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Universo onírico

Os pharmacons da medicina do sonhar

Nestes dias uma amiga sonhou  com uma aranha que lançava um veneno a um urso, ele ficava com muitas bolhas, mas sobrevivia, depois via muitas aranhinhas, não lembro o que seguia. Estas visões a deixavam surpresa com a capacidade da mente produzir visões durante o sono.

No mundo grego antigo, phármakon definia qualquer substância capaz de atuar no organismo, seja em sentido benéfico ou maléfico. Por isso, tanto designava remédio como veneno. E o pharmakeús era um misto de preparador de remédios, mágico e envenenador. Os gregos viam uma irmandade entre veneno e remédio, talvez porque o que não mata fortalece. O termo também nos lembra que na Hélade, há milênios, já se percebia a ambiguidade e a contradição presente na natureza e na vida.

Os pharmacon representam uma visão da medicina ancestral, numa reminiscência desse termo, encontramos a palavra farmácia, o lugar onde contemporaneamente buscamos a cura através de remédios.

Cabe lembrar que durante milênios o saber das plantas foi utilizado e ficou guardado pelas mulheres. Conhecimento este que permitia a cura de muitas enfermidades, mas como tudo o que não se explica, assusta, as mulheres ganharam o estigma de feiticeiras e bruxas.

Por sua vez, a aranha tece, tal como a própria vida é tecida. Um ofício ancestral das mulheres é o tecer, cabe a elas, fio a fio, ponto a ponto, tecer a trama dos tecidos seja de roupas, mantas ou do próprio rebento. A própria tecelagem representa o acalento e a  proteção, funções primordiais do feminino.

Aranha também me lembra a dança da tarântula. Na região do Mediterrâneo, onde hoje vemos o sul da Itália, há mais de dois mil anos, as meninas e jovens, muitas vezes “enlouquecidas” repentinamente eram vistas pelo clã como picadas pela tarântula. Na verdade, a loucura aparecia após sofrerem alguma violência como o abuso sexual, cometido por membros das próprias famílias, que não podia ser denunciado. A irmandade feminina fazia o ritual da tarântula, uma dança só de mulheres, de cura, para sanar e limpar as dores. Eis a origem da tarantela. A dança tem grande poder de cura, quem experimenta sabe como o movimento ao som dos tambores e acordes pode lavar e sanar a alma.

Como andamos desvinculados da natureza assustamo-nos, às vezes, com as imagens que os nossos sonhos trazem, contudo não há animal bom, nem ruim, são representações de ideias, sentimentos  ou forças presentes em conversa ou em conflito no nosso interior. Ideias do mar profundo que buscam sair à luz e nos ajudar para vivermos uma vida melhor do que o que estamos fazendo.

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A medicina do sonhar

Neste papo delicioso sobre os sonhos Rô, uma querida e sintonizada amiga que trabalha em algumas rodas de cura, adicionou alguns elementos. Diz ela:

Também sou uma sonhadora e me instiga muito perceber que de tempos em tempos , conforme as mudanças ou as necessidades do nosso grupo espiritual,vem uma onda de sonhos refletindo este nosso inconsciente coletivo e que, por vezes, aprofundamento das instruções para estudos individuais ou para o grupo ou mesmo irradiam em aberturas de novos ciclos. Digo isso para lembrar no âmbito do grupo, pra não dizer do pessoal. Sinto mágico, misterioso e de muito poder, esta “medicina do sonhar””.

Asclépio, o curador

Essas palavras me lembraram da importância do sonho para muitas tradições. Entre os gregos havia um grande cidade de cura, Epidauro, lá praticava-se a nooterapia, a cura pela mente. “Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado. E pureza significa ter pensamentos sadios.” Assim se lia logo na entrada.

Durante a estadia, os sacerdotes prestavam especial atenção aos sonhos do paciente, principalmente quando eles dormiam no templo de Asclépio, o patrono de Epidauro, os sonhos dessas noites trariam indicações do Astral das partes enfermas e  também dos instrumentos de cura. Asclépio era Filho de  Apolo, o deus sol, irmão gêmeo de Ártemis, a deusa lunar, um grande curador na vida adulta. Epidauro era um luminoso centro espiritual e cultural, com espaço para as artes e práticas físicas, funcionou durante vários séculos, Hipócrates, o pai da medicina, estudou nele.

Os Mapuche são os povos originários do sul do Chile

Para não ficar no passado, lembrei que entre os mapuche, populações nativas do Chile, ainda hoje, o sonho está incorporado à sua vida cotidiana. Eles acreditam que o sonho se trata de uma viagem que a alma faz quando a consciência se retira e a pessoa dorme. Nesta viagem, ela toma contato com outras dimensões e visita os mundos de cima, de baixo, da “esquerda”, da “direita”. Visualizam suas questões e suas formas de cura. Sei que quando eles precisam tomar decisões utilizam o método de interpretar os sonhos dos membros da comunidade.

E  tenho percebido ouvindo os sonhos de toda família que os nossos sonhos se conversam. Não é fascinante? Nesta viagem da alma, ela passearia por diversos planos, tomando contatos com as questões não vistas durante a vigília e haveria um nível pessoal, do casal, familiar, da coletividade…

Bem, pelo menos, essas foram as minhas divagações…

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As mensagens de nossos sonhos

Enquanto dormimos produz-se  algo enigmático: sonhamos. Estas imagens oníricas podem trazer cenas gostosas, como voar junto aos pássaros, nadar num rio de águas límpidas, dançar uma quadrilha no meio da floresta com o seu amor, mas em boa medida são bastante estranhas.

Os personagens da trama, às vezes, são nossos pais, filhos, amigos, chefes, crianças desconhecidas, quando não, conhecidos de outros tempos. Nas cenas mais frequentes, estamos escalando montanhas, na garupa de um cavalo, dirigindo carros, descendo rios em barcos, somos passageiros em ônibus, estamos na escola ou  no meio de uma multidão. Alguns parecem inusitados como entrar num metrô que nos leva por casas dos tempos de Shakespeare ou numa caverna  e damos de cara com um sacerdote.

Há aqueles que trazem situações  incômodas ou mesmo difíceis, como caminhar por um deserto ou cair em um abismo. E, muitas vezes, a trama acontece com o outro, algumas  com a esposa ou o marido. É ela/e que cai dentro d’água e precisa ser resgatado/a ou leva uma bronca do seu chefe.

Num dia destes, um amigo sonhou com um retrato de nossa família, no entanto, na foto havia um buraco e faltava  meu primo, ele correu aflito a perguntar se estava tudo bem com o jovem, e, claro, causou  desconforto e preocupação… A pessoa não percebeu que o sonho lhe pertence, não é do outro, sendo assim trata-se uma conversa dela com ela mesma. A mensagem que chega do inconsciente foi codificada com símbolos e de uma forma que a pessoa pode entendê-la, com certa delicadeza, por isso não a assustou mostrando a cena em terceiros.

O Violista verde de Chagall

O sonho é nosso, trata-se de uma mensagem do nosso inconsciente. Os diversos personagens do teatro do sonho também somos nós, as nossas múltiplas facetas em conversa, quando não conflito, pois somos seres ambíguos, uma parte quer, mas a outra tem medo, tal como resume muito bem a frase “caso ou compro uma bicicleta?”, mas disto a gente dificilmente toma consciência.

Há sonhos desagradáveis que se repetem, na minha interpretação, o nosso inconsciente está nos falando:

-É hora de você perceber esta situação e fazer alguma coisa a respeito!

E a gente desconversa,”foi só um pesadelo”,  busca esquecer rapidinho as imagens, mas ele, o inconsciente, não perde a esperança, insiste, enviando novamente a mesma situação.

Dizem que sonhar faz muito bem, pois trata-se de nossa psique em atividade, trazendo conteúdos para nossa consciência. O sonho nunca é literal, por isso fulano não vai casar, nem sicrano vai morrer, nossos piores tormentos oníricos. Agora, sem dúvida, os sonhos trazem símbolos daquilo que somos e nem imaginamos.

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Sonhos e o arquétipo da caminhada

Um terço de nossas vidas transcorre enquanto dormimos. Neste momento, vamos a outra dimensão: ao sonho. Todos sonhamos, mas poucos se lembram das imagens e cenas que chegam como cenas filmes ou então parecem mais reais do que a vigília. Algumas pessoas, às vezes, se lembram de algum sonho marcante porque as fez acordar, como estar pelado no meio de uma multidão, morte de pessoas queridas, grandes inundações, entre outros.  

Trilha Inka no Peru

Certa vez, sonhei com um grande engavetamento, dias depois no trabalho vivenciei uma situação de “atropelamento” bastante chata. Daí que comecei a prestar atenção aos meus sonhos.

Os junguianos acreditam que nos sonhos há uma grande conversa de nosso inconsciente conosco, ou seja, com a nossa parte consciente, diálogo numa linguagem particular, onírica, cujas regras não obedecem as leis do dia a dia. No sonho podemos voar, crescemos ou diminuímos repentinamente, há monstros fabulosos e por aí vai.  No sonho, o inconsciente nos mostra elementos do nosso lado sombra, não necessariamente ruins, mas obscuros por que são desconhecidos. Os sonhos trazem uma “visão” privilegiada daquilo que em vigília não conseguimos ver.

O tema mais frequente de meus sonhos é o do caminho, posso estar com mochila, sozinha, em grupo, com meu companheiro ou com meus pais. O caminho quase sempre é íngreme, o chão pode ser lodoso, pedregoso, cruzando riachos, pontes, avenidas. Eu ando procurando sapatos, ora estou com sapatilhas de balé, ora com havaiana, ora com meus tênis prediletos. Às vezes, estou num ônibus e ele faz um percurso desconhecido ou passou do ponto para eu descer, em outras o trem vai sair e eu estou fazendo comprinhas num shopping. No mais recente eu pegava um taxi com várias pessoas para cruzar um túnel. Às vezes cheguei num ponto, mas ainda preciso subir uma montanha. Em boa parte deles sinto tranquilidade, em alguns há uma sensação de angústia ou de não estar bem preparada o que devo fazer. Nunca sei onde o caminho vai dar.

Percebo que estes sonhos  remetem à própria vida, talvez porque a vida seja uma grande e incerta caminhada. Não sabemos bem como chegamos, o que devemos fazer, nem por que e menos o nosso destino. Temos um destino traçado ou uma missão a cumprir? Embora não saibamos, penso que talvez tenhamos missões. Elas se revelam em nossos talentos, pois ninguém vai para a batalha sem armas, nem ao trabalho sem ferramentas.

Talvez a vida seja uma caminhada sem fim, cada chegada é apenas uma pausa para uma nova partida e neste percurso vamos conhecendo a vida, aprendendo suas lições e lá vamos nós para outra caminhada.

O caminho pode ser um grande mistério, mas, sem dúvida, vale cada passo.

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Sonhos de transformação

Nos últimos tempos venho sonhando que eu estava numa cama morrendo, mas resistia a morrer… Como leitora de Jung, sei que quando sonhamos com a morte, significa transformação. Comecei a ler um pouco de Jung, procurando entender os meus sonhos, por isso eles hoje não me assustam, em outros momentos certos temas me assustaram, mas agora sei que através dos sonhos o nosso inconsciente fala e nos dá pistas para nossa jornada, nos revela uma informação que precisamos conhecer trabalhar. Em outro sonho recente eu estava atravessando uma fronteira internacional com a minha mãe carregando 2 grandes malas, eu ficava preocupada com as bagagens encostando no chão sujo, como em algumas alfândegas, e no trampo de carregá-las, pois as malas só estorvavam… Malas simbolizam nossos pesos que nos impedem de caminhar. Fiquei me perguntando o que precisaria largar, mas resistia a tal e se estou num processo de transformação o que em eu ainda reluto em largar? Que padrão pelo costume ou por outros motivos ainda me acompanha?

A vida é transformação. Na natureza a mais visível, talvez seja o processo da lagarta se tornando borboleta. Agora ando trabalhando essa pergunta, o que deve morrer para renascer? O que deve ficar para eu seguir em frente? Estou nesta procura.

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Sonhar e acreditar

Uma coisa é certa, na vida, se não buscamos novos desafios, eles certamente chegam até nós.

Regra geral, não é o mundo que conspira contra nós, bloqueando nossos sonhos, somos nós que resistimos a fazer o que precisa ser feito ou nos acomodamos em certas situações. Volta e meia, estacionamos num lugar: na posição de filha, de mãe, de profissional ou amante perfeita. Ou então certas ideias estacionam na gente e criam raízes, musgo e nos tornam resistentes ao novo.

Temos muito mais força, coragem e criatividade do que imaginamos. Fazer um prato de comida todos os dias para alimentar a família, criar um filho, dar suporte aos amigos, ser profissional, construir um belo jardim, cuidar com amor de uma criança doente, organizar a festa de 80 anos da avó, preparar programas semestrais (anuais) no trabalho, dar aulas, construir pontes, fazer arte e artesanato, cuidar do casamento como se fosse a mais bela árvore do planeta.

Quem chegou aos 30, aos 40, 50 … sabe que foi preciso muita força, coragem e criatividade para dar conta do recado. No entanto, não temos boa percepção dos nossos talentos. Quando recebemos um elogio, como respondemos? “Imagine, bondade sua… são seus olhos”. Temos dificuldade para reconhecer o nosso potencial e o nosso poder. Jung percebia que nós não conhecemos muitas de nossas potencialidades, por vezes escondidas pelas máscaras criadas para nos adaptarmos àquilo que esperam de nós. Tornam-se parte de nossa sombra.

“Não é para mim!”, nos boicotamos, porque não acreditamos em nós mesmas. Como fazer então para acreditar? Acreditar que eu mereço um trabalho melhor! Que eu mereço um companheiro legal, mereço ser valorizada em todos os espaços! Como começar? Valorizando nossos recursos. Pare e pense onde você está hoje? Aos 30, 40, … anos o que já conseguiu e já conquistou? É importante a gente se lembrar. O passo seguinte é sonhar, o que quero? Procurar no mais íntimo, o que preciso? O que desejo? No íntimo, encontramos “a voz que nos resgata do profundo abismo”, encontramos o desejo verdadeiro que nos dá a força para continuar sem esmorecer.

Uma coisa é certa, na vida, se não buscamos novos desafios, eles certamente chegam até nós.

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