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Quando a doença pode nos conduzir à cura

A doença é o lugar onde se aprende (Pascal)

Ninguém gosta de ficar doente, mesmo ter  uma pequena gripe é muito chato, outras afecções então? Vixe! Todo mundo quer saúde e sorte, como diz a canção, mas tem hora que o nosso corpo nos surpreende por alguma afecção/aflição.

Nossa linguagem é reveladora, dizemos: meu pé dói, o meu estômago reclama, o meu intestino está preso, meu rim junta pedras, a minha cabeça dói… Como se houvesse certa autonomia destes órgãos: são eles, não nós!

A pele que habito, título de um filme interessante do Almodóvar, talvez exponha a nossa relação com o corpo, que, não raro, nos parece tão estranho, quase um “outro”, isto ocorre porque somos seres cindidos, como dizem os profissionais da psi, algo que Descartes colocou de forma bem clara, sou uma “coisa pensante”, ao formular a já clássica divisão entre corpo e alma.

A psicossomática, área que entende o humano como uma unidade e busca reconciliar corpo e psique, entende a doença como símbolo. Não uso mente, pois esta “mente” onde, simplificadamente “alojamos” a consciência, é apenas uma ponta do iceberg da psique.

A doença expõe um desequilíbrio que o corpo busca compensar; o sintoma, por sua vez torna-se o registro deste desequilíbrio. A doença seria a corporificação, de forma tresloucada, de um princípio original mergulhado no mar do inconsciente. Quando alguma questão que aflige a psique não chegou à consciência, o corpo entra como substituto e o faz a seu  modo corporal: na forma de dor, febre, inflamação, ulceração, crescimento aleatório de células (comumente chamado câncer) em suma, na forma de sintoma. E só quando a psique passa a cultivar o tema, o corpo deixa seus esforços sintomáticos, ou seja, alivia ou abre mão do da febre, da dor, da inflamação, do crescimento aleatório de células e se restabelece.

Escrevo cultivar, pois tal como as plantas é um trabalho que envolve olhar, se aproximar, clarear (colocar luz?), ver o que esta criatura assombrosa (a doença) precisa. Isto delicadamente e com cuidado, pois se trata de nós mesmos. Há uma necessidade psíquica nas sombras, reclamando para ser vista. De acordo com a psicossomática, o corpo manifesta um desequilíbrio em certa área de seu ser que o próprio sujeito é inconsciente. Tomando como premissa a antiga e conhecida correspondência entre forma e conteúdo, onde há uma forma, certamente há um conteúdo que urge trabalhar.

Nesta perspectiva, o que está em jogo no restabelecimento (cura?) é assegurar o equilíbrio não com passos involuntários e cheios de sofrimento, mas com passos voluntários e conscientes. Legal, mas é fácil? Não, pois a doença envolve sombras. Como se diz por aí, é mais fácil encontrar um cisco no olho do outro do que uma trave no nosso olho. Ver a doença como símbolo pode conduzir a verdades nada agradáveis, mas necessárias no processo de tomada de consciência e desenvolvimento de nós mesmos. Enfrentá-las, são outros quinhentos, exige coragem e determinação, pois temos a tendência a nos acomodar em uma zona de conforto. Assim, nesta visão, a cura não vem pela mão do médico que faz uma cirurgia ou receita alguns comprimidos, só é possível a partir da força do sujeito. Ver, enxergar e cultivar a nós mesmos torna-se um assumir a responsabilidade. Qual é a minha dívida para com o meu futuro?

Por isso, alguns autores como Rüdiger Dahlke, falam na doença como caminho, pois apenas quando estamos doentes nos indagamos pelo que nos falta e só então podemos descobrir o que está errado. E este “erro”, por sua vez torna-se uma possibilidade de integração de nossa vida e, consequentemente, de viver na saúde, ou seja, da plenitude que a vida espera de nós.

Fonte: Dahlke, Rüdiger. A doença como símbolo. Cultrix.

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A obra da palavra

Nesta semana, assistia pela TV a entrevista de um antigo professor dos meus tempos de estudante da USP,  Boris Fausto, que lançava um livro,  O brilho do bronze, quando eis que, a certa altura, o entrevistador, Mario Sérgio Conti, manifestou sua surpresa: “Você, um historiador, faz terapia, quem diria?” o professor rebateu o espanto e contou a sua necessidade de elaborar o luto após o falecimento de sua esposa,  relatada no escrito autobiográfico.

Esse espanto de um profissional letrado pareceu-me significativo. Se bem em alguns países, como a França ou a Argentina,  não causa espécie uma pessoa procurar uma terapia, em outros torna-se difícil encontrar um analista, quando não parece que o sujeito está fazendo uma coisa “no mínimo” muito estranha.

Desde Freud, portanto, há mais de um século ouvimos falar em psicanálise – os estudos do médico vienense marcam o que entendemos hoje por mente-, mas principalmente, com ele surge um método inédito na terapêutica: a cura pela palavra. A palavra “cura” aqui merece aspas, depois será substituída por “elaboração”, mais apropriada.

Quem se permite esta procura percebeu que algo não vai bem, decidindo pelo menos ver essa questão. Passando a empreender uma jornada. Neste percurso, a análise, permite este encontro do sujeito com ele mesmo, via seu diálogo com o analista, apresenta-se como um procedimento avesso ao lugar comum da superficialidade da aparência, da ilusão do “tá tudo bem”, do engano do “meu problema são os outros” ou então,  do “toma essa pastilha que passa”. Não é bem entendido porque o buscador dá ouvido a um questionamento do seu íntimo que está na contracorrente das verdades e definições prontas para se obter uma satisfação fast food. Um questionamento que precisa da mediação da palavra para vir à luz e ganhar sentido.

Embora estejamos muito habituados às palavras, vemo-las por toda parte, pouco percebemos a sua importância, é através da palavra  que criamos a cultura e, desta forma, a nossa humanidade. As palavras permitiram-nos dar nome às coisas e, portanto, existência a pessoas, pensamentos, emoções, compartilhar e registrar experiências. A linguagem permitiu o nosso  entendimento do mundo e o próprio desenvolvimento do homem. A história da espécie registra que o lobo frontal do nosso cérebro desenvolveu-se junto com a criação de linguagens, por outro lado, o nosso desenvolvimento individual depende da própria aquisição desta ferramenta.

Percebo que há uma restrição à busca de um profissional da psi,  principalmente por gente que desconhece o campo. Longe de achar que todo mundo precisa,  trata-se apenas de um recurso. No processo ganham-se ferramentas para lidar com as vicissitudes da vida, porque a vida “é bonita e é bonita”, mas não é moleza para ninguém.

Que ninguém se iluda imaginando que, em algum momento, os conflitos se acabam, longe disso, não se ganha o céu na terra, pois dores e amores são o privilégio e fardo especificamente humano; com o alargamento da consciência ganha-se a possibilidade de viver neste mundo de maneira significativa e tornar-se o autor da nossa grande obra: a nossa vida.

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Sem hora marcada

sem hora marcada fotoO parto, conhecido desde a autora dos tempos como um saber de mulheres, tem sido apropriado pelas ciências médicas e regrado pela indústria da cesárea, em nossa sociedade cada vez mais tomada por fórmulas e remédios que prometem nos livrar do medo e da ansiedade inerente à própria vida.

Desafiando o consenso reinante do parto como cirurgia, algumas mulheres e lutam para se reapropriar do entendimento do nascer. O livro Sem hora marcada realizado a 8 mãos por Anna Carolina Gomes, Guilherme Vitoretti, Letícia Lopes e Renata Ambrosio, conta as experiências de corajosas gestantes e mães que ouviram o próprio corpo, intuíram a sabedoria da natureza e buscaram trazer seus filhos ao mundo sem intervenções desnecessárias, assim como suas mães, avós e todas as mulheres de outros tempos o fizeram. Ao ler seus relatos, sentimos seus medos e anseios, mas também a força e a integridade naquele que é considerado um dos momentos mais sagrados da vida, o nascimento.

Carol, Guilherme, Letícia e Renata , meus orientandos, defenderam ontem seu trabalho de conclusão de curso uma exigência do Curso de Jornalismo da Universidade Metodista de SP; da banca participaram Giovanna Balogh, repórter da Folha de S.Paulo editora do blog maternar* e Marli dos Santos, Coordenadora do Pós-Graduação em Comunicação da UMESP. O tema escolhido foi bastante elogiado, pois nossa sociedade pouco pensa na forma em que estão nascendo as próximas gerações.

Dizemos que realizar um TCC é como parir, são meses de gestação até o filho/produto nascer. A metáfora procede, agora, este produto especial está à procura de uma boa editora para chegar às melhores livrarias para que possa ser compartilhado por todos aqueles interessados em tornar a nossa vida e a das próximas gerações muito melhor.

Uma defesa emocionante, não só pelo tema, nascimentos, mas também porque por essas coisas do destino, foi realizada no dia em que celebrávamos o  aniversário de meu pai.

* http://maternar.blogfolha.uol.com.br/

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Frida Calor e Frio

frida museu

Nestes dias fui assistir Frida calor e frio com a companhia Estelar de Teatro, no espaço Viga, em Pinheiros. Sempre é fascinante reviver a história desta pintora mexicana marcada pela poliomielite na infância e depois, aos 18 anos, por um grave acidente que destruiu o ônibus em que a jovem voltava da escola. Na fatalidade, sua coluna foi fraturada em três partes, a perna direita, em onze e um ferro entrou pelo quadril esquerdo para sair pela pelve, ela costumava dizer que esta havia sido a forma brutal em que havia perdido sua virgindade. Passou por mil e um tratamentos da ciência médica da época, em meio à dor, pede tela e pincéis para passar o tempo.

Esta mulher encantou o muralista Diego Rivera que veio a se tornar seu marido, em 1929, conta-se que formavam um casal e tanto, numa relação de amor e ódio conhecida por toda a capital; seus saraus e festas reuniam a intelectualidade do país e, por vezes, até do mundo em visita ao México em seus dias revolucionários, como catalão Pablo Picasso, o francês André Breton e o chileno Pablo Neruda. No final da década de 1930, Diego e Frida hospedaram Trotsky exilado no país, por recebê-lo foram alvo de constantes perseguições policiais, mas o evento mais ruidoso foi o caso entre o russo a pintora.

A deliciosa peça nos leva a este universo desta mulher intensa que não fez da fatalidade um destino, embora a dor tenha sido uma companheira, jamais conseguiu vencê-la. Sua arte tornou-se sua vida e sua vida ficou registrada em sua arte.

“A arte é uma das múltiplas possibilidades do real” nos disseram. Que sorte a nossa termos a arte!

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Uma conversa sobre comportamentos, a relação estímulo-resposta

Neste semestre comecei a estudar o behaviorismo, uma corrente que parte da biologia para entender os comportamentos, não vou entrar em detalhes, apenas compartilhar algumas reflexões sobre a conhecida díade estímulo-resposta.

Observando os comportamentos, Pavlov, um fisiologista, descobriu o mecanismo de estímulo-resposta, percebendo que há respostas independentes de nossa vontade, nomeou-as comportamentos respondentes incondicionados ou reflexos, como o piscar os olhos, quando um objeto se aproxima do olho. Ficar com água na boca ao ver uma comida gostosa também é um comportamento nesta linha.

Nos reflexos incondicionados, a resposta origina-se imediatamente após estímulo, englobando toda atividade reflexa autônoma, que envolve glândulas, músculo cardíaco, entre outros. Dado que são respostas inatas, não dependendo de aprendizagem, esses comportamentos pertencem à natureza das espécies, desenvolvidos filogeneticamente durante sua evolução, garantindo sua sobrevivência. Agora Pavlov treinou um cão a salivar ao ouvir o som de um sino, pois ele toda vez tocava o sino, também lhe fornecia comida, assim percebeu que as respostas poderiam ser condicionadas.

John Watson ampliou os estudos nesta linha, percebendo que se os organismos podiam aprender novos comportamentos respondentes, ou seja novos condicionamentos, também poderiam aprender a sentir novas emoções, ou seja, estabelecer novas respostas emocionais. Todos sabem como é difícil manejar as emoções, porque são respostas reflexas. De nada adianta explicar para uma pessoa que o seu medo de barata é inadequado ou desproporcional,  pois cada um de nós responde de forma emocional a certos estímulos. Uma dor de barriga ao andar de avião ou na hora de fazer uma grande prova são reflexos condicionados.

Watson conduziu um célebre estudo com um bebê, que se tornou conhecido como o caso do o pequeno Albert e o rato, a pesquisa, hoje, esbarraria em problemas éticos, pois o bebê no final tinha medo até da barba do Papai Noel.

Esta linha da psicologia é polêmica, mas achei interessante fazer este compartilhamento, pois carregamos em nossa vida uma série de medos e tantas angústias que começaram na nossa infância, devido a emparelhamentos ocorridos naquele momento em que éramos frágeis e não tínhamos muitos recursos para lidar com o meio. Pesquisas nesta linha permitem entender que as pessoas podem construir novas respostas reflexas para estímulos que causam sofrimento.

Além disso, a idéia de que cada estímulo provoca uma resposta entrou em nosso imaginário, no entanto, boa parte das pessoas ainda não percebeu quais são os estímulos que elas provocam e se admiram com as respostas que recebem, por isso fica a reflexão.

PS. Ao longo do semestre compartilhei muitas ideias sobre comportamentos e otras cositas más com a minha turma na Psi e vários me ajudaram em diversos momentos, por isso fica o agradecimento a Denise Reis, Victor Lobo, Laura Savignano, Monica Rosa, Vanessa Arrais, para citar alguns. Valeu!

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Conversas sobre a medicina, o corpo e a saúde

Nestes dias de férias no Chile, aproveitei para colocar em dia a visita aos médicos da minha mãe que chegando à casa dos 70 anos precisa passar pelos controles. Lembrei-me que já havia peregrinado por muitos consultórios ao seu lado quando ela ainda morava no Brasil nos anos 1980.

Dona Patrícia, minha mãe, é daquelas pessoas que sempre tinha alguma dor, no mínimo, um resfriado, ou então, precisava tratar alguma coisa que não gostava. E ela não gostava mesmo é de suas gordurinhas, mas sempre adorou bife com batatas fritas, era viciada num docinho, passando longe das verduras. Sempre queria sair para comer “algo rico”. “Ese dulce me cierra un ojo...”, diz até hoje com um olhar de criança marota.

Começou a fazer ginástica algumas vezes, optava por planos semestrais, contudo quem terminava o plano era eu, certa vez, junto com uma amiga matriculou-se em dança espanhola, comprou as sapatilhas e as castanholas, que em poucas semanas já estavam largadas em algum canto.

Buscando emagrecer fez tudo quanto apareceu, purgações com líquidos e massagens, visitou muitos médicos que lhe indicaram muitos remédios, de ansiolíticos àqueles para a tireóide. Emagrecia um pouco, mas engordava muito mais, insatisfeita, cansada de tanto tratamento, procurou um método radical: a cirurgia plástica para redução do abdômen. Ficou magra, mas em dois anos a cintura havia voltado ao patamar anterior.

Depois, já morando no Chile, começou a apresentar problemas de pele, ela se auto-diagnosticou tendo algo como bicho geográfico, ou algo parecido, mas este só aparecia onde suas unhas alcançavam. Visitou diversos médicos, nenhum deles encontrou nada, sendo despachada rapidamente, a última dermatologista sugeriu que talvez fosse produto de ansiedade, mamãe não acreditou, “Imagina!”

Homem Vitruviano, desenho de Leonardo da Vinci

Hoje, vejo que a nossa medicina tradicional ao tratar o paciente aos pedacinhos peca ao não buscar uma compreensão do todo. Procura em exames algum indício de um desvio de padrão de saúde, daí encontra um sintoma e prescreve um tratamento. Para diabete, a insulina, para pressão alta, o remédio x, para enxaqueca, outra pílula. Cada profissional conhece a sua especialidade -cardiologia, neurologia, dermatologia, para citar algumas-, no entanto, do todo ninguém toma conta e as angústias do sujeito que aparecem no sintoma não são olhadas, nem recebem encaminhamento… Só quando o caldo entorna, ou seja, quando a vida fica permeada pelo sofrimento, vai se procurar algum doutor da psique e olhe lá, pois todos têm medo da loucura.

A fragmentação ainda é regra, mas creio que em alguns espaços esse entendimento do corpo começa a mudar.

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Asclépio, o curador da antiguidade

Asclépio no Museu de Atenas

A busca da cura para os enfermos faz parte das preocupações humanas desde a aurora dos tempos. Se por um lado a doença nos coloca frente a frente com o imponderável, desde que se sabe, homens e mulheres não se entregaram ao destino, mas buscaram curas para as dores.

No mundo antigo, Epidauro consagrou-se às artes da cura. Nessa cidade, localizada num pequeno vale do Peloponeso, um renomado santuário dedicado à Asclépio funcionou durante vários séculos.

Filho do deus Apolo e da mortal Coronis, Asclépio teve seu nascimento marcado por uma tragédia. Coronis temendo ser abandonada pelo deus, preferiu o amor do mortal Iksis, ao ver Apolo furioso, sua irmã Ártemis vingou a traição. Coronis morre, mas estava grávida, Apolo chega a tempo de salvar o filho, tirando Asclépio da barriga da mãe.

O rebento foi conduzido ao monte Pélion, onde foi educado pelo centauro Quiron, um renomado curador e preceptor de heróis. Fixou morada em Epidauro, onde desenvolveu uma escola de medicina, conta-se que Asclépio fez tantos progressos na medicina que chegou a ressuscitar os mortos. A escola funcionou do século VI a.C. até fins do século V d.C., um dos alunos mais célebres foi Hipócrates. Os homens ficaram muito contentes com o aliado curador, no entanto, o Hades passou a temer que não lhe chegassem mais as almas ao seu reino e Zeus, que a ordem fosse transformada. O filho de Apolo foi fulminado com um raio, mas logo a seguir tornou-se divino.

Sabe-se que no santuário,  havia  um misterioso labirinto, acredita-se que no centro guardava serpentes. As serpentes são animal ctônios, para os antigos, detinham o poder da adivinhação e simbolizavam a vida que renasce e se renova. Numa reminiscência a esta simbologia, a serpente enrolada num bastão tornou-se o símbolo da medicina.

Em Epidauro a cura do corpo ocorria através da cura da mente. O paciente se instalava na cidade para o tratamento. “Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado”, lia-se numa inscrição logo na entrada. Um dos pontos altos deste era dormir no santuário. Acreditava-se que Asclépio visitava os pacientes durante o sono, tocando as partes enfermas. Os sonhos dessa noite eram interpretados pelos sacerdotes, considerava-se os sonhos como manifestações do divino, pois eles traziam as comunicações inviáveis no estado de vigília, através deles o sacerdote-curador entenderia a origem da dolência e prescreveria o tratamento.

Contudo, a visão de cura desta  cidade era muito mais ampla, as instalações detinham um odeón, para a música e a poesia; um estádio para competições,  um ginásio para exercícios físicos; um teatro; uma biblioteca e obras de arte ficavam espalhadas por toda a cidade. Percebe-se a preocupação com a manutenção da atividade do corpo, mas também que havia uma comunhão entre as práticas culturais e espirituais. Artistas e sacerdotes participavam no processo de cura, através da purificação da mente, da alma e por extensão do corpo.

Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado, dizia a inscrição e pureza significa ter pensamentos sadios. A arte desempenharia um papel central neste processo. Quem já curtiu um show delicioso, sabe como a música pode transformar um “estado de espírito”.

Hoje, 25 séculos depois, a medicina ocidental, muito embora ainda se dedique à observação do corpo, já estabelece uma relação entre mente e corpo, entre psique e soma, pois as enfermidades psicosomáticas estão razoavelmente conhecidas. No entanto falta avançar na integração destas partes e na visão do humano como um todo.

Asclépio, ou sua versão romana, Esculápio, ficaria feliz.

O teatro de Epidauro, construído no século IV a. C. comportava 14 mil pessoas

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O desafio de crescer e aprender

Uma amiga, companheira de caminhada, Simone, escreveu comentando o post “Histórias de um fim de semana na neve”:

“Uma metáfora de tantas outras ocasiões em que caímos e levantamos, né, nos esquecendo de que as quedas são oportunidades de aprender a reencontrar o eixo — na vida, na neve, na espiritualidade… Até vermos o quanto foi útil passar por aquilo: porque aí desfrutamos o prazer do aprendizado, o vento no rosto, o equilíbrio e o deslizar sobre montanhas.”

A gente cresce e esquece que  foi preciso engatinhar para aprender a andar e até levar alguns quantos tombos. Eu ainda me lembro do que foi aprender a andar de bicicleta! Entretanto, a memória apaga o processo e só registra o resultado, além disso, em muitos de nós há um eguinho que cresce um pouquinho e já se acha o rei da cocada preta. Inflação do ego diria o pessoal da psi.

A gente fica velha não quando tem idade, mas quando deixa de aprender novas coisas ou quando não quer expor que não sabe, com medo de perder a autoridade. E nisso vai perdendo os diversos prazeres da vida.

Vi nestes dias o filme “Um método perigoso”, sobre a relação entre Jung e Freud. Não é lá um grande filme, mas um certo momento Jung que contava seus sonhos para Freud pede para criador do método da psicanálise compartilhar um dos seus, Freud recusa dizendo algo como:

– Se eu contar vou perder a minha autoridade.
Grande receio de boa parte das pessoas a perda da autoridade. Não sabem que na busca de mantê-la a qualquer preço e no medo já se perde…

Este esquema apresenta alguns pontos dos dois autores. Jung tem uma vasta obra, não acredito que o Livro Vermelho seja o mais importante…

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As vozes de Joana d`Arc

Eu que gosto muito de histórias, nestes dias deparei-me com a história de Joana d`Arc. A vida desta camponesa que se tornou heroína da Guerra dos 100 anos e uma Santa francesa no século XX é impressionante, terminando no dia 30 de maio de 1431, quando com apenas 19 anos -acredita-se, porque na época não havia registros e nem ela sabia ao certo- foi queimada viva. Durante a guerra, quando o rei da França Carlos IV morre sem deixar descendentes masculinos, a Inglaterra e a França entram em disputa pelo trono francês.

Joana dizia ouvir vozes divinas com mensagens de São Miguel e de Santa Catarina desde os treze anos que lhe recomendavam uma vida piedosa e a se manter donzela. Aos 16 anos, as vozes lhe ordenaram uma estranha missão para uma jovem camponesa analfabeta: dirigir o exército francês, coroar o Delfim Carlos e expulsar os ingleses de país. Num primeiro momento foi rejeitada pelas tropas francesas, depois conseguiu se encontrar pessoalmente com o Delfim que a submeteu a diversas provas. Após passar por todos os interrogatórios, investigações e até por exames íntimos pelas matronas locais, a jovem o convenceu da veracidade de mensagens. Conta-se que Carlos a teria colocado à frente de 5 mil homens.

Após uma vitoriosa campanha no vale do Loire, para liberação de Reims, participou na coroação de Carlos VII como rei da França, em julho de 1429. Nesse momento, ela deixa de ouvir vozes, faz menção de deixar o exército, mas continua lutando, pois percebe que a França não estava totalmente liberada.

Ela voltou a ouvir uma voz que lhe anunciou que cairia antes do São João. Foi capturada em maio de 1430 por vassalos do Duque de Luxemburgo, aliado da Inglaterra, que negociou a virgem guerreira com os ingleses, obtendo em troca 10 mil libras. Ela é então julgada sob a acusação de bruxaria, heresia, entre outros crimes de natureza religiosa, sendo decisivo para sua condenação o fato de que ela vestia roupas masculinas, num processo que menos de um século depois seria reconhecido como irregular.

Esta história contém muitos elementos, mas hoje gostaria de destacar a nossa  interpretação de certas vozes. Até não muito tempo atrás, ouvir vozes faria de uma pessoa uma louca desvairada, levando-a ao hospício, hoje, seria diagnosticada como portadora de algum transtorno psíquico (como esquizofrenia, mas há outros) que a conduziria a tomar remédios para conter as alucinações. No século XV, um Delfim ouviu as mensagens de uma jovem camponesa e tornou-se rei.

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Cultura, comida, sexo e os circuitos do prazer

Neste fim de semana, ao longo de 24h, a cidade de São Paulo esteve em festa. Centenas de atrações culturais para todos os gostos, balé clássico, dança moderna, rap, gastronomia, instalações e muita, muita  música. Os carros cederam lugar a uma maré de gente em busca de um bom espetáculo. Caminhar pelas ruas do centro, passando por pontos históricos como Pátio do Colégio, Vale do Anhangabaú, Teatro Municipal, Praça Roosevelt, Largo do Arouche, levava a uma verdadeira degustação cultural.

Em meio a este burburinho, uma população permanecia  totalmente alheia, por toda a parte, viam-se pessoas deitadas no chão frio, cobrindo-se com sujos e surrados cobertores. Penso que muitos participantes da Virada Cultural se perguntavam, o porquê desta gente não querer curtir a música, nem participar desta festa.

A tragédia das drogas que assola nossa sociedade certamente permite uma explicação. Algumas substâncias, como a cocaína, anfetaminas e, sem dúvida, o crack, ativam o sistema do prazer, cujo neurotransmissor responsável é a dopamina.

O prazer representa um sistema muito antigo que atua na motivação, trata-se da maneira que a natureza se certifica de que as condutas indispensáveis para a sobrevivência serão feitas, tais como comer e o sexo. Ao longo da evolução, este sistema de recompensa tornou-se um importante mecanismo de autopreservação da espécie.

Encontramos prazer de forma natural com condutas biológicas, mas também sociais, como conversar com um amigo ou uma boa festa, no entanto, ocorre que as drogas são muitíssimo mais poderosas do que as formas naturais, sabe-se que a cocaína, anfetaminas e o crack estimulam 10 vezes mais, além de provocarem mudanças físicas no sistema nervoso central causando a adição e, talvez, o pior, deixando o cérebro muito menos sensível aos estímulos cotidianos e comezinhos, por este motivo os dependentes perdem o interesse em todo tipo de atividade que não a própria droga.

Triste perceber que prazeres tão simples e sublimes, como ouvir música estejam tão distantes desta população doente a vagar por nossas ruas. Tema delicado, uma questão de saúde pública, que ainda está à espera de uma adequada resposta de nossa sociedade.

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Drops sobre o cérebro e a memória

Entendermos o cérebro, essa complexa ferramenta que trazemos como espécie, é central para entendermos o ser humano. Ele é responsável por nossas ações, pensamentos e até pelo que fazemos sem pensar como respirar, havendo inclusive uma parte associada à moralidade. Sistema fascinante, por isso decidi compartilhar um debate importante para todos os que têm cérebro, a memória.

A vida em sociedade requer do indivíduo o armazenamento de informações, a memória permite-lhe resolver melhor suas necessidades biológicas, saber quem ele é -e assim construir sua identidade-, incorporar as regras de funcionamento da vida social, entre tantos outros. O aprendizado torna-se o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre o mundo, estando totalmente vinculado à memória, nele o dado é adquirido, estocado e depois recuperado para utilização. Um processo em três estágios: codificação, armazenamento e recuperação. Bem, este é o percurso padrão, mas pode haver um dano no trajeto ou o mesmo, o arquivador pode se atrapalhar no seu serviço. Há pessoas que sofrem lesões em alguma parte de cérebro e apresentam problemas para fazer o resgate, outras, para realizar novos registros, ou seja, incorporar novos aprendizados.

Os pesquisadores identificam dois grandes tipos de memória: curto prazo e longo prazo. A memória de curto prazo é momentânea, dura em média 20 segundos, apresentando pouca capacidade de armazenamento, por isso também denominada memória de trabalho. Por exemplo, procuro um certo número numa rua, guardo-o na mente, achei o número, “descarto” informação. Para que um conhecimento seja incorporado, seja o nome de uma pessoa, uma música, uma receita, uma matéria, ele precisa ser repetido até sua consolidação. Em termos fisiológicos, formam-se caminhos, denominados “traços de memória”. Uma andorinha não faz um verão, uma olhadinha na matéria não significa “arquivamento”, nem se transforma em conhecimento. As sinapses precisam do reforço, sem ele, o traço formado nas redes neurais se perde, mas se houver reforço o conhecimento pode durar toda a vida, ou seja, vira memória de longo prazo -o grande arquivo disponível para ser reutilizado mais tarde. Podemos passar anos sem andar de bicicleta, um dia subir em uma e sair andando.

Num mundo com tanta informação disponível e tão volátil, certamente muitos gostariam de ter mais memória do que têm, ou seja, poder armazenar mais e por mais tempo, desejariam também poder evitar o esquecimento e até transtornos que afetam a memória como o Alzheimer. Algumas pessoas se iludem pensando que tomando uma pastilha todos os dias está tudo certo… sem tirar a importância dos componentes como cálcio e magnésio. Há muito a se conhecer sobre o funcionamento da nossa mente, mas o que já se sabe é que habilidade (ferramenta) que não se usa, se atrofia, cabe a cada um cuidar da (e usar) sua memória para não dar espaço para o alemão.

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A química da depressão

Freud afirmou que o mal de seu tempo, na virada do século XIX para o século XX, era a neurose. Um século depois, certamente a depressão ocupa esse posto.

A depressão deixou de ser um problema individual, tornando-se uma questão de saúde pública, pois afeta entre 3,5% a 10,3% da população mundial, sendo que no Brasil o índice supera os 10% da população, atingindo duas vezes mais mulheres do que homens.

Passou décadas mal percebida e menos ainda entendida, afinal como diferenciar a tristeza da depressão? Todos passamos por inúmeros momentos tristes, dado que a vida tem suas frustrações, dores e dissabores. Eis parte da diferença, a tristeza tem um porquê identificável, mas quando a depressão se instala, o afetado deixa de saber o motivo daquilo que sente. Além do ser como no caso da alergia, tem mil e um tipos e formatos.

Há um conjunto de sintomas associados à tristeza, autoestima baixa, distúrbios de sono, problemas com o apetite. Ou seja, a pessoa dorme demais ou tem problemas para dormir, come demais ou fica sem fome, pode sentir dores por tooodo o corpo (fibromialgia), pode não ter motivação para realizar tarefas bastante simples, inclusive para se levantar da cama (anedomia).

Uma vez instalada as pessoas não sabem o que está lhe acontecendo e nem a família sabe o que ocorre. A pessoa não consegue levar sua vida -ela pode ser vista até como preguiçosa- todas as suas relações (no trabalho, familiares, entre outras) ficam duramente afetadas. Apesar desse quadro apenas 1/3 das pessoas procura o médico por conta própria, nos outros 2/3 alguém a leva depois de constatar que algo não vai nada bem, mas podem ter se passado anos desde os primeiros sintomas.

Hoje, as pesquisas permitem identificar a origem química da depressão, sabe-se que é causada por um defeito nos neurotransmissores responsáveis pela produção de hormônios como a noradrenalina e a serotomina, que por sua vez estão associados à concentração, energia, atenção e excitação, incidindo até na nossa função cognitiva e no humor.

Isto é a parte biológica mostrando o que ocorre, um avanço, pois surge a possibilidade de tratamento e a pessoa pode levar uma vida sem essa nebulosa. Ao que tudo indica, ainda não se sabe o que produz esta disfunção. Aqui as diversas ciências do corpo e da mente precisam se reunir para entender este mecanismo.

Neurotransmissores e suas áreas associadas

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Não apenas Freud explica, a biologia também!

Nestas últimas semanas, já mergulhada na aventura do estudo dos neurônios, comecei a perceber (antes tarde do que nunca…) que o corpo humano é um aparelho bastante complexo e o cérebro, ou melhor, encéfalo, seu nome técnico, um aparelho sofisticadíssimo.

Não é novidade que as mulheres são associadas às emoções e os homens à racionalidade, no passado se dizia que as mulheres teriam dificuldade com o pensamento lógico dedutivo, hoje, por sua vez se fala abertamente das dificuldades dos homens com o plano das emoções. Nestes dias, estudando o encéfalo, descobri que pelo menos a 2ª parte dessa afirmação pode ser verdadeira.

O cérebro está dividido em dois hemisférios, esquerdo e direito, entre os destros, o hemisfério esquerdo se “especializa” na articulação da linguagem, no informação lógica, entre outros, por sua vez, o hemisfério direito é quem cuida do pensamento simbólico e da criatividade.  O corpo caloso, uma região localizada logo abaixo do córtex cerebral, torna-se responsável pela comunicação entre os hemisférios, nela uma série de  feixes de nervos cruzam os dois lados, o que possibilita a troca de informação entre as partes.

Nas mulheres há consideravelmente mais feixes cruzando, ou seja, a estrada nelas fica maior. Dizem os pesquisadores que esta diferença anatômica pode ser responsável por diferenças nas respostas emocionais entre os dois sexos. Nos homens, cujo corpo caloso é menor, o fluxo de informações é mais lento entre o lado emocional (direito) e o lado verbal (esquerdo), fato que os levaria a expressar as emoções menos efetivamente do que as mulheres. Parece que o telencéfalo masculino tem capacidades emocionais em apenas um hemisfério (lado direito), enquanto que o feminino teria capacidades em ambos os hemisférios devido à maior comunicação.

Neste esquema encontram-se os elementos relacionados a cada um dos lados dos hemisférios

Não apenas Freud explica, a biologia também!

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Quirón, o curador ferido

Nestes dias lendo histórias da mitologia grega, deparei-me com o centauro Quirón. Dizia-se que os centauros eram beberrões e fanfarrões, no entanto, Quirón destacou-se como curador, sábio e educador, tornando-se o rei dos centauros. Uma das versões sobre o seu nascimento conta que Cronos, o titã, pai de Zeus, transformou-se em cavalo para seduzir a ninfa Filira e desta união nasce o jovem com tronco, os braços e a cabeça de homem e o corpo de um cavalo. Logo ao nascer foi abandonado, sendo encontrado pelo deus sol, Apolo, que o criou como um filho, ensinando-lhe seus conhecimentos nas diversas artes como a música, pintura, filosofia, assim como as práticas curativas e divinatórias.

quironMeio homem e meio animal, ele conhece os dois mundos, uma parte registra a vida terrena e a outra, conhece o divino. Seus talentos tornaram-no preceptor dos jovens herois da mitologia que ensinava no Monte Pélion, seu discípulo mais conhecido foi Aquiles, mas Jasão, Héracles e muitos outros também estudaram com ele. Em sua escola, na verdade, uma caverna, antes do manuseio das armas, ensinava a ordem do cosmo, o respeito pelas leis divinas e os valores espirituais.
Certo dia, Héracles em visita ao amigo após matar a Hidra -o quarto dos seus trabalhos-, acidentalmente durante uma briga com os outros centauros, arranhou-o na coxa com uma de suas flechas embebidas com o sangue do monstro de várias cabeças, o veneno não o matou, dado que era imortal, mas obrigou-o a conviver com uma dolorosa ferida e todo o conhecimento que possuía não podia saná-lo.

Curador ferido, Quirón trocou sua imortalidade para libertar Prometeu, o herói acorrentado no alto de um penhasco por roubar o fogo e entregá-lo aos homens. Tornou-se mortal para escapar do seu sofrimento, mas recebeu como homenagem a constelação de Sagitário, para ser lembrado pelos homens todas as noites ao contemplarem o céu e as estrelas.

*

Da Índia
indiaA morte de Damini, uma jovem de 23 anos, estudante de fisioterapia, estuprada barbaramente durante horas por seis homens, em Nova Delhi, nos últimos dias de 2012, nos mostra como o mundo precisa de curadores.

Clique para enviar uma mensagem de protesto diretamente para o governo indiano:
http://www.avaaz.org/po/end_indias_war_on_women/?bliimab&v=20673

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O corpo e seus sinais

Não poucas vezes somos surpreendidos pela vida, mas há diferentes tipos de surpresas. Num desses dias uma amiga começou um tratamento contra um câncer. Todos nós temos algum familiar, amigo ou conhecido que teve ou tem o que genericamente chamamos câncer. A palavra assusta. Fui pesquisar sobre o assunto e descobri que os médicos o denominam neoplasias (neo = novo + plasia = formação), ou seja, trata-se de um crescimento desordenado de células.

Não sou das que separam corpo e mente, acho que as duas instâncias fazem parte da totalidade do nosso ser. Algumas pessoas desenvolverão gastrite, outras alergias, problemas de pele, miomas no útero, enfim. O que explica essa propensão? A genética em parte, outra parcela da explicação talvez esteja relacionada à nossa forma de processar as nossas questões ao longo da vida.

Voltando ao ponto, o que chamamos câncer é uma acelerada renovação de células. Parece que se a gente não vai atrás do novo, a vida renova a gente. Fico pensando que talvez o organismo esteja buscando se renovar, sem saber como fazê-lo… querendo largar o velho -velhas fórmulas e padrões de funcionamento- para liberar espaço para o novo. Sem a liberação de espaço, nada novo pode entrar… Pode ser uma viagem minha, mas ouso compartilhá-la.

Ninguém gosta de ficar doente, mas as doenças nos apontam um desequilíbrio, ele já está instaurado há tempos, só que a gente só percebe quando ele já causou algum estrago. As doenças nos alertam que precisamos prestar atenção na gente, cuidamos tanto de tantas coisas –filhos, marido, trabalhos- e perdemos a nossa conexão com nossos sonhos e desejos. Aí, de repente, o corpo se rebela e a cabeça pira.

O que fazer para não pirar nesse momento em que a gente nem sabe por onde começar? Sair à procura daquilo que realmente importa. Aqui lembro Gonzaquinha:

A gente quer calor no coração

A gente quer suar, mas de prazer

A gente quer é ter muita saúde

Não há receita, mas vale o ditado, “quem procura acha”.

PS. Escrevo lembrando a minha querida tia Julia.

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A dança da tarântula

Cada vez mais me convenço da sabedoria dos rituais. Para os antigos, o ritmo da vida -pessoal e da coletividade- era pautado por rituais, estes, por sua vez, acompanhavam o ritmo da natureza: nascimento, crescimento, morte, semear, colher etc.

Os rituais continuamente criavam um espaço para lidar com a transformação do jovem ao adulto, do solteiro ao casado, da maternidade, assumir uma função na comunidade ou partir para uma guerra. Permitiam projetar desejos e lidar com os problemas.

A tarantela italiana tem origem numa dessas cerimônias da região da Sicília, sul da Itália. Trata-se de um rito anterior ao cristianismo, a dança da Tarântula.

Nos vilarejos, por vezes, as  meninas e/ou mulheres apareciam repentinamente transtornadas, sem que se soubesse o motivo do delírio, como explicação dizia-se que elas  haviam sido picadas pela tarântula e se convocavam mulheres esse ritual. Na verdade, elas haviam sido violentadas, muitas vezes por alguém da família ou um chefe da comunidade e tinham medo de falar. Como até hoje acontece, o abuso sexual contra crianças ocorre majoritariamente na própria família. A quem a vítima vai denunciar?

Dizia-se que da dança à exaustão expulsava o veneno, é um fato, a dança tem um poder curativo, mas também este ritual criava um espaço extra-cotidiano que permitia lidar com a dor. Pode-se objetar que o problema real não era enfrentado, por outro lado é interessante perceber que a dor era coletivamente processada. Hoje, no nosso mundo sem ritos nem mistérios, as pessoas tomam remédios para evitar a dor ou então sofrem sozinhas. Que triste!

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O perigo dos vulcões

Vulcão Osorno e saltos del Petrohue

Nestes dias, a majestade das montanhas tem me acompanhado. No Chile, uma gigantesca parede  faz parte da paisagem de norte a sul. No inverno, ela se preenche de neve e no verão, o gelo torna-se agua que corre pelos rios.

Boa parte da vida em nosso planeta está ao alcance de nossos olhos, mas de tempos em tempos, nas cordilheiras podemos ver  a vida do interior da terra explodindo através de seus vulcões. Lava e cinzas subindo aos céus, bolas de fogo descendo as montanhas arrasando plantações e cidades.

Muitas pessoas são como vulcões. Quietas por muito tempo e, quando menos se espera, explodem. Ninguèm entende o que aconteceu, nem elas. Cada um precisa cuidar um pouquinho de si. Abrir portas para a fumaça sair, para não pegar fogo numa explosão.  Sua vida agradece.

Vulcão Chaiten em erupção (2008)

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Um arqueólogo para nossa mente

Muitos querem conhecimento. Desde que temos notícias, o homem busca conhecer o cosmos, a natureza, as partículas. A ciência avançou a passos largos, mas ainda temos vários oceanos de desconhecidos. Um desses oceanos é o próprio homem e sua mente. Essa mente (psique dirão os psicólogos) que permite nosso funcionamento no mundo, possibilita pensar e aprender, rir e imaginar. Pela mente passam nossas sensações, o amor, a raiva, a inveja. No entanto, a mente nos prega peças. Nos faz dizer coisas que não queremos ou então nos faz perder a palavra, mesmo tendo coisas importantes a dizer. Não nos permite enxergar o que está debaixo do nosso nariz: todo mundo viu que o nosso namorado é um sem vergonha, que nosso chefe é um explorador, que nosso filho mente etc. só a gente não… A gente vê com toda clareza a sombra do outro, mas a nossa, é nosso grande desconhecido.

Jung falou desse aspecto de nossa mente, a nossa sombra. Stevenson dedicou-lhe um romance, O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Dr. Jekyll percebia uma dualidade em sua natureza, quantos de nós percebemos nossos múltiplos eus, mesmo sem ter um diagnóstico de “personalidade múltipla”? Detectamos um eu que quer ser um adulto autônomo, outro quer ficar na já conhecida adolescência; um eu é da paz, outro, é briguento. Ficamos chocados quando vemos adolescentes quietos que pegam uma arma e, na escola, descarregam-na contra os colegas, numa reação ao maltrato que sofria.

A integração da sombra tem efeitos muito salutares, a pessoa se torna mais realista a respeito de si mesma. A maior ameaça não é o lobo mau, este um adulto pode reconhecê-lo, mas o mal que está em nós e não temos ciência, a nossa sombra que vai atraindo (e se enroscando) em outras sombras e não permite construir ou obter nossos melhores desejos. O analista junguiano, John Sanford, lembra que “a honestidade é a grande defesa contra o mal genuíno. Parar de mentir para nós mesmos a respeito de nós mesmos, essa é a maior proteção que podemos ter contra o mal.”

Antes de assustar alguém, cabe dizer que a sombra pode ser perturbadora, mas não necessariamente é má, Jung disse que 90% da sombra é ouro puro. A sombra é aquele aspecto reprimido da personalidade e ao longo da vida reprimimos tantos aspectos buscando ser aceitos… Há mulheres que reprimem uma personalidade viva para não chocar a família, quando não reprimem suas verdades, vontades ou até a raiva. No ocidente nos livramos da repressão sexual, mas homens e mulheres temos que fazer um trabalho de arqueólogo para alcançarmos o conteúdo soterrado em nossa mente.

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