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No Olimpo, na casa ou no trabalho, imagens da mulher que não é santa nem é p…

Há pessoas que acreditam que os deuses de nosso mundo saíram de férias, para alguns são as figuras do show business do momento. Por isso me valho dos antigos para falar de um tema tão caro como as imagens e imaginários do masculino e do feminino.

O mundo dos olimpianos, regido por Zeus, acompanhado por sua consorte, Hera, e por uma corte  ilustre, como a personificação do amor, Afrodite, o deus da guerra, Ares, entre outros, nos é conhecido, no entanto, pouco sabemos do mundo anterior a esta ordem. A terra em suas profundidades registra o culto à grande mãe, senhora das plantas e dos animais, portadora de fertilidade e do crescimento da natureza. Quando Zeus se instala no Olimpo, a grande mãe cede lugar às disposições do pai, mas ela ainda conserva espaço no panteão. O poder do feminino cede lugar ao masculino, marcando uma passagem de um vínculo indiscriminado e inconsciente com a natureza ao reino da palavra, ao logos, ao plano da consciência, à lei e à norma. Posteriormente, a própria multiplicidade do panteão helênico será destronada pelo deus único, onipotente, onisciente e onipresente, e agora a mulher perde o cetro e o trono de vez. Sem divindade, será responsabilizada por ter trazido a tentação aos homens, figuração do pecado ou da ignorância no melhor dos casos.

Após o advento do Cristianismo, a única imagem feminina permitida será a mãe do filho de Deus, senhora imaculada, pura, abnegada, obediente, entre outros atributos que a tornam digna de culto, mas a distanciam da humanidade das mulheres. Beleza, charme, primos da sedução, associados aos prazeres da carne, lugar do pecado e da corrosão do espírito estão banidos.

O panteão grego no qual os deuses amam e odeiam, tecem alianças e tramam vinganças responde a uma compreensão do humano sujeito a múltimas forças que desconhece, repleto de ambiguidades que ama e odeia. Ambiguidades que se perdem na idealização do mundo judaico-cristão e que a duras penas buscamos entender no século XX com o discurso da psicanálise. Idealização que nos distancia de uma visão “real” de nós mesmos e compreensiva de nossos pares no mundo.

Recupero esta ideia, pois as mulheres, hoje, estão em luta pelo poder e esta luta passa pela compreensão do imaginário. No século XX, em um século de tantas conquistas, a mulher conquista as ruas, o mundo do trabalho, a sua sexualidade, contudo persiste a crítica de que ela ainda quer ser feliz no amor e no casamento e para isso recorre a estratégias para agradar o homem e ainda pensa em comidas gostosas e se dedica a afazeres “do lar”. Uh!

 Certamente, precisamos de mais mulheres no Congresso, precisamos de igualdade, de respeito nas relações. Nenhum tipo de roupa pode ser justificativa ou atenuante para um estupro. Contudo, considero que a questão não para aí, não adianta mulheres no poder com um funcionamento masculino desqualificando outras mulheres. A própria mulher precisa conhecer e reconhecer a multiplicidade do feminino, sem buscar estabelecer a visão “certa” do feminino. Uma visão feminina não se arrola a verdades, nem busca ser a maior, compõe e não compete, alimenta e gosta do alimento, e, sem dúvida, é  tolerante e inclusiva, porque entende a vida como processo.1 a 1 a a a a mar sao carlos13 homem feminista

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Uma conversa sobre comportamentos, a relação estímulo-resposta

Neste semestre comecei a estudar o behaviorismo, uma corrente que parte da biologia para entender os comportamentos, não vou entrar em detalhes, apenas compartilhar algumas reflexões sobre a conhecida díade estímulo-resposta.

Observando os comportamentos, Pavlov, um fisiologista, descobriu o mecanismo de estímulo-resposta, percebendo que há respostas independentes de nossa vontade, nomeou-as comportamentos respondentes incondicionados ou reflexos, como o piscar os olhos, quando um objeto se aproxima do olho. Ficar com água na boca ao ver uma comida gostosa também é um comportamento nesta linha.

Nos reflexos incondicionados, a resposta origina-se imediatamente após estímulo, englobando toda atividade reflexa autônoma, que envolve glândulas, músculo cardíaco, entre outros. Dado que são respostas inatas, não dependendo de aprendizagem, esses comportamentos pertencem à natureza das espécies, desenvolvidos filogeneticamente durante sua evolução, garantindo sua sobrevivência. Agora Pavlov treinou um cão a salivar ao ouvir o som de um sino, pois ele toda vez tocava o sino, também lhe fornecia comida, assim percebeu que as respostas poderiam ser condicionadas.

John Watson ampliou os estudos nesta linha, percebendo que se os organismos podiam aprender novos comportamentos respondentes, ou seja novos condicionamentos, também poderiam aprender a sentir novas emoções, ou seja, estabelecer novas respostas emocionais. Todos sabem como é difícil manejar as emoções, porque são respostas reflexas. De nada adianta explicar para uma pessoa que o seu medo de barata é inadequado ou desproporcional,  pois cada um de nós responde de forma emocional a certos estímulos. Uma dor de barriga ao andar de avião ou na hora de fazer uma grande prova são reflexos condicionados.

Watson conduziu um célebre estudo com um bebê, que se tornou conhecido como o caso do o pequeno Albert e o rato, a pesquisa, hoje, esbarraria em problemas éticos, pois o bebê no final tinha medo até da barba do Papai Noel.

Esta linha da psicologia é polêmica, mas achei interessante fazer este compartilhamento, pois carregamos em nossa vida uma série de medos e tantas angústias que começaram na nossa infância, devido a emparelhamentos ocorridos naquele momento em que éramos frágeis e não tínhamos muitos recursos para lidar com o meio. Pesquisas nesta linha permitem entender que as pessoas podem construir novas respostas reflexas para estímulos que causam sofrimento.

Além disso, a idéia de que cada estímulo provoca uma resposta entrou em nosso imaginário, no entanto, boa parte das pessoas ainda não percebeu quais são os estímulos que elas provocam e se admiram com as respostas que recebem, por isso fica a reflexão.

PS. Ao longo do semestre compartilhei muitas ideias sobre comportamentos e otras cositas más com a minha turma na Psi e vários me ajudaram em diversos momentos, por isso fica o agradecimento a Denise Reis, Victor Lobo, Laura Savignano, Monica Rosa, Vanessa Arrais, para citar alguns. Valeu!

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A dança do casamento

Nestes dias participei de uma festa de casamento. Tratava-se de um casal, vivendo sob o mesmo teto há vários anos  que desejava consagrar sua união. Eles mobilizaram a família do outro lado do continente, amigos recentes e de toda a vida e fizeram a coisa acontecer. No dia, como de praxe, os noivos estavam nervosos, o juiz fez piadinha e as mães choraram. O violinista desafinou na hora da cerimônia, o tio cantou a valsa, os noivos dançaram, um pra lá, um pra cá, meio durinhos, denunciando que não haviam ensaiado previamente. Os animados inauguram a pista e a eles se juntaram os mais acanhados, todos queriam curtir aqueles clássicos de sempre que a banda tocava.

O casamento é um rito, no qual as duas partes afirmam perante todo o universo a vontade de traçar uma caminhada juntos, para o que der e vier, na alegria e na tristeza. Um compromisso para dar o melhor de si sempre e estimular o melhor no companheiro por toda a vida. Não é brinquedo não… Nas últimas décadas quando as tradições perderam a força e os costumes se liberalizaram, muitos casais, se juntam, mas fogem do sim do ritual. No Brasil, assim com em outros países, criou-se a figura da união estável para garantir os direitos àqueles que compartilham suas vidas, há mais de dois anos.

Casar hoje em dia, num tempo de sexo fácil e relações tão fluidas, líquidas como diria Bauman, parece um anacronismo. Jovens românticas/os sonham com o casamento, mas quando o pai entrega a moça no altar ao marido rola um frio na barriga na hora do sim, porque daí não há mais volta. Bem, alguns acabam voltando para a casa, mas não são os mesmos, muita água já rolou debaixo dessa ponte.

No caso, os meus amigos não são tão moços, sentiram mesmo é vontade de selar uma aliança e festejar com todas as pessoas queridas.

Eu curti.

 

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Batalhas

Todos nós temos as nossas batalhas. Os atletas sabem muito bem tudo o que tiveram que ralar para conquistar cada medalha: ficar longe das baladas com os amigos, dormir cedo e horas por dia de treino. Tem gente que batalha todo o mês para colocar o pão na mesa da família, outros lutaram anos a fio para obter a casa própria ou uma promoção. Muitos jovens batalham para conseguir uma vaga na faculdade, tantos adultos deram duro para voltar a estudar. Lembro de uma aluna que vendeu bolo, nos intervalos das aulas, durante dois anos para concretizar o sonho de fazer como trabalho de conclusão de curso, um livrorreportagem sobre Cuba. Conheço mães lutadoras que sozinhas criam os seus filhos e pais que lutam na justiça pela guarda compartilhada dos seus. Há tantos velhos na batalha para não perder a memória, nem o bom humor quando as dores já são crônicas. Existem as batalhas pela vida e contra as doenças, nessa o exemplo, sem dúvida, foi o vice-presidente, José de Alencar.
Batalhar não é brigar, longe do guerreiro ficar se enroscando com bobagens, ele só entra na batalha quando o objetivo vale a pena. A boa batalha exige de nós fibra de guerreiro. Objetivo definido, conhecimento das armas e das nossas destrezas, estratégia e determinação.
Contudo, batalha mais importante é aquela travada por nós, no nosso interior, contra a nossa preguiça, o nosso conformismo, as nossas intolerâncias e preconceitos, contra a nossa língua solta e tantas outras. Existe também a batalha de cada um contra os desejos do ego de reconhecimento, poder ou prazer.
O guerreiro vive alerta, junto a ele, sempre estao o escudo e a sua espada. Dizem que o melhor escudo é a correção e o amor, a melhor espada. Acredito.

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Fim de ano sem vexame, nem arrependimento

Há pessoas que pensam que o perigo das reuniões de fim de ano são as calorias, ledo engano. Aquela velha conjunção de verão, calor, pouca roupa, cervejinha, amigo secreto, risadas pra cá, abraços pra lá, caipirinhas pode fazer estragos. Tem gente que embalada pelos goles mete o pé na jaca. Quem só detona na comida tá no lucro. Não poucos perderam o emprego depois de uma festa de fim de ano. A lista de mancadas é farta: falar mal do chefe na frente dele, brigar aos tapas com aquela “colega”, ficar dando mole até para o garçom ou então ficar com o chefe. Daí se fica torcendo para o povo esquecer o sucedido nas férias. Tem chefe que sem dó nem piedade demitiu a estagiária com que andou aos amassos na noite anterior. E o problema se complica nestes tempos de celular com foto e facebook, as notícias e os vexames vazam com um clique.

Custa prevenir? Certamente. Numa festa com bebida livre, custa parar na 1ª cerveja ou ficar só no suco? Custa não dar mole para o chefe gatinho que vc sabe que é casado? Custa, sim.  Mas a gente não precisa ser o motivo da falação da galera nos meses seguintes.

Dicas para curtir na elegância:

Roupa – item importante. O visual não pode ser daqueles que só falta a inscrição: hoje eu pego alguém! A gente precisa estar bem, cada qual no seu estilo. Deixe as roupas muito curtas e decotadas para ocasiões particulares, longe do trabalho.

Discrição – tudo bem você querer ficar com algum gatinho que te dá mole, mas ninguém precisa ficar sabendo. Dêem um jeito de sair à francesa.

Bebida – se não tiver costume, evite, não vai ser no dia da balada da empresa que você vai aprender. Se tiver, não precisa mostrar para todos a sua quedinha por uma birita.

A máxima é não fazer nada que possa deixar uma triste marca no nosso “currículo”. Custa, mas vale a pena, nos livra do arrependimento do dia ou meses seguintes.

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Dos antigos, uma utopia para a mulher de hoje

Pergunto-me, por que, nós, mulheres, sempre estamos tomando conta de mil coisas, pais, irmãos, amigos, filhos (e a escola dos filhos), trabalho, alunos etc. e não cuidamos da gente? Vivemos sempre em função, mas não conseguimos abrir um espaço para fazer ginástica, sair com as amigas, cuidar das costas, fazer um curso, ler um livro que não seja do trabalho, às vezes, nem para o cabeleireiro…

Se cuidar, se nutrir, se acertar, curar as dores, parece perfumaria, coisa de quem tem tempo, ou seja, de dondoca. E nós atarefadas mulheres modernas, passamos longe disso! Por sua vez, as necessidades dos outros não param, só crescem, como bola de neve. Todas são sempre mais importantes do que as nossas. Aquele nosso desejo pode ficar para depois…

Mas como tomar conta do mundo se a gente não cuida da gente? A hérnia arrebenta, o coração quase infarta, ganhamos tendinites, hipertensão, enxaquecas e outros problemas, para só aí percebermos que nosso ser precisa carinho e atenção.

Entre as populações nativas e para os antigos, havia alguns dias do mês e tb do ano (durante rituais para as deusas) que as mulheres ficavam entre mulheres para se nutrir, descansar, cuidar suas dores. Ninguém questionava, era necessário para elas e para toda a comunidade. Soa como coisa muito distante, fica como utopia.

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Poder e salto alto

Nestes dias, fui ao cabeleireiro e li, na revista Lola, a entrevista de Arianna Huffington, cofundadora do portal de notícias Huffington Post, uma das mulheres mais poderosas mídia hoje. Ariana aborda diversos temas que tocam a mulher moderna, mas destaco a ligação que faz entre salto e a sensação de poder.

“Quem são essas mulheres que usam salto cada vez que saem de casa? Elas precisam tanto assim da confiança que a altura a mais dá a elas?”, pergunta.  Ela tem bronca do salto depois que sofreu uma queda e precisou ficar 2 meses de muletas, mas a pergunta continua relevante. Por que as mulheres precisam aumentar sua altura para se sentirem poderosas?

Saltos são lindos, altos e finos, então, fazem a dona dos pés se sentir nas alturas, literalmente, mas também, porque exalam sensualidade e poder. Dobradinha mega desejada pelo mulherio hoje. No entanto, as mazelas doem na carne: o músculo encurta, os pés sangram, criam calos  e há o risco de queda. Mesmo assim, algumas mulheres recorrem ao uso de botox para deixar as extremidades mais resistentes para os saltos! Por que a mulher faz isso consigo mesma? O que ela busca no espelho do outro? Aceitação? Amor? Quer se sentir gostosa? Poder feminino?

Lembrei de um conto de Machado de Assis, O Espelho, nele, o personagem, um alferes da Guarda Nacional, precisava de uma farda para se ver. Fiquei pensando que o salto ajuda a criar a personagem, por isso muitas mulheres não descem do salto nem para tomar café da manhã.

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Simplicidade

Como eu queria que a vida fosse mais simples!

Hoje as coisas andam tão complicadas! Desde escolher um shampoo na prateleira ao canal de TV para assistir. Temos TV, internet, microndas e milhares de contas para pagar. Temos milhares de redes sociais e ainda patinamos nos relacionamentos face a face.

A gente complica tudo. Complicamos o amor, as relações (com os vizinhos, com os colegas de trabalho, no trânsito…). Tem gente que complica por querer mostrar poder ou sabedoria, outros complicam, simplesmente, por ser do contra: “Si hay gobierno, soy contra!”

Como eu adoraria entender a vida na sua simplicidade e na simplicidade dos seus ensinos. Um dia segue outro dia, na cadência da noite e do dia. Há tempo para tudo na vida, para plantar, para colher, para adubar a terra, quem perder o momento, só no próximo ciclo.

Vidas surgem e vidas se encerram. Só o tempo é eterno. O que tem vida se transforma, a morte é a suprema transformação. O novo nos renova, pois renova a esperança: cada novo traz em si a possibilidade de um recomeço.

Como eu queria que a vida fosse mais simples! Como eu queria …

– Ver o nascer do sol.

– Viver com menos.

– Andar descalça na chuva.

– Não ter vergonha de dizer eu te amo para as pessoas que amo!

– Conversar mais com os meus amigos.

– Ver o sorriso de uma criança.

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No equilíbrio, entre salto alto e a gravata

Nem é preciso sair à rua vemos que as mulheres têm conquistado grande espaço no trabalho e em toda a vida social. Há juízas, médicas até aviadoras, cada vez mais são chefes das próprias famílias e algumas vão até sozinhas para a balada.

Passamos décadas lutando por espaço, reconhecimento e direitos. Aprendemos as ferramentas para conquistar um lugar neste mundo: o estudo mostrou-se a melhor delas. No entanto, o mundo é masculino, suas formas de saber e de poder, seja no trabalho, na escola, na política ou na igreja, respondem a uma linguagem desse gênero. A emotividade e a intuição passaram séculos hibernando desqualificadas, apenas recentemente se reconheceu a existência de uma “inteligência emocional”. Atributos do feminino foram historicamente associados à futilidade, à perfumaria, quando não motivos de piadas ou usados para vender cerveja. Quando a mulher se zanga é porque está com TPM, se dirige mal deve voltar a pilotar seu fogão, se foi promovida, dormiu com o chefe… é cansativo precisar a todo momento provar o seu valor!

Buscando uma aura de seriedade e fugindo do estigma, a mulher acabou adotando uma postura masculina, em suas ações, trejeitos e até nas roupas. Incorporamos não apenas o terno (quando não a gravata), mas também os valores. Chorar, hoje, também é feio para a mulher.

O que seria um jeito “mulher” de ver e de experimentar o mundo? Penso que ele busca aliar os saberes aprendidos aos saberes do gênero. Salto alto e autoridade, suavidade e decisão, nutrição, criatividade e ousadia, intuição e racionalidade, inteligência e alegria.

O desafio para o século XXI é recuperarmos o jeito feminino de estar no mundo e o reconhecimento que ele merece e assim caminharmos lado a lado com os homens, cada qual com a sua dor e sua delicia. O mundo tem a ganhar com isso.

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Um arqueólogo para nossa mente

Muitos querem conhecimento. Desde que temos notícias, o homem busca conhecer o cosmos, a natureza, as partículas. A ciência avançou a passos largos, mas ainda temos vários oceanos de desconhecidos. Um desses oceanos é o próprio homem e sua mente. Essa mente (psique dirão os psicólogos) que permite nosso funcionamento no mundo, possibilita pensar e aprender, rir e imaginar. Pela mente passam nossas sensações, o amor, a raiva, a inveja. No entanto, a mente nos prega peças. Nos faz dizer coisas que não queremos ou então nos faz perder a palavra, mesmo tendo coisas importantes a dizer. Não nos permite enxergar o que está debaixo do nosso nariz: todo mundo viu que o nosso namorado é um sem vergonha, que nosso chefe é um explorador, que nosso filho mente etc. só a gente não… A gente vê com toda clareza a sombra do outro, mas a nossa, é nosso grande desconhecido.

Jung falou desse aspecto de nossa mente, a nossa sombra. Stevenson dedicou-lhe um romance, O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Dr. Jekyll percebia uma dualidade em sua natureza, quantos de nós percebemos nossos múltiplos eus, mesmo sem ter um diagnóstico de “personalidade múltipla”? Detectamos um eu que quer ser um adulto autônomo, outro quer ficar na já conhecida adolescência; um eu é da paz, outro, é briguento. Ficamos chocados quando vemos adolescentes quietos que pegam uma arma e, na escola, descarregam-na contra os colegas, numa reação ao maltrato que sofria.

A integração da sombra tem efeitos muito salutares, a pessoa se torna mais realista a respeito de si mesma. A maior ameaça não é o lobo mau, este um adulto pode reconhecê-lo, mas o mal que está em nós e não temos ciência, a nossa sombra que vai atraindo (e se enroscando) em outras sombras e não permite construir ou obter nossos melhores desejos. O analista junguiano, John Sanford, lembra que “a honestidade é a grande defesa contra o mal genuíno. Parar de mentir para nós mesmos a respeito de nós mesmos, essa é a maior proteção que podemos ter contra o mal.”

Antes de assustar alguém, cabe dizer que a sombra pode ser perturbadora, mas não necessariamente é má, Jung disse que 90% da sombra é ouro puro. A sombra é aquele aspecto reprimido da personalidade e ao longo da vida reprimimos tantos aspectos buscando ser aceitos… Há mulheres que reprimem uma personalidade viva para não chocar a família, quando não reprimem suas verdades, vontades ou até a raiva. No ocidente nos livramos da repressão sexual, mas homens e mulheres temos que fazer um trabalho de arqueólogo para alcançarmos o conteúdo soterrado em nossa mente.

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Sabedoria de uma professora Dagara, Sobunfu Somé

“Em um relacionamento existe uma tendência natural de os espíritos de ambas as pessoas se unirem. Quando 2 espíritos de ambas as pessoas conseguem, de fato, comungar profundamente, sem interferência da mente, as pessoas formam uma ligação muito forte, sincera e amorosa. Quando não levamos em conta o espírito, deixamos o ego tomar conta dos problemas de relacionamento ou simplesmente escondemos nossos problemas, para nos sentir bem. Como resultado, podemos achar que estamos controlando tanto a nós mesmos quantos os nossos relacionamentos, mas, na verdade, não estamos – como descobriremos quando as coisas começarem a desmoronar.” Sobunfu Somé caminha pelo mundo ensinando a sabedoria tradicional, tão mal tratada no ocidente. Em seu livro O espírito da Intimidade. Ensinamentos ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar, a autora nos traz um pouco de luz para nossa caminhada, por vezes tão difícil nas nossas cidades, cheias de concreto, stress e tarefas, onde o brilho das estrelas fica escondido pela claridade das lâmpadas e a beleza do por do sol, pela poluição. Ah, os Dagara, formam as comunidades tradicionais de Burkina Faso

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Da pílula e da rebeldia

Nestes dias a senhora pílula celebrou 50 anos. 50 anos de lançamento nos EUA, diga-se. De lá para cá, no ocidente, mudaram muitos valores acerca da posição da mulher na sociedade. Vivendo num mundo de liberação sexual, uma jovem hoje não tem ideia do papel esperado das mulheres até não muito tempo, até o fim dos anos 70, na verdade.

Havia o comportamento esperado para a mulher, uma pressão para ser certinha, adequada, obediente, controlada,  uma santa, sinônimo de delicadeza e beleza. Em outros tempos a inadequação era vista como descontrole ou  loucura, sendo punida com o estigma ou o banimento. Embora hoje as pressões tenham se modificado um pouco, ainda hoje percebemos alguns resquícios desse padrão.

Nossas mães são dessa época de transição -de quem tem mais de 30 anos, claro- viveram um momento de forte pressão da família sobre o que era aceitável, mas por outro lado, começava a se desejar que a mulher estudasse e a falar da pílula e da possibilidade do controle da fertilidade e a conquista da liberdade sexual. Muitas foram à universidade, sonhando lá encontrar um marido provedor e lá encontraram novas ideias e novos horizontes.

Até então, o desejo era associado à pecado e a mulher que sucumbisse se tornava uma pecadora ou puta que deveria ser banida. Uma “boa” mulher deveria casar virgem e saía da tutela do pai à tutela do marido. Mulher separada perdia as amigas, ter a palavra desquite nos documentos era quase com ter a inscrição “vagabunda”.

Uma das grandes tragédias sociais é que por um lado, vemos uma discrepância entre o consenso sobre o que se apresenta como o comportamento aceitável e o impulso divergente do indivíduo. Na busca por uma adequação, homens e mulheres, nos reprimimos e nos tornamos “adequados” e “certinhos”, deixando de manifestar nossos desejos, aquilo que pulsa no interior de cada um.

Naquela que a vida pulsava a ponto de desafiar o coletivo, sua rebeldia foi vista como loucura. A escultora Camille Claudel, amante de Rodin, foi execrada pelos parentes, outro caso emblemático é a irmã de Robert Kennedy, internada e lobotomizada pela família por não se adequar ao padrão, dizem os psiquiatras que ela sofria de dislexia.

E o hoje, onde estaria a rebeldia?

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Chaves, mapas e caminhos

Felicidade, vitalidade, entusiasmo, amor, alegria, beleza.

Essas palavras estão em nosso entorno, mas a gente se sente longe delas.

Queremos isso tudo, mas onde procurar? Como chegar lá? Nenhum mapa indica o caminho. As receitas divulgadas pela mídia nos falam de um corpo esguio, uma pele firme, um sorriso perfeito. Perfeito para ganhar a aceitação dos outros.

Clarissa Pinkola Estés e seu livro Mulheres que correm com os Lobos fornecem uma chave para cada uma de nós, mulheres, acessarmos a porta que leva ao caminho. Para o nosso caminho.

A cantadora e contadora de histórias nos introduz a um universo de mitos, contos de fadas, lendas do folclore de diversos pontos do mundo, recolhidos e estudados ao longo de anos de pesquisa. Uns, como o patinho feio, povoam o nosso imaginário desde a infância, outros, nós recordamos das aulas de história, alguns surgem nas revistas femininas, mas, na verdade, a maior parte nos é desconhecido. Através da leitura percebemos a falta que nos faz não termos acompanhado as aventuras e desventuras de Vasalisa, da mulher-foca e da donzela sem mãos, bem como desconhecermos a sabedoria da velha do deserto, de Baba Yaga, de Baubo, entre tantas outras mulheres que dos ossos recolhidos pelo caminho geram vida ou regeneram a vida ferida ou empobrecida que chega às suas mãos.

Hoje, tal como as florestas, a natureza instintiva  da mulher tem sido empobrecida e dizimada.  Clarissa observa que à semelhança da fauna silvestre e das florestas virgens, “as terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar os outros.” Mas como voltar a ela? Vivemos em grandes metrópoles, nas quais estudamos, trabalhamos, rimos e choramos. O cotidiano de profissionais, mães e esposas parece não combinar com a mulher selvagem, no entanto, todas, numa certa fase da vida, nos encontramos perplexas frente a uma grande questão existencial: onde foi que me perdi para me encontrar?

Mas, longe de citar Eva, Salomé, Circe, Medusas, Sereias mulheres que encantam e levam os homens à perdição  ou conduzem a humanidade à expulsão do paraíso, a tradição mundial é vasta, Clarissa Pinkola Estés nos oferece um tesouro. A partir de diferentes histórias, tece uma trama que joga luz a um conjunto de aspectos de nossa vida psíquica. Nos fornece uma linha que ao segui-la adentramos numa floresta de significados, permitindo-nos vislumbrar trilhas de entendimento, a transformação de velhos padrões e a construção de novas práticas. Histórias são bálsamos medicinais, diz a analista junguiana.

Ela traz a compreensão que a mulher selvagem não é uma religião, mas uma prática: um conhecimento da alma. Este conhecimento nos permite encontrar a vida que pulsa no íntimo de nossas veias, acessar a lagoa de nossos melhores desejos e o pulsar de nossa criatividade esperando apenas uma fresta para se manifestar.

Para a autora, a psicologia da loba é uma chave: “os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: a percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha. Têm experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Tem uma determinação feroz e extrema coragem”.

Vivemos sozinhas em meio ao concreto das cidades, longe da sabedoria da floresta, mas nada impede que formemos um clã para caminhar juntas, trocar experiências e aprender com a sabedoria das mulheres. Na alegria e na união, pois nem o solitário quer solidão.

Viva as lobas!

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