Uma luta no meio do pacífico, a do povo Rapa Nui

A ilha Rapa Nui, também conhecida como ilha de Páscoa, nome dado por um holandes que lá chegou no dia da páscoa, e por seus misteriosos moais anda em luta por autonomia e reconhecimento de sua identidade. Porta de entrada da oceania, ao longo de séculos, seu povo sofreu a invasão de  piratas,  foi tomada por espanhóis  e outros povos, sofreu epidemias que dizimaram a população e teve milhares de pessoas  escravizadas no século XIX por peruanos.

No final do século XIX, um controvertido acordo entre representantes Rapa Nui e o governo chileno entrega soberania da ilha ao Chile, o que permitiu que, no século XX, as terras fossem incorporadas ao território chileno e o povo insular perdesse sua autonomia.

A partir de então, o Estado chileno não reconhece as autoridades rapa Nui, cuja administração passou por mãos de empresários  chilenos e depois da marinha, antes de ser integrada ao Chile propriamente.

O povo do pacífico sul desconheceu a existência de direitos políticos ou civis e ficou isolado ao longo de cem anos, pois o contato com o continente era feito apenas pela marinha  chilena e depois por escasos voos da Lan Chile, até o momento em que nas últimas duas décadas foi descoberto como uma rota de turismo pela existência de seus  Moais.

Hoje, vivem aproximadamente 3 mil rapa nui na ilha, suas principais demandas são a autodeterminação e direitos sobre a terra, baseados no direitos dos povos originários, direitos que o Estado chileno se recusa  reconhecer. Eles defendem  sua identidade e dignidade, pois distam de se considerar chilenos, um Estado que jamais ouviu suas necesidades e só buscou usufruir do território; percebem-se irmãos dos outros povos insulares da Polinésia e temem o destino de ilhas como o Havaí, cujo modo de vida original foi descaracterizado com a construção de uma base militar, cassinos e a indústria do turismo liderada por grandes empresas dos EUA.

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Daquilo que eu vi

Centro da Via Láctea desde o Observatório Mamalluca, no Chile. Fotografia de Miguel Carvajal

Neste dias me peguei fazendo uma retrospectiva de minha jornada por esta escola da vida, nestes meus 46 anos posso dizer que vi algumas quantas coisas.

Vi o sol despontar por trás das montanhas para iluminar nossa estrada.

Vi o entardecer no mar e as estrelas iniciando sua jornada pela noite.

Vi a dor, a angústia e o assombro.

Vi a guerra no interior de uma nação que levou um bando, que se acreditava superior, a buscar exterminar o outro.

Vi a guerra no interior do homem,  aquela que o faz estar em permanente beligerância contra os demais.

Refugiado afegão brinca com bolhas de sabão

Vi o grande poder criativo da humanidade, da transformação do alimento pelo fogo, das mães que contra tudo e todos seguem em frente, ao gênio criativo de Leonardo da Vinci ou do nosso Aleijadinho.

Vi o mistério.

Vi crianças rebeldes de 20, 30, 40 e 60 anos.

Vi egos inflados, vi o orgulho dilacerar famílias, vi a arrogância arruinar vidas.

Vi o amor e a solidariedade.

Vi flores abrindo e sementes brotando. Ainda lembro do meu 1º brotinho de feijão.

Vi girafas, éguas e passarinhas alimentando suas criaturas.

Vi tanta gente se transformar e dar um salto, rumar para enfrentar de peito aberto o desconhecido. 

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A maior batalha

Foto  mostra caminhão do Exército taleban parado em frente à maior estátua do Buda em Bamiyan, antiga rota da seda, hoje, Afeganistão. O monumento que remontava ao século II d.C.  foi dinamitado por ordem do regime Taleban em 2 de março de 2001

Todos dizem querer a paz no mundo, mas a paz habita o nosso coração? Todos querem respeito, mas eu respeito o outro? Eu escuto suas ideias? Eu o olho com simpatia? Vejo o que ele me diz ou só quero ser visto, escutado e admirado?

Jogar bombas,  incendiar bancos, quebrar concessionárias não vai melhorar o mundo, o mundo só vai melhorar  quando cada um tiver consciência dos seus atos e compromisso com a verdade e a justiça,  não fizer corpo mole e compactuar com o arbitrário, nem fechar os ouvidos à barbárie.

*

Uma árvore pode demorar séculos para crescer e ser derrubada em poucas horas.

Picaretas, mísseis e balas de canhão já abateram aviões, destruíram templos e saberes milenários e até hoje destroem escolas, creches, hospitais e matam milhares de inocentes.

Fumaça após um ataque israelense na Faixa de Gaza. O confronto nas últimas 2 semana, já matou mais de mil palestinos, a maioria civis, e 46 isralenses (Foto: Ariel Schalit/AP, fonte G1)

Uma saborosa relação de anos, um grande amor ou amizade, pode acabar por alguns segundos de desvario.

Se já é muito fácil falar bobagens cara a cara, mais ainda, no tempo da resposta instantânea da internet. Pela boca e pelas telas dos nossos iphones, sem nos darmos conta, ventilamos os nossos demônios.

Como viver é aprender, mais do que nunca vale a antiga receita das avós:

– Atenção constante, quem sabe por onde anda, inclusive por onde andam seus pensamentos, não pisa em falso, nem se ilude com ouro de tolo.

– Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Respire e conte até 20, 40, 100 se for o caso.

– E o mais importante, identificar quem está no comando, seu amor ou sua raiva? O respeito ou a intolerância?  O orgulho, a vaidade ou a luz da compreensão e da sabedoria?

Protesto contra a morte Wesley Andrade que aos 11 anos morreu atingido por uma bala perdida dentro de sua escola, na zona norte do Rio (Foto: Severino Silva / O Dia)

É muito fácil deturpar uma opinião.

É muito fácil magoar uma pessoa querida.

É muito fácil perder a cabeça.

É muito fácil entristecer um coração.

Também é muito fácil ganhar uma cicatriz.

Árduo, mas regenerador, torna-se cultivar a compreensão,  o respeito a todos os seres e o compromisso e a atitude para tornar as nossas relações e o nosso entorno melhores, nem que seja um bocadinho.

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O segredo da criação

Leonardo da Vinci, Virgem das Rocas

A arte nos toca, admiramos cada obra de Leonardo da Vinci, cada traço de Picasso, somos embalados pela magia de Giberto Gil, da poesia de Drumond e tantos outros. Um atributo eminentemente humano que nos iguala aos deuses, a arte, contudo parece haver-se distanciado do cotidiano das pessoas, parece talento de seres especiais, dotados de maior sensibilidade e fica  guardada em lugares especiais, nos museus.

Nesta visão, esquecemos que  ao cuidar do jardim,  preparar um saboroso prato, tecer um suéter,  bordar um pano de prato e, sem dúvida, o momento mais mágico, ao gestar um filho, homens e mulheres estão criando.

Não raro, somos nós que podamos as asas da nossa criação, nosso julgamento cai como uma lâmina cortando as nossas ideias, algumas vezes já matamos a semente do projeto “não vai dar certo”, “é muito ingênuo”, “vão dar risada”, pensamos, quando não é alguma dificuldade que nos faz esmorecer e deixamos para lá, afinal “quem disse que ia dar certo?” Em outros momentos, deixamos o trabalho dentro da gaveta, seja porque o texto não está à altura do García Marquez, a pintura não chegou ao nível do Picasso, não alcançamos a expressividade de um Caetano Veloso, enfim. Como se Picasso, Gabo ou Caetano não tivessem sido crianças a brincar com cores, sons e letras. O nosso julgamento  é cruel conosco.

Também ocorre que a gente muitas vezes só quer produzir belezas e se espanta com o que sai, mas criação é muito mais do que produzir belezas, a arte permite dar forma à dor, ao estranho, às angústias, possibilita expressar nossos medos, colorir as sombras e fantasmas que nos assolam. Quem já viu a pintura de Salvador Dali sabe, ele desenhava seus sonhos, um material riquíssimo e perturbador, ao mesmo tempo. E a angústia de Edward Munch em O Grito, um quadro de dimensões pequenas, mas que traduziu sentimentos que assolam  em algum momento a tantos de nós. Imagino que estes autores criavam por absoluta necessidade.

Acima de qualquer coisa, a criação precisa fazer sentido para nós, quando deixa de fazer sentido, ficamos “de mal” com a criação e até a vida parece insossa.

Dalí, A tentação de Santo Antonio (1946)

A arte, como tudo na vida requer treino, dedicação, dizem que o Salvador Dalí acordava e ia para o seu estúdio,  de onde quase não saía,  ele dizia que ele queria que quando as musas o visitassem,  o encontrassem trabalhando… os chefs de cozinha também conhecem este segredo.

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As lições de um 7X1

Brasil x México (17.jun.2014)

A derrota de ontem não foi uma derrota comum, uma seleção que ficou entre as quatro melhores do mundo perdeu de lavada. Foi tão surreal que os vencedores nem puderam curtir a vitória em público, eles ficaram contidos, buscando não ferir ainda mais os brios do anfitrião. Penso até que eles teriam preferido vencer suando a camisa, no sofrimento.

O fato do Brasil sediar a competição mundial, pelo que se viu, trouxe uma pressão extra para os jogadores: estes viram-se obrigados a vencer o torneio. Do técnico, à presidenta, passando pelos cartolas CBF, todos exigiam da moçada, a taça. Alegria para o povo brasileiro? Sem dúvida, e cada um querendo o seu filão de troco.

A escalação reunia 23 feras, presumo eu, talentos espalhados pelo mundo, jogando em diversos esquadrões, reunidos um mês antes do torneio, para se tornarem um time. Tarefa difícil. A esperança, tal como em outros carnavais, recaía na ginga brasileira e nos talentos individuais, outrora Zico e Ronaldo, em 2014, Neymar.

Neymar, este jovem excepcional de 22 anos, cara de moleque maroto, era a maior esperança do time. Numa jogada em campo, sofre uma lesão; justamente ele, que levava o time nas costas, fraturou uma costela. Seria coincidência? Seus colegas prometeram jogar na semifinal pelo ausente, na dor o time cresce, imaginou-se; na sua falta, contudo, ficou a descoberto que não havia time preparado para tal desafio.

Uma disputa mundial reúne os grandes do esporte, acredita-se, que sabem não apenas seu ofício, mas também que ao entrar na arena, estão num jogo que, se não vale a própria vida, como em outros momentos da história universal, vale muito. No campo, trava-se uma luta e espera-se jogadores prontos para tal, para dar o sangue e porrada também -por isso há árbitros para  civilizar a disputa.

Ontem, causou espanto a inação de toda uma equipe, o próprio técnico reconheceu o apagão geral. Mas os sinais já apareciam no percurso.

Hoje, recordo certas cenas estranhas, começando pela saída do túnel, o momento que deveria ser a gloriosa entrada da seleção em campo, os  jogadores com a mão no ombro do colega, mais pareciam uma fila de crianças entrando na sala de aula. Depois, durante do hino, os jogadores de braços dados, numa posição de irmandade, agora distante de demonstrar  orgulho e respeito por um símbolo pátrio. Estavam abraçados ou se segurando? Nada apontava para a força do guerreiro.

A entrada na disputa contra a Colômbia

Foi muita pressão para um grupo que não chegou a se conformar como tal? Com certeza, pois deixaram até de fazer o que sabem: jogar. Viu-se o que são, jovens ainda imaturos, sem preparação para enfrentar a barra de uma Alemanha e do próprio Brasil. Eles têm muita vida e carreira pela frente, espero que compreendam o peso excessivo colocado em suas costas e dêem a volta por cima.

Se triste é o país que precisa de heróis, mais ainda perceber que a honra nacional ainda está concentrada no futebol. Se a seleção brasileira (ou o time do coração) ganha nossa autoestima vai às alturas e erguemos os jogadores à categoria dos heróis, se o time perde, nos sentimos miseráveis. Todas as fichas apostadas em um único jogo, catástrofe previsível.

O baque traz boas lições, ninguém gosta do sofrimento, contudo ele é vital para o crescimento, para aquele que se dispõe a olhar a sua dor e a dar um jeito nela. Ontem, a Alemanha venceu, mas em 2006, a seleção foi derrotada numa copa do mundo, disputada em casa. Para dar a volta por cima, os alemães decidiram investir pesado das bases aos treinadores. A fórmula para um bom resultado é conhecida, investimento e muito trabalho. O Brasil poderia seguir o exemplo alemão para se recuperar do apagão que domina do futebol ao setor energético, passando por hospitais e escolas públicas. Conquistando a glória de uma vida digna para todos os escalões, não precisaríamos buscar heróis de plantão.

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A pergunta do amor

O encontro do amor talvez seja o maior desejo de homens e mulheres, quem já o viveu sabe que ao encontrá-lo somos mais do que duas unidades que se fundem e se tornam uma terceira, surge algo muito maior. Agora, é preciso dizer, estar num relacionamento é aceitar um dos maiores desafios do universo. Tendo isto em mente, andei pensando no que seria necessário para fortalecer o amor e os relacionamentos.

Penso que cada membro de um casal deveria fazer uma pergunta aos seus botões de vez em quando, principalmente, em momentos chaves, quando se quer muuuuito casar, quando algo parece não andar como a gente quer, ou quando eu acho que as mulheres são de Marte e os homens de Vênus, ou talvez o contrário…

A pergunta do milhão: o que eu espero do outro?

Espero que ele cuide de mim? Que me proteja? Que me alivie das agruras do dia a dia? Para não dizer que pague minhas contas…

Desejo que ele/a me ame e que esse amor me complete?

Desejo que ele/a preencha meu vazio existencial? Minha fome de vida?

Desejo que ele/a faça eu me sentir nas nuvens?

Se ele/a não me amar não sou nada? Penso que ele/a me amando, tenho motivos para me amar? Ou seja, desejo que seu amor melhore minha autoestima?

Se estas forem as respostas, cada um precisaria fazer uma nova pergunta – esta agora vale mais do que bilhões, vale o sentido da própria existência-, porque eu não consigo encontrar isso em mim? Por que não consigo cuidar de mim, por que não consigo lidar com os desafios do dia a dia, por que não consigo encontrar o meu próprio projeto de vida, por que não me sinto bem comigo mesmo e fico esperando encontrar isso no parceiro…

A gente fica cobrando, sentindo falta de uma coisa que não tem, mas será que é dever do outro provê-la?

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Uma história de um goleiro perna de pau

Nestes dias em que tudo gira em torno ao futebol, lembrei-me uma história familiar. A família de papai pertence a Corinto, um  pequeno vilarejo encravado nas montanhas, em uma tradicional região vinícola, Talca. Embora pequeno, Corinto possuía um time de futebol, estamos falando da década de 1940. Aos domingos, principalmente no verão, o time saía em excursão para jogar em outros povoados, meu avó e toda a garotada caminhavam alguns quilômetros rumo a Pencahue, La Aguada ou outro vilarejo da região.

O campinho permanece onde sempre, logo na entrada, depois da Virgem e do cemitério, no vale que se destaca em meio a aridez da região,   um dia ao chegar,  meu pai tirando as lembranças do fundo do baú falou:

-Aqui jogava seu pai quando menino.

Eu que jamais soubera  dessa faceta deste engenheiro, mais conhecido pelo seu gosto das matemáticas, fiquei surpresa:

-Pai, você hein, escondendo o ouro,  nunca contou nada! Ironizei.

– O bom de bola era meu irmão Miguel,  eu estava mais para perna de pau, só jogava,  porque teu avó era o treinador e ele gostava de sair com os dois filhos, então,  ele me colocou no gol.

Um dia, tio Miguel, o irmão mais velho,   contou-nos sua versão, papai completava o time, mas  era sempre uma incógnita, “havia que rogar-lhe que jogasse, pois ele estava sempre em meio a seus livros.”

Alfredo, certamente não ficou nos anais do futebol, mas saiu de Corinto. Papai lembrava que seu grande apoiador fora seu próprio pai que logo cedo o encaminhou a morar com parentes em outras cidades,  para estudar, pois não havia  nenhum recurso financeiro para custeá-lo.

Passou no vestibular em Santiago, na Universidad técnica, hoje Universidad de Santiago, um centro de estudos público, no primeiro ano, ele estudou depois conquistando bolsas, sei que teve de moradia e alimentação.

Ele dizia que muito cedo se fixou uma meta, obter um diploma, com isso em mente, pouco ligou para bailes ou futebol. Gosto dessa história, me lembra que as vitórias são produto de um grande esforço e muita determinação.

 

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Eros, Afrodite e a flecha do amor

Escultura de Afrodite, no Museu de Atenas, Grécia

No Brasil, o dia 12 de junho tornou-se uma data para celebrar o amor, o atributo da grande deusa Afrodite e de seu filho, Eros.

Entre os gregos, a deusa da beleza era reconhecida por diferentes expressões, como Afrodite Anadiómena, a que sai do mar, Pandemia, a inspiradora dos amores comuns, a Urânia ou Celeste, a inspiradora de um amor etéreo, supremo, para alguns, superior.

Menino travesso, Eros, por sua vez, executa as vontades de sua mãe, com seu  arco e flecha atinge o coração dos deuses e dos homens, transformando-lhes o juízo. Às vezes, está de olhos vendados, porque, não raro, o amor é cego. Em uma variante, Eros nasceu do caos, a pulsão primordial, força motora do universo. A imagem de Eros como uma criança simboliza a eterna juventude de um amor profundo, mas também remete  a uma certa irresponsabilidade, quem já não cometeu alguma insensatez em nome do amor? Matar aula ou o trabalho,  transar sem camisinha, tatuar o nome dela/e, pular de paraquedas ou mesmo uma janela? Não raro, depois vem o arrependimento.

Com suas flechas, Eros contata, reúne e integra, procura superar antagonismos do masculino e feminino,  do sol e da lua, yin e yang, assimilando forças diferentes e contrárias em uma só unidade. Quando  dois seres  se encontram um ao outro e se reconhecem,  atualiza-se a centelha da libido original,  uma porção do universo se reintegra e o poder da deusa se faz presente. A magia do amor estabelece uma troca, onde duas partes se dão para, sem saberem como, conformar uma totalidade.

Afrodite e Eros, no Museu do Louvre, Paris. O corpo da estátua pertence ao século I d.C. a cabeça foi reconstruída no século XVII

Talvez, seja o nosso maior desejo e, quem sabe, o nosso maior desafio. Por toda a parte, homens e mulheres querem ser flechados e provar o doce do mel mundano e divino  do amor. Certo, mas será que estamos dispostos a pagar o preço da dádiva celeste?

Entregar o coração assusta o amante acostumado a caminhar sozinho com seus botões, em meio  às suas baladas e rotinas, temeroso de perder o juízo e ceder autonomia para viver a união. A vertigem de experimentar o que não posso controlar faz muito matuto fugir antes de sentir e muita gente muito esperta só entrar em roubada, não é à toa que, como dizia o poeta, há tanto desencontro pela vida…

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Uma conversa sobre comportamentos, a relação estímulo-resposta

Neste semestre comecei a estudar o behaviorismo, uma corrente que parte da biologia para entender os comportamentos, não vou entrar em detalhes, apenas compartilhar algumas reflexões sobre a conhecida díade estímulo-resposta.

Observando os comportamentos, Pavlov, um fisiologista, descobriu o mecanismo de estímulo-resposta, percebendo que há respostas independentes de nossa vontade, nomeou-as comportamentos respondentes incondicionados ou reflexos, como o piscar os olhos, quando um objeto se aproxima do olho. Ficar com água na boca ao ver uma comida gostosa também é um comportamento nesta linha.

Nos reflexos incondicionados, a resposta origina-se imediatamente após estímulo, englobando toda atividade reflexa autônoma, que envolve glândulas, músculo cardíaco, entre outros. Dado que são respostas inatas, não dependendo de aprendizagem, esses comportamentos pertencem à natureza das espécies, desenvolvidos filogeneticamente durante sua evolução, garantindo sua sobrevivência. Agora Pavlov treinou um cão a salivar ao ouvir o som de um sino, pois ele toda vez tocava o sino, também lhe fornecia comida, assim percebeu que as respostas poderiam ser condicionadas.

John Watson ampliou os estudos nesta linha, percebendo que se os organismos podiam aprender novos comportamentos respondentes, ou seja novos condicionamentos, também poderiam aprender a sentir novas emoções, ou seja, estabelecer novas respostas emocionais. Todos sabem como é difícil manejar as emoções, porque são respostas reflexas. De nada adianta explicar para uma pessoa que o seu medo de barata é inadequado ou desproporcional,  pois cada um de nós responde de forma emocional a certos estímulos. Uma dor de barriga ao andar de avião ou na hora de fazer uma grande prova são reflexos condicionados.

Watson conduziu um célebre estudo com um bebê, que se tornou conhecido como o caso do o pequeno Albert e o rato, a pesquisa, hoje, esbarraria em problemas éticos, pois o bebê no final tinha medo até da barba do Papai Noel.

Esta linha da psicologia é polêmica, mas achei interessante fazer este compartilhamento, pois carregamos em nossa vida uma série de medos e tantas angústias que começaram na nossa infância, devido a emparelhamentos ocorridos naquele momento em que éramos frágeis e não tínhamos muitos recursos para lidar com o meio. Pesquisas nesta linha permitem entender que as pessoas podem construir novas respostas reflexas para estímulos que causam sofrimento.

Além disso, a idéia de que cada estímulo provoca uma resposta entrou em nosso imaginário, no entanto, boa parte das pessoas ainda não percebeu quais são os estímulos que elas provocam e se admiram com as respostas que recebem, por isso fica a reflexão.

PS. Ao longo do semestre compartilhei muitas ideias sobre comportamentos e otras cositas más com a minha turma na Psi e vários me ajudaram em diversos momentos, por isso fica o agradecimento a Denise Reis, Victor Lobo, Laura Savignano, Monica Rosa, Vanessa Arrais, para citar alguns. Valeu!

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O velado mundo do humor sarcástico

Em tempos bicudos, o humor parece uma coisa saudável, rir é bom, existe até terapia do riso. Programas de humor estão em alta, entre eles, o stand up, no qual um comediante desfila um batalhão de piadas, em que o riso chega fácil ao se ironizar mulheres, negros, gays, deficientes, entre outras vítimas da vez.

Assumidamente longe dos padrões do politicamente correto, pois “isso é muito careta”, dizem. Os defensores deste riso colocam que o humor teria permissão para subverter os padrões de convivência -estabelecidos socialmente para respeitar os membros de uma sociedade- e, no palco, o humorista e a platéia poderiam soltar sem dolo, nem culpa as rédeas da incorreção, passeando pela intolerância e navegando pelo desrespeito.

Ironias e sarcasmos não se limitam aos palcos, elas perpassam muitas situações cotidianas, quem já não foi convidado a alguma reunião, na qual o dono de casa pode ironizar e sacanear tudo e todos, mas fica ofendidíssimo quando é com ele, ou com algo que lhe é caro? Alguns chefes, às vezes, são assim, mas quem vai contrariar um chefe? Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Outro caso bem corriqueiro é o professor que ironiza alguns alunos em sala de aula, seja porque são estrangeiros, pobres, mulheres, negros ou simplesmente porque não foi com a cara deles. Com crianças é o caso mais perverso, porque ela nem tem ferramentas para se defender, mas também ocorre com alunos adultos que ficam quietos por medo das represálias.

Dá-se risada ou ironiza-se para desqualificar um outro, pois o sujeito não ri de si mesmo. Espeta-se alguém que, no momento, não pode se defender, pois não há uma relação horizontal, mas de hierarquia. E se o outro reclama, é ele que não entendeu a brincadeira, pois é muito sensível ou porque é sério demais…

Ninguém defende a sisudez, o riso pode ser muito saudável e a ironia necessária em muitos contextos, a literatura está farta de exemplos, mas esse riso que esconde o espezinhar o outro, parece-me abominável, pela agressão velada que contém.

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A grande mãe

A genética, há algumas décadas, desvendou a parte biológica da concepção, mostrando o longo e cheio de obstáculos percurso que o espermatozóide realiza à procura de um óvulo para fecundar, sendo que boa parte das vezes eles saem da toca e nada há do outro lado esperando.

Certo dia, algo acontece e os dois gametas se encontram, dando início ao mistério de uma única célula se dividindo para formar um novo serzinho. Procedimento complexo, na divisão formam-se tecidos com funções tão diferentes como a massa cerebral e o estômago. A natureza desenvolveu este método para sua criação.

A mulher empresta seu ventre para esta divina criação, em seu vaso-útero durante nove meses esta grande alquimia da vida vai se construindo. Nove meses de gestação, nove meses em que o bebê tem alimento, calor, proteção, um espaço só dele, bem a maioria, pois alguns chegam ao pares ou em trios. Até que esse espaço fica apertado, não comportando mais a expansão desta criatura, tal como a lagarta precisa se livrar do casulo para virar borboleta, o bebê precisa sair e, quando ocorre de forma natural, ele o faz apenas com a ajuda da mãe, o médico ou a parteira ficam só na supervisão.

Mãe e filha. Tribo Araweté (conhecida também como Bide) – Pará

Para o bebê trata-se de um exercício instintivo de luta pela sobrevivência, mas também de confiança. Nascer é uma entrada num universo desconhecido, sublime, nos liga ao divino que fornece a centelha da vida.

Na nossa espécie, os bebês não nascem prontos, muito pelo contrário,  chegam precisando simplesmente tudo, sem sequer identificar o que precisam, na total dependência de sua mãe que deve descobrir se ele tem fome, sede, frio ou doenças e proteger de todas as formas este serzinho tão vulnerável.

E isso é só o começo da história, pois o rebento precisa receber muitos ensinamentos, desde fazer xixi no piniquinho até matemática,  passando pela linguagem e pela distinção do certo do errado. Em suma, todos os elementos da cultura, suas ferramentas para a vida e para seu aperfeiçoamento moral. A mãe tem um trabalho diário de formiguinha, o pai também, é preciso dizer. Só no amor para dar conta do recado…

A maternidade inaugura uma relação para toda vida, o filho vai lhe fazer rir e chorar, pode rodar o mundo ou rodar no mundo, ele será sempre seu filho. E a sabedoria da grande mãe é continente, como a terra que espera o tempo da árvore para dar flores e frutos e sempre a tudo acolhe.

Parabéns a todas as mães do mundo e principalmente à minha, dona Patrícia, a minha mãe.

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A meu pai

Neste domingo de Páscoa, meu pai, Don Alfredo, partiu rumo ás estrelas. Sei que há familiares e amigos queridos que nao puderam estar conosco, por isso compartilho a seguir as palavras lidas em sua homenagem.

Tíos, tías, primos, primas, amigos, amigas,

Antes que nada quisiéramos agradecer a todos los que nos están acompañando, de manera presente o a la distancia, ya que los que no pudieron estar, SI están en nuestros corazones.

Agradecer todo el apoyo brindado, tanto por la familia, los amigos y por los jefes, colegas y amigos laborales, míos y de mi hermana Claudia.

Ahora comenzaré con una pequeña despedida a papá.

Pai: En este día en que estamos todos aquí reunidos para recordarte, tenemos tantos sentimientos encontrados!!!  Te recordamos como un padre y marido siempre atento y preocupado, amigo de sus amigos, hermano incondicional.  Una persona cariñosa, de mirada dulce, y con un humor particular.

Nació en Corinto, un valle a la costa de Talca, hijo de don Miguel y de la Sra. Julia. Le gustaba volver a su tierra, en el camino iba recordando tiempos de su niñez junto a sus hermanos y que por las noches el miraba las estrellas, el volcán descabezado…. A  él le encantaban las estrellas…

De aquellos años  le debe haber quedado el gusto por el vino, la fruta y por la naturaleza. Partió de Talca sin muchos recursos, pero con mucha determinación,  a estudiar en Santiago junto a tres amigos. Eran los cuatro huasos talquinos… En la Universidad sacó su título y tal vez, lo más importante, conoció el amor de su vida, una joven buenamoza chillaneja, Patricia, la que vendría a ser su esposa y madre de sus hijas.

Luego de 17 años en Brasil donde se hizo fan de caipirinhas y de las playas templadas del Atlántico, regresó a Chile y a Chillán, ciudad que le gustaba mucho.

Estamos tristes con su partida, pero creemos que mayor es la alegría que sentimos por haber compartido tantos momentos a su lado, como marido, hermano, y  padre que nos decía “minha filinha” o “las niñitas”. Además de ser suegro, primo, vovo, padrino, compadre y siempre amigo.

Papa nació un 8 de diciembre, sentimos que llegó con la Virgen y ahora partió con los ángeles, en un domingo de Pascua.

En este momento agradecemos a Dios y a la divina Providencia por haberlo tenido con nosotros…   Agradecemos su fuerza, su integridad, su amistad y sobre todo su amor.

 Agradecemos todo lo que aprendimos de él y pedimos por su espíritu para que esté en un buen  lugar,  junto a las estrellas, sus ángeles guardianes, la Virgen y a todos los seres divinos.

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Uma história de domingo de Ramos

Entrada triunfal em Jerusalém, de Giotto, em Pádua, Itália

Hoje, domingo de Ramos fui à missa, seguindo uma tradição familiar que me relembra a infância. Quando criança, minha mãe nos tirava cedinho da cama -a meu pai, à minha irmã e  a mim-, para ir à missa de domingo de Ramos. Todos sempre reclamávamos, porque queríamos continuar dormindo, mas sempre fomos, pois se tratava de um dos principais eventos familiares. Pegávamos os ramos de palma, fazíamos a procissão, rezávamos, cantávamos, enfim.

Esta missa marca o início da Semana Santa, relembrava a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Uma entrada triunfal do filho de Deus, montado em um burrico.

Dona Patrícia, minha mãe, como filha única, passou uma infância muito solitária e não queria que sua filha, no caso, esta que escreve, crescesse sem irmãos. Logo após o meu nascimento, ela engravidou,  mas perdeu o bebê,  ficou meses muito mal no hospital e os médicos vaticinaram que ela nunca poderia ter outros filhos.

Alguns anos se passam, quando ela, uma mulher católica à sua maneira, vai à missa num domingo de Ramos, muito triste, pede a graça de conceber outra criança, ela promete que durante todos os anos de sua vida, nunca deixará de assistir a uma missa de Ramos, junto com a sua família. Dona Patrícia sempre fazia promessas familiares.

No final de janeiro do ano seguinte, nascia Claudia, minha irmã, eterna amiga e companheira,  com quem temos compartilhado tantos momentos e experiências. Com quem aprendi tanta coisa, desde a importância das parcerias à lealdade incondicional.

Sempre gostei muito dessa história, por isso vou às missas de Ramos, pego folhinhas de oliveira, quando posso como neste domingo, vou à procissão e com muita alegria eu canto:

Entrada triunfal em Jerusalém, 1320, Lorenzetti, em Assis, na Itália

Hosana hei hosana ha
Hosana hei hosana hei, hosana ha 

Ele é o santo é o filho de Maria
Ele é o Deus de Israel
Ele é o filho de Davi
Santo é o Seu nome é o senhor Deus do universo 
Gloria Deus de Israel 
Nosso rei e salvador

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A medicina do sonhar

Neste papo delicioso sobre os sonhos Rô, uma querida e sintonizada amiga que trabalha em algumas rodas de cura, adicionou alguns elementos. Diz ela:

Também sou uma sonhadora e me instiga muito perceber que de tempos em tempos , conforme as mudanças ou as necessidades do nosso grupo espiritual,vem uma onda de sonhos refletindo este nosso inconsciente coletivo e que, por vezes, aprofundamento das instruções para estudos individuais ou para o grupo ou mesmo irradiam em aberturas de novos ciclos. Digo isso para lembrar no âmbito do grupo, pra não dizer do pessoal. Sinto mágico, misterioso e de muito poder, esta “medicina do sonhar””.

Asclépio, o curador

Essas palavras me lembraram da importância do sonho para muitas tradições. Entre os gregos havia um grande cidade de cura, Epidauro, lá praticava-se a nooterapia, a cura pela mente. “Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado. E pureza significa ter pensamentos sadios.” Assim se lia logo na entrada.

Durante a estadia, os sacerdotes prestavam especial atenção aos sonhos do paciente, principalmente quando eles dormiam no templo de Asclépio, o patrono de Epidauro, os sonhos dessas noites trariam indicações do Astral das partes enfermas e  também dos instrumentos de cura. Asclépio era Filho de  Apolo, o deus sol, irmão gêmeo de Ártemis, a deusa lunar, um grande curador na vida adulta. Epidauro era um luminoso centro espiritual e cultural, com espaço para as artes e práticas físicas, funcionou durante vários séculos, Hipócrates, o pai da medicina, estudou nele.

Os Mapuche são os povos originários do sul do Chile

Para não ficar no passado, lembrei que entre os mapuche, populações nativas do Chile, ainda hoje, o sonho está incorporado à sua vida cotidiana. Eles acreditam que o sonho se trata de uma viagem que a alma faz quando a consciência se retira e a pessoa dorme. Nesta viagem, ela toma contato com outras dimensões e visita os mundos de cima, de baixo, da “esquerda”, da “direita”. Visualizam suas questões e suas formas de cura. Sei que quando eles precisam tomar decisões utilizam o método de interpretar os sonhos dos membros da comunidade.

E  tenho percebido ouvindo os sonhos de toda família que os nossos sonhos se conversam. Não é fascinante? Nesta viagem da alma, ela passearia por diversos planos, tomando contatos com as questões não vistas durante a vigília e haveria um nível pessoal, do casal, familiar, da coletividade…

Bem, pelo menos, essas foram as minhas divagações…

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Conversas com amigos sonhadores

Salvador Dali, O sono, 1937

Entre os amigos sonhadores, que são muitos, o post suscitou preciosas reflexões, o Carone comentou que “O fato de que no sonho todos os personagens se referem a nós mesmos é algo difícil de se reconhecer – cada um uma sub-personalidade querendo emergir de nossas sombras para a luz. É mais fácil projetá-los nos outros e raciocinar em termos de premonição ou coisa que o valha”.

Você tem razão, mas fico pensando que como certas verdades são difíceis, as pessoas não as enxergam nelas, pois a maior parte dos humanos constrói uma imagem bacana de si mesmo e buscamos esquecer os conflitos que aparecem, mas é um tema sensível, por isso aparece no incômodo que o comportamento no outro provoca em nós.

Gala, a esposa de Dali, aparece em boa parte de sua obra, como neste quadro “Galatea das esferas”

Agora esse conteúdo que emerge de nossas sombras –e para Jung sombras  significam o que  não é consciente- tem um grande potencial, pois é o que pede, às vezes a gritos, uma transformação, seja ela uma mudança de comportamento, parceiros, quando não de área, entre outros. Em suma, ver nossas sombras nos permitiria não tropeçar eternamente na mesma pedra e ficar reclamando.

A Dani Smania escreveu:

“Sabe que já tive pelo menos três sonhos que aconteceram… A realidade não foi uma cópia perfeita dos sonhos, mas alguns itens de seu conteúdo foram muito idênticos. Uma vez vi um objeto em um sonho. Passaram umas duas semanas e lá estava ele… praticamente igualzinho. (…) Sei lá… Para mim sonhos são um grande mistério. Não consigo ter uma certeza absoluta quanto à compreensão de todas as suas funções no aparelho humano.”

Querida, é verdade, os sonhos, tal como a vida, são um grande mistério…

Quem quiser ler um post antigo pode visitar o “Sonhos as conversas com o nosso inconsciente”

https://ocladaslobas.wordpress.com/2012/10/23/sonhos-as-conversas-com-o-nosso-inconsciente/

 

Dali, Crianças Geopolíticas Assistindo ao Nascimento do Novo Homem, 1943

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As mensagens de nossos sonhos

Enquanto dormimos produz-se  algo enigmático: sonhamos. Estas imagens oníricas podem trazer cenas gostosas, como voar junto aos pássaros, nadar num rio de águas límpidas, dançar uma quadrilha no meio da floresta com o seu amor, mas em boa medida são bastante estranhas.

Os personagens da trama, às vezes, são nossos pais, filhos, amigos, chefes, crianças desconhecidas, quando não, conhecidos de outros tempos. Nas cenas mais frequentes, estamos escalando montanhas, na garupa de um cavalo, dirigindo carros, descendo rios em barcos, somos passageiros em ônibus, estamos na escola ou  no meio de uma multidão. Alguns parecem inusitados como entrar num metrô que nos leva por casas dos tempos de Shakespeare ou numa caverna  e damos de cara com um sacerdote.

Há aqueles que trazem situações  incômodas ou mesmo difíceis, como caminhar por um deserto ou cair em um abismo. E, muitas vezes, a trama acontece com o outro, algumas  com a esposa ou o marido. É ela/e que cai dentro d’água e precisa ser resgatado/a ou leva uma bronca do seu chefe.

Num dia destes, um amigo sonhou com um retrato de nossa família, no entanto, na foto havia um buraco e faltava  meu primo, ele correu aflito a perguntar se estava tudo bem com o jovem, e, claro, causou  desconforto e preocupação… A pessoa não percebeu que o sonho lhe pertence, não é do outro, sendo assim trata-se uma conversa dela com ela mesma. A mensagem que chega do inconsciente foi codificada com símbolos e de uma forma que a pessoa pode entendê-la, com certa delicadeza, por isso não a assustou mostrando a cena em terceiros.

O Violista verde de Chagall

O sonho é nosso, trata-se de uma mensagem do nosso inconsciente. Os diversos personagens do teatro do sonho também somos nós, as nossas múltiplas facetas em conversa, quando não conflito, pois somos seres ambíguos, uma parte quer, mas a outra tem medo, tal como resume muito bem a frase “caso ou compro uma bicicleta?”, mas disto a gente dificilmente toma consciência.

Há sonhos desagradáveis que se repetem, na minha interpretação, o nosso inconsciente está nos falando:

-É hora de você perceber esta situação e fazer alguma coisa a respeito!

E a gente desconversa,”foi só um pesadelo”,  busca esquecer rapidinho as imagens, mas ele, o inconsciente, não perde a esperança, insiste, enviando novamente a mesma situação.

Dizem que sonhar faz muito bem, pois trata-se de nossa psique em atividade, trazendo conteúdos para nossa consciência. O sonho nunca é literal, por isso fulano não vai casar, nem sicrano vai morrer, nossos piores tormentos oníricos. Agora, sem dúvida, os sonhos trazem símbolos daquilo que somos e nem imaginamos.

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Mistérios do grande Feminino

Vênus de Milo

O dia das mulheres, 8 de março, parece um momento perfeito para lembrar um grande atributo do Feminino, a sua capacidade criativa. Todos sabemos que a mulher nas situações mais apremiantes busca caminhos, formas ou saídas, para alimentar sua família, para arranjar trabalho, para se virar em todas as suas tarefas no seu dia a dia, para conseguir uma vaga na escola para o seu filho, enfim. Embora, hoje associemos a criatividade à mente, na origem, a história é outra.

Vaso micênico

Diz-se que o Grande Feminino como um todo é o símbolo da vida criativa, que as partes de seu corpo não são apenas órgãos físicos, mas centros simbólicos de esferas inteiras de vida. As curvas de seu ventre, seus seios, seus quadris participam do mistério da geração, da concepção e da nutrição. Casa e alimento.

Para algumas culturas antigas como a cretense, desnudar os seios era uma prática sagrada, expor os seios tal como a deusa e as suas sacerdotisas faziam em rituais, simbolizava a ligação com a corrente vital nutridora.

Ártemis do Templo de Éfesos

Por outro lado, a mulher com suas curvas também se torna ventre-vaso que a tudo dá origem. Vaso—útero, o centro gerador daquele grande mistério, a vida, lugar de calor e proteção apropriado para dar origem ao novo. Recipiente onde a semente germina. A própria forma do vaso apresenta um visível aspecto simbólico, mas deve-se lembrar o significado simbólico do material com que se faz o vaso, o barro, um elemento que pertence à terra.  Assim confeccionar vasilhas, na origem, é tanto uma parte da atividade criativa do Feminino, quanto fazer uma  criança, o ser humano que – assim como o vaso – em tantos mitos aparece moldado a partir da terra.

 

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A chama dos Olímpicos

Sochi, na Rússia, neste começo de 2014, sedia os Jogos da XXII Olimpíada de Inverno, recebendo atletas de 87 países de todos os continentes. A abertura oficial do evento teve como ponto culminante a chegada da tocha proveniente da cidade grega de Olímpia, após viajar por mares, pelo espaço e até de camelo para acender a pira do conjunto olímpico. Muito da simbologia presente na abertura remonta à antiguidade: o fogo, a chama dos deuses, o desfile, o juramento dos competidores, os louros, entre outros.

No santuário, destacava-se o templo do senhor do Olimpo, em cujo centro havia uma escultura de Zeus que foi escolhida como uma das sete maravilhas do mundo antigo.

Os mais antigos registros dos jogos da cidade de Olympia remontam ao ano 776 a.C., sabe-se que estavam consagrados a Zeus, o patrono do talvez mais célebre santuário do mundo antigo, localizado na cidade.

Os jogos duravam sete dias e se iniciavam com oferendas ao pai dos deuses e dos homens. As guerras, muito frequentes entre os povos das ilhas do mar Egeu, deveriam cessar para que os jogadores e suas famílias pudessem viajar em segurança, estabelecia-se uma paz olímpica três meses antes dos jogos. Depois a própria região tornou-se sagrada.

Dos jogos, participavam apenas homens que residissem na Hélade ou nos territórios. As disputas nesta celebração em honra a Zeus, o grande fecundador e principalmente aquele que subjugou o caos e estabeleceu uma ordem no céu, na terra e no submundo, eram regradas e os homens exibiam a sua destreza, força e potência. Os ganhadores não recebiam dinheiro, mas as honras dos heróis, o prêmio mais desejado na antiguidade.

A pira em Olímpia

Estes jogos contribuíram para a criação de um sentimento de fazer parte de uma unidade para um conjunto de povos vizinhos unidos e separados pelo mar Egeu, do Bósforo, onde hoje está Istambul (capital da Turquia) à Creta, passando por Ítaca,  Esparta, Creta, Delos.

Acredito que sua instituição no mundo contemporâneo promove os mesmos ideais que conduziam os antigos, torna-se uma honra fazer parte do grupo dos olímpicos e, mais ainda, sagrar-se vencedor no torneio. E, certamente, ao ver no mesmo estádio delegações de todos os cantos do mundo, sentadas lado a lado, revive-se o sentimento de unidade: por diferentes que sejam as nossas feições, cor de pele, cabelos e olhos, fazemos parte da mesma humanidade e de um único mundo.

grecia delos

Ilha de Delos, onde nascem Ártemis e Apolo, filhos de Zeus

Os jogos de Olympia chegaram ao fim em 394 d.C., quando o imperador romano Teodósio I suprimiu todas as celebrações pagãs numa manifestação despotismo e intolerância. Os jogos foram retomados apenas em 1896 na Grécia. Sua história recente com interrupções durante as guerras mundiais e um atentado na própria vila olímpica, em Munique, em 1972, nos mostra que a paz é sempre frágil e devemos estar sempre atentos aos ataques da intolerância. Cabe a nós zelar pela continuidade desta chama.

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O mar de Yemanjá

Odoya!

Yemanjá, caprichosa senhora desde a aurora dos tempos, encanta.

Mari Ama, Tétis, Anfitrite e  Afrodite, há milênios seus filhos navegantes adornam suas águas, pedem-lhe amor e proteção e reverentemente as saúdam.

Jandira, Janaina, mãe menina, deusa de muitos nomes e facetas, altiva, indecifrável e imprevisível.

Incansável professora, ensina a navegar pelo oceano  do desconhecido, a enfrentar turbulentas  marés, a atravessar tsunamis, a superar calmarias e a apaziguar emoções.

Temida e adorada, sempre mãe e acolhedora.

 

O mar de Yemanjá

 Eterna imensidão, farta criação, origem de mil mundos.

Beleza e movimento.

Ritmo eterno, sublime dança.

Suave espuma, brinca.

Imprevisível, turbulento e intempestivo.

Onda.

Vai e vem, renova.

Imensidão regeneradora. Indecifrável magia.

Leva dores, lava mágoas, cura.

Sempre balanço. Acalma. grecia mar azul

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Na Índia, amar o homem “errado” se paga com o estupro

A Índia, novamente, chega às manchetes de mundo. Uma jovem de 20 anos sofreu um estupro coletivo sob as ordens do conselho de anciãos na vila, de Subalpur, na parte leste do país, porque ela se apaixonou um homem de outra vila.

Os  dois foram condenados a pagar uma soma em dinheiro (algo como 400 dólares), o rapaz prometeu fazer o pagamento em uma semana, no entanto, a família da jovem se declarou sem condições de reunir a soma, daí o conselho decidiu pelo estupro coletivo e cerca de 13 homens se revezaram na barbárie incluindo os “sábios” anciões.

As modernas leis indianas proíbem os estupros coletivos, são os conselhos tribais de vilas e cidades pequenas que persistem nestas práticas, afrontando o Estado sancionam de acordo com a vontade do líder. Fico pensando o que há por trás desta perversa punição, parece revelador da perversidade (até sadismo) do grupo que este conselho queira dinheiro ou então gozo, estipula-se uma quantia que ela não pode pagar assim ganha-se a legitimidade para obter prazer sobre um corpo indefeso de uma mulher.

Com uma mitologia repleta de deusas, foi criada uma campanha para sensibilizacão para com a violência contra a mulher. Esta é uma recriação da deusa Saraswati

Quantos conselhos como esse, ainda haverá pelo mundo que reproduzem a vontade de poder de líderes insanos cuja palavra é autorizada pela tradição?

Em muitos lugares, há choque entre o que determinam as leis do país e práticas tribais que julgam de acordo com os, imagina-se, costumes. Décima economia mundial, a Índia mostra-se um país de contradições,  uma parte se quer moderno, fabricou a bomba atômica, coexiste com outra arcaica, uma sociedade de castas, onde a mulher “vale” muito menos do que o homem. Conhecido por sua milenar religiosidade, tornou-se roteiro daqueles que buscam uma iluminação, ainda aceita as desigualdades como produto do karma e se mostra um lugar da intolerância às novas ideias e a manifestações individuais.

durga ferida

Durga ferida

Estima-se que na Índia, uma mulher é estuprada a cada vinte minutos, sendo que apenas 1 a cada 50 vítimas denuncia o estupro para a polícia, e muitas vezes, a própria polícia responsabiliza a mulher pela violência sofrida. Hoje, muitas meninas e mulheres resistem, e  como vingança são assassinadas ou desfiguradas por queimaduras ou ácidos.

No século XX, em boa parte do globo, as relações entre homens  e mulheres se tornaram muito mais equilibradas, contudo uma parcela da população mundial resiste aos novos padrões de sociabilidade à mudança e sobretudo à  perda de poder.

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Conversas sobre a medicina, o corpo e a saúde

Nestes dias de férias no Chile, aproveitei para colocar em dia a visita aos médicos da minha mãe que chegando à casa dos 70 anos precisa passar pelos controles. Lembrei-me que já havia peregrinado por muitos consultórios ao seu lado quando ela ainda morava no Brasil nos anos 1980.

Dona Patrícia, minha mãe, é daquelas pessoas que sempre tinha alguma dor, no mínimo, um resfriado, ou então, precisava tratar alguma coisa que não gostava. E ela não gostava mesmo é de suas gordurinhas, mas sempre adorou bife com batatas fritas, era viciada num docinho, passando longe das verduras. Sempre queria sair para comer “algo rico”. “Ese dulce me cierra un ojo...”, diz até hoje com um olhar de criança marota.

Começou a fazer ginástica algumas vezes, optava por planos semestrais, contudo quem terminava o plano era eu, certa vez, junto com uma amiga matriculou-se em dança espanhola, comprou as sapatilhas e as castanholas, que em poucas semanas já estavam largadas em algum canto.

Buscando emagrecer fez tudo quanto apareceu, purgações com líquidos e massagens, visitou muitos médicos que lhe indicaram muitos remédios, de ansiolíticos àqueles para a tireóide. Emagrecia um pouco, mas engordava muito mais, insatisfeita, cansada de tanto tratamento, procurou um método radical: a cirurgia plástica para redução do abdômen. Ficou magra, mas em dois anos a cintura havia voltado ao patamar anterior.

Depois, já morando no Chile, começou a apresentar problemas de pele, ela se auto-diagnosticou tendo algo como bicho geográfico, ou algo parecido, mas este só aparecia onde suas unhas alcançavam. Visitou diversos médicos, nenhum deles encontrou nada, sendo despachada rapidamente, a última dermatologista sugeriu que talvez fosse produto de ansiedade, mamãe não acreditou, “Imagina!”

Homem Vitruviano, desenho de Leonardo da Vinci

Hoje, vejo que a nossa medicina tradicional ao tratar o paciente aos pedacinhos peca ao não buscar uma compreensão do todo. Procura em exames algum indício de um desvio de padrão de saúde, daí encontra um sintoma e prescreve um tratamento. Para diabete, a insulina, para pressão alta, o remédio x, para enxaqueca, outra pílula. Cada profissional conhece a sua especialidade -cardiologia, neurologia, dermatologia, para citar algumas-, no entanto, do todo ninguém toma conta e as angústias do sujeito que aparecem no sintoma não são olhadas, nem recebem encaminhamento… Só quando o caldo entorna, ou seja, quando a vida fica permeada pelo sofrimento, vai se procurar algum doutor da psique e olhe lá, pois todos têm medo da loucura.

A fragmentação ainda é regra, mas creio que em alguns espaços esse entendimento do corpo começa a mudar.

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Para 2014, a sabedoria do Oráculo de Delfos

Eis que hoje é 31 de dezembro, por isso compartilho a lembrança de um dos mais poderosos símbolos de transformação. Diversas civilizações, dos maias aos gregos, entendiam o tempo como cíclico, um eterno movimento. Povos agrários, sabiam também que toda a natureza precisava ser trabalhada oportunamente, havia o tempo de preparar a terra, semear, regar, colher e podar, sem esquecer de ficar de olho nas pragas. Elas poderiam aparecer a qualquer instante e arruinar a colheita.

Associado ao culto da terra, estava o culto aos deuses, não podia faltar nenhum, pois a divindade esquecida cobraria o esquecimento.

Oráculo de Delfos

Para ficar com os gregos, inúmeros jogos e rituais celebravam ao longo do ano diferentes manifestações, o amor atributo de Afrodite, a  sabedoria de Atená, a correção de Apolo, havia, inclusive, o tempo de cultuar o lado dionisíaco da vida. Algumas jornadas duravam vários dias como os Mistérios Eleusinos, dedicados a Perséfone e Démeter, destinados a ritualizar as etapas da vida. Tal como se lavrava o campo, deveria se trabalhar o espírito. A palavra cultura vem do latim colere  que significa cultivar. Esta origem sugere que assim como se trabalha a natureza, nós também precisamos trabalhar (cultivar) a nossa natureza.

Deste período em que homens e mulheres estavam profundamente ligados à terra, nos chega um dos mais antigos símbolos de transformação: a serpente. Associada à força da mãe terra, ela simboliza a vida que renasce e se renova ininterruptamente. Elas aparecem como criadoras e destruidoras do universo, em diversas mitologias. Python, a serpente fêmea do oráculo de Delfos, provavelmente, seja a serpente mais famosa da antiguidade. Este oráculo, inicialmente, pertencia à deusa-mãe, Gaia, foi posteriormente conquistado por Apolo. Na Hélade, a serpente detinha atributos da sabedoria, da cura e o dom da adivinhação. Python dá origem ao nome das sacerdotisas do templo: pitonisas.

A única representação da sacerdotisa, ou pitonisa, de Delfos, da época em que o oráculo estava ativo, mostra a pitonisa sentada em um trípode. Em uma das mãos ela segura um ramo de louro (a árvore sagrada de Apolo); na outra ela segura uma taça contendo, provavelmente, água proveniente de uma fonte e que penetrava, borbulhando, na câmara. Esta cena mitológica mostra o rei Egeu de Atenas consultando a primeira pitonisa. A peça foi feita em torno de 440 a.C

Quando os antigos se encontravam com questões ou angústias existenciais partiam a Delfos para uma consulta, eram recebidos com a inscrição “Conhece-te a ti mesmo”, logo na entrada.

Muitas pessoas sonham com serpentes e ficam assustadas, eu mesma já fiquei, sem saber que se trata de um dos mais antigos símbolos de transformação.  O dom da mântica provém de uma sabedoria da terra que muito já viu. Todos os oráculos –tarô, búzios, runas, entre outros- dão pistas ao consulente, mas é o próprio que precisa reconhecer em si suas questões e fazer o que deve ser feito.

Em 2014, desejo a todos a companhia dos deuses para viver com saúde, sabedoria, alegrias e amor e das musas para atuar com inspiração e criatividade.

Verónica

Atena, ladeada pela serpente

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“Ano novo, vida nova!”

Lembro que quando era jovem, chegava o fim de ano e com a minha mãe adorávamos ler o horóscopo, ver o que  ano entrante nos traria. Nas páginas das revistas encontrávamos coisas do tipo: Há boas oportunidades trabalhos entre julho e setembro; Vênus entra no seu signo em junho, quando você terá grandes chances de encontrar o seu amor; neste ano, preste atenção na saúde… Estou simplificando, mas era uma época em que eu ainda acreditava que o destino nos encontraria ali na próxima esquina.

Fim de ano em Copacabana, Rio de Janeiro

Naqueles anos, na noite da virada, com os amigos fazíamos inúmeras simpatias:  rosas debaixo do colchão para conseguir um amor, comer lentilhas e uvas para a prosperidade, um bilhete dentro do sapato para atrair dinheiro, dar a volta no quarteirão com uma mala para viajar… Queríamos tudo, afinal de contas, o futuro nos esperava.

Hoje, percebo que as pessoas constroem muitas expectativas para a virada do ano. Ano novo, vida nova! Será? Ao dar adeus ao ano que termina, desejamos nos despedir o chefe chato, do emprego maçante, da dor de cotovelo pelo amor que se foi, das notas ruins do filho na escola… enfim, de tudo o que não foi legal. Algumas pessoas gostariam que, de fato, a virada desse uma virada em suas vidas e os tirasse da mesmice.

Parece que desejamos um passe de mágica, tal como nos contos, ir dormir e acordar com o beijo de um príncipe.  Em lugar das dívidas, acordar com a conta cheia, encontrar filhos educados e ordeiros que preparam o café da manhã, em lugar dos bagunceiros e desbocados de todo dia.

Eu acredito na virada, mas hoje sei que não é o calendário, nem os astros, nem poções mágicas vendidas no mercado por diferentes preços, é a gente quem faz. Penso que a gente escolhe a direção e assim constrói o próprio caminho, o que nos prepara para a sorte que encontraremos na esquina, pois não adianta cruzar com o amor da vida se eu não souber reconhecê-lo ou não estiver preparada(o) para amar, nem sonhar com a prosperidade se eu fico sentadinho esperando  ela chegar…

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Um presente de Natal

Botticelli, Natividade Mística, de 1502

O que significa o Natal para você? Papai Noel? Presentes? Um encontro familiar? Por estes dias, há uma agitação geral, o ano acabando e tudo fica em função dos eventos de fim de ano. Pensando em agradar, as pessoas capricham nos presentes, na decoração, no peru, mas o homenageado da data fica um pouco para escanteio.

Muito mistério cerca o nascimento de Jesus, algumas religiões não o colocam como o filho de Deus, mas como um profeta. O relevante para mim é que, há 2 mil anos, em uma época marcada pela guerra e pelo sofrimento, a sua mensagem  trouxe esperança, ao falar de um mundo novo para gente simples, como pastores e pescadores.

Conta-se que José rumava com Maria grávida a Belém, pois, naqueles dias, Roma estava realizando um censo de sua população e todas as pessoas do Império precisavam respondê-lo no lugar de nascimento. José era um filho da casa de Davi, o grande rei que governou Israel por volta do século 1000 a.C e uma antiga profecia vaticinava o nascimento de um novo rei.

Belém, situada a 10 quilômetros de Jerusalém, era um pequeno entreposto comercial. Ali Maria dará à luz e um grande clarão estelar anuncia o grande nascimento. A estrela será vista por três reis que saem a sua procura.

Israel estava sob o governo de Herodes, que reinava com o apoio de Roma, este, com medo de perder seu trono, manda matar todas as crianças com menos de dois anos. Para salvar o seu filho, José e Maria fogem para Egito.

Adoração dos Magos, de Gentile da Fabriano, 1423

Recuperei esta história, pois Jesus coloca novas pautas para a espiritualidade, ao apontar que a relação com o divino passa, necessariamente, pelas relações entre os homens. Em um mundo em que as ofensas se resolviam no dente por dente, Ele falava em oferecer a outra face. Com humildade encorajou homens e mulheres a transformar seu pensamento e suas ações, a transformação pelo caminho do arrependimento, do perdão, da compaixão e do amor.

Em 2 mil anos muitas tradições se juntaram, chegou a árvore, o papai Noel, os presentes, são todas bonitas, mas relembrar esta dimensão do Natal é um presente para cada um de nós, para o nosso espírito e para nossas vidas.

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“A vida é um sonho…”

É o título de uma obra do escritor espanhol Calderón de la Barca, mas ouvi a frase nestes dias, dita por Oscar Niemeyer num documentário. Ele já bem velhinho contava sobre as coisas que gostava de fazer. Reunir-se com os amigos era uma delas, “fingimos que ainda somos jovens”, dizia ele.

Apesar de vivermos um tempo razoável e de nos acharmos muito espertos, não sabemos o que é a vida. Será um presente ou uma provação? Um jogo ou uma charada? Uma escola ou um hospital? Afinal, de sábio e de louco todo mundo tem um pouco, se diz por aí … Talvez tudo isso e mais um pouco.

Trata-se se de uma ilusão ou é real? Afinal, somos de carne e osso… Mesmo queimando nossos neurônios (e eles existem), não podemos chegar à resposta. O certo é que todo dia, ao acordamos, abrirmos os olhos e ao encontramos o nosso entorno conhecido, nos percebemos vivos, depois do banho, quando a sonolência se esvai, a gente sai para trabalhar e nem pensa mais nisso.

Se a vida é uma ilusão é uma ilusão cheia de encanto, não é à toa que desde a época de Ulisses, muitos se perdem nos encantos das sereias.

Se a vida for um filme, ele mistura ação, drama e até comédia.

Talvez a vida seja uma dança ou quem sabe um voo como o das borboletas.

Quem sabe, seja uma descida de montanhas repletas de neve num snowboard.

Quem sabe, seja uma grande viagem de navio, talvez numa jangada, sujeita a calmarias, balanços e tempestades. E nós, como marinheiros, vamos chegando a diferentes portos, fazendo entregas, encontrando amores, entrando em tretas, saindo delas ou fugindo com o barco a zarpar.

Rafting no rio Trancura em Pucon, Chile

Certamente o sentido da vida nos escapa e hoje creio que mais importante não é o que a mente nos diz, pois apesar de seus bilhões de neurônios, esta não alcança aquilo que sua lógica -que não ultrapassa o 2 + 2- não entende ou não vê.

Não sei se a vida dura um segundo ou uma eternidade, não sei se o que chamamos de vida é o todo ou apenas um fragmento. Como não sabemos nada, tudo é possível, tal como num conto chinês.  Creio que mais importante não é o que achamos, mas o saldo do que fizemos e sentimos ao longo da jornada.

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Asclépio, o curador da antiguidade

Asclépio no Museu de Atenas

A busca da cura para os enfermos faz parte das preocupações humanas desde a aurora dos tempos. Se por um lado a doença nos coloca frente a frente com o imponderável, desde que se sabe, homens e mulheres não se entregaram ao destino, mas buscaram curas para as dores.

No mundo antigo, Epidauro consagrou-se às artes da cura. Nessa cidade, localizada num pequeno vale do Peloponeso, um renomado santuário dedicado à Asclépio funcionou durante vários séculos.

Filho do deus Apolo e da mortal Coronis, Asclépio teve seu nascimento marcado por uma tragédia. Coronis temendo ser abandonada pelo deus, preferiu o amor do mortal Iksis, ao ver Apolo furioso, sua irmã Ártemis vingou a traição. Coronis morre, mas estava grávida, Apolo chega a tempo de salvar o filho, tirando Asclépio da barriga da mãe.

O rebento foi conduzido ao monte Pélion, onde foi educado pelo centauro Quiron, um renomado curador e preceptor de heróis. Fixou morada em Epidauro, onde desenvolveu uma escola de medicina, conta-se que Asclépio fez tantos progressos na medicina que chegou a ressuscitar os mortos. A escola funcionou do século VI a.C. até fins do século V d.C., um dos alunos mais célebres foi Hipócrates. Os homens ficaram muito contentes com o aliado curador, no entanto, o Hades passou a temer que não lhe chegassem mais as almas ao seu reino e Zeus, que a ordem fosse transformada. O filho de Apolo foi fulminado com um raio, mas logo a seguir tornou-se divino.

Sabe-se que no santuário,  havia  um misterioso labirinto, acredita-se que no centro guardava serpentes. As serpentes são animal ctônios, para os antigos, detinham o poder da adivinhação e simbolizavam a vida que renasce e se renova. Numa reminiscência a esta simbologia, a serpente enrolada num bastão tornou-se o símbolo da medicina.

Em Epidauro a cura do corpo ocorria através da cura da mente. O paciente se instalava na cidade para o tratamento. “Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado”, lia-se numa inscrição logo na entrada. Um dos pontos altos deste era dormir no santuário. Acreditava-se que Asclépio visitava os pacientes durante o sono, tocando as partes enfermas. Os sonhos dessa noite eram interpretados pelos sacerdotes, considerava-se os sonhos como manifestações do divino, pois eles traziam as comunicações inviáveis no estado de vigília, através deles o sacerdote-curador entenderia a origem da dolência e prescreveria o tratamento.

Contudo, a visão de cura desta  cidade era muito mais ampla, as instalações detinham um odeón, para a música e a poesia; um estádio para competições,  um ginásio para exercícios físicos; um teatro; uma biblioteca e obras de arte ficavam espalhadas por toda a cidade. Percebe-se a preocupação com a manutenção da atividade do corpo, mas também que havia uma comunhão entre as práticas culturais e espirituais. Artistas e sacerdotes participavam no processo de cura, através da purificação da mente, da alma e por extensão do corpo.

Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado, dizia a inscrição e pureza significa ter pensamentos sadios. A arte desempenharia um papel central neste processo. Quem já curtiu um show delicioso, sabe como a música pode transformar um “estado de espírito”.

Hoje, 25 séculos depois, a medicina ocidental, muito embora ainda se dedique à observação do corpo, já estabelece uma relação entre mente e corpo, entre psique e soma, pois as enfermidades psicosomáticas estão razoavelmente conhecidas. No entanto falta avançar na integração destas partes e na visão do humano como um todo.

Asclépio, ou sua versão romana, Esculápio, ficaria feliz.

O teatro de Epidauro, construído no século IV a. C. comportava 14 mil pessoas

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Na roda da vida

O dia de finados traz à memória os seres queridos que  já não estão mais entre nós, nossos ancestrais e, por todo o globo, há rituais para reverenciá-los.

Embora diariamente sejamos movidos por uma força vital, pouco nos detemos a pensar na vida. A biologia tem teorias explicativas bastante plausíveis, mas sem dúvida, trata-se de um mistério, o surgimento desta chama que se transmite de geração a geração. Louvar os ancestrais nos permite reverenciar aqueles que nos legaram essa chama.

Louvar os ancestrais também traz à memória todos aqueles que pisaram sobre a terra, gente que fez das tripas coração para sobreviver em paragens inóspitas ou então saiu caminhando rumo ao desconhecido para encontrar uma terra melhor. Na aurora da humanidade, nossos ancestrais foram caçadores nômades, que fugiam de predadores, depois quando a humanidade se assentou, a partir do desenvolvimento da agricultura, surgiu um novo estilo de vida, e com ele,  o desafio da vida em coletividade, no qual a lei de Talião -olho por olho, dente por dente- constituiu um avanço civilizatório.

Em pleno século XXI, num momento em que nossos pensamentos estão voltados para o presente que nos envolve e para o futuro que se descortina, considero importante lembrar que nossos genes carregam a memória daqueles tempos. Nosso sangue carrega uma tremenda força de luta e resistência de quem comeu o pão que o diabo amassou e tirou leite de pedra, como se diz por aí.

As lutas dessas gentes nos permitem estar neste mundo hoje, pisar o mesmo chão, navegar pelas mesmas águas, olhar o mesmo céu, as mesmas estrelas, respirar o mesmo ar e ver as mesmas montanhas. E permite a muitos travar suas lutas diárias contra a opressão, a manipulação, o engano e contra todas diversas e sutis formas de violência, buscando conquistar uma vida digna para nós, para os outros habitantes deste mundo e até, quem sabe, para as futuras gerações.

Em meio ao turbilhão das urgências, este post demorou uma semana para ser concluído, comecei meditando no dia de finados, mas acredito que todo dia é bom para pensarmos na Roda da vida, na qual o importante é a chama e passar o bastão, porque como diz o hino, “na senda da vida nós todos somos Um só.”

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A ilusão do olhar

 A forma mais básica de experimentar e conhecer o mundo vem por meio dos sentidos e, de todos, a visão parece ser aquele que mais confiamos, como apontam muitas expressões: “ver para crer”, “olhos que não vêem, coração que não sente…” A visão nos dá uma sensação de domínio do espaço, de um controle da situação e nós confiamos nessa ferramenta como garantia de verdade de nossa experiência.

Embora a física nos conte que enxergamos apenas uma fração do real, uma porção do espectro de ondas da luz, mesmo assim nos fiamos na visão. E se o que a gente enxergar da realidade for uma parte muuuito pequena mesmo, qual será o grau de verdade da experiência, mas também da consciência que temos das coisas? Esta questão acompanha o ser humano.

bosforo turquia

Em Istambul, Turquia, o estreito de Bósforo

Nossa racionalidade desenvolveu os pensamentos lógico-dedutivos, base do desenvolvimento da ciência, que permitiu o conhecimento de inúmeras regras do funcionamento do mundo. Além disso, no ocidente somos herdeiros de uma era que pensou que a razão, esta luz natural, nos tornaria senhores da natureza e, claro, de nossa própria natureza.

Homens e mulheres, 500 anos atrás, viam morrer misteriosamente boa parte da população e só podiam pensar que se tratava de alguma praga divina. Hoje, sabemos que se bebemos da mesma água na qual jogamos as fezes, ficaremos doentes, ao longo de séculos, populações inteiras foram dizimadas sem entender o porquê. Hoje, o povo não mais procura o padre para apaziguar a ira divina, vai ao médico.

E a medicina caminhou por outros campos também, um médico vienense na virada do século XX, o doutor Freud, descobriu que a parte que temos consciência da mente é como se fosse a ponta de um iceberg: há um universo muito maior que fica submerso, ao qual não temos acesso, apenas por lapsos ou sonhos. A hipótese da existência do inconsciente explica porque fazemos certas coisas sendo que conscientemente queríamos fazer outras… sabemos que não podemos pronunciar certos nomes ou palavras em certos espaços ou na frente de certas pessoas e damos bolas fora!

Sinto que, neste mundo solar e belíssimo -onde as coisas parecem ter uma lógica ancorada nas relações de causa e efeito-, tudo contribui para a gente ter esta ilusão do controle, inclusive, a própria visão confabula para construir esta ilusão, até porque o desejo de controle é uma das questões do nosso ego. Certamente, precisamos ter controle no que fazemos e dizemos, ao ter raiva de alguém, não podemos pular no seu pescoço. Ocorre que boa parte das pessoas sequer se contém, pula no pescoço, mas quer controlar os demais…

 O controle reduz o medo do desconhecido, o desconhecido não apenas nos incomoda: nos assusta. Há um medo mítico de perder o próprio eu, mas o que não sabemos é que uma parte do desconhecido somos nós mesmos, o nosso inconsciente e, na verdade, por mais que desejemos controle, a vida nos surpreende, pois temos uma jornada que nos é desconhecida. Para começar, assim como chegamos, partiremos.

Gosto mais da palavra atenção. Atenção aos nossos pensamentos e sentimentos. Curiosidade e coragem não apenas para olhar, mas também para enxergar o que eles querem dizer. 

grecia rodes

Ilha de Rodes – Grécia

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O mundo misterioso dos bebês

Nestes dias, meus estudos me levaram a olhar e pensar nos bebês. A gente vê aquelas coisinhas gostosas e frágeis que contêm um projeto de gente, tal como nós já fomos um dia e que se tornarão o futuro de nossa espécie.

Os bebês nascem e, mal sabem eles, começam seus desafios. Saem da barriga da mãe, aquele hotel, onde tudo era fornecido -alimento, imunidade e uma temperatura sempre constante- e, logo no primeiro minuto, eles precisam começar a se virar e respirar. “Cara, agora é contigo!”, parece dizer o mundo, não à toa eles choram.

De todos os animais, os bebês humanos são os que nascem mais incompletos. Uma girafinha e um hipopótamo andam nas primeiras horas, agora o bebê humano chega sem um aparelho sensório-motor pronto e sem completar a formação de seu sistema neurológico. Eles chegam munidos de reflexos, ferramentas da espécie, transmitidas geneticamente, para se virarem nos primeiros tempos, como o reflexo de sucção que lhe permite mamar. Alguns reflexos desaparecem nos primeiros meses, outros serão incorporados pelo uso.

Estima-se que se formam 250 mil células nervosas a cada minuto durante a gestação  e, no nascimento, a maioria das 100 bilhões de células do sistema nervoso já está formada, embora não completamente ativada. Logo ao nascer, o peso do encéfalo equivale a apenas 25% do peso de um adulto. O tronco encefálico, parte responsável pelo funcionamento de partes biológicas vitais, como a respiração, ao nascer já está desenvolvido, mas o cerebelo, responsável pelo equilíbrio e pelas funções motoras, se desenvolve no curso do primeiro ano de vida do bebê, sendo que o córtex apresenta-se como a parte menos desenvolvida, ele é responsável pela percepção e pelo complexo processo de pensamento e linguagem.

Embora o cérebro, o nosso computador central, chegue com uma minuciosa programação genética, ele pode ser “moldado” pela experiência, principalmente durante os primeiros anos de vida, uma vez que o material base –os neurônios- está presente, mas as conexões estão sendo construídas e as células que não são usadas ou não funcionam bem, morrem nos primeiros anos da criança. Ativar as conexões requer estímulos de todas as ordens: sensoriais, emocionais, cognitivos. Assim brincadeiras, cores, conversas, toques, histórias, tornam-se fundamentais para criança, pois tudo nela, no corpo e na mente, precisa se desenvolver. 

Sabe-se, hoje, que a desnutrição do feto ou durante nos primeiros anos pode provocar danos cerebrais e estudos com animais mostram que não experimentar certos eventos deixa marcas no cérebro. Isto nos leva a perceber as consequências trágicas da desnutrição e da falta de estímulo nas crianças: os cérebros não se desenvolvem em plenitude, ou seja, atrofiam. Este conhecimento nos torna responsáveis pelo cuidado com as futuras gerações.

Arte com bebês no Espaço nascente http://espaco-nascente.blogspot.com.br/

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Do Chile, uma história para a alma

mafalda 1A Mafalda me acompanhou na semana passada com os seus questionamentos. Em meio a lembranças suscitadas pelos 40 anos do golpe militar que dividiu o Chile e ainda provoca tanto sofrimento, reiteradamente vinha à minha mente pergunta desta argentina irreverente. Neste mundo tão errado, como fazer para confortar o coração e assim quem sabe aliviar a alma?

mafalda 2Há respostas individuais e coletivas. O conhecimento e o registro da barbárie em Museus da Memória permitem que não os apaguemos os fatos de nossa história. Se não diminui a dor, conforta saber que muitos caíram, mas sua memória não ficou vilipendiada na sarjeta. A consciência pode também funcionar como antídoto para novas ocorrências, o que não se sabe, nem se vê, quando menos se espera, reaparece.

Há também respostas individuais. Aqui aproveito para contar um pouco da trajetória de Michelle Bachelet, a nossa primeira mulher a chegar à presidência da República. Filha de uma arqueóloga e de general da Força Aérea, que foi acusado de traição à pátria e morto nos porões da ditadura em 1974. Nesses anos, ela cursava medicina na Universidade de Chile e passa a apoiar o Partido Socialista que estava na clandestinidade desde o golpe. Em 1975, junto com a sua mãe será presa e torturada, depois de um ano na prisão partem para o exílio, ela encontrará acolhida na Alemanha Oriental. Em 1979, retorna ao Chile, onde conclui o curso de Medicina.

Ao longo da década de 80, enfrenta dificuldades para exercer a profissão no serviço público, seu nome desperta desconfiança, mas trabalha de forma voluntária na ONG Protección a la infancia dañada por los Estados de Emergencia, que fornecia apoio aos filhos das vítimas do Regime Militar.

Com o pai, Alberto Bachelet

Nos anos 90, inicia estudos na área de defesa, destaca-se em 1996 como a melhor de sua turma na Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos, como prêmio ganha uma bolsa da Presidência da República para estudar no Colégio Interamericano de Defesa em Washington DC, nos EUA.

Daí sua história é mais conhecida, participa do governo de Ricardo Lagos, da Concertación, primeiro como Ministro da Saúde e depois ocupa a pasta de Defesa, primeira mulher a ocupar este cargo no país, depois será eleita presidente da República, cargo que ocupa até 2010, isto para resumir a biografia política.

No Chile, não há reeleição, mas neste ano, 2013, ela está concorrendo para um novo mandato. Ironia do destino, disputa com a filha de um general que participou do golpe militar e esteve à frente da Aviação durante o governo Pinochet.

Na semana passada a vimos à frente de manifestações pela memória das vítimas do regime militar. Poucas pessoas já passaram por momentos tão dolorosos como ela, mas hoje torna-se um exemplo de mulher cuja vida foi bem maior do que a sua dor.

Em 2013 liderando uma homenagem às vítimas do golpe.

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