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Lembranças da Páscoa

A Páscoa sempre foi um evento familiar marcante. A família Aravena Cortes tinha uma religiosidade particular, mamãe Patrícia, filha de um comunista chileno de carteirinha, fez primeira comunhão escondida dos pais, não era muito de ir à igreja, mas quando precisava de uma força extra, não titubeava em pedir diretamente para o divino. Já meu pai, Alfredo, não gostava de rezas, um engenheiro materialista, à sua maneira, se alinhava na concepção da religião como o “ópio do povo”, entretanto,  no dia de seu enterro viemos a saber que ele fora coroinha na infância, meu tio Miguel que nos contou – deve ter acontecido algo sério para ele ter ficado muito chateado com a igreja-,  mas papai sempre respeitou as opções espirituais de todos e acompanhava dona Patrícia em todas as suas promessas, uma delas feita em um domingo de Ramos, quando ela pediu um segundo filho. Nove meses depois chegou minha irmã… Meu pai nos deixou nas primeiras horas de um domingo de Páscoa, há dois anos, mas também, num domingo de Páscoa, alguns quantos anos atrás, o meu amor me ligou, e, claro, não posso deixar de dizer, que minha pequena Renata chegou em uma semana Santa.

Coincidências? Como boa junguiana, não acredito em coincidências e, como pesquisadora dos saberes ancestrais, acredito no ciclo da vida.

papai no casorio

Sr. Alfredo, no casório da filhinha, morrendo de frio, mas com sua impagável presença de espírito

Compartilho estas histórias familiares para lembrar que a força da vida aponta sempre para a renovação. Há muita coisa errada na cidade,  no país e no mundo, mas o grande terreno da transformação está no interior de cada um. Não se muda o mundo se eu já cristalizei as minhas verdades, se eu não mudo uma vírgula do meu pensamento, nem das minhas ações.

Feliz renovação!

Feliz renascimento!

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A visão gnóstica de Jesus

Nestes dias, em plena semana da Paixão de Cristo, peguei-me pensando que, no Brasil, muitos pertencemos a famílias cristãs, ou católicas não praticantes, pois as práticas que a igreja católica nos proporcionava não deram conta de nossas inquietações, nem das nossas necessidades espirituais. Fazemos parte desta matriz cristã, contudo, hoje ela não nos diz muito, nem nos ecoa no coração.

Há algum tempo tomei contato com o livro de Raul Branco Os ensinamentos de Jesus e a tradição esotérica cristã que, para mim, foi um divisor de águas, ao apresentar os ensinamentos pouquíssimo conhecidos do cristianismo primitivo. Aproveito o tempo da Quaresma para compartilhar este estudo.

1150, mosaico na Capela Palatina, Palermo, Itália

A Bíblia, diz o autor, é um “repositório de ensinamentos profundos velados pela linguagem alegórica” e a própria vida de Jesus pode ser entendida como uma alegoria. “Jesus, nesses relatos, simboliza o Cristo que habita no interior do homem. Sua vida, como apresentada nos quatro evangelhos, é uma descrição da viagem de retorno de todas as almas à casa do  pai.” Pesquisador de tradições orientais e da psicologia junguiana, entre outros,  Branco fornece uma chave para entender a vida de Jesus e  traz instruções e instrumental para o caminho, algumas servem como sustentáculos aos buscadores, mas buscam, principalmente, preparar o discípulo  da verdade na senda de transformação.

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26:41), disse Jesus.  O caminho a ser trilhado recebe o nome grego de metanóia, que significa a grande transformação do estado mental do homem, entendido como mudança dos condicionamentos e do próprio pensamento. O termo foi utilizado também por Jung ao descrever as transformações vitais da segunda metade da vida.

Embora desejemos mudanças, nosso ego resiste a este movimento. “Resistimos, porque toda mudança implica uma revolução interior que demanda algum compromisso com a verdade. Esse compromisso requer humildade para aceitar a possibilidade de que alguns de nossos mais estimados conceitos foram construídos sobre a areia e, finamente, uma coragem extraordinária para enfrentar a resistência inicial de nosso ego orgulhoso e inseguro”, escreve Branco.

Esses ensinamentos de Jesus, o vivo, como o Mestre era chamado pelos gnósticos, seriam a medicação salvadora receitada pelo grande terapeuta à humanidade. Uma vez o diagnóstico feito e a medicação receitada, restaria a cada ser humano exercitar o seu livre-arbítrio e decidir se toma a medicação necessária em tempo que não raro se escoa como areia em nossas mãos.

Nesta visão, para chegar ao Reino, ou seja, para alcançar a perfeição, o homem deve encontrar e trilhar pacientemente, mas com determinação, o Caminho ao longo de transformação. Gosto desta chave de compreensão do cristianismo primitivo, permite-nos lembrar do que devemos fazer.

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Porque nem fila, nem chuva de canivete afugentam um peregrino

Acompanhando a cobertura da visita do Papa Francisco pela TV, nos primeiros dias, parecia que tudo ia ser um grande mico, depois, nas pautas viam-se os temas cotidianos numa versão mega evento religioso: o trânsito, as dificuldades no acesso aos serviços e no transporte, as filas, os transtornos para a população de Copacabana.  As/os repórteres no meio da multidão, como se cobrissem a copa do mundo, reiteradamente, perguntavam:

– De onde você vem? Manaus, Salvador, Colômbia? Oh que grupo animado! Telespectador, veja a diversidade em nossas areias!

foto de Wanderley Almeida

foto de Wanderley Almeida

E, no fim de tudo, o lixo e o trabalho dos garis, tal como após a passagem das escolas de samba no carnaval. Mas, os repórteres se admiravam que os peregrinos não reclamavam, ao contrário, nem a chuva de canivete tirava o entusiasmo.

-Vale a pena este esforço? – Perguntavam.

Unanimidade na resposta: sem dúvida.

Certamente, a fala do Papa tocava, suas mensagens sobre o papel da igreja e a indignidade da existência da pobreza num mundo com tantos recursos, ganharam manchetes, mas milhões de pessoas saíram de suas cidades em diversos cantos do mundo só para ver o papa? Não, saíram em peregrinação para participar de uma grande jornada.

rio papa 2Peregrinar é um ritual comum à imensa maioria das religiões, mas também trata-se de uma prática realizada por pessoas que não necessariamente professam alguma confissão religiosa. Acredita-se que o peregrino sai em uma busca e recebe benefícios especiais  ao empreender a jornada, jornada que nunca é fácil, sempre está recheada de subidas, descidas, desvios –principalmente quando ocorre na natureza- e muitos obstáculos e bolhas no pé a serem superados. Neste caminhar, muitas descobertas e compreensões para levar por toda a vida.

O que busca o peregrino? Talvez um sentido para a loucura no mundo e para o sofrimento. Talvez força para viver ou ferramentas para lidar com os problemas da vida. Quiçá, formas para transmutar a tristeza e a dor. Uma esperança. Uma luz para dissipar a neblina e a confusão…  Embora cada um tenha a sua busca, cada qual encontra uma parcela si mesmo.

Uma cidade marcada pelo Carnaval, a grande festa da carne, viveu uma semana de culto espiritual que terminou com 3,5 milhões de pessoas em vigília e comunhão nas areias da praia. Se o Papa conseguiu esse feito, viva o Papa, ele parece um cara legal, mas prefiro dar vivas aos peregrinos e às caminhadas!

PS. A palavra “entusiasmo” vem do grego e significa literalmente “sopro divino” ou “o Deus que habita dentro”. Assim ser entusiasmado quer dizer estar “cheio de Deus”.

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Um turbilhão de perguntas, uma conversa com Petria Chaves

Nesta semana, a jornalista Petria Chaves esteve conosco, conversando com os alunos do 7º semestre do curso de jornalismo da UMESP. Os alunos prestes a se formar buscavam rotas de acesso à profissão, ela contava sua trajetória recheada de angústias, mas também de muitas trilhas. Uma grande angústia, aliás, deu origem à criação do premiado programa Caminhos Alternativos na CBN, juntamente com a Fabíola Cidral, em 2008.

Dona de uma fala envolvente, com muitas ideias, a jovem de 29 anos, estimulava os alunos a serem não só jornalistas, mas pessoas comprometidas com o viver bem, a casar a teoria e a prática, ou seja, o que se escreve com o que faz, não só no jornalismo mas na vida. “Somos responsáveis por tudo aquilo que desejamos, responsáveis também pela materialização das ideias e isso não pode ficar para amanha”, lembrou Petria. Na velocidade do mundo, quem deixa para amanhã, dorme no ponto e perde o bonde, como se dizia em outros tempos.

Fabíola Cidral e Petria Chaves na festa de aniversário do Caminhos alternativos de 2009

Ouvi-la, foi como sentir logo pela manhã aquele vento fresco revigorante. Com lucidez traduzia o dilema central desta época da hiperconexão, dos mil estímulos, da velocidade alucinante, mas também da depressão:

– O mundo quer que a gente se encaixe nos padrões seja de beleza, família, profissionais, pensamento vigente, agora isso faz sentido para mim?

A exigência do nosso tempo não é mais o sucesso custe o que custar, mas que as coisas façam sentido. Nós não somos zumbis. Somos pessoas que pensam e sentem.

– Eu estou no lugar certo? Emprego, eu estou nele por quê? O que faço, faz sentido para mim?

Em vez dos alunos, era Petria que perguntava. Vi mais de 50 jovens em silêncio, ouvindo e pensando. Eram aquelas perguntas para ficar matutando, sem respostas rápidas, pelo contrário. Ela os chamava para aquela conversa que cada um precisa ter consigo.

Há pessoas que não gostam de perguntas porque é duro pensar na resposta. Preferem uma cartilha com a receita, com a facilidade do digitar no Google que aparece a resposta. Mas a felicidade dá trabalho, é conquista, não é presente do universo para alguns afortunados. Nós somos os produtores de nossa vida, se a gente quer viver feliz precisa constantemente parar e pensar na escolhas de nosso caminho. Principalmente porque vivemos num mundo controverso, com exigências contraditórias, por isso, muitas vezes a verdade não está lá fora, está em cada um. “Eu acreditei no jornalismo quando eu enxerguei um sentido para isso”, contou Petria.

Isso é central, não apenas para o jornalismo, mas para todas as carreiras e para todas as vidas.

Sentido

Petria, ao cobrir o desastre da TAM, ficou tão abalada que percebeu que ela não tinha nenhuma vontade de continuar fazendo o jornalismo hard news, não queria falar de governo, bolsa ou morte, queria afirmar a vida, falar para as pessoas como viver bem. Conversando num café com Fabíola, outra grande jornalista, a ideia deu origem ao Caminhos alternativos.

O programa vai ao ar todos os sábados, das 9h às 10h, em rede nacional pela rádio CBN e também pela Internet.

http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/platb/caminhosalternativos/

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O estudo e as pistas

 

Viver é aprender que podemos fazer diferente.

Desembocadura do rio Bio Bio

Nossa contínua transformação é bem vinda e necessária. Resistir a ela é bobagem do nosso ego preso ao costume e apegado ao que conhece. Tudo se transforma, é só ver a natureza. Nem as pedras ficam paradas, elas rodam. Em nossas vidas vai haver alegria e tristeza, riso, choros, frustrações e surpresas e assim vamos caminhando. Caminhando e aprendendo. Desapegar ao mundinho conhecido nos permite crescer ao aprender e o que precisamos para vivermos bem apesar de tudo o que nos ocorre nessa vida. E não são poucas coisas, quem disse que viver é simples? Não é não, mas tem hora que a gente se surpreende em como dá conta do recado. Percebe que temos a força das montanhas, a paciência do tempo, a perseverança das águas, a visão das águias, enfim.

Os livros e as pistas estão por todas as partes para quem procura aprender, mas o nosso estudo pessoal, somente nós podemos acessá-lo. O que nos faz bem, só nós sabemos e o que nos atrapalha também. E há coisas  que não tem como delegar, ver o que precisa ser transformado é tarefa de cada um. A atitude para enfrentar o nosso desafio também. E sempre há alguma coisa… se achamos que não há, com certeza temos problemas…

P.S. Este post foi escrito pensando em meu pai. Uma pessoa que de uma hora para outra precisou aprender a viver de forma diferente e com ele todos nós estamos neste estudo.

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Sonhos e o arquétipo da caminhada

Um terço de nossas vidas transcorre enquanto dormimos. Neste momento, vamos a outra dimensão: ao sonho. Todos sonhamos, mas poucos se lembram das imagens e cenas que chegam como cenas filmes ou então parecem mais reais do que a vigília. Algumas pessoas, às vezes, se lembram de algum sonho marcante porque as fez acordar, como estar pelado no meio de uma multidão, morte de pessoas queridas, grandes inundações, entre outros.  

Trilha Inka no Peru

Certa vez, sonhei com um grande engavetamento, dias depois no trabalho vivenciei uma situação de “atropelamento” bastante chata. Daí que comecei a prestar atenção aos meus sonhos.

Os junguianos acreditam que nos sonhos há uma grande conversa de nosso inconsciente conosco, ou seja, com a nossa parte consciente, diálogo numa linguagem particular, onírica, cujas regras não obedecem as leis do dia a dia. No sonho podemos voar, crescemos ou diminuímos repentinamente, há monstros fabulosos e por aí vai.  No sonho, o inconsciente nos mostra elementos do nosso lado sombra, não necessariamente ruins, mas obscuros por que são desconhecidos. Os sonhos trazem uma “visão” privilegiada daquilo que em vigília não conseguimos ver.

O tema mais frequente de meus sonhos é o do caminho, posso estar com mochila, sozinha, em grupo, com meu companheiro ou com meus pais. O caminho quase sempre é íngreme, o chão pode ser lodoso, pedregoso, cruzando riachos, pontes, avenidas. Eu ando procurando sapatos, ora estou com sapatilhas de balé, ora com havaiana, ora com meus tênis prediletos. Às vezes, estou num ônibus e ele faz um percurso desconhecido ou passou do ponto para eu descer, em outras o trem vai sair e eu estou fazendo comprinhas num shopping. No mais recente eu pegava um taxi com várias pessoas para cruzar um túnel. Às vezes cheguei num ponto, mas ainda preciso subir uma montanha. Em boa parte deles sinto tranquilidade, em alguns há uma sensação de angústia ou de não estar bem preparada o que devo fazer. Nunca sei onde o caminho vai dar.

Percebo que estes sonhos  remetem à própria vida, talvez porque a vida seja uma grande e incerta caminhada. Não sabemos bem como chegamos, o que devemos fazer, nem por que e menos o nosso destino. Temos um destino traçado ou uma missão a cumprir? Embora não saibamos, penso que talvez tenhamos missões. Elas se revelam em nossos talentos, pois ninguém vai para a batalha sem armas, nem ao trabalho sem ferramentas.

Talvez a vida seja uma caminhada sem fim, cada chegada é apenas uma pausa para uma nova partida e neste percurso vamos conhecendo a vida, aprendendo suas lições e lá vamos nós para outra caminhada.

O caminho pode ser um grande mistério, mas, sem dúvida, vale cada passo.

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Buda, o grande mestre do oriente

Era uma vez um grande rei, o seu reino ficava no norte da Índia, quase na fronteira com o Nepal. Ele  e sua esposa queriam muito ter um filho. Seu desejo foi atendido, no entanto, a mãe morreu 7 dias após o nascimento da criança. O rei, repleto de amor, buscando proteger o filho das dores do mundo, procurou cercá-lo de conforto e belezas. Suas roupas eram feitas com os tecidos mais finos do país, recebeu 3 palácios, um para o verão, outro para a chuva e outro para o inverno, mas foi proibindo de deixar as muralhas. A qualquer hora, jovens o entretinham com música e danças e tinha guerreiros disponíveis para treinar lutas. Casou-se com uma linda jovem e teve um filho. Um dia, o jovem Sidarta sai escondido para ver a vida que corria fora dos muros. No passeio em dias sucessivos, encontra com um velho, um enfermo e um funeral. Defronta-se com a decadência e o sofrimento. Ao passar por um monge e percebe que, apesar de andar quase maltrapilho, este apresenta um semblante sereno. Estas visões o levam a abandonar seu reino e a rumar em busca de algum sentido para o sofrimento humano e para a vida.  Passa uma série de provações, peregrina, medita, jejua. Um dia, já pele e ossos, ele percebe que a vida corre no caminho do meio, não está entre os muros do palácio, nem no total sacrifício e volta a se alimentar corretamente para se fortalecer novamente. A partir daí suas meditações o levam ao entendimento das causas do sofrimento e ao caminho para sair das armadilhas da ilusão. Diz-se que Sidarta Foi tentado de diversas formas por Mara, o senhor da ilusão, mas com a sua visão ampliada, não sucumbiu a tentação.

Numa noite de lua cheia de maio, tal como as que experimentamos esta semana, Sidarta Gautama, há 2.500 anos, se iluminou, recebendo o título de Buda, que significa, o Iluminado. 

Monge meditando na árvore Bodhi

Acredita-se que na Índia, em Bodhgaya esteja a árvore onde Sidarta se iluminou. A árvore Bodhi, até hoje recebe peregrinos budistas e não budistas do mundo todo.  

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Descobertas

Como alguém que já caminhou mais de 40 anos por este mundo, posso dizer que tudo passa… Os dias, os amores, as dores, as provas na faculdade, os empregos, os chefes… Podemos mudar de cidade ou país, engordar, emagrecer, ganhar cabelos brancos.

O que não passa? A alegria de certos encontros. Alegria que não precisa palavras, está presente no brilho do olhar. O sentimento verdadeiro, amor ou amizade, nem o tempo, nem a distância apagam.

O que não passa? Ao olharmos para dentro de nós, independente do que nos tornamos médicos ou comerciantes, professores ou engenheiros, casados, com filhos e netos, separados, aposentados, nos descobrimos os mesmos, lá no fundo, ainda está aquela criança que um dia se escondia atrás da porta e comia todo o brigadeiro. Jovens, velhos e adultos, cada qual com seus desafios, ora tropeçando, ora balançando, cada um no seu passo e todos procurando acertar.

*

Na semana da Páscoa, recebi a visita de meus pais. Sua viagem ao Brasil ocorre a cada 10 anos e me permite rever velhos amigos.  Escrevi isto, após tardes matando saudades e recordando coisas do arco da velha com amigos queridos de longa data, alguns  fazem parte de minha vida até hoje e outros há muitos anos não via. Foi um grande prazer recuperar lembranças, com pessoas que me acompanham desde cedo, alguns do meu 1º aniversário, quando nem palavras eu tinha . Hoje agradeço à vida por me brindar o seu amor e sua companhia.

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O tempo e o caminho

Sem saber como, ganhamos cravos e espinhas.

Sem saber quando, damos o primeiro beijo.

Com esforço estudamos.

Com esforço trabalhamos.

Apaixonados casamos. Sem paixão, separamos.

Se a paixão dá frutos, chegam os filhos. Com esforço os criamos.

O tempo passa e ganhamos quilos e rugas.

Sem perceber como, chegam os netos.

Assim o tempo passa

e um dia, nós passamos.

O aliado

Se tivéssemos o tempo como aliado …

Falaríamos mais eu te amo.

Brigaríamos menos.

Lutaríamos mais pelo que é realmente importante.

Perdoaríamos mais e pediríamos perdão.

Não guardaríamos mágoas.

Sorriríamos mais, seja para as crianças ou os velhos pelo caminho.

Se tivéssemos o tempo como aliado não o perderíamos com bobagens.

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Das pedras e dos loucos do caminho

 Há diversos tipos de loucura e de loucos. Há graus de loucura, por isso é bom a gente saber reconhecer a nossa…

Hoje, fiquei frente a um louco com um certo poder, daqueles que estudaram em boas escolas, funcionário (e representante) de governo, do meu governo, diga-se de passagem… Daqueles que traja finos ternos, educado, estudou em colégios de elite, mas um louco dos piores, com gosto de exercer o poder, não daquilo que o poder possibilita fazer, mas de ter poder para espezinhar, para expor sua vaidade e, principalmente, para destruir. Daqueles que em geral nos dias atuais andam comedidos, pois têm medo de serem politicamente incorretos. Tive que lidar com um desses seres à moda antiga que exerce o poder com ameaças e tem muito prazer nisso.

Fiquei pensando como desenvolver vacinas contra esses seres, para eles não nos contaminarem com suas perturbações. É preciso! O mundo ficaria mais saudável. Eles são minoria, mas são uma minoria ruidosa e que atrapalha quem trabalha e quer viver na paz.

O caminho tem pedras, parece que é isso. Agora, as pedras ficam e a gente caminha.

Se de pedras se trata, eu prefiro as das Pirâmides do Egito. Há milênios contemplam a nossa loucura

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Para onde vai o meu barco?

“A vida é como um rio. Está em movimento, e você pode estar à mercê do rio, se não tomar medidas deliberadas e conscientes para se manter na direção que predeterminou.” Li esta frase nestes dias, a metáfora chama a atenção para uma regra crucial da vida. Se estivermos no comando do nosso barco, ou seja, vivendo com plena consciência daquilo que desejamos e precisamos, há boas chances de alcançarmos o que queremos, no entanto, quando não se faz nada, se ficamos no “deixa a vida me levar”, há grande chance da gente se enroscar num pântano por aí.

A pergunta é se a vida é um rio, para onde vou levar o meu barco? Vou navegar nas águas conhecidas do costume ou vou traçar um caminho pessoal, rumo a um novo destino? Eu posso escolher. Qual é a minha verdade? O passo seguinte é traçar a rota para se chegar ao destino desejado.

Assumir a responsabilidade pela nossa felicidade é uma das melhores medidas de poder e maturidade de uma pessoa. A frase inicial pertence a Anthony Robbins aparece em seu livro O poder sem limites. A filosofia Yogue relaciona o poder pessoal à energia ao chackra Manipura.

Robbins trabalha numa linguagem para um público ocidental moderno, preocupado em obter sucesso seja na vida pessoal ou no trabalho, mas as ideias e as ferramentas são as mesmas.

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Quando o inimigo somos nós

Todos queremos ser felizes, ou no mínimo, viver bem, isso é um fato. No  entanto, é perturbador perceber que chega um tempo em sabemos direitinho o que temos de fazer, mas não o fazemos. Temos consciência que precisamos estudar e não estudamos, que devemos procurar outro emprego e não procuramos, que é imperativo sair de um relacionamento destrutivo (ou não cair na fria de entrar em um), que devemos cuidar de nós mesmas, da alimentação, do nosso corpo, das emoções, que em certos momentos precisamos dizer já basta! Ou então tomar coragem e correr atrás dos nossos sonhos, enfim, sabemos…

Por que nos sentimos tão impotentes, como se estivéssemos diante de engrenagens tão poderosas? Por que parece tão difícil ao ver a pedra no caminho, não tropeçar mais nela? Por que precisamos chegar ao fundo do abismo para tomar uma atitude? Fingimos que tudo está sob controle até sermos demitidas, largadas ou ficarmos doentes? Por que às vezes, mesmo no fundo do abismo, não nos mexemos? Assim ficamos numa inércia que nos aproxima da concretização da profecia: não há nada a fazer… Alguns para sair da inércia largam tudo de sua vida e saem a procurar um caminho… outros se conformam “a vida é assim mesmo…”, “poderia ser pior…”

Crise de meia idade dizem uns, coisas de mulheres desocupadas, outros, o que não ajuda em nada, pois ninguém fica nesses abismos por vontade…

Série publicada entre 1948 e 1975 nos EUA

O personagem Pogo do cartunista Walt Kelly resumia a chave da questão: “Encontramos o inimigo, e ele somos nós”. Por isso, aquela viagem que custamos a fazer, mas que é a única pode nos trazer a redenção é a viagem no nosso íntimo, a viagem da procura da alma.

“O momento negro é aquele no qual a verdadeira mensagem de transformação está por emergir. No momento mais tenebroso, surge a luz”, nos lembra o historiador Joseph Campbell.

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Carta para uma grande amiga

No outro dia escrevi para uma grande amiga que vive no Chile, mas mora no meu coração. Decidi compartilhar no clã.

Há alguns anos houve um momento em que me sentia… nem sei como, sei que não estava feliz, isso sem haver motivos para ser infeliz. Tinha um bom emprego, casa, amigos, não tinha grandes dramas familiares. Para sair dessa sensação de embotamento fiz várias coisas: pulei de paraquedas, viajei para diferentes lugares, análise, entrei em grupo espiritual para descobrir algumas coisas fundamentais: (1) Que o “problema” estava em mim e (2) que a “solução” estava tb comigo. Mas eu continuava tropeçando nas mesmas pedras, com medo dos meus velhos fantasmas. Fui ficando cansada, bem cansada de mim. Prestes a cumprir 4O anos achei que era uma boa hora para revisar esse percurso e assim me preparar para os próximos 40. Fui fazer caminhada. Depois de caminhar 10 dias sob o sol escaldante, o frio da madrugada, subir serras, chegar todas as noites com os pés destroçados, percebi outras tantas coisas importantes: que é muito gostoso ver o nascer do sol, ouvir o cantar dos passarinhos, olhar todo o tipo de árvores e até as pedras, isto porque é muito bom ter um corpo que vê, ouve, cheira, percebe e caminha. Cada dia se caminha um pouquinho e cada amanhecer nos permite um recomeço.

Descobri também que o meu cansaço vinha em parte das mágoas e dores que eu carregava e percebi que para viver bem precisaria esvaziar minha bagagem. Caminhar é o nosso destino. Podemos caminhar com ou sem sofrimento, a gente escolhe. No caminhar a gente vai ter dores (bolhas, cortes, frustrações, incompreensões, maus tratos…) A gente sente a dor. Sentimos, pedras não sentem! Somos feitos de carne, osso e sentimentos. A gente sofre, sofre sim, mas tal como um dia depois do outro, a dor deve ser confortada. É certo que às vezes as dores vão ficando acumuladas pois não conseguimos lidar com elas. Mágoas e sofrimentos devem passar para não ficarmos estacionados na dor.

Por do sol no Nilo

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Os sapatinhos vermelhos ou das armadilhas do caminho

“Era uma vez uma pobre órfã que não tinha sapatos. Essa criança guardava os trapos que pudesse encontrar e, com o tempo, conseguiu costurar um par de sapatos vermelhos. Eles eram grosseiros, mas ela os adorava. Eles faziam com que ela se sentisse rica, apesar de ela passar seus dias procurando alimento nos bosques espinhosos até depois de escurecer. Um dia, porém, qdo ela caminhando com dificuldade pela estrada, maltrapilha e com seus sapatos vermelhos, uma carruagem dourada parou ao seu lado. Dentro dela, havia uma senhora de idade que lhe disse que ia levá-la para casa e tratá-la como se fosse sua própria filhinha. E assim lá se foram elas p a casa da rica senhora…”

Assim começa a saga da menina órfã que um dia ao experimentar o cansaço natural decide abreviar o seu caminho e aí começa a sua ruína. Na casa ela receberá roupas novas e os seus sapatos serão queimados, a partir de agora, o seu comportamento será regulado, só pode falar o que é devido, se vestir como conveniente etc. O final é trágico, mas falo dele em outro texto.

Essa criança apesar das dificuldades vivia com alegria. Os sapatos que ela mesma fabricara podiam não ser belos, mas a protegiam e revelavam a sua criatividade incipiente. Eis que viver não é fácil e um dia lhe acenaram com aquelas promessas tentadoras -conforto, amor, belezas, deixar de dar duro. E ela entrou na sua gaiola dourada pensando que assim cortava o caminho. Quem nunca entrou numa canoa furada, imaginando que estava fazendo o negócio da China? Mulheres ainda hoje sonham casar com um belo príncipe e acabam entrando em cada furada, sendo humilhadas, desvalorizadas, sofrendo violências físicas. Outras tantas sonham com o príncipe europeu e vão se tornar escravas sexuais em bares da Europa.

Essa história tem muitas versões, Clarissa Pinkola Estes nos fornece vários elementos para destrinchá-la. A autora lembra que a perda da alma ocorre especialmente na metade da vida, por volta dos 35 anos. No entanto, para as mulheres na cultura moderna, a perda da alma é um perigo a cada dia que passa, quer se tenha 18 ou 80, solteiras ou casadas, independente do grau de instrução ou nível econômico. Existem tantas coisas que nos seduzem e nos afastam daquilo que nos dá alegria, nutrição, vitalidade, em suma, de nós mesmas, e sem saber como nos vemos presas num mundo opressor, de obrigações, ou então num círculo de violência.

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Do Caminho, das chegadas e das partidas

Um ano depois, em julho de 2009 fiz o último trecho e cheguei a Aparecida. Lá pude cantar “Salve a Santa Padroeira. Mãe da nação brasileira. Mãe das ãguas, Mãe das Mães. Mãe de todas as nações”.

Um dia depois do outro. Passo a passo a gente chega lá. Basta querer. Mas não se chega sozinho!

E se alcança um ponto para começar novamente a caminhada.

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Para viver + 40 (2)

5. Carregar uma mochila leve. Quem é leve, voa como um passarinho. O peso afunda e nos afunda.

6. Deixar fluir A ciência da transmutação. Se a energia não está boa, fuja dela. É um aprendizado, reconhecer o que não está legal, seja uma reunião ou um encontro, mas a esta altura do campeonato a gente já sabe reconhecer, só é preciso um pouco de atenção. Dores, dissabores, tristezas? Sinta, quando necessário, e deixe passar.

7. Dançar

8. Trabalhar sempre.

9. Verdade e consciência Ter consciência que se fez o melhor possível, que se bem algumas coisas ficaram faltando, aquilo que foi feito, foi realizado com sinceridade. Viver sempre com a verdade. Buscar sempre a verdade naquilo que fazemos.

10. Parceiros A alegria e o humor são bons companheiros na caminhada. Seriedade não é sisudez. Pode que o caminho não fique mais fácil, pelo menos fica + leve. (Estou neste aprendizado)

11. Fuja: A vaidade, o ciúme, a inveja não são boas companheiras.

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Para viver + 40 (1)

Os alquimistas queriam transformar metais em ouro. Talvez o verdadeiro ouro seja aprender a viver bem. Em 2008, quando completei 40 anos, percebi que precisava caminhar diferente pela vida. Eu pretendo viver outros 40, pelo menos. Desde que eu nasci, a única mulher que morreu na milha família foi a minha bisavô, Margarita, com 98 anos, em 1997, mas para chegar lá preciso tomar juízo e transformar um tanto de aspectos do meu andar. Após uma jornada de 10 dias pelo Caminho da fé, pensei em alguns itens que melhorariam as minhas pisadas:

1. Encontrar o prazer Não sou das que acredita que é preciso ter prazer em tudo o que se faz, nem penso que não gostar de alguma coisinha inviabiliza uma parceria ou um projeto. Vejo os meus alunos que dizem não gostar de sociologia e não estudam… Agora penso que a nossa vida precisa ter prazer, sim. Nem que seja o prazer de chegar em casa, após um dia cansativo… O prazer de um amor ou de uma união é dos mais idealizados, mas há outros muito perto, só precisamos estar dispostas a enxergá-lo, como sentir o aroma de café recém passado. Tomar banho pela manhã, sentindo o sol na janela. Um chá com amigas, bolo de cenoura e horas de conversa a fio solto (fiz isso o outro dia, foi delicioso). Ver as ondas batendo na areia ou um beija-flor que vem beber água no seu jardim.. aliás, cuidar do jardim. Ler o jornal de domingo ou um bom livro. Caminhar sentindo o vento bater no rosto. Ouvir aqueeela música, me vem à memória Águas de março, na Asa do Vento. Cada um sabe dos seus prazeres. Mas é importante tê-los pois são fonte de energia e medicinas naturais para a nossa alma.

2. Acertar o ritmo A sabedoria está em entender o ritmo das coisas… Nem ficar parado perdendo o bonde, nem se encher de tarefas só para não ver o tempo passar.

3. Antes de cair peça ajuda Às vezes, precisamos de ajuda. Isso para pessoas super auto-suficiente (eu me incluo) pode parecer muito chato, mas é um fato, acontece. Fica + fácil aceitar que às vezes a gente não dá conta. Mas antes de cair, ao ver (sentir) o desequilíbrio, é importante pedir ajuda! E receber é tão bom quando a gente se permite! É tão gostoso e confortável ter alguém que tome conta e nos conduza. Nos dizendo o que fazer, quando a gente não sabe o que fazer… É um aprendizado, certamente.

4. Quando equilibrar, levante e siga em frente, pois a vida é caminhar

(segue)

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No caminho da renovação

Há 15 dias fiz uma pequena cirurgia. Retirei um nódulo do seio. Ao longo dos tempos tenho percebido que o corpo fala.

Os médicos dizem que todos temos um “órgão de choque”, aquela parte do nosso organismo onde a coisa pega. O estômago, a pele, a garganta, o intestino, o útero nas mulheres. As doenças chegam na forma de alergias, úlceras, vitiligo, cefaleias, miomas, problemas de digestão, entre tantas outros. A medicina ocidental não sabe muito bem o porquê, o conhecimento oriental que se expressa na acupuntura, entre outros, coloca que a pessoa é uma totalidade, por isso nossas questões internas se refletem nos órgãos do corpo que lhe são correspondentes, onde a energia para, por algum motivo. O fígado processa a raiva, os sapos que a gente vai levando no nosso dia a dia, já a garganta, a nossa comunicação com o mundo.

Neste entendimento das coisas, no que me preparava para a cirurgia, comecei a fazer um balanço, procurando perceber aquilo que me pesava e que já não me servia, aquilo que não queria continuar carregando na minha caminhada, para viver mais leve e mais feliz. Selecionei alguns:

– não saber ser parceira, pois só enxergava as minhas necessidades e desejos.

– mágoas passadas: certamente pessoas queridas me magoaram, mas eu não quero carregar essas dores.

– culpa pelas minhas mesquinharias: a mão que não dei, a atenção que faltou, mas principalmente, o amor que não entreguei.

– o medo. Nossa como tive medo de tudo! Por um lado foi útil, pois me impediu de entrar em muitas frias, mas hoje, aos 42 anos, não me serve mais.

Nesta semana tirei os pontos. Acho que nem vai ficar a marca. Torço também para que nem fiquem vestígios dessas minhas sombras que tem atrapalhado o meu caminho.

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