas para poupar energia no interior da aeronave, me veio à lembrança um dos maiores sustos que já passei. Foi há uns 10 anos, num vôo São Paulo-Brasília, num final de tarde de 6ª feira. Naquela tarde de final de verão chovera torrencialmente, enfrentara um trânsito infernal, como conhecia os atalhos e desvios consegui chegar ao aeroporto em cima da hora, embarquei já nos descontos. Com todos a bordo, o céu desaba novamente. O avião fica parado na cabeceira da pista, tudo continua escuro -nessa época nem se sonhava com o celular, menos lap tops oi I pods-, os minutos passam lentamente, lá fora, relâmpagos e trovoadas, a pista é um rio. Quarenta minutos se passam, a chuva mal diminuíra, repentinamente, o avião se mexe, ganha velocidade e rompe os ares. Me sinto em meio a um bombardeio, a chuva de granizo mais parece um arsenal de tiros disparados contra a lataria, o barulho assusta, a aeronave cambaleia. Turbulências, mal dá tempo para se recuperar de uma que vem outra, o piloto parece sortear os raios que insistem em passar raspando. Todos grudados na cadeira, no interior só se ouvem as respirações e as rezas em voz baixa. Naquele momento me assaltavam os pensamentos nefastos: por que ando de avião se odeio ficar longe de terra firme? Por que não perdi o avião? Aquelas conversas entre todos os nossos eus, um racional que diz “o avião é o meio mais seguro de voar”, outro medroso retrucava: “voar é coisa de pássaros!” Assim se passaram uns 30 eternos minutos, tempo para avaliar a vida, fazer promessas enfim. Aos poucos a turbulência diminui, os trovões começam a ficar mais espaçados, estamos saindo do olho do furacão e o capitão informa:

– A tempestade já ficou para trás, agora podem desfrutar o voo.

As luzes se acendem, os passageiros recuperaram a fala e tudo segue seu curso. Lembro que ano sabia o que era pior se a tempestade ou a sensação de não saber o que estava ocorrendo, o silêncio da cabine nos deixava mais preocupados, o que estaríamos passando que ninguém ousava dizer? A fantasia talvez fosse maior do que a realidade, mas como não havia informação a gente preenchia com a imaginação.

Nesta última viagem após breves instantes ouvimos:

– Quem lhes fala é o capitão, o clima está bom e o tempo de vôo previsto será de 3h50min.

Que alívio!

Deixe um comentário

Arquivado em Ideias, Inspiradores