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Lembranças da Páscoa

A Páscoa sempre foi um evento familiar marcante. A família Aravena Cortes tinha uma religiosidade particular, mamãe Patrícia, filha de um comunista chileno de carteirinha, fez primeira comunhão escondida dos pais, não era muito de ir à igreja, mas quando precisava de uma força extra, não titubeava em pedir diretamente para o divino. Já meu pai, Alfredo, não gostava de rezas, um engenheiro materialista, à sua maneira, se alinhava na concepção da religião como o “ópio do povo”, entretanto,  no dia de seu enterro viemos a saber que ele fora coroinha na infância, meu tio Miguel que nos contou – deve ter acontecido algo sério para ele ter ficado muito chateado com a igreja-,  mas papai sempre respeitou as opções espirituais de todos e acompanhava dona Patrícia em todas as suas promessas, uma delas feita em um domingo de Ramos, quando ela pediu um segundo filho. Nove meses depois chegou minha irmã… Meu pai nos deixou nas primeiras horas de um domingo de Páscoa, há dois anos, mas também, num domingo de Páscoa, alguns quantos anos atrás, o meu amor me ligou, e, claro, não posso deixar de dizer, que minha pequena Renata chegou em uma semana Santa.

Coincidências? Como boa junguiana, não acredito em coincidências e, como pesquisadora dos saberes ancestrais, acredito no ciclo da vida.

papai no casorio

Sr. Alfredo, no casório da filhinha, morrendo de frio, mas com sua impagável presença de espírito

Compartilho estas histórias familiares para lembrar que a força da vida aponta sempre para a renovação. Há muita coisa errada na cidade,  no país e no mundo, mas o grande terreno da transformação está no interior de cada um. Não se muda o mundo se eu já cristalizei as minhas verdades, se eu não mudo uma vírgula do meu pensamento, nem das minhas ações.

Feliz renovação!

Feliz renascimento!

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O simbolismo da paixão

A paixão de Cristo permite diversas interpretações, nesta data, escolhi pensar na simbologia dos instantes finais da vida de Jesus, quando de sua morte para o mundo e a ressurreição para a vida eterna.

Inicialmente uma breve recuperação da história. Jesus chega a Jerusalém, para o Pessach, onde será recebido com glória; ao entrar no templo, ao ver os comerciantes estabelecidos no espaço sagrado, enfurece, expulsando-os; seus atos despertarão a ira das autoridades judaicas. No desenrolar dos acontecimentos, um discípulo traidor, Judas, entrega Jesus aos líderes judaicos; altos sacerdotes o interrogaram, não encontrado motivo de condenação, contudo quando este disse que seria capaz de destruir o Templo e reconstruí-lo em três dias e afirmou que de fato era o Messias, foi acusado de blasfêmia e encaminhado à autoridade romana local, Pôncio Pilatos. O governante, após uma curta conversa, sentencia o Nazareno à morte; como era costume soltar um preso antes da Páscoa, Pilatos pergunta à multidão a quem liberar, o assassino Barrabás ou Jesus? A multidão libera o criminoso. Pilatos lava as mãos.

Numa interpretação simbólica, os sacerdotes representam as autoridades da natureza inferior, a ignorância,  o orgulho e a ambição. Jesus é apresentado como ameaça de subversão, certamente é uma ameaça ao ego e à parte sombria da psique ao propor uma nova forma de funcionamento, agora inspirada no amor, na compaixão e  no perdão.

Pilatos, o governante, simboliza a instância da mente que deve decidir o caminho a tomar. A mente ao lavar as mãos, justifica-se alegando não ter culpa da morte do inocente, uma vez que está apenas cedendo aos apelos da plebe, a figuração das paixões. As paixões sempre zombam da natureza divina. As paixões identificadas com o criminoso pedem sua liberação e a crucificação da parte divina do homem. Barrabás em aramaico significa “o filho do pai”. Ao libertar Barrabás, estará permitindo que o filho do Pai Celestial, mas alma errante, ignorante de sua verdadeira natureza,  continue a vagar pelo mundo até redimir-se pelos seus crimes e assim retornar à casa paterna triunfante.

O ponto culminante, a crucificação ocorre no monte Gólgota, que em aramaico significa crânio, numa clara indicação de um elevado estado de consciência. Jesus expressando a consciência divina, é crucificado entre dois ladrões, um deles seria um bom homem, este segue o Salvador  rumo ao Reino dos Céus. Os dois ladrões simbolizam os dois aspectos da psique, a luz e a sombra, o consciente e o inconsciente.

Para finalizar, o Reino dos Céus comporta a grande metáfora da unidade e da totalidade; na visão junguiana, o caminho de individuação do sujeito passa pela integração de todos os aspectos da psique, assim para alcançar a luz é preciso aprofundar na escuridão, entrar não apenas na nossa sombra, mas também no inconsciente. Passa também pelo abandono do eu mesquinho, intolerante, ambicioso e temeroso que cede lugar a um novo eu, sábio, amoroso e reconectado ao todo.

Gaudenzio Ferrari, Histórias da vida e da paixão de Cristo, afresco de 1513, Igreja de Santa Maria della Gracie, Varallo Sesia, Itália.

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A visão gnóstica de Jesus

Nestes dias, em plena semana da Paixão de Cristo, peguei-me pensando que, no Brasil, muitos pertencemos a famílias cristãs, ou católicas não praticantes, pois as práticas que a igreja católica nos proporcionava não deram conta de nossas inquietações, nem das nossas necessidades espirituais. Fazemos parte desta matriz cristã, contudo, hoje ela não nos diz muito, nem nos ecoa no coração.

Há algum tempo tomei contato com o livro de Raul Branco Os ensinamentos de Jesus e a tradição esotérica cristã que, para mim, foi um divisor de águas, ao apresentar os ensinamentos pouquíssimo conhecidos do cristianismo primitivo. Aproveito o tempo da Quaresma para compartilhar este estudo.

1150, mosaico na Capela Palatina, Palermo, Itália

A Bíblia, diz o autor, é um “repositório de ensinamentos profundos velados pela linguagem alegórica” e a própria vida de Jesus pode ser entendida como uma alegoria. “Jesus, nesses relatos, simboliza o Cristo que habita no interior do homem. Sua vida, como apresentada nos quatro evangelhos, é uma descrição da viagem de retorno de todas as almas à casa do  pai.” Pesquisador de tradições orientais e da psicologia junguiana, entre outros,  Branco fornece uma chave para entender a vida de Jesus e  traz instruções e instrumental para o caminho, algumas servem como sustentáculos aos buscadores, mas buscam, principalmente, preparar o discípulo  da verdade na senda de transformação.

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26:41), disse Jesus.  O caminho a ser trilhado recebe o nome grego de metanóia, que significa a grande transformação do estado mental do homem, entendido como mudança dos condicionamentos e do próprio pensamento. O termo foi utilizado também por Jung ao descrever as transformações vitais da segunda metade da vida.

Embora desejemos mudanças, nosso ego resiste a este movimento. “Resistimos, porque toda mudança implica uma revolução interior que demanda algum compromisso com a verdade. Esse compromisso requer humildade para aceitar a possibilidade de que alguns de nossos mais estimados conceitos foram construídos sobre a areia e, finamente, uma coragem extraordinária para enfrentar a resistência inicial de nosso ego orgulhoso e inseguro”, escreve Branco.

Esses ensinamentos de Jesus, o vivo, como o Mestre era chamado pelos gnósticos, seriam a medicação salvadora receitada pelo grande terapeuta à humanidade. Uma vez o diagnóstico feito e a medicação receitada, restaria a cada ser humano exercitar o seu livre-arbítrio e decidir se toma a medicação necessária em tempo que não raro se escoa como areia em nossas mãos.

Nesta visão, para chegar ao Reino, ou seja, para alcançar a perfeição, o homem deve encontrar e trilhar pacientemente, mas com determinação, o Caminho ao longo de transformação. Gosto desta chave de compreensão do cristianismo primitivo, permite-nos lembrar do que devemos fazer.

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Afrodite, a pura expressão do amor

Vênus de Milo, no Louvre

O amor, ah, o amor. Tanto já se fez e ainda se faz em nome do amor. Loucuras, desatinos e transformações radicais! Embriaguês que nos leva ao céu, a viajar pelas estrelas, mas também dilacerante pode se tornar uma paixão não correspondida. E sempre pode ser o início de uma grande história.

Uma grande deusa tem personificado esta doce vertigem que todo mortal anseia viver, Afrodite, intempestiva, ela chega dos céus sublime montada em um ganso ou por terra acompanhada de um grande cortejo de ursos leões ou panteras.

O mito sobre sua origem conta que Crono, a pedido da mãe, Gaia, enfrentou o tirano Urano e, na luta, decepou os órgãos sexuais do pai, lançando-os ao oceano, o esperma, a semente do Céu, jorra pelos ares. Da espuma do mar fertilizada, nasceu uma belíssima menina, nas costas de Chipre. Afrodite foi levada pelas ondas à Grécia, onde foi recebida pelas Graças que a vestiram com trajes lindíssimos e depois a conduziram ao Olimpo. As Graças, as deusas da beleza e do encantamento tornaram-se suas companheiras, ensinando-lhe todos os seus talentos.

Na Grécia, Afrodite ganhou um lugar entre os olimpianos e um marido, pois Zeus dispôs o seu casamento com Hefesto, deus ferreiro, embora coxo. Não tiveram descendentes, mas se acredita que do encontro entre a beleza e o divino artesão nasce toda sublime forma de arte na matéria, seus filhos se encontrariam por todo canto em toda produção que reúna arte e engenhosidade.

Afrodite de Cnido

Embora tentassem conter a beleza, a graça e o amor, Afrodite não era detida por laços, nem contida em redes, sempre impetuosa, livre para ir e vir, apaixonou-se por inúmeros mortais e imortais. Ares, deus da guerra, figura entre seus grandes amores, os dois protagonizaram uma memorável cena no Olimpo. Ares deixava seu quarto antes do amanhecer e o caso ficava em segredo, no entanto, Hefesto recebeu um aviso do deus Hélio, que tudo vê. Para se vingar, bolou uma rede de fios invisíveis para prendê-los ao leito e chamou todos os deuses a testemunharem a traição. Mortos de vergonha, os amantes fugiram, cada qual para um canto remoto da terra. Da união entre Afrodite e Ares, amor e guerra, dois opostos, nasceram Fobos (o medo), Deimos (o terror) e Harmonia, esta talvez a melhor representando do resultado da união das duas energias opostas.

Afrodite amou o deus do êxtase e do entusiasmo, Dionísio, desta união nasceu Príapo, protetor dos vinhedos e dos jardins. Hermes foi outro de seus amores, juntos conceberam o Hermafrodito (Hermes + Afrodite).

A deusa apaixonava-se pela beleza e protegia os heróis, entre seus amores mortais destaca-se, o belo e jovem, Adônis, disputado com Perséfone.

Afrodite também seduzia para satisfazer seus caprichos e, quando ofendida, não titubeava em se vingar. Nenhuma mortal podia ousar se comparar a ela em beleza. Certa vez, puniu todas as mulheres da ilha de Lemmos, porque se negavam a prestar-lhe homenagens. De sua pele fez exalar um cheiro nojento que levou todos os maridos fugirem com as escravas, elas em vingança mataram os maridos e  fundaram uma república só de mulheres.

A deusa, proveniente da Ásia, era uma estranha entre os olimpianos. Seus atributos, alegria, sensualidade, beleza e graça, pura expressão da divindade, a tornam irresistivelmente encantadora, entretanto, seu poder de sedução provocou muita inveja e desconfiança das demais deusas, mas principalmente de Hera, a senhora dos casamentos. Tanto foi que logo chegar obrigaram-na a se casar com o deus coxo. Para Afrodite, o amor não precisa de rituais, nem se vincula à instituição do matrimônio, representa o desejo, uma forte energia de atração que une os corpos e assim fecunda a natureza.
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O mito aponta uma diferenciação entre duas diferentes versões de Afrodite, Afrodite Urânia e Pandêmia. Urânia, a Celeste, celestial, sublime, amor etéreo, aquele que encontra e liga as almas, desligado da materialidade; na versão Pandêmia apresenta-se como “a venerada por todo o povo”, tornando-se inspiradora dos amores comuns, até mesmo carnais. Dualidade presente no amor.

Talvez seja uma das deusas mais conhecidas e das menos entendidas, pois todos querem amar e receber amor, mas muitos não conseguem alcançar o seu mistério. Amor é o nome que damos a um sentimento vasto. Há o amor amizade, o amor fraternal, entre pais e filhos, a uma causa, entre outros. Afrodite representa o amor-paixão irresistível que cega e enlouquece os amantes, levando-os a cometer tolices aos olhos de quem observa de fora, mas também pode mobilizar profundas transformações.

Afrodite representa esse magnetismo, energia vital que estabelece a atração entre os seres, sem ela o que nos ligaria às outras pessoas? O que poderia ligar dois seres tão diferentes como um homem e uma mulher?

Dizem que passar por esta vida sem amar e quase como não viver. Há o desejo de provar esse sentimento divino e, ao mesmo tempo, tememos a perda do controle pela paixão. Queremos ouvir o canto das sereias, mas não queremos nos perder em mares e oceanos desconhecidos dos nossos sentimentos. O temor à sedução do feminino recheia de mitos o nosso imaginário: as sereias, Circe, Eva, as bruxas e feiticeiras, entre tantas outras. O amor cega, é verdade, ele transforma inclusive uma das faculdades mais fiáveis: a visão. Sob o olhar do amante, o amado resplandece e as imperfeições desaparecem, a própria vida ganha um novo e saboroso colorido. Quem experimentou sabe.

Afrodite traz uma irresistível força para a procriação: a passionalidade é a mãe de toda criação. Esta energia reúne a força que movimenta e a semente divina que fecunda, traz a fertilidade ao mundo que se traduz em vidas, ideias e arte. O percurso da criação é similar para artistas, cientistas e todo aquele que busca produzir algo novo. Para trazer alguma uma coisa nova à vida, seja uma pintura, um romance ou mesmo uma teoria cientifica, precisa-se de um amante apaixonado, dedicado e louco pela sua criação. A paixão absorvente cega, não permite espaço para outra coisa na mente do criador.

O êxtase do amor com o amante, divina comunhão entre dois corpos, movimenta as energias terrenais e divinas, levando a concepção de um novo ser. Da mesma forma para o artista, o instante de criação é um momento mágico, de encontro com as musas, celestial inspiração, contam alguns que experimentaram…

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Atená, a deusa filha do pai

Nesta semana em que as mulheres recebem homenagens no ocidente, vou recuperar algumas das facetas do feminino que já abordadas em textos anteriores, mas voltar a elas sempre nos permite uma nova compreensão.

Um feixe de luz jorrou sobre o cosmo no momento em que Atená nasceu e a cidade de Atenas foi banhada com uma chuva de neve de ouro. O radiante ouro anunciava a aurora de um mundo novo, por sua vez, a neve trazia pureza e riqueza para fecundar a terra e o homem.

Zeus apaixonado pela oceânide Mêtis, aquela do sábio conselho, regente da sabedoria e da prudência, faz dela sua primeira esposa, no entanto, o oráculo vaticina que os descendentes de deusa seriam mais fortes que o pai e o destronariam. Horrorizado com a profecia, Zeus, que havia se unido à deusa, a engole para escapar deste destino, contudo Mêtis já havia concebido Atená.

Inconsciente desta gestação, o senhor do Olimpo passou a sofrer fortes dores de cabeça, pedindo ajuda a Hefesto, o deus ferreiro, este abriu-lhe o crânio com um machado, permitindo a saída da filha.

Atená nasceu adulta, com armas em punho, pronta para lutar junto ao pai contra os gigantes, seres que ainda não aceitavam a nova organização do cosmo e a hegemonia de Zeus, única dos olimpianos a acompanhá-lo nessa batalha.

Torna-se a filha predileta de Zeus, cujos desejos e pedidos são sempre atendidos e cujas rebeldias causam profunda dor. Do pai ganhou uma espada de prata. Única no Olimpo a vestir armadura que lhe cobre o corpo, apenas a cabeça se revela. A coruja também a acompanhava, pousada em seu ombro ou sobrevoando sua cabeça. Se bem Atená é representada com armas e é guerreira, ela simboliza a inteligência e a razão, tornando-se garantidora da justiça, instituição importante na nova ordem.

Deusa virgem, ou seja, autônoma, sem marido, era ladeada, algo que poucos sabem, por uma grande serpente. Em Roma, foi conhecida como Minerva, originando a expressão “Voto de Minerva”.

A cidade de Atenas foi disputada pela deusa da sabedoria e por Posídon, o senhor dos mares. O deus ofereceu a seus habitantes o cavalo e a deusa presenteou-os com a oliveira. Os deuses julgaram os presentes, mas com o apoio das deusas, Atená ganhou a primazia sobre Atenas. Posídon ficou furioso com a derrota e suas águas inundaram a região, para aplacar sua fúria, os homens foram proibidos de usar os nomes de suas mães, inaugurando-se a linhagem paterna. A cidade destacou-se como centro intelectual e cultural da época, passando a cultivar as inovações sociais e políticas, como a democracia e a filosofia, legando-nos boa parte dos aspectos centrais da cultura ocidental.

Athena Varvakeion, cópia muito reduzida da Athena Parthenos de Fídias, século III a.C, Museu Nacional de Atenas

Na cidade de Atenas, na Grécia, um majestoso templo erguia-se no interior da Acrópole, o Parthenon. Parthenon significa virgem em grego antigo, por isso templo da virgem. Recebeu uma estátua da deusa de 39 pés de altura, feita por Fídias em ouro e marfim.

Trata-se de uma deusa guerreira que preside as atividades do espírito, sempre a vemos na companhia dos heróis. Na armadura encontra-se a imagem da medusa, com seus cabelos de serpente, decapitada por um de seus herois protegidos, Perseu, que a transformou em uma arma: aquele que olhasse seus olhos seria petrificado. A cabeça de Medusa funciona como um espelho da verdade no combate aos seus adversários, que ao contemplarem a sua própria imagem ficam petrificados de horror. Sua lança é uma arma de luz: separa, corta e fere. Entra na guerra contra a desordem, pela verdade e pela justiça.  Atená, juntamente com seu pai, Zeus, venceram o Caos, estabelecendo uma nova ordem que permite o surgimento da pólis, ou seja, a o começo da vida organizada para a humanidade na cidade. A Acrópole representava este primeiro movimento na conquista da cidadania.

Na guerra de Tróia, luta ao lado dos gregos para se vingar de Páris, por quem foi preterida quando ele escolhe Afrodite como a mais bela. Boa parte das estratagemas determinantes para a vitória dos helenos partiram da deusa de olhos de coruja que os transmitia ao engenhoso Ulisses, o seu mortal predileto.

Como grande mãe, também é uma deusa da fertilidade, da linhagem das deusas tecedoras. Puniu Aracne, uma bela e impetuosa jovem bordadeira, porque esta ousou desafiá-la a uma competição e o pior, em sua bela tapeçaria expôs as histórias de amor e traição marital seu pai, Zeus. Duplo erro, não se desafia os deuses, nem se fala do pai da deusa, a vingança chega dura e certa: Aracne foi transformada em aranha e obrigada a tecer pelo resto da vida.

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O século XX, no ocidente, certamente foi presidido pela deusa Atená. Por todos os cantos, as mulheres travaram batalhas, rompendo um ciclo milenar, libertaram-se das amarras da natureza e da cultura, conquistando autonomia. Adquiriram direitos políticos como o voto, direitos sobre o seu corpo e sua sexualidade, bem como uma posição de igualdade com respeito ao homem na família. Ingressaram nas universidades, tornaram-se médicas, aviadoras, juízas, até militares, mostrando ao mundo seus talentos e capacidades fora do lar.

Muitas jovens afastaram-se dos instrumentais e jogos da sedução, apropriando-se das ferramentas do intelecto, não queriam repetir os destinos de suas mães e avôs, desejavam conquistar uma profissão e autonomia, nada de ficar presas a um casamento esperando o marido com o jantar pronto em casa. Para elas, ser a rainha do lar, não era a opção. Filhos? Só depois da carreira construída. Ao privilegiar o desenvolvimento intelectual e profissional, como Atená, as mulheres abriram e ganharam espaço no terreno do patriarcado.

A mulher mudou ao longo do século XX, abriu-se a novas possibilidades, no entanto, as outras facetas do feminino ficaram esquecidas e desatendidas. Como Atená, a deusa guerreira, muitas mulheres são meninas escondidas por trás de um escudo, em suas solitárias lutas diárias, protegendo-se da vida, sem conhecer nem desenvolver a plenitude da mulher.

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A beleza dos 40

Hoje minha irmã, minha eterna companheira, celebra seu aniversário, completa 40 anos, e em homenagem a esta data importante decidi republicar um texto antigo, de 2010, que gosto bastante.

A vida começa aos 40

Um velho chavão. Quem está no vigor da juventude, longe dos 40, pensa que é uma grande bobagem. Muitos dos que estão nesse limiar proferem essa afirmação sem convicção. Já se sentem os efeitos da gravidade e dos radicais livres: rugas, flacidez e manchas. Essas malvadas não existiam, eis a oxidação dizem os especialistas. Um novo nome para um antigo fenômeno: o envelhecimento.

A idade parece uma doença contagiosa da qual ninguém quer falar. Se a idade chega, que não se vejam os seus efeitos. No nosso mundo, a exigência é ser jovem. Eternamente jovem, se possível. A beleza está do lado da juventude. Beleza significa ter uma pele lisinha, um corpo sarado, uma barriga tanquinho.

A indústria da beleza promete deter os efeitos do tempo: cremes antirugas, anticelulite, peelings, liftings, silicones, lipoaspiração. Existem ainda alternativas para os que querem soluções rápidas e radicais: cirurgias plásticas. Tudo para manter a aparência jovem.

O problema surge, pois não se engana o RG. Quando se está na casa dos 40, já ocorreu o inevitável e agora? o que fazer? A batalha travada é por não parecer, ter 40 com cara (e corpo) de 20, se possível.

Trata-se de um luta para se ajustar a um padrão estético, mas há uma dimensão que não é física. Aos 40, alguma coisa parece não se ajustar. O nosso espírito está jovem. A gente se sente jovem, a despeito dos cabelos brancos insistindo em aparecer…

Como assim? Parece uma brincadeira de mau gosto. Agora que os medos e bobeiras de adolescente já ficaram para trás, que a gente sabe e pode fazer o que deseja, que o salário está bom. Justamente quando há boas conquistas para se desfrutar: independência financeira e maturidade. Bem, não sempre, mas vamos caminhando para isso. O mundo nos coloca que já somos senhoras e senhores, tiazinhas e tiozinhos… e que o movimento não é mais ladeira acima. Atônitos, percebemos que para o mundo já passamos do ponto, “já não temos mais idade”. Não temos idade para vestir mini-saia, para namorar, para começar de novo, enfim a lista de nãos é enorme. O duro é que muita gente se convence disso, entra em pânico ou em depressão.

Ouvimos os nãos na infância e na juventude, o não porque se é mulher, o não porque há responsabilidades. Os anos se passam e a gente passa por eles procurando responder às expectativas do mundo. Ser bela, inteligente e profissional, ter um bom emprego, um namorado, casar, ser mãe, ter belos filhos.

Aos 40 pode ser o momento da virada, da liberdade, da liberação dessas obrigações. Aos 40, a gente já não precisa mais correr atrás da aceitação. Já sabemos que quem gosta da gente, vai continuar gostando.

As amarras dão espaço a um novo o imperativo: de viver melhor.

O tempo passa, é verdade, mas a gente não precisa sofrer com isso. A gente pode aproveitar o tempo que nos resta. Trata-se de escolher é como vai se viver os próximos 40 anos. Com mais prazer, mais alegria, mais paixão, mais amor, mais saúde?
Menos a vontade dos outros, menos sofrimento, menos angústia?

Menos dever, mais querer?

O primeiro dia dos nossos próximos anos começa hoje! E a nossa escolha pode ser agora!

clau e vero

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Rumo à Estrela do Oriente

Contemplar a abóboda celeste, vendo uma infinidade de pontos a brilhar em um noite escura talvez seja observar um dos maiores mistérios da natureza. Luminosidades de diferentes tamanhos têm nos surpreendido desde a aurora dos tempos, todas as civilizações registram a presença dos belos e enigmáticos pontos no céu, não raro, ligando-os a feitos extraordinários.

Conta-se que há mais de dois mil anos, três reis deixaram seus reinos guiados pela convicção de que deveriam largar tudo e seguir a luz avistada no céu, abandonaram poder, honras e conforto. Outras leituras dizem que Gaspar, Melchior e Baltazar não eram reis e sim magos, ou seja, sacerdotes de outras religiões. Sozinhos cruzaram desertos, florestas e montanhas, seguem a Estrela do Oriente, que os conduz a um estábulo, onde encontram Maria,  José e Jesús recém-nascido.  Após apresentarem seus louvores e presentes, ouro, incenso e mirra, os reis magos fazem um longo retorno,  para evitar o encontro com o rei de Israel, Herodes, que desejava matar o Cristo. O temor ao recém-nascido leva-o a ordenar o assassinato todas as crianças com menos de dois anos.

Maria e José fogem com o filho para o Egito, onde viverão  escondidos por alguns anos. Não surpreende,  pois terras ao redor do Nilo abrigavam centros com uma tradição milenar de estudo dos mistérios da vida. Os antigos egípcios foram mestres na construção de templos e pirâmides, na confecção de cerveja, bem como na técnica de embalsamamento, cujos produtos podem ser vistos até hoje.

*

Olharmos pouco para o céu, conquistamos os ares, mas deixamos de guiar-nos pelas estrelas, ficamos presos ao nosso metro quadrado, quando não ao nosso umbigo. Deixamos de encontrar estrelas cadentes, conversar com as constelações ou rumar pelas estradas no firmamento.

Nunca vi uma estrela cadente, mas já contemplei em diversas ocasioes a via láctea em uma noite escura, no sul do Chile,  longe das luzes da cidade, deliciando-me com a profusão de luzes que os antigos associaram a uma mancha de leite. Leite, alimento vital. Na mítica, as estrelas trazem o saber e, sempre, a esperança .

Levantar os olhos para o céu em busca daquela luz, que nos conduz ao desconhecido, prática tão antiga quanto o mundo e tão mágica quanto todo nascimento, eventos a se festejar tal como os sábios de outras eras.

Baílica Sant’Apollinare Nuovo, Ravenna, finalizada em 526 d.C.

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Poesias e cantadas na orla de Ipanema

Há tempos venho acompanhando o debate sobre as diferentes formas de violência contra as mulheres. Um tema que precisa ser debatido, pois se durante milênios foi entendido como natural, hoje até um olhar pode ser entendido como ofensivo em nosso mundo que anda sensível e intolerante.

O blog feminista Think Olga fez uma enquete online sobre cantadas, quase  8 mil mulheres responderam, 87% disseram “não achar legal receber cantadas”.  A enquete levou à criação da campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual em lugares públicos e o blog tornou-se um porto de denúncias não só de cantadas mas de diversas formas de assédio sexual.

Faço parte da porcentagem que recebeu cantadas, “Bom dia”, “Princesa”, buzinadas enfim , detestei muitas, evitava passar na frente de construções e até hoje presto atenção às roupas que visto, para evitar olhares desagradáveis. Agora, devo confessar que houve algumas cantadas que me fizeram rir e outras, certamente, fizeram bem para o meu ego em dias um tanto nublados.

A jovem Helô Pinheiro

Em meio a essas reflexões, hoje, os telejornais nos lembraram dos 20 anos da morte do mestre Tom Jobim. Ouvindo fragmentos de suas músicas me assaltou o pensamento que se esta sensibilidade feminina estivesse presente nos anos 1960, o clássico Garota de Ipanema não existiria.

Assíduos frequentadores do bar Veloso na orla de Ipanema, Tom e Vinicius sentavam-se numa mesa da calçada a jogar conversa fora e a olhar o movimento “cheio de graça”, entre umas e outras, ali nasceram clássicos da música brasileira contemporânea.

Em dias ensolarados, a jovem Helô Pinheiro uma moça de “corpo dourado do sol de Ipanema” passava “num doce balanço a caminho do mar”. Sabe-se que ela  não se incomodou com a cantada e menos com a música que se tornou um sucesso internacional,  recebendo versões em centenas de idiomas e a promoveu a eterna garota de Ipanema.

Temo que hoje, os poetas seriam mal vistos e talvez até denunciados por assédio a uma jovem de 17 anos e a música brasileira perderia muito de sua graça, beleza e amor.

… Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

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Nos giros da roda da vida – uma homenagem àqueles que se foram

pai clau euHá tarefas na vida que jamais imaginamos que vamos a desempenhar, nem queremos pensar nisso, sem sabermos como, um dia estamos com a missão nas mãos.

A roda da vida gira, imperceptivelmente, na maior parte do tempo, em outras o giro é brusco, como a dizer:  Terminou aqui.

Nestes dias de experiências familiares fortes, começamos com a minha irmã a dura experiência de fechar as portas da casa de nossos pais. Vender os móveis,  doar roupas e utensílios,  jogar fora o que não presta. Passar para frente uma casa que abrigou nossas vidas por quase 25 anos. Até o pó da casa tem a nossa história familiar, nossas  lágrimas, nossas risadas, nossas dores, pensamentos, esperanças e projetos.

Ao limpar, repassamos cada canto, cada folha de papel, objetos cotidianos,  bem como aqueles perdidos lá no fundo do baú de nossas lembranças,  aquelas que imaginávamos perdidas para sempre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo percurso me vi  confrontando aquilo que imaginaram para nós principalmente os pais -que sempre têm muitas ideias para nós…-  com aquilo que fizemos… é bom poder passar a limpo e jogar fora o que não foi.

O momento permite revisitar aquela criança que fomos, pequena, medrosa, frágil, talvez sentir que ela ainda está lá escondida dentro do armário e possamos dizer-lhe:

– Bom te ver, tudo certo. Você era uma menina,  mas foi muito forte e corajosa! Já fez tanta coisa que sequer imaginava!!! Olhe só! !

Como se a vida estivesse a nos colocar uma oportunidade para limpar dores e ressignificar visões, ideias e pensamentos.

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O aprendizado do momento é perceber que tudo um dia chega ao seu fim… A alegria e o sofrimento, até o que parece mais sólido se esvai, parafraseando o filósofo.  No fim, só restam as memórias.

O momento parece estar a dizer-nos, aproveite a vida, lembre que a semente morre para renascer. A vida caminha em ciclos. Nossos avôs  deixaram suas sementes,  nossos pais, e estes a nós, cabe a nós seguir a senda e ir semeando coisas boas.

Papai gostava bastante de plantar, na sua horta no pequeno terraço tinha morangos que saía distribuindo pela vizinhança, como me lembrou Anita, a vizinha do apartamento de cima, mas acho mesmo que ele gostava de árvores e vê-las crescer… Fico muito contente que nos últimos anos ele pode plantar várias, cerejeiras, pessegueiros, atrapalhando o jardim da minha irmã, mas ele era assim mesmo…famila pai

pai + orlando antiga

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Das Senhoras e das tramas do destino

Se há um grande mistério, sem dúvida, este é o destino de cada um. De repente nós tomamos uma estrada, em lugar da outra  e isto muda o rumo de nossas vida, uma pessoa perde o avião e  se livra de um acidente, outra almoça num horário diferente e encontra o amor de sua vida, mas nem precisa tanto, sabemos que ao fazermos certas escolhas o caminho pode nos levar a lugares impensados.

Entre os gregos, as Moiras eram as deusas do destino, elas comandavam a sorte, o quinhão que caberia a cada um. Etimologicamente, a palavra Moira significa parte, lote, quinhão,  aquilo que a cada um coube por sorte, por isso, destino.

As senhoras do destino, como mulheres, elas fiam, o destino é simbolicamente “fiado” para cada um. As Moiras não foram personificadas, pairam acima dos deuses e dos homens, até Zeus, o senhor do Olimpo deve obedecer-lhes, dado que o destino é imutável não podendo ser alterado nem mesmo pelos deuses, menos ainda pelos homens, isto significa que elas representam um lei que nem mesmo os imortais podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem universal.

As Moiras são a personificação do destino individual, assim cada homem e cada mulher teria a sua Moira, ou seja, a sua parte, o seu quinhão de vida, de amores, de felicidade, de infortúnios.

No mito, seguindo sua Moira, Helena abandonaria seu reino, Esparta, seu marido, Menelau, e seu filho, para seguir o amor de Paris, levando à guerra gregos e troianos, por sua vez, o belo Aquiles estava fadado a morrer jovem nesta guerra, mesmo não querendo lutar, viu-se no campo de batalha e ao ser flechado no calcanhar encontrou a sua moira.

Essa ideia de Moira impessoal,  universal e inflexível, senhora inconteste do destino transformou-se,  acabando por se projetar em três moiras: Cloto, Laquesis e Átropos. Cloto, a que fia, ela segura o fuso e vai puxando o fio da vida. Laquesis enrola o fio da vida e deve sortear o nome de quem deve morrer. Átropos, a inflexível, é aquela que não volta atrás, ela corta o fio.

O destino desde a aurora dos tempos é um atributo do feminino. A mãe tece seu filho em seu interior, num mágico processo que de uma célula formam-se todos os nossos tecidos, do coração ao cérebro, em cerca de nove meses, quando o rebento estiver pronto virá a luz para iniciar com seus próprios pés, sua trama. O destino conjugado no feminino significa pensar que a nossa transformação vem de mãos dadas com o feminino. As deusas nos acompanham por todo o percurso, mas são sentidas nos momentos cruciais, na chegada e na partida.

Hoje somos tentados a acreditar que nós tecemos o nosso destino, que o traçamos com o nosso quinhão de inteligência, determinação, amor, orgulho ou mesmo vaidade e arrogância. Sinto que a vida, sem o notarmos, é tecida dia a dia, entre linhas e instantes, tramados de diversos coloridos, pontos e linhas. Ponto a ponto, urdida nas escolhas, tramada por nós e pelos deuses que chamamos para nos acompanhar.

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Das agruras do engenhoso Dom Quixote ou das batalhas contra gigantes e moinhos de vento

Nascido no dia 29 de setembro, dia no qual se celebra são Miguel Arcanjo, filho de família de médicos cirurgiões, Cervantes entrou no exército, participou na Batalha de Lepanto contra os mouros, quando ao ser ferido, perdeu os movimentos da mão esquerda, posteriormente corsários aprisionaram seu navio, levando-o a Argel, onde fica cinco anos preso nas masmorras

Fico pensando que experiências e quais figuras teriam inspirado Miguel de Cervantes quando dentro da Cárcel Real de Sevilha, em 1597, por problemas em seu ofício de arrecadador de impostos engendrava seu romance, Dom Quixote de la Mancha, cuja primeira parte foi publicada em 1605.

Cervantes conta a história do engenhoso fidalgo que saiu da região de la Mancha como cavaleiro errante pelo mundo para defender os pobres e oprimidos junto a Rocinante, seu cavalo, e a Sancho Pança, seu fiel escudeiro, a quem promete tornar governador de algum dos reinos que viria a conquistar.

Entre muitas aventuras, combateu gigantes que na verdade eram moinhos de vento, atacou rebanhos de ovelhas pensando digladiar-se contra exércitos inimigos e, não raro, causa mais dano por onde passa do que ajuda àqueles que defende e muito apanha. Em certa empreitada, decide lutar contra  leões,  na verdade, nem chega a lutar, porque o leão não faz caso dele, mas foi o suficiente para convencê-lo de sua superioridade; em outra, ataca um cortejo fúnebre de monges beneditinos que levam o caixão de um irmão para seu enterro em outra cidade. E, quando confrontado com  a realidade, o cavaleiro de triste figura pensa que está sendo enganado por encantadores que se divertem  em ludibriá-lo.

Quantas figuras teriam inspirado Cervantes na construção de seu dom Quixote, pois não raro encontramos pessoas que travam lutas imaginárias pelo bem da humanidade, que se descolam da realidade, recontando sua história, retirando dela suas omissões e frustrações, colorindo-a com monstros, solitários a brigar com todos aqueles que ousam questionar seus gigantes, sentindo-se incompreendidos em suas cruzadas contra a injustiça do mundo, sem perceber que estão lutando contra moinhos de vento, a causar sofrimento por onde passam, mas, principalmente, para si  e suas famílias.

O engenhoso fidalgo enlouqueceu de tanto ler novelas de cavalaria e saiu pela vida  tomado pela fantasia que reinava em sua mente. Este romance tão marcante em nossa tradição traz um tema crucial para todos que caminhamos pela vida, pois há muitos engenhosos que ficam na ilusão ou fantasia para não enfrentar as agruras deste mundo e andam  a imaginar batalhas sendo que a maior batalha está em sua mente que constrói uma trincheira para não ver a própria realidade que se construiu.

Don Quijote de Pablo Picasso

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Frida Calor e Frio

frida museu

Nestes dias fui assistir Frida calor e frio com a companhia Estelar de Teatro, no espaço Viga, em Pinheiros. Sempre é fascinante reviver a história desta pintora mexicana marcada pela poliomielite na infância e depois, aos 18 anos, por um grave acidente que destruiu o ônibus em que a jovem voltava da escola. Na fatalidade, sua coluna foi fraturada em três partes, a perna direita, em onze e um ferro entrou pelo quadril esquerdo para sair pela pelve, ela costumava dizer que esta havia sido a forma brutal em que havia perdido sua virgindade. Passou por mil e um tratamentos da ciência médica da época, em meio à dor, pede tela e pincéis para passar o tempo.

Esta mulher encantou o muralista Diego Rivera que veio a se tornar seu marido, em 1929, conta-se que formavam um casal e tanto, numa relação de amor e ódio conhecida por toda a capital; seus saraus e festas reuniam a intelectualidade do país e, por vezes, até do mundo em visita ao México em seus dias revolucionários, como catalão Pablo Picasso, o francês André Breton e o chileno Pablo Neruda. No final da década de 1930, Diego e Frida hospedaram Trotsky exilado no país, por recebê-lo foram alvo de constantes perseguições policiais, mas o evento mais ruidoso foi o caso entre o russo a pintora.

A deliciosa peça nos leva a este universo desta mulher intensa que não fez da fatalidade um destino, embora a dor tenha sido uma companheira, jamais conseguiu vencê-la. Sua arte tornou-se sua vida e sua vida ficou registrada em sua arte.

“A arte é uma das múltiplas possibilidades do real” nos disseram. Que sorte a nossa termos a arte!

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Uma história de um goleiro perna de pau

Nestes dias em que tudo gira em torno ao futebol, lembrei-me uma história familiar. A família de papai pertence a Corinto, um  pequeno vilarejo encravado nas montanhas, em uma tradicional região vinícola, Talca. Embora pequeno, Corinto possuía um time de futebol, estamos falando da década de 1940. Aos domingos, principalmente no verão, o time saía em excursão para jogar em outros povoados, meu avó e toda a garotada caminhavam alguns quilômetros rumo a Pencahue, La Aguada ou outro vilarejo da região.

O campinho permanece onde sempre, logo na entrada, depois da Virgem e do cemitério, no vale que se destaca em meio a aridez da região,   um dia ao chegar,  meu pai tirando as lembranças do fundo do baú falou:

-Aqui jogava seu pai quando menino.

Eu que jamais soubera  dessa faceta deste engenheiro, mais conhecido pelo seu gosto das matemáticas, fiquei surpresa:

-Pai, você hein, escondendo o ouro,  nunca contou nada! Ironizei.

– O bom de bola era meu irmão Miguel,  eu estava mais para perna de pau, só jogava,  porque teu avó era o treinador e ele gostava de sair com os dois filhos, então,  ele me colocou no gol.

Um dia, tio Miguel, o irmão mais velho,   contou-nos sua versão, papai completava o time, mas  era sempre uma incógnita, “havia que rogar-lhe que jogasse, pois ele estava sempre em meio a seus livros.”

Alfredo, certamente não ficou nos anais do futebol, mas saiu de Corinto. Papai lembrava que seu grande apoiador fora seu próprio pai que logo cedo o encaminhou a morar com parentes em outras cidades,  para estudar, pois não havia  nenhum recurso financeiro para custeá-lo.

Passou no vestibular em Santiago, na Universidad técnica, hoje Universidad de Santiago, um centro de estudos público, no primeiro ano, ele estudou depois conquistando bolsas, sei que teve de moradia e alimentação.

Ele dizia que muito cedo se fixou uma meta, obter um diploma, com isso em mente, pouco ligou para bailes ou futebol. Gosto dessa história, me lembra que as vitórias são produto de um grande esforço e muita determinação.

 

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Uma história de domingo de Ramos

Entrada triunfal em Jerusalém, de Giotto, em Pádua, Itália

Hoje, domingo de Ramos fui à missa, seguindo uma tradição familiar que me relembra a infância. Quando criança, minha mãe nos tirava cedinho da cama -a meu pai, à minha irmã e  a mim-, para ir à missa de domingo de Ramos. Todos sempre reclamávamos, porque queríamos continuar dormindo, mas sempre fomos, pois se tratava de um dos principais eventos familiares. Pegávamos os ramos de palma, fazíamos a procissão, rezávamos, cantávamos, enfim.

Esta missa marca o início da Semana Santa, relembrava a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Uma entrada triunfal do filho de Deus, montado em um burrico.

Dona Patrícia, minha mãe, como filha única, passou uma infância muito solitária e não queria que sua filha, no caso, esta que escreve, crescesse sem irmãos. Logo após o meu nascimento, ela engravidou,  mas perdeu o bebê,  ficou meses muito mal no hospital e os médicos vaticinaram que ela nunca poderia ter outros filhos.

Alguns anos se passam, quando ela, uma mulher católica à sua maneira, vai à missa num domingo de Ramos, muito triste, pede a graça de conceber outra criança, ela promete que durante todos os anos de sua vida, nunca deixará de assistir a uma missa de Ramos, junto com a sua família. Dona Patrícia sempre fazia promessas familiares.

No final de janeiro do ano seguinte, nascia Claudia, minha irmã, eterna amiga e companheira,  com quem temos compartilhado tantos momentos e experiências. Com quem aprendi tanta coisa, desde a importância das parcerias à lealdade incondicional.

Sempre gostei muito dessa história, por isso vou às missas de Ramos, pego folhinhas de oliveira, quando posso como neste domingo, vou à procissão e com muita alegria eu canto:

Entrada triunfal em Jerusalém, 1320, Lorenzetti, em Assis, na Itália

Hosana hei hosana ha
Hosana hei hosana hei, hosana ha 

Ele é o santo é o filho de Maria
Ele é o Deus de Israel
Ele é o filho de Davi
Santo é o Seu nome é o senhor Deus do universo 
Gloria Deus de Israel 
Nosso rei e salvador

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A medicina do sonhar

Neste papo delicioso sobre os sonhos Rô, uma querida e sintonizada amiga que trabalha em algumas rodas de cura, adicionou alguns elementos. Diz ela:

Também sou uma sonhadora e me instiga muito perceber que de tempos em tempos , conforme as mudanças ou as necessidades do nosso grupo espiritual,vem uma onda de sonhos refletindo este nosso inconsciente coletivo e que, por vezes, aprofundamento das instruções para estudos individuais ou para o grupo ou mesmo irradiam em aberturas de novos ciclos. Digo isso para lembrar no âmbito do grupo, pra não dizer do pessoal. Sinto mágico, misterioso e de muito poder, esta “medicina do sonhar””.

Asclépio, o curador

Essas palavras me lembraram da importância do sonho para muitas tradições. Entre os gregos havia um grande cidade de cura, Epidauro, lá praticava-se a nooterapia, a cura pela mente. “Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado. E pureza significa ter pensamentos sadios.” Assim se lia logo na entrada.

Durante a estadia, os sacerdotes prestavam especial atenção aos sonhos do paciente, principalmente quando eles dormiam no templo de Asclépio, o patrono de Epidauro, os sonhos dessas noites trariam indicações do Astral das partes enfermas e  também dos instrumentos de cura. Asclépio era Filho de  Apolo, o deus sol, irmão gêmeo de Ártemis, a deusa lunar, um grande curador na vida adulta. Epidauro era um luminoso centro espiritual e cultural, com espaço para as artes e práticas físicas, funcionou durante vários séculos, Hipócrates, o pai da medicina, estudou nele.

Os Mapuche são os povos originários do sul do Chile

Para não ficar no passado, lembrei que entre os mapuche, populações nativas do Chile, ainda hoje, o sonho está incorporado à sua vida cotidiana. Eles acreditam que o sonho se trata de uma viagem que a alma faz quando a consciência se retira e a pessoa dorme. Nesta viagem, ela toma contato com outras dimensões e visita os mundos de cima, de baixo, da “esquerda”, da “direita”. Visualizam suas questões e suas formas de cura. Sei que quando eles precisam tomar decisões utilizam o método de interpretar os sonhos dos membros da comunidade.

E  tenho percebido ouvindo os sonhos de toda família que os nossos sonhos se conversam. Não é fascinante? Nesta viagem da alma, ela passearia por diversos planos, tomando contatos com as questões não vistas durante a vigília e haveria um nível pessoal, do casal, familiar, da coletividade…

Bem, pelo menos, essas foram as minhas divagações…

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Mistérios do grande Feminino

Vênus de Milo

O dia das mulheres, 8 de março, parece um momento perfeito para lembrar um grande atributo do Feminino, a sua capacidade criativa. Todos sabemos que a mulher nas situações mais apremiantes busca caminhos, formas ou saídas, para alimentar sua família, para arranjar trabalho, para se virar em todas as suas tarefas no seu dia a dia, para conseguir uma vaga na escola para o seu filho, enfim. Embora, hoje associemos a criatividade à mente, na origem, a história é outra.

Vaso micênico

Diz-se que o Grande Feminino como um todo é o símbolo da vida criativa, que as partes de seu corpo não são apenas órgãos físicos, mas centros simbólicos de esferas inteiras de vida. As curvas de seu ventre, seus seios, seus quadris participam do mistério da geração, da concepção e da nutrição. Casa e alimento.

Para algumas culturas antigas como a cretense, desnudar os seios era uma prática sagrada, expor os seios tal como a deusa e as suas sacerdotisas faziam em rituais, simbolizava a ligação com a corrente vital nutridora.

Ártemis do Templo de Éfesos

Por outro lado, a mulher com suas curvas também se torna ventre-vaso que a tudo dá origem. Vaso—útero, o centro gerador daquele grande mistério, a vida, lugar de calor e proteção apropriado para dar origem ao novo. Recipiente onde a semente germina. A própria forma do vaso apresenta um visível aspecto simbólico, mas deve-se lembrar o significado simbólico do material com que se faz o vaso, o barro, um elemento que pertence à terra.  Assim confeccionar vasilhas, na origem, é tanto uma parte da atividade criativa do Feminino, quanto fazer uma  criança, o ser humano que – assim como o vaso – em tantos mitos aparece moldado a partir da terra.

 

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A chama dos Olímpicos

Sochi, na Rússia, neste começo de 2014, sedia os Jogos da XXII Olimpíada de Inverno, recebendo atletas de 87 países de todos os continentes. A abertura oficial do evento teve como ponto culminante a chegada da tocha proveniente da cidade grega de Olímpia, após viajar por mares, pelo espaço e até de camelo para acender a pira do conjunto olímpico. Muito da simbologia presente na abertura remonta à antiguidade: o fogo, a chama dos deuses, o desfile, o juramento dos competidores, os louros, entre outros.

No santuário, destacava-se o templo do senhor do Olimpo, em cujo centro havia uma escultura de Zeus que foi escolhida como uma das sete maravilhas do mundo antigo.

Os mais antigos registros dos jogos da cidade de Olympia remontam ao ano 776 a.C., sabe-se que estavam consagrados a Zeus, o patrono do talvez mais célebre santuário do mundo antigo, localizado na cidade.

Os jogos duravam sete dias e se iniciavam com oferendas ao pai dos deuses e dos homens. As guerras, muito frequentes entre os povos das ilhas do mar Egeu, deveriam cessar para que os jogadores e suas famílias pudessem viajar em segurança, estabelecia-se uma paz olímpica três meses antes dos jogos. Depois a própria região tornou-se sagrada.

Dos jogos, participavam apenas homens que residissem na Hélade ou nos territórios. As disputas nesta celebração em honra a Zeus, o grande fecundador e principalmente aquele que subjugou o caos e estabeleceu uma ordem no céu, na terra e no submundo, eram regradas e os homens exibiam a sua destreza, força e potência. Os ganhadores não recebiam dinheiro, mas as honras dos heróis, o prêmio mais desejado na antiguidade.

A pira em Olímpia

Estes jogos contribuíram para a criação de um sentimento de fazer parte de uma unidade para um conjunto de povos vizinhos unidos e separados pelo mar Egeu, do Bósforo, onde hoje está Istambul (capital da Turquia) à Creta, passando por Ítaca,  Esparta, Creta, Delos.

Acredito que sua instituição no mundo contemporâneo promove os mesmos ideais que conduziam os antigos, torna-se uma honra fazer parte do grupo dos olímpicos e, mais ainda, sagrar-se vencedor no torneio. E, certamente, ao ver no mesmo estádio delegações de todos os cantos do mundo, sentadas lado a lado, revive-se o sentimento de unidade: por diferentes que sejam as nossas feições, cor de pele, cabelos e olhos, fazemos parte da mesma humanidade e de um único mundo.

grecia delos

Ilha de Delos, onde nascem Ártemis e Apolo, filhos de Zeus

Os jogos de Olympia chegaram ao fim em 394 d.C., quando o imperador romano Teodósio I suprimiu todas as celebrações pagãs numa manifestação despotismo e intolerância. Os jogos foram retomados apenas em 1896 na Grécia. Sua história recente com interrupções durante as guerras mundiais e um atentado na própria vila olímpica, em Munique, em 1972, nos mostra que a paz é sempre frágil e devemos estar sempre atentos aos ataques da intolerância. Cabe a nós zelar pela continuidade desta chama.

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Um presente de Natal

Botticelli, Natividade Mística, de 1502

O que significa o Natal para você? Papai Noel? Presentes? Um encontro familiar? Por estes dias, há uma agitação geral, o ano acabando e tudo fica em função dos eventos de fim de ano. Pensando em agradar, as pessoas capricham nos presentes, na decoração, no peru, mas o homenageado da data fica um pouco para escanteio.

Muito mistério cerca o nascimento de Jesus, algumas religiões não o colocam como o filho de Deus, mas como um profeta. O relevante para mim é que, há 2 mil anos, em uma época marcada pela guerra e pelo sofrimento, a sua mensagem  trouxe esperança, ao falar de um mundo novo para gente simples, como pastores e pescadores.

Conta-se que José rumava com Maria grávida a Belém, pois, naqueles dias, Roma estava realizando um censo de sua população e todas as pessoas do Império precisavam respondê-lo no lugar de nascimento. José era um filho da casa de Davi, o grande rei que governou Israel por volta do século 1000 a.C e uma antiga profecia vaticinava o nascimento de um novo rei.

Belém, situada a 10 quilômetros de Jerusalém, era um pequeno entreposto comercial. Ali Maria dará à luz e um grande clarão estelar anuncia o grande nascimento. A estrela será vista por três reis que saem a sua procura.

Israel estava sob o governo de Herodes, que reinava com o apoio de Roma, este, com medo de perder seu trono, manda matar todas as crianças com menos de dois anos. Para salvar o seu filho, José e Maria fogem para Egito.

Adoração dos Magos, de Gentile da Fabriano, 1423

Recuperei esta história, pois Jesus coloca novas pautas para a espiritualidade, ao apontar que a relação com o divino passa, necessariamente, pelas relações entre os homens. Em um mundo em que as ofensas se resolviam no dente por dente, Ele falava em oferecer a outra face. Com humildade encorajou homens e mulheres a transformar seu pensamento e suas ações, a transformação pelo caminho do arrependimento, do perdão, da compaixão e do amor.

Em 2 mil anos muitas tradições se juntaram, chegou a árvore, o papai Noel, os presentes, são todas bonitas, mas relembrar esta dimensão do Natal é um presente para cada um de nós, para o nosso espírito e para nossas vidas.

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Na roda da vida

O dia de finados traz à memória os seres queridos que  já não estão mais entre nós, nossos ancestrais e, por todo o globo, há rituais para reverenciá-los.

Embora diariamente sejamos movidos por uma força vital, pouco nos detemos a pensar na vida. A biologia tem teorias explicativas bastante plausíveis, mas sem dúvida, trata-se de um mistério, o surgimento desta chama que se transmite de geração a geração. Louvar os ancestrais nos permite reverenciar aqueles que nos legaram essa chama.

Louvar os ancestrais também traz à memória todos aqueles que pisaram sobre a terra, gente que fez das tripas coração para sobreviver em paragens inóspitas ou então saiu caminhando rumo ao desconhecido para encontrar uma terra melhor. Na aurora da humanidade, nossos ancestrais foram caçadores nômades, que fugiam de predadores, depois quando a humanidade se assentou, a partir do desenvolvimento da agricultura, surgiu um novo estilo de vida, e com ele,  o desafio da vida em coletividade, no qual a lei de Talião -olho por olho, dente por dente- constituiu um avanço civilizatório.

Em pleno século XXI, num momento em que nossos pensamentos estão voltados para o presente que nos envolve e para o futuro que se descortina, considero importante lembrar que nossos genes carregam a memória daqueles tempos. Nosso sangue carrega uma tremenda força de luta e resistência de quem comeu o pão que o diabo amassou e tirou leite de pedra, como se diz por aí.

As lutas dessas gentes nos permitem estar neste mundo hoje, pisar o mesmo chão, navegar pelas mesmas águas, olhar o mesmo céu, as mesmas estrelas, respirar o mesmo ar e ver as mesmas montanhas. E permite a muitos travar suas lutas diárias contra a opressão, a manipulação, o engano e contra todas diversas e sutis formas de violência, buscando conquistar uma vida digna para nós, para os outros habitantes deste mundo e até, quem sabe, para as futuras gerações.

Em meio ao turbilhão das urgências, este post demorou uma semana para ser concluído, comecei meditando no dia de finados, mas acredito que todo dia é bom para pensarmos na Roda da vida, na qual o importante é a chama e passar o bastão, porque como diz o hino, “na senda da vida nós todos somos Um só.”

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Do Chile, uma história para a alma

mafalda 1A Mafalda me acompanhou na semana passada com os seus questionamentos. Em meio a lembranças suscitadas pelos 40 anos do golpe militar que dividiu o Chile e ainda provoca tanto sofrimento, reiteradamente vinha à minha mente pergunta desta argentina irreverente. Neste mundo tão errado, como fazer para confortar o coração e assim quem sabe aliviar a alma?

mafalda 2Há respostas individuais e coletivas. O conhecimento e o registro da barbárie em Museus da Memória permitem que não os apaguemos os fatos de nossa história. Se não diminui a dor, conforta saber que muitos caíram, mas sua memória não ficou vilipendiada na sarjeta. A consciência pode também funcionar como antídoto para novas ocorrências, o que não se sabe, nem se vê, quando menos se espera, reaparece.

Há também respostas individuais. Aqui aproveito para contar um pouco da trajetória de Michelle Bachelet, a nossa primeira mulher a chegar à presidência da República. Filha de uma arqueóloga e de general da Força Aérea, que foi acusado de traição à pátria e morto nos porões da ditadura em 1974. Nesses anos, ela cursava medicina na Universidade de Chile e passa a apoiar o Partido Socialista que estava na clandestinidade desde o golpe. Em 1975, junto com a sua mãe será presa e torturada, depois de um ano na prisão partem para o exílio, ela encontrará acolhida na Alemanha Oriental. Em 1979, retorna ao Chile, onde conclui o curso de Medicina.

Ao longo da década de 80, enfrenta dificuldades para exercer a profissão no serviço público, seu nome desperta desconfiança, mas trabalha de forma voluntária na ONG Protección a la infancia dañada por los Estados de Emergencia, que fornecia apoio aos filhos das vítimas do Regime Militar.

Com o pai, Alberto Bachelet

Nos anos 90, inicia estudos na área de defesa, destaca-se em 1996 como a melhor de sua turma na Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos, como prêmio ganha uma bolsa da Presidência da República para estudar no Colégio Interamericano de Defesa em Washington DC, nos EUA.

Daí sua história é mais conhecida, participa do governo de Ricardo Lagos, da Concertación, primeiro como Ministro da Saúde e depois ocupa a pasta de Defesa, primeira mulher a ocupar este cargo no país, depois será eleita presidente da República, cargo que ocupa até 2010, isto para resumir a biografia política.

No Chile, não há reeleição, mas neste ano, 2013, ela está concorrendo para um novo mandato. Ironia do destino, disputa com a filha de um general que participou do golpe militar e esteve à frente da Aviação durante o governo Pinochet.

Na semana passada a vimos à frente de manifestações pela memória das vítimas do regime militar. Poucas pessoas já passaram por momentos tão dolorosos como ela, mas hoje torna-se um exemplo de mulher cuja vida foi bem maior do que a sua dor.

Em 2013 liderando uma homenagem às vítimas do golpe.

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O julgamento de Orestes e o voto de Minerva

Orestes atormentado pelas Erínias, 380 a. C.

Das instituições que temos, talvez a justiça seja uma das que melhor apresenta o uso da racionalidade humana. Conta-se que esta forma civilizada de resolver os conflitos, limitar a “lei” do mais forte, bem como de por um fim às eternas vendetas surge em Atenas, a cidade luz da Grécia antiga.

O julgamento de Orestes, representa na mítica o momento de criação da justiça.

Conta-se que após a guerra de Tróia – travada pela disputa da bela Helena que fugira com o príncipe troiano Paris, deixando o seu esposo Menelau e Esparta-, Agamêmnon, o irmão do esposo traído e líder dos exércitos gregos, volta para seu reino, Micenas, no entanto, mal sabia ele que sua esposa, Clitemnestra, colocara em seu lugar Egisto, o seu primo e grande desafeto. Ao chegar, depois de 10 anos no campo de batalha, Agamêmnon morre apunhalado pela sua esposa e o amante na sala de banhos de seu Palácio.

Pela tradição, cabia ao filho vingar a morte do pai, assim logo após o crime, Electra, a filha mais velha do rei morto, enviou o irmão caçula Orestes para Pânope, aos cuidados do rei Estrófio, esposo da irmã de Agamêmnon. Anos mais tarde, cumprindo a determinação recebida no oráculo de Apolo, Orestes retorna a Micenas para vingar a morte do pai e mata o par traidor. Seguindo a vontade dos deuses, tornou-se assassino da mãe, um crime contra a natureza, punido pelas Erínias. As terríveis filhas da noite, deusas de uma ordem primordial, perseguiram o matricida sem lhe dar um instante de sossego, torturando-o com o remorso e o arrependimento. Orestes enlouquecido vagou errante, mas sempre protegido por Apolo, quando chegou a Delfos abrigou-se no templo do deus solar para ter um pouco de sossego. Para sair do impasse, Apolo ordenou:

– Vá para Atenas, lá  te providenciarei um tribunal justo.

Mesmo torturado pela culpa, Orestes correu para Atenas, onde a própria deusa da sabedoria escolheu o júri formado por oito pessoas de ilibada reputação e se prontificou a arbitrar em caso e empate. No dia do julgamento estavam de um lado, as Erínias, encarregadas da acusação, e do outro, Apolo que pronunciou a sua defesa.

A contagem dos votos revelou o empate e a deusa proferiu o seu voto:

– Acho que Orestes agiu de maneira certa, não matou sua mãe, mas a assassina de seu pai. Orestes precisou escolher entre dois deveres sagrados e ferir um deles, por este motivo, por maioria dos votos, fica absolvido da acusação.

Minerva

Vencera a compaixão, representada por Atená, deusa de uma nova ordem alicerçada em novos valores para a convivência social, entre eles, a própria justiça. Símbolos de uma dura ordem primordial que estava sendo desbancada, as Erínias ficaram ofendidas com o resultado, para apaziguá-las, Atená ordenou que recebessem um santuário e fossem veneradas como deusas da vingança justa.

 

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As vozes de Joana d`Arc

Eu que gosto muito de histórias, nestes dias deparei-me com a história de Joana d`Arc. A vida desta camponesa que se tornou heroína da Guerra dos 100 anos e uma Santa francesa no século XX é impressionante, terminando no dia 30 de maio de 1431, quando com apenas 19 anos -acredita-se, porque na época não havia registros e nem ela sabia ao certo- foi queimada viva. Durante a guerra, quando o rei da França Carlos IV morre sem deixar descendentes masculinos, a Inglaterra e a França entram em disputa pelo trono francês.

Joana dizia ouvir vozes divinas com mensagens de São Miguel e de Santa Catarina desde os treze anos que lhe recomendavam uma vida piedosa e a se manter donzela. Aos 16 anos, as vozes lhe ordenaram uma estranha missão para uma jovem camponesa analfabeta: dirigir o exército francês, coroar o Delfim Carlos e expulsar os ingleses de país. Num primeiro momento foi rejeitada pelas tropas francesas, depois conseguiu se encontrar pessoalmente com o Delfim que a submeteu a diversas provas. Após passar por todos os interrogatórios, investigações e até por exames íntimos pelas matronas locais, a jovem o convenceu da veracidade de mensagens. Conta-se que Carlos a teria colocado à frente de 5 mil homens.

Após uma vitoriosa campanha no vale do Loire, para liberação de Reims, participou na coroação de Carlos VII como rei da França, em julho de 1429. Nesse momento, ela deixa de ouvir vozes, faz menção de deixar o exército, mas continua lutando, pois percebe que a França não estava totalmente liberada.

Ela voltou a ouvir uma voz que lhe anunciou que cairia antes do São João. Foi capturada em maio de 1430 por vassalos do Duque de Luxemburgo, aliado da Inglaterra, que negociou a virgem guerreira com os ingleses, obtendo em troca 10 mil libras. Ela é então julgada sob a acusação de bruxaria, heresia, entre outros crimes de natureza religiosa, sendo decisivo para sua condenação o fato de que ela vestia roupas masculinas, num processo que menos de um século depois seria reconhecido como irregular.

Esta história contém muitos elementos, mas hoje gostaria de destacar a nossa  interpretação de certas vozes. Até não muito tempo atrás, ouvir vozes faria de uma pessoa uma louca desvairada, levando-a ao hospício, hoje, seria diagnosticada como portadora de algum transtorno psíquico (como esquizofrenia, mas há outros) que a conduziria a tomar remédios para conter as alucinações. No século XV, um Delfim ouviu as mensagens de uma jovem camponesa e tornou-se rei.

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Drops sobre o cérebro e a memória

Entendermos o cérebro, essa complexa ferramenta que trazemos como espécie, é central para entendermos o ser humano. Ele é responsável por nossas ações, pensamentos e até pelo que fazemos sem pensar como respirar, havendo inclusive uma parte associada à moralidade. Sistema fascinante, por isso decidi compartilhar um debate importante para todos os que têm cérebro, a memória.

A vida em sociedade requer do indivíduo o armazenamento de informações, a memória permite-lhe resolver melhor suas necessidades biológicas, saber quem ele é -e assim construir sua identidade-, incorporar as regras de funcionamento da vida social, entre tantos outros. O aprendizado torna-se o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre o mundo, estando totalmente vinculado à memória, nele o dado é adquirido, estocado e depois recuperado para utilização. Um processo em três estágios: codificação, armazenamento e recuperação. Bem, este é o percurso padrão, mas pode haver um dano no trajeto ou o mesmo, o arquivador pode se atrapalhar no seu serviço. Há pessoas que sofrem lesões em alguma parte de cérebro e apresentam problemas para fazer o resgate, outras, para realizar novos registros, ou seja, incorporar novos aprendizados.

Os pesquisadores identificam dois grandes tipos de memória: curto prazo e longo prazo. A memória de curto prazo é momentânea, dura em média 20 segundos, apresentando pouca capacidade de armazenamento, por isso também denominada memória de trabalho. Por exemplo, procuro um certo número numa rua, guardo-o na mente, achei o número, “descarto” informação. Para que um conhecimento seja incorporado, seja o nome de uma pessoa, uma música, uma receita, uma matéria, ele precisa ser repetido até sua consolidação. Em termos fisiológicos, formam-se caminhos, denominados “traços de memória”. Uma andorinha não faz um verão, uma olhadinha na matéria não significa “arquivamento”, nem se transforma em conhecimento. As sinapses precisam do reforço, sem ele, o traço formado nas redes neurais se perde, mas se houver reforço o conhecimento pode durar toda a vida, ou seja, vira memória de longo prazo -o grande arquivo disponível para ser reutilizado mais tarde. Podemos passar anos sem andar de bicicleta, um dia subir em uma e sair andando.

Num mundo com tanta informação disponível e tão volátil, certamente muitos gostariam de ter mais memória do que têm, ou seja, poder armazenar mais e por mais tempo, desejariam também poder evitar o esquecimento e até transtornos que afetam a memória como o Alzheimer. Algumas pessoas se iludem pensando que tomando uma pastilha todos os dias está tudo certo… sem tirar a importância dos componentes como cálcio e magnésio. Há muito a se conhecer sobre o funcionamento da nossa mente, mas o que já se sabe é que habilidade (ferramenta) que não se usa, se atrofia, cabe a cada um cuidar da (e usar) sua memória para não dar espaço para o alemão.

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Lembranças do grande arquétipo do feminino

Amazona

Neste mundo, no qual as mulheres fazem tudo o que os homens fazem, trocam lâmpadas, constroem pontes, são cientistas, entre outros, muitos se perguntam, qual seria a essência do feminino? O que caracterizaria a própria mulher? No plano simbólico, o elemento central do feminino é o vaso. O próprio útero pode ser pensado como um vaso invertido, o vaso que acolhe a semente e a transforma em criação-criatura.

O vaso comporta diferentes usos e funções. Existe o vaso-recipiente que preserva, contém e protege, por sua vez, o vaso-alimento nutre o nasciturno, mas sem dúvida o atributo mais misterioso é sua possibilidade de gerar vida e parir.  A criação, o lado numinoso, o mistério que nos vincula ao sagrado.

Cultura mexica (Astecas)

A fabricação da cerâmica desde os primórdios era uma tarefa da mulher, a magia da terra  e da água que se transformam com o poder do fogo. Por sua vez, a transformação que se processa em seu interior o ligam ao irromper, nascer, à movimentação criativa. Crianças, pensamentos, arte vem à luz do interior obscuro deste corpo-vaso-ventre. Mas também a transformação da menina em jovem e depois da jovem em mãe.

vaso2Os antigos colocavam o corpo ou as cinzas num vaso-urna funerária, para que estes ficassem guardados, assim como se chegou ao mundo. O vaso, um recipiente feito a partir da terra recebe aquele que se foi de volta para si, tal como a mãe terra, que nos nutre nesta vida e depois da morte nos acolhe.

Recipiente cujo interior é desconhecido, tal como a alma da mulher, foi associado a uma caverna  protetora e  porta de entrada da montanha. No plano simbólico, a caverna e a montanha representam a forma natural de símbolos como o templo e da casa.

Todos estes elementos o ligam à personalidade arquetípica da mulher, tornam-se o fundamento de sua grandeza, a sua contribuição particular na relação com o masculino, central na manutenção da espécie, mas também na transmissão da cultura, algo que nos torna humanos.

atena vasNos dias 8 de março lembramos as conquistas das mulheres, penso que uma conquista ainda por vir é a do seu feminino. O útero é responsabilizado pela TPM,  o sangue ficou associado à impureza e ainda hoje, em alguns espaços, vemos mulheres sendo discriminadas no trabalho, porque engravidavam. Sem contar que na busca em se igualar ao homem, o corpo-vaso anda um tanto malbaratado, mais parece um vaso sem alma.

A conexão da mulher com o seu feminino começa pelo entendimento de seu vaso, de suas águas e da terra que o conforma, passa pelo desvencilhamento dos preconceitos apreendidos até se chegar à reconquista de sua dignidade. Ainda temos um trecho a percorrer.

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Quirón, o curador ferido

Nestes dias lendo histórias da mitologia grega, deparei-me com o centauro Quirón. Dizia-se que os centauros eram beberrões e fanfarrões, no entanto, Quirón destacou-se como curador, sábio e educador, tornando-se o rei dos centauros. Uma das versões sobre o seu nascimento conta que Cronos, o titã, pai de Zeus, transformou-se em cavalo para seduzir a ninfa Filira e desta união nasce o jovem com tronco, os braços e a cabeça de homem e o corpo de um cavalo. Logo ao nascer foi abandonado, sendo encontrado pelo deus sol, Apolo, que o criou como um filho, ensinando-lhe seus conhecimentos nas diversas artes como a música, pintura, filosofia, assim como as práticas curativas e divinatórias.

quironMeio homem e meio animal, ele conhece os dois mundos, uma parte registra a vida terrena e a outra, conhece o divino. Seus talentos tornaram-no preceptor dos jovens herois da mitologia que ensinava no Monte Pélion, seu discípulo mais conhecido foi Aquiles, mas Jasão, Héracles e muitos outros também estudaram com ele. Em sua escola, na verdade, uma caverna, antes do manuseio das armas, ensinava a ordem do cosmo, o respeito pelas leis divinas e os valores espirituais.
Certo dia, Héracles em visita ao amigo após matar a Hidra -o quarto dos seus trabalhos-, acidentalmente durante uma briga com os outros centauros, arranhou-o na coxa com uma de suas flechas embebidas com o sangue do monstro de várias cabeças, o veneno não o matou, dado que era imortal, mas obrigou-o a conviver com uma dolorosa ferida e todo o conhecimento que possuía não podia saná-lo.

Curador ferido, Quirón trocou sua imortalidade para libertar Prometeu, o herói acorrentado no alto de um penhasco por roubar o fogo e entregá-lo aos homens. Tornou-se mortal para escapar do seu sofrimento, mas recebeu como homenagem a constelação de Sagitário, para ser lembrado pelos homens todas as noites ao contemplarem o céu e as estrelas.

*

Da Índia
indiaA morte de Damini, uma jovem de 23 anos, estudante de fisioterapia, estuprada barbaramente durante horas por seis homens, em Nova Delhi, nos últimos dias de 2012, nos mostra como o mundo precisa de curadores.

Clique para enviar uma mensagem de protesto diretamente para o governo indiano:
http://www.avaaz.org/po/end_indias_war_on_women/?bliimab&v=20673

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Chegou o Natal

Sempre gostei muito da época do Natal, o fim de ano chegando trazendo o início das férias. Quando era pequena percebia que o mês de dezembro chegava com um colorido especial, com suas luzes, estrelinhas douradas, bolinhas vermelhas, velas… No dia 24, era uma tremenda ansiedade esperar até o jantar sempre cheio de gostosuras e depois a chegada do papai Noel. Sempre um grande acontecimento!

Durante muitos anos, diversos chilenos migrantes em São Paulo, cujas famílias estavam no Chile se reuniam em casa para compartilhar a ceia. Depois de comer peru feito pela minha mamãe, dona Patrícia, todas as crianças saíamos à procura do Papai Noel pelo bairro com o meu pai, quando voltávamos o velhinho já havia passado em casa deixando todos os presentes na árvore, muito frustrante! Certa noite, pegamos o Papai Noel ainda na nossa sala, ele conversou com a gente, perguntou pelas nossas notas na escola, se nos comportávamos bem, essas coisas. Minha irmã logo ficou desconfiada, “Ele esta vestindo o roupão vermelho do meu pai!”, começou a dizer, puxando a sua roupa. Ela tinha decifrado a história: o nosso “tio” Orlando havia sido disfarçado de Papai Noel para fazer a alegria da garotada.

Como muitas pessoas do planeta não passo mais o Natal com os meus pais, eles há muitos anos se mudaram para o Chile e nos últimos tempos tenho ficado no Brasil. A vida é assim, nos leva por caminhos diferentes. Gosto dessas boas lembranças e, graças a Deus, a minha família cresceu e o Natal continua me brindando lindos momentos, com um colorido diferente. Hoje curto as comidas gostosas da minha sogra, das minhas cunhadas e um delicioso pernil feito pelo meu marido.

Percebo que o Natal é um momento de agradecer por tudo o que temos e conquistamos. Eu agradeço por todas as minhas famílias, no Brasil e no Chile, por minhas queridas irmãs Claus, Carolina e tantas outras, pela família dos amigos, do trabalho, pela família do Astral.

Natal também é um momento de esperança. Não só as crianças pedem brinquedos para o Papai Noel… a gente também pode pedir à providência.  Deve-se pedir para que aquilo que mais queremos lá no fundo do coração se realize.

Desejo a todos um lindo Natal com muitos bons pedidos e muito familiar, qualquer que seja a composição ou tamanho da família.

Verónica

Uma representação do nascimento com aquele que fez o primeiro presépio, São Francisco

O homem chama de milagre aquilo que não compreende.

Mas a compreensão não vem só pela razão.

Para mim o milagre tem a cor do amor,

o sabor da paz,

o tempero da esperança,

o som do perdão,

as luzes do sonho.

 

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Os maias e a profecia do fim dos tempos

Templo do sol, Palenque

  “Los que tienen poder de contar los días, tienen el poder de hablarle a los dioses.” Sabedoria tradicional nativa

Os maias cuja origem remonta a 3.OOO a.C. estabeleceram-se no sul do que hoje é o México e na América Central, construindo uma dinâmica civilização. Cidades  como Palenque e Chichen Iztzá, cujas ruínas ainda surpreendem, mostram seu vasto conhecimento. Detentores de uma escrita hieroglífica não decifrada, também foram grandes astrônomos, sabe-se que calcularam a duração do movimento de translação da terra, fixando-o em 365 dias, tal como o nosso calendário gregoriano.  Sua vida era organizada por 2 calendários, um solar para os eventos civis e outro baseado no ciclo lunar para eventos religiosos. Desapareceram por volta do século IX d.C..

Seus sábios criaram um uma astrologia particular com 13 Luas de 28 dias. De acordo com esta astrologia, o dia 21 de dezembro de 2012 marcaria o fechamento do ciclo, o último dia do grande ciclo Maia de 5.125 anos ou um total de 1.872.000 dias, cujo início foi datado pelos maias em 3.113 a.C..

Boa parte das religiões traz mitos e profecias sobre o fim dos tempos, a dos maias ganhou recentemente grande espaço na mídia, mas o Apocalipse de São João, talvez seja  uma das mais conhecidas no universo cristão.

Chichen Iztzá

A figuração da “grande destruição” que a cada certo tempo ressurge confronta-nos com um de nossos medos: o fim. A destruição ganha muitas formas: fogo que vem do céu, lava que surge das profundezas, novos dilúvios, grandes nevascas, terremotos e por aí vai…

No entanto, para os antigos a experiência do tempo, da destruição e da morte era bastante diferente da nossa, de populações urbanas e modernas. Para os antigos, a vida se passava em ciclos, com seu início, desenvolvimento e fim, este sempre sucedido por um recomeço, não do mesmo, porque o tempo não se repete, mas do ciclo. E há ciclos curtos, médios e longos.

As rodas em contínuo girar traduzem a sabedoria da vida: nada se perpetua e para o novo aparecer algo precisa morrer. O fim não representava um término absoluto, mas significava oportunidade de se fazer diferente, plantar outro produto ou semear outras ideias.

Todo fim é precedido de grandes turbulências, de um momento da verdade, como um provão que checa e decanta, para ver quem passa de ano, seguindo a jornada e quem vai ficar pelo caminho.

Temos medo do fim, mas há tanta coisa que precisa morrer na nossa sociedade para o novo nascer em seu lugar!  Faria um bem para a humanidade a morte da intolerância, do conflito, da guerra, da crueldade, da ignorância, da prepotência, da corrupção, da omissão, da falta de educação e de justiça. Como é possível, com o desenvolvimento e a riqueza que construímos ainda haver famílias abandonadas sem teto, hospitais sem médicos ou remédios, a morte de crianças por desnutrição, jovens sem perspectivas, escolas sem professores e tantas outras mazelas que permitimos?

O grande fim da profecia maia representava o término de uma longa era. Para os antigos, estes períodos abriam o portal de novos mundos, tratava-se de um momento de grandes oportunidades para o surgimento de novas civilizações.  Hoje, permite-nos sonhar com um mundo melhor.

Tikal, praça central

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No México, el día de los muertos

O día de los muertos é uma celebração cuja tradição remonta às práticas de todas as populações nativas do continente. Maias, Astecas, Quetchuas, Mapuches, Guaranis, assim como todas as outras comunidades realizavam rituais de culto aos mortos, no sincretismo com o catolicismo, fizeram-na coincidir com o dia de Finados de 2 de novembro.

O ciclo da vida e morte sempre tem causado admiração, incerteza e porque não dizer, medo, entre os humanos. No México, se acredita que as almas voltam neste dia, por isso lhe são oferecidas uma grande festa com uma mesa farta, elas muito contentes, depois vão embora.

Todos os povos criaram tradições para venerar, honrar, espantar, quando não brincar com a morte. Esta celebração nacional Mexicana foi declarada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco.

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Raiva e sabedoria no islã. A história de um califa esclarecido

Pelo menos 15 mortos e uma centena de feridos é o saldo de uma semana de fúria no mundo islâmico como reação a um vídeo que ridiculariza o profeta. As imagens mostram pessoas nas ruas armadas nas ruas, protestando em frente a embaixadas, restaurantes e até escolas, principalmente dos EUA, mas também outros países, como a Alemanha e, o pior, um atentado que matou 4 americanos na Líbia.

Para contrabalançar as imagens de ódio, busquei outras de outros tempos do islã. Cheguei à história do califa Al-Mamun que viveu tempos de guerra, mas optou pela sabedoria. Seu reinado no século IX ficou na memória como o mais glorioso na história do islã.

Al-Mamun nasceu no dia da entronização do seu pai, o califa Harun al-Rashid mas sua mãe era uma escrava persa, o legítimo herdeiro era seu irmão. Após a morte do pai, disputou o império com o irmão, venceu, passando a dominar um vasto território que compreendia da Síria ao Irã. Uma noite Al-Mamun teve um sonho, contou ele:

Vi em sonhos um homem sentado com a pose dos sábios e perguntei-lhe: «Quem és tu?»; ele respondeu: «Aristóteles, o Sábio». Coloquei-lhe então a questão: «Diz-me como definir a palavra justo?»; Aristóteles: «Aquele que é consistente com a razão». Al-Mamun: «E o que mais?»; Aristóteles: «Aquele que aprecia o interlocutor». Al-Mamun: « E o que mais?»; Aristóteles: «Aquele que não teme as consequências». Al-Mamun: « E o que mais?»; Aristóteles: «Não há mais, o resto não serve senão para entreter os homens”.

Al-Mamun recebendo o Patriarca de Constantinopla.

Após o sonho, o califa abre as portas da biblioteca, construída na cidade de Bagdá pelo pai para o uso exclusivo dos príncipes. A Casa da Sabedoria torna-se um grande centro científico e intelectual, passando a reunir escribas, religiosos e tradutores que preservaram os saberes do mundo antigo, enquanto no mundo medieval no ocidente boa parte era destruído. Além de receber os principais religiosos islâmicos, religião do grande califa, acolheu intelectuais perseguidos em outros lugares do mundo, pois havia a compreensão que o conhecimento podia chegar de outros tempos, lugares e credos. Seus estudos incluíam a astronomia medicina, filosofia, matemática, assim como as principais áreas do saber.

A Casa da Sabedoria foi destruída após a invasão dos mongóis no século XIII, a partir de então as ciências declinaram no mundo islâmico, pois a nova linha de dirigentes religiosos desaprovava o desenvolvimento do pensamento autônomo. E eles se perpetuaram.

Recupero esta lembrança, pois choca ver em pleno no século XXI turbas em fúria por todo o mundo islâmico. Atos insuflados por líderes religiosos muito distantes das preocupações com a justiça e a sabedoria do Califa persa. Mais de mil anos se passaram, mas seu reinado se perpetua na memória pela glória das realizações da Casa da Sabedoria, um espaço de respeito e diálogo entre os homens.

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Verdade, memória e cidadania

Depois de 37 anos do término do regime militar, o Brasil  enfim instalou uma Comissão da Verdade com o objetivo de esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de violações de direitos humanos, como torturas, mortes e desaparecimentos, que aconteceram entre 1946 e 1988.

O Brasil foi o último dos países do cone sul a criar este tipo de comissão, a Argentina, o Chile e o Uruguai o fizeram logo após o término dos regimes de exceção.

Muitos devem se perguntar se a esta altura do campeonato, não é melhor deixar para lá, esquecer, outros encontram que a verdade é insuficiente, pois não significa punição aos criminosos. Há críticas dos dois lados.

A anistia concedida pelo governo brasileiro em 1979 foi abrangente ao ponto de incorporar presos políticos e integrantes do aparelho de repressão que gozaram de um perdão “amplo, geral e irrestrito”, para lembrar uma frase da época. Os torturadores não foram identificados ao passo que as vítimas anos depois precisaram expor a sua dor para receber indenização do Estado.

Ao longo destes anos, pressões principalmente dos segmentos militares impediram o surgimento de uma Comissão da Verdade, apenas a presidente Dilma Rousseff, ex-militante, presa e torturada, teve coragem  de enfrentá-las. Independente da avaliação que se faça do governo, sem dúvida, este foi um passo importante para o amadurecimento cidadão do Brasil.

“Quem esquece o passado está fadado a repeti-lo” registrou o filósofo George Santayana. É importante saber o que se passou, só a consciência nos torna atentos aos sinais quando algo não vai bem, apenas ela, nos permite rejeitar o que não queremos repetir.

Nos últimos tempos temos ficado cada vez mais sensíveis e menos tolerantes às diversas formas de violência. Quando ela ocorre buscamos a restauração e a punição dos responsáveis. No código penal inscrevemos o que a sociedade considera violência e como tal receberá sansão. Um problema complexo surge quando a violência parte do Estado. Verdade e registro são passos necessários para curar feridas. Dar o nome aos bois torna-se importante para não deixar criminosos na confortável posição do esquecimento.  Há coisas que não é possível se restaurar, nem a punição restaura, quem perdeu algum familiar vítima da violência sabe disso, mas a memória desempenha um grande serviço à restauração do equilíbrio e da paz social.

A verdade permite curar feridas e ao mesmo tempo construir a sociedade que desejamos, além disso é  importante dizer: é crime calar, cortar, queimar, matar e desaparecer adversários, mesmo se o autor é um “agente da lei”; assim como afirmar importância do respeito à diversidade e ao dissenso como condições para a democracia.

O amadurecimento cidadão de um país precisa disso.

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