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No Olimpo, na casa ou no trabalho, imagens da mulher que não é santa nem é p…

Há pessoas que acreditam que os deuses de nosso mundo saíram de férias, para alguns são as figuras do show business do momento. Por isso me valho dos antigos para falar de um tema tão caro como as imagens e imaginários do masculino e do feminino.

O mundo dos olimpianos, regido por Zeus, acompanhado por sua consorte, Hera, e por uma corte  ilustre, como a personificação do amor, Afrodite, o deus da guerra, Ares, entre outros, nos é conhecido, no entanto, pouco sabemos do mundo anterior a esta ordem. A terra em suas profundidades registra o culto à grande mãe, senhora das plantas e dos animais, portadora de fertilidade e do crescimento da natureza. Quando Zeus se instala no Olimpo, a grande mãe cede lugar às disposições do pai, mas ela ainda conserva espaço no panteão. O poder do feminino cede lugar ao masculino, marcando uma passagem de um vínculo indiscriminado e inconsciente com a natureza ao reino da palavra, ao logos, ao plano da consciência, à lei e à norma. Posteriormente, a própria multiplicidade do panteão helênico será destronada pelo deus único, onipotente, onisciente e onipresente, e agora a mulher perde o cetro e o trono de vez. Sem divindade, será responsabilizada por ter trazido a tentação aos homens, figuração do pecado ou da ignorância no melhor dos casos.

Após o advento do Cristianismo, a única imagem feminina permitida será a mãe do filho de Deus, senhora imaculada, pura, abnegada, obediente, entre outros atributos que a tornam digna de culto, mas a distanciam da humanidade das mulheres. Beleza, charme, primos da sedução, associados aos prazeres da carne, lugar do pecado e da corrosão do espírito estão banidos.

O panteão grego no qual os deuses amam e odeiam, tecem alianças e tramam vinganças responde a uma compreensão do humano sujeito a múltimas forças que desconhece, repleto de ambiguidades que ama e odeia. Ambiguidades que se perdem na idealização do mundo judaico-cristão e que a duras penas buscamos entender no século XX com o discurso da psicanálise. Idealização que nos distancia de uma visão “real” de nós mesmos e compreensiva de nossos pares no mundo.

Recupero esta ideia, pois as mulheres, hoje, estão em luta pelo poder e esta luta passa pela compreensão do imaginário. No século XX, em um século de tantas conquistas, a mulher conquista as ruas, o mundo do trabalho, a sua sexualidade, contudo persiste a crítica de que ela ainda quer ser feliz no amor e no casamento e para isso recorre a estratégias para agradar o homem e ainda pensa em comidas gostosas e se dedica a afazeres “do lar”. Uh!

 Certamente, precisamos de mais mulheres no Congresso, precisamos de igualdade, de respeito nas relações. Nenhum tipo de roupa pode ser justificativa ou atenuante para um estupro. Contudo, considero que a questão não para aí, não adianta mulheres no poder com um funcionamento masculino desqualificando outras mulheres. A própria mulher precisa conhecer e reconhecer a multiplicidade do feminino, sem buscar estabelecer a visão “certa” do feminino. Uma visão feminina não se arrola a verdades, nem busca ser a maior, compõe e não compete, alimenta e gosta do alimento, e, sem dúvida, é  tolerante e inclusiva, porque entende a vida como processo.1 a 1 a a a a mar sao carlos13 homem feminista

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Sonhos e o arquétipo da caminhada

Um terço de nossas vidas transcorre enquanto dormimos. Neste momento, vamos a outra dimensão: ao sonho. Todos sonhamos, mas poucos se lembram das imagens e cenas que chegam como cenas filmes ou então parecem mais reais do que a vigília. Algumas pessoas, às vezes, se lembram de algum sonho marcante porque as fez acordar, como estar pelado no meio de uma multidão, morte de pessoas queridas, grandes inundações, entre outros.  

Trilha Inka no Peru

Certa vez, sonhei com um grande engavetamento, dias depois no trabalho vivenciei uma situação de “atropelamento” bastante chata. Daí que comecei a prestar atenção aos meus sonhos.

Os junguianos acreditam que nos sonhos há uma grande conversa de nosso inconsciente conosco, ou seja, com a nossa parte consciente, diálogo numa linguagem particular, onírica, cujas regras não obedecem as leis do dia a dia. No sonho podemos voar, crescemos ou diminuímos repentinamente, há monstros fabulosos e por aí vai.  No sonho, o inconsciente nos mostra elementos do nosso lado sombra, não necessariamente ruins, mas obscuros por que são desconhecidos. Os sonhos trazem uma “visão” privilegiada daquilo que em vigília não conseguimos ver.

O tema mais frequente de meus sonhos é o do caminho, posso estar com mochila, sozinha, em grupo, com meu companheiro ou com meus pais. O caminho quase sempre é íngreme, o chão pode ser lodoso, pedregoso, cruzando riachos, pontes, avenidas. Eu ando procurando sapatos, ora estou com sapatilhas de balé, ora com havaiana, ora com meus tênis prediletos. Às vezes, estou num ônibus e ele faz um percurso desconhecido ou passou do ponto para eu descer, em outras o trem vai sair e eu estou fazendo comprinhas num shopping. No mais recente eu pegava um taxi com várias pessoas para cruzar um túnel. Às vezes cheguei num ponto, mas ainda preciso subir uma montanha. Em boa parte deles sinto tranquilidade, em alguns há uma sensação de angústia ou de não estar bem preparada o que devo fazer. Nunca sei onde o caminho vai dar.

Percebo que estes sonhos  remetem à própria vida, talvez porque a vida seja uma grande e incerta caminhada. Não sabemos bem como chegamos, o que devemos fazer, nem por que e menos o nosso destino. Temos um destino traçado ou uma missão a cumprir? Embora não saibamos, penso que talvez tenhamos missões. Elas se revelam em nossos talentos, pois ninguém vai para a batalha sem armas, nem ao trabalho sem ferramentas.

Talvez a vida seja uma caminhada sem fim, cada chegada é apenas uma pausa para uma nova partida e neste percurso vamos conhecendo a vida, aprendendo suas lições e lá vamos nós para outra caminhada.

O caminho pode ser um grande mistério, mas, sem dúvida, vale cada passo.

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Ártemis, as controvérsias de uma deusa lunar

Ártemis, a jovem deusa, dona de um corpo ágil e atlético, vestida com um curto saiote, costumava correr solitária pelas montanhas e florestas, seguida por seus animais, entre eles as corças, sempre portando seu arco e flechas de prata, presente de seu pai, Zeus, o senhor do Olimpo.

Irmã gêmea de Apolo, na guerra de Tróia, Ártemis tomou o partido dos troianos e, num episódio, pune Agamenon, o comandante dos exércitos gregos –e irmão de Menelau, marido de Helena, pivô da guerra-, por matar sua corça preferida. Depois de uma série de derrotas, Agamenon consulta o oráculo que lhe anuncia que uma maldição recaíra sobre os seus exércitos e, para dissipá-la, ele deveria oferecer à deusa, sua filha primogênita, Ifigênia. Com muita dor e a despeito das súplicas da esposa, Clitemnestra, o comandante cede, mas, no templo, no último instante, Ifigênia foi substituída por uma corça e transportada para Táuris, onde se torna sacerdotisa da deusa, fato nunca sabido pelos pais. Em outro momento, pune  a negligência do rei Eneu de Cálidon, quem após uma boa colheita realiza oferendas a todos os deuses, mas se esquece de Ártemis. A deusa ofendida envia à região um javali feroz, que devastou todo o reino. Para liquidá-lo, Meléagro, jovem e destemido príncipe, convoca os melhores caçadores dos povos irmãos, conseguindo matar o monstro. No entanto, a intriga se instaura no reino e começa uma guerra entre o rei Eneu e os  irmãos da rainha em disputa da cabeça e do couro do javali. O javali, para os antigos era um animal sagrado, o couro deste animais representava a mais alta proteção. Meléagro, o príncipe herói morre e Cálidon  é sitiada e queimada.

O jovem caçador Actéon também se tornou vítima de Ártemis. Num certo dia, ele seguiu a deusa e a espiou banhando-se no rio junto com suas ninfas, ela, ao vê-lo, o transforma em veado e ele foi devorado pelos seus próprios cães que não o reconheceram.

Outros mitos, principalmente da região do Peloponeso apresentam outras facetas da  deusa. Aparece na Ilíada como “leoa com as mulheres”, protetora das jovens, das mulheres em trabalho de parto, assim como das florestas e dos animais prenhes. Detentora do título, “a que alimenta, a que educa a criança”, acompanhava particularmente as meninas em sua fase de crescimento. Entre suas regras sagradas vemos que os animais não deveriam ser mortos arbitrariamente e que o corpo das mulheres deveria ser respeitado. Mesmo donzela, as noivas, à véspera de seu casamento, ofereciam-lhe uma mecha de cabelo e uma peça do enxoval, para implorar-lhe proteção e fertilidade.

O mito traz uma deusa com diversas facetas, tal como outro de seus símbolos, a lua. A lua, por sua vez, com as suas fases, crescente, cheia e minguante, tem representado o percurso da vida, juventude, maturidade, velhice. A lua remete aos ciclos naturais, bem como ao feminino, as variantes no ciclo foram relacionadas aos humores da deusa e à própria mudança no humor nas mulheres, algo muito claro na expressão “ser de lua”.

Réplica de uma estátua de Ártemis no templo de Éfeso, hoje na Turquia

A deusa tem profunda empatia com a terra e toda a sua vida. Acima de tudo, ama a liberdade e a autonomia. Jamais se casou, permaneceu “virgem”, conta-se que Ártemis ao ver o sofrimento de sua mãe, Leto, durante o parto, pede a Zeus para se manter donzela, no que é atendida. Na antiguidade, o termo virgem significava pureza.

Ártemis é provavelmente uma das mais antigas deusas gregas, alguns pesquisadores chegam a afirmar que seu culto remonta aos caçadores do período paleolítico. O próprio significado de seu nome é controverso, para uma vertente seria “a sanguinária”, para outra significaria “grande”, daí remeteria à Nossa Senhora. Mas sem dúvida, o mito de Ártemis nos traz uma das versões da grande mãe e podem ter passado milênios, mas sobrevive a necessidade que lhe deu origem, a proteção das jovens, das florestas e dos animais.

O mundo urbano e seu ritmo de vida alucinante estão muito distantes do espírito de Ártemis, mas talvez, por trás de muitas atletas urbanas, daquelas que correm todos os dias pela rua ou passam horas em academias, se esconda um espírito de amazona, ansiando por um estilo de vida mais natural.

Ártemis no Metropolitan de NY

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Némesis, a deusa do equilíbrio e da restauração

Uma herança do direito positivo nos faz entender, hoje, a justiça em sua relação com as leis. Os mitos da antiguidade, lembram-nos aspectos por vezes já esquecidos.

Némesis, uma deusa primordial, ou seja, nascida antes da formação do panteão olímpico, era uma executora da justiça. Tão bela e radiante quanto Afrodite, com a diferença de ter asas. As asas que lhe permitiam voar para desempenhar suas tarefas. Conta o mito que Zeus deslumbrado com a deusa, perseguiu-a por céu, terra e mar. Némesis fugindo adquiriu diversas formas até tornar-se uma gansa, nesse momento, Zeus transformou-se em cisne e zás… Como fruto dessa união, Némesis pôs um ovo, mas recusou-se a chocá-lo. Deste ovo nasceram Helena e Pólux. Helena herdou os traços da mãe, tornando-se a mulher mais bela do mundo. Disputada por muitos príncipes, ela desposou Menelau, rei de Esparta, depois fugiu com Paris e se tornou o pivô da guerra de Tróia. O sofrimento a rondou, numa referência à justiça de Némesis: o excesso gera sofrimento.

Os gregos, assim como boa parte dos povos antigos, temiam a fúria dos deuses. Suas intervenções mostram uma deusa mediando a fortuna (antigo termo para sorte) e a desgraça entre os mortais, dando a cada um aquilo que lhe corresponderia, ou seja, conforme o seu merecimento.

Conta-se que a deusa ouvia os votos de amor eterno dos amantes e castigava aqueles que não cumpriam suas promessas. Ela pune o rei Creso da Lídia, porque ele ficara excessivamente orgulhoso devido ao seu poder e pelas suas riquezas. Em certa passagem, castiga Narciso, pois não tinha olhos para ninguém além da própria beleza. Uma das versões do mito conta que a deusa provocou um forte calor e Narciso, buscando se refrescar, encontra um rio, ao contemplar sua imagem, apaixonado, mergulha atrás dela e morre.

Em Ramnonte, cidade não muito longe de Maratona, na região da Ática, encontram-se um dos mais antigos templos de Némesis

Filha de Nix, a noite, pune o excesso, a Hybris, mas não traz a fúria da vingança, age para o restabelecimento da ordem justa. Foi representada com uma coroa e, por vezes, com um véu cobrindo-lhe a cabeça, está armada de tochas, espadas e serpentes, seus instrumentos de trabalho, digamos assim.

Os gregos muito sábios prezavam o equilíbrio. Eles entendiam que na vida sempre haveria dualidades, a ação ética jamais poderia anular um dos polos, mas levava a busca do equilíbrio entre eles. A deusa nos lembra a responsabilidade de cada um por aquilo que cultiva, sejam os nossos pensamentos ou nossas paixões.

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A mística de Perséfone

Os Mistérios Eleusinos, os ritos consagrados Deméter e Perséfone em Elêusis, cidade a 30 kms de Atenas, se tornaram os maiores festivais antiguidade. Mistério, significa em grego, “algo do qual não se pode falar”, que “deve ser mantido em silêncio”. Realizados  durante  mais de mil anos, eram cerimônias, em parte, secretas. Todos os participantes voltavam transformados, pois imagina-se, ressurgiam com um entendimento renovado da vida.

Perséfone é a jovem donzela, filha de Deméter, que foi raptada e levada ao mundo dos mortos. Para os gregos, não existe inferno no formato judaico cristão que conhecemos. Para eles existe o reino dos vivos e o reino dos mortos, Zeus domina o mundo e Hades é o senhor do submundo.  A entrada ao submundo era separada por vários rios, de águas turbulentas, dos quais o mais famoso era o Estige. O barqueiro Caronte realizava a passagem. Ninguém voltava de lá.

Perséfone torna-se uma exceção, volta à sua mãe, mas retorna transformada, já uma mulher madura e esposa de Hades. Dizer que Perséfone se casa com Hades é dizer que ela se casa com a morte. A morte e a perda eram fundamentais na transformação mística da iniciada. A inocência de donzela precisa ser sacrificada. Lembrando que sacrifício significa Sacro ofício. A fonte da transformação de Perséfone é o contato com a sabedoria das profundezas abissais da alma, não dos pontos luminosos do espírito. Seu maior desafio é unir o lado escuro e o luminoso da deusa em si mesma, tornando-se a Deusa madura da noite.

Hades e Perséfone

Perséfone é um arquétipo que representa aquela mulher atraída pelo “lado de lá”. O seu mundo é “além” do mundo físico dos sentidos. As mulheres mediais em culturas antigas desempenhavam uma função social relevante, como sacerdotisas, curandeiras ou xamãs, no entanto, ao longo dos séculos deixamos de compreendê-las e até as estigmatizamos. O que ocorre com essa menina que passa envolvida com os seus pensamentos e com seus amigos imaginários? Deve estar doente ou louca. Assim muitas foram parar em manicômios. Hoje, algumas podem circular como astrológas, tarólogas, as inofensivas bruxas ou doidinhas modernas.

Com o avanço da civilização grega, tende  a haver a supressão de aspectos duais dos deuses, entre eles, o de Perséfone. O aspecto de rainha da morte passa a ser suprimido e quanto mais suprimido (e desconhecido) mais se torna assustador para a cultura ocidental. Esta forma suprimida retorna para atormentar a fantasia do mundo cristão na imagem das bruxas. Mulheres conhecedoras da sabedoria das plantas, da terra e da lua, serão estigmatizadas como bruxas e serão queimadas pela inquisição.

Neste segredo perdeu-se a sabedoria de Perséfone madura, a sabedoria daquela que conhece os mecanismos da vida e da morte, aquela que “já viu tudo” e pode nos ajudar em todas as transformações da jovem à anciã, neste mundo e no outro.

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Atena, a donzela dentro da armadura

Diziam os antigos que Atena era a filha predileta de Zeus, pois teria nascido de sua cabeça. O oráculo havia predito que os descendentes de Mêtis, deusa da sabedoria e da prudência, seriam mais fortes que o pai e o destronariam. Buscando escapar do vaticínio, Zeus, logo após unir-se a deusa, a engoliu. No entanto, Mêtis já havia concebido Atena que acabou nascendo na cabeça de Zeus.

Em Atenas, a sua cidade sob sua proteção, uma estátua da deusa ocupava lugar central no Partenon, principal templo da Acrópole. Grande centro intelectual e cultural da época, a cidade tornou-se reconhecida por consagrar valores como a democracia e a cidadania, bem como por legar-nos boa parte dos aspectos centrais da cultura ocidental.

Deusa donzela, virgem, ou seja, sem marido, portava a armadura e a espada, era ladeada, algo que poucos sabem, por uma grande serpente -para os antigos a serpente simbolizava a proteção. Na armadura encontra-se a imagem da medusa. Outro dos seus símbolos é a coruja, por vezes, este pássaro pousa no seu ombro ou sobrevoa sua cabeça. Se bem Atena é representada com armas e é guerreira, ela representa a inteligência. Para os romanos, tornou-se Minerva, originando a expressão “Voto de Minerva”.

No século XX, no ocidente abrimos essa porta, rompendo um ciclo de milênios, as mulheres começaram conquistar visibilidade e direitos, passaram a votar e a ingressar nos bancos universitários, tornaram-se médicas, aviadoras, juízas, até militares. Me pego pensando, depois de tantas conquistas, será que caminhamos como esta jovem deusa de espada na mão e dentro de uma armadura?

Há muitas formas de caminhar e guerrear, no século passado, seguimos o caminho do intelecto. As jovens não queriam repetir os passos de sua mãe, desejavam autonomia, nada de ficar esperando o marido com o jantar pronto em casa, queriam seguir seus anseios profissionais. Filhos? Só depois da carreira construída. Para elas, ser a Rainha do lar, não era a opção. Foram décadas de luta pelo reconhecimento de seu valor profissional em todos os espaços. As tradicionais ferramentas da mulher foram banidas junto com os espartilhos, a sedução foi vista com desconfiança, como artimanha ou artifício de mulheres atrás da segurança do casamento.

Como efeito colateral, muitas tiveram grandes dificuldades para casar e depois em seus casamentos. O homem, criado numa tradicional família patriarcal, custou a entender esta mulher moderna que não fritava um ovo, nem precisava dele para pagar a conta.

A mulher mudou ao longo do século XX, abriu-se a novas possibilidades. Hoje, ela tem escolha, não é obrigada a se casar com um marido arranjado pela família, nem morrer espancada se o sujeito é violento, como ainda ocorre em muitos lugares. No entanto, com um pêndulo, as outras facetas ficaram esquecidas e a composição do feminino anda necessitada de um acerto. Como Atena, a deusa guerreira, muitas mulheres são meninas escondidas por trás de um escudo, em suas solitárias lutas diárias, protegendo-se da vida, sem conhecer nem desenvolver a plenitude da mulher.

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Luz no caminho, Hécate

Tirando o pó de velhos livros me deparei com uma deusa grega muito bela, mas quase desconhecida, caminhando com uma tocha.

A Teogonia de Hesíodo, autor do século VIII a. C., recupera a origem do mundo para os gregos, lá lemos a respeito de Hécate. Ela, assim como Zeus era um Titã, no entanto, a diferença dos outros Titãs, que foram derrotados por Zeus, que assim se tornaria senhor do Olimpo, a deusa conservou seus poderes. Nos mitos, vemos Hécate auxiliando diversos deuses e mortais, um dos mais lembrados é quando ao ver dor de Demeter, pelo rapto de sua filha, Perséfone, descobre o seu paradeiro no Hades.

Hécate não é grega, acredita-se que sua origem remonta à Asia Menor, recebendo a representação de bela mulher, às vezes, com três cabeças. Cada uma das cabeças olha para uma direção, representando sua visão que tudo vê, presente, passado e futuro; mundo e submundo. Senhora dos três reinos, do céu, da terra e do mar, tornou-se zeladora das passagens e dos caminhos, ajudava a fazer escolhas, protegendo também os partos e os velhos na hora da morte. Deusa lunar, acompanhava especialmente as mulheres, se alguma precisava viajar sozinha, encomendava-se a Hécate. A deusa circulava até pelo reino da  escuridão -o Hades, onde encontra Perséfone- que iluminava com sua tocha.

Como uma deusa dos limiares, protegia as populações limiares e vulneráveis. Em Roma, foi cultuada pelos escravos que lhe deixavam oferendas nas encruzilhadas de caminhos.

Imaginar uma deusa onisciente, senhora do céu, da terra e do mar, e como se não bastasse que pode andar onde ninguém quer ir, no submundo (o Hades), já para os gregos era demais. Os gregos eram solares, apolíneos, admiradores do pensamento racional, lógico-dedutivo. Acredito que por este motivo, ao longo da civilização helênica, Hécate de portadora da luz tornou-se uma figura bizarra trazida pelos bárbaros. Eurípides, escritor ateniense do século V a. C., em sua tragédia Medéia, a representou como uma bruxa, tendo um papel central ao guiar a protagonista, em sua vingança contra Jasão. A difamação continuou, no mundo medieval, ela foi representada como feiticeira, deusa escura, das sombras e caçada como bruxa.

Perdeu-se um ponto central, Hécate sempre segura uma tocha. A sua lembrança nos permite voltar a um mundo em que a importância da luz provém da sua capacidade de clarear a escuridão, permitindo-nos a nós simples mortais que não enxergamos muito bem nem a nós mesmos, a visão e o discernimento. Ao longo de milênios, homens e mulheres buscam auxílio para caminhar pela jornada da vida, o grande desconhecido. O mundo moderno entende os mitos como lendas, como se hoje a vida, por ser racionalizada fosse menos incerta e desconhecida.

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Perséfone, a romã e a mulher

Dos mitos gregos, talvez seja um dos menos lidos. Conta a lenda que num dia de outono, Coré colhia flores no campo com suas primas quando, repentinamente, a terra se abre e a jovem é raptada por Hades, o senhor do reino dos mortos. Conhecemos esta história pela ótica da mãe, Deméter, que ao sofrer a perda da filha passa a vagar pelo mundo, sua dor faz a terra secar e o alimento faltar, o medo da destruição faz Zeus interceder junto a seu irmão, Hades, e permite-lhe recuperar sua filha.

Perséfone e Hades - Desenho de uma jarra grega - 440-430 a. C.

Uma aura de mistério permeia a descida de Coré ao mundo das trevas. Voltamos a saber dela, agora como  Perséfone, apenas no acordo que sela a sua volta. Ela deverá permanecer com Hades o equivalente em meses ao número de sementes de Romã que tiver engolido. Uma tradição diz que ela engoliu 4 e passaria um terço do ano com o senhor da morte. Outra, lembra a associação entre a cor vermelha da Romã e o sangue, uma referência ao ciclo menstrual, quando a mulher sofre a morte de uma vida em potencial, o que levaria toda mulher a conviver mensalmente com o seu Hades interior.

No mundo ocidental moderno vivemos muito afastadas dos ciclos da vida, renegando inclusive nossos próprios ciclos biológicos, procuramos fazer de conta que eles não existem. A mulher moderna vive “aqueles dias” como um fardo da natureza. Bem distante da antiga sabedoria que destacava o aspecto mágico do sangue e numinoso do útero como um vaso, aquele que conterá a vida.  Os estudiosos da psique feminina (na linha junguiana) apontam que a origem de uma série de transtornos menstruais (o + freqüente talvez seja a TPM) estão relacionados à inconsciência do ciclo vida (e da morte). Vivemos a menstruação sem dela tomar consciência, o corpo se encarrega de nos lembrar o que esquecemos.

O retorno de Perséfone à sua mãe, Deméter, não é o retorno de uma donzela, esta “morreu”, mas de uma deusa madura, que conhece a sexualidade, a separação e a morte. Neste mito, a inocência de donzela precisa ser sacrificada. Por outro lado, representa a grande perda sofrida pela mãe quando sua filha primogênita se casa e deixa o seu lar, ou então quando todos os filhos saem de casa e a mulher sofre a síndrome do ninho vazio.

Acredita-se que as duas deusas são na verdade uma, juntas representariam a totalidade da Grande Mãe, a deusa primordial. Ambas simbolizam a capacidade de morrer  e renascer infinitamente, como mulher, como terra, como natureza. A grande mãe contém todos os contrários, é ao mesmo tempo donzela e mãe, jovem e velha, a que alimenta e a guerreira. Senhora da vida e da morte.

Em Perséfone, há um outro elemento importante, o casamento com Hades, a torna rainha da morte, a soberana do mundo avernal, mas este aspecto ficará para outra ocasião.

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A magia de Afrodite

Talvez seja uma das deusas da antiguidade das mais conhecida e das menos entendida. Cultuada como deusa do amor e da beleza. Atributos preciosos, pois todos querem amar, ser amados e um quinhão de beleza.

Pintada por Botticelli

Conta-se que teria nascido da espuma do mar fertilizada pelo céu, chegando às costas da Grécia, foi recebida pelas Graças que a vestiram com trajes belíssimos e se tornaram suas companheiras. Também chamada “a dourada”, numa associação ao brilho sol, Afrodite casou-se com Hefesto, o senhor dos metais, no entanto um deus coxo, um par estranho para a nobre deusa, convenhamos. Detentora de um amor transbordante, apaixonou-se inúmeras vezes, entre seus amores, figuram Ares, deus da guerra e o belo, jovem e mortal, Adônis. A nós mortais, não nos cabe submeter a deusa a um julgamento moral.

Amor é um sentimento vasto. Há o amor amizade, o amor fraternal, entre pais e filhos. Posso amar a Deus, posso sentir amor por todas as criaturas divinas. Afrodite representa o amor arrasa quarteirão, o amor-paixão, aquele amor que “todo mundo quer cheirar” como diz a canção.

A magia da deusa reside em sua força de atração e ligação, uma energia ardentemente desejada e bastante malbaratada. Muitas mulheres querem dominar as técnicas da sedução, para conquistar o mundo e os homens, não necessariamente nessa ordem. Em boa parte das revistas femininas busca-se instigar o lado Afrodite nas mulheres: “Técnicas para levar o seu homem ao delírio na cama”, “Como fazer um strip-tease”, “Incendeie o seu desejo”. Esta energia, hoje, aparece até na venda de cerveja. Fala-se a qualquer hora e em qualquer lugar em prazer e sexualidade, fantasias e fetiches. E há tanto problema sexual…

É preciso lembrar que durante séculos essa energia era coisa de p… Em pleno século XXI, boa parte das mulheres ainda sente as conseqüências de uma educação repressiva que mandava controlar e esconder tudo o que lembrasse a sexo. Até hoje muitos homens, mesmo os jovens, dividem as mulheres em “para namorar” e “para casar”.

Prazer, sensualidade, emoção, sexualidade. Energia vital que estabelece a atração entre os seres, em suas diversas formas, de tão poderosa, assusta. Por este motivo foi relegada aos porões durante séculos. Nos dias que correm, ela se mostra, mas continuamos sem saber como lidar com ela, corremos atrás dela, sem entender o que procuramos.

As mulheres Afrodite exercem o poder de sedução. Pelo sorriso, olhar, gingado do corpo, em suma, a sedução de estar de bem consigo mesma, com o seu brilho de mulher.

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No dia das mães, a grande mãe, Deméter

Para celebrar o dia das mães, lembro a grande mãe da antiguidade e uma das deusas mais antigas da história, Deméter.

Conta-se que a deusa tinha uma linda filha, Perséfone, que, certo dia, desapareceu. Deméter chorou inconsolada, deixou o Olimpo e saiu pelo mundo à sua procura. Tanta era sua dor que a terra começou a secar. A filha, havia sido raptada por Hades, senhor do submundo e estava escondida em seus domínios, onde nem a luz chegava. No Olimpo, os deuses ficaram preocupados e Zeus negociou com Hades, seu irmão, para devolver a donzela. Perséfone voltaria ao mundo dos vivos se não houvesse provado algum alimento em sua jornada pelo submundo. Hades, apaixonado pela jovem, antes de deixá-la partir colocou em sua boca algumas sementes de romã. Assim, por ter ingerido alimento, Perséfone foi destinada a passar metade do ano com a mãe e a outra metade, junto a Hades, como rainha das profundezas.

Em Roma, foi associada a Ceres, deusa dos cereais. Seu templo em Eleusis (Grécia) funcionou por quase 2mil anos

Podemos encontrar o espírito de Deméter naquelas mulheres que andam rodeadas de crianças, vivem pensando na comida e nos agasalhos dos filhos, do marido e de quem estiver ao seu redor. Vive para o outro. Instintivamente cuida de tudo o que é pequeno, carente de defesa e em crescimento. A partir desta figura, a sociedade criou o estereótipo da mãezona, super protetora, que se doa incondicionalmente, esquecendo-se de si pela família. O imaginário nos lembra uma mulher gorda ao pé do fogão, cozinhando gostosuras. Representação útil em sociedades patriarcais, origem de muita culpa para as mães que não se encaixam no perfil.

Deusa dos cereais, Deméter estava associada à transformação, ao mistério que transforma a semente em uma planta que se tornará alimento. O longo percurso da vida requer transformações. O problema surge quando nos apegamos a um estágio e travamos o fluxo da vida. Aí aparece aquela figura da mãe que, para não perder a sua posição, procura adiar o crescimento e a separação dos filhos. Se bem, as mães modernas andam de aspirador de pó e vão à ginástica, ainda querem os filhos ao seu lado, por sua vez, para muitos filhos hoje, a casa tornou-se um ninho tão confortável que relutam em partir para a sua própria jornada.

Na vida urbana, não temos muita consciência das transformações,  esquecemos os rituais e mudanças importantes ocorrem sem cerimônias. Não prestamos atenção ao ciclo feminino, só nos lembramos quando estamos “naqueles dias” e achamos uma chatice. Após a revolução feminina, as mulheres passaram ocupar espaços antes exclusivos dos homens, hoje, desejar a maternidade soa anacronismo…

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