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Quando a doença pode nos conduzir à cura

A doença é o lugar onde se aprende (Pascal)

Ninguém gosta de ficar doente, mesmo ter  uma pequena gripe é muito chato, outras afecções então? Vixe! Todo mundo quer saúde e sorte, como diz a canção, mas tem hora que o nosso corpo nos surpreende por alguma afecção/aflição.

Nossa linguagem é reveladora, dizemos: meu pé dói, o meu estômago reclama, o meu intestino está preso, meu rim junta pedras, a minha cabeça dói… Como se houvesse certa autonomia destes órgãos: são eles, não nós!

A pele que habito, título de um filme interessante do Almodóvar, talvez exponha a nossa relação com o corpo, que, não raro, nos parece tão estranho, quase um “outro”, isto ocorre porque somos seres cindidos, como dizem os profissionais da psi, algo que Descartes colocou de forma bem clara, sou uma “coisa pensante”, ao formular a já clássica divisão entre corpo e alma.

A psicossomática, área que entende o humano como uma unidade e busca reconciliar corpo e psique, entende a doença como símbolo. Não uso mente, pois esta “mente” onde, simplificadamente “alojamos” a consciência, é apenas uma ponta do iceberg da psique.

A doença expõe um desequilíbrio que o corpo busca compensar; o sintoma, por sua vez torna-se o registro deste desequilíbrio. A doença seria a corporificação, de forma tresloucada, de um princípio original mergulhado no mar do inconsciente. Quando alguma questão que aflige a psique não chegou à consciência, o corpo entra como substituto e o faz a seu  modo corporal: na forma de dor, febre, inflamação, ulceração, crescimento aleatório de células (comumente chamado câncer) em suma, na forma de sintoma. E só quando a psique passa a cultivar o tema, o corpo deixa seus esforços sintomáticos, ou seja, alivia ou abre mão do da febre, da dor, da inflamação, do crescimento aleatório de células e se restabelece.

Escrevo cultivar, pois tal como as plantas é um trabalho que envolve olhar, se aproximar, clarear (colocar luz?), ver o que esta criatura assombrosa (a doença) precisa. Isto delicadamente e com cuidado, pois se trata de nós mesmos. Há uma necessidade psíquica nas sombras, reclamando para ser vista. De acordo com a psicossomática, o corpo manifesta um desequilíbrio em certa área de seu ser que o próprio sujeito é inconsciente. Tomando como premissa a antiga e conhecida correspondência entre forma e conteúdo, onde há uma forma, certamente há um conteúdo que urge trabalhar.

Nesta perspectiva, o que está em jogo no restabelecimento (cura?) é assegurar o equilíbrio não com passos involuntários e cheios de sofrimento, mas com passos voluntários e conscientes. Legal, mas é fácil? Não, pois a doença envolve sombras. Como se diz por aí, é mais fácil encontrar um cisco no olho do outro do que uma trave no nosso olho. Ver a doença como símbolo pode conduzir a verdades nada agradáveis, mas necessárias no processo de tomada de consciência e desenvolvimento de nós mesmos. Enfrentá-las, são outros quinhentos, exige coragem e determinação, pois temos a tendência a nos acomodar em uma zona de conforto. Assim, nesta visão, a cura não vem pela mão do médico que faz uma cirurgia ou receita alguns comprimidos, só é possível a partir da força do sujeito. Ver, enxergar e cultivar a nós mesmos torna-se um assumir a responsabilidade. Qual é a minha dívida para com o meu futuro?

Por isso, alguns autores como Rüdiger Dahlke, falam na doença como caminho, pois apenas quando estamos doentes nos indagamos pelo que nos falta e só então podemos descobrir o que está errado. E este “erro”, por sua vez torna-se uma possibilidade de integração de nossa vida e, consequentemente, de viver na saúde, ou seja, da plenitude que a vida espera de nós.

Fonte: Dahlke, Rüdiger. A doença como símbolo. Cultrix.

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Conversas sobre a medicina, o corpo e a saúde

Nestes dias de férias no Chile, aproveitei para colocar em dia a visita aos médicos da minha mãe que chegando à casa dos 70 anos precisa passar pelos controles. Lembrei-me que já havia peregrinado por muitos consultórios ao seu lado quando ela ainda morava no Brasil nos anos 1980.

Dona Patrícia, minha mãe, é daquelas pessoas que sempre tinha alguma dor, no mínimo, um resfriado, ou então, precisava tratar alguma coisa que não gostava. E ela não gostava mesmo é de suas gordurinhas, mas sempre adorou bife com batatas fritas, era viciada num docinho, passando longe das verduras. Sempre queria sair para comer “algo rico”. “Ese dulce me cierra un ojo...”, diz até hoje com um olhar de criança marota.

Começou a fazer ginástica algumas vezes, optava por planos semestrais, contudo quem terminava o plano era eu, certa vez, junto com uma amiga matriculou-se em dança espanhola, comprou as sapatilhas e as castanholas, que em poucas semanas já estavam largadas em algum canto.

Buscando emagrecer fez tudo quanto apareceu, purgações com líquidos e massagens, visitou muitos médicos que lhe indicaram muitos remédios, de ansiolíticos àqueles para a tireóide. Emagrecia um pouco, mas engordava muito mais, insatisfeita, cansada de tanto tratamento, procurou um método radical: a cirurgia plástica para redução do abdômen. Ficou magra, mas em dois anos a cintura havia voltado ao patamar anterior.

Depois, já morando no Chile, começou a apresentar problemas de pele, ela se auto-diagnosticou tendo algo como bicho geográfico, ou algo parecido, mas este só aparecia onde suas unhas alcançavam. Visitou diversos médicos, nenhum deles encontrou nada, sendo despachada rapidamente, a última dermatologista sugeriu que talvez fosse produto de ansiedade, mamãe não acreditou, “Imagina!”

Homem Vitruviano, desenho de Leonardo da Vinci

Hoje, vejo que a nossa medicina tradicional ao tratar o paciente aos pedacinhos peca ao não buscar uma compreensão do todo. Procura em exames algum indício de um desvio de padrão de saúde, daí encontra um sintoma e prescreve um tratamento. Para diabete, a insulina, para pressão alta, o remédio x, para enxaqueca, outra pílula. Cada profissional conhece a sua especialidade -cardiologia, neurologia, dermatologia, para citar algumas-, no entanto, do todo ninguém toma conta e as angústias do sujeito que aparecem no sintoma não são olhadas, nem recebem encaminhamento… Só quando o caldo entorna, ou seja, quando a vida fica permeada pelo sofrimento, vai se procurar algum doutor da psique e olhe lá, pois todos têm medo da loucura.

A fragmentação ainda é regra, mas creio que em alguns espaços esse entendimento do corpo começa a mudar.

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O que não é ilegal, nem imoral, nem engorda

 Nesta semana, com algumas amigas discutíamos sobre os papeis da mulher hoje, conversa vai, conversa vem, nos perguntamos, o que busca a mulher? Choveram idéias: consciência, desenvolvimento profissional, reconhecimento, harmonia, qualidade de vida, equilíbrio, amar e ser amada, enfim.

Ao analisar nossa lista percebemos uma significativa ausência: o prazer. Em meio às batalhas do cotidiano parece heresia pensar em prazer e, se em cada uma de nós há uma guerreira buscando dar conta das mil urgências, como achar espaço para curtir a vida?

A ideia chega tão contaminada que se torna difícil pensar nela. É preciso lembrar que desde os primórdios, as mulheres fizeram parte dos botins de guerra e seus corpos ficavam a serviço do prazer dos homens, que quando vencedores entravam nas cidades saqueando e estuprando.

As religiões patriarcais como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo aprisionaram o corpo, pois o desejo e sua realização, o prazer, tornaram-se responsáveis pela queda do homem. Nesse sentido, a prostituição foi vista como um mal necessário, para preservar a santa esposa. O prazer era coisa de puta.

No século XX, a mulher se apropria de seu corpo e do seu destino, muito bem, passamos uma borracha em tudo o que se aconteceu e agora ficou tudo certo? Acho que não, porque os corpos ainda sofrem.

Em pleno século XXI, boa parte das mulheres ainda sente as consequências de uma educação repressiva que exigia o controle das pulsões e esconder o corpo dentro de roupas fechadas e apertadas, muitas ainda usam seus corpos como instrumento de poder (seja para sacanear o marido ou para conseguir uma promoção) e outras se torturam em cirurgias ou não comendo, na busca de se adequar a um padrão de beleza que não calça com o seu tipo físico.

Grupo Corpo. Foto José Pederneiras

Nos esquecemos que a vida pulsa através do corpo: de todos eles. O corpo nos contém, nos protege, nos preenche de sensações, nos ergue, nos dá o aqui e o agora, nos impulsiona, nos faz caminhar, nos faz voar. Através dele somos graça, alegria e sensualidade. E caminhar com prazer não é ilegal, nem imoral, nem engorda, é uma salutar dever.

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O corpo e seus sinais

Não poucas vezes somos surpreendidos pela vida, mas há diferentes tipos de surpresas. Num desses dias uma amiga começou um tratamento contra um câncer. Todos nós temos algum familiar, amigo ou conhecido que teve ou tem o que genericamente chamamos câncer. A palavra assusta. Fui pesquisar sobre o assunto e descobri que os médicos o denominam neoplasias (neo = novo + plasia = formação), ou seja, trata-se de um crescimento desordenado de células.

Não sou das que separam corpo e mente, acho que as duas instâncias fazem parte da totalidade do nosso ser. Algumas pessoas desenvolverão gastrite, outras alergias, problemas de pele, miomas no útero, enfim. O que explica essa propensão? A genética em parte, outra parcela da explicação talvez esteja relacionada à nossa forma de processar as nossas questões ao longo da vida.

Voltando ao ponto, o que chamamos câncer é uma acelerada renovação de células. Parece que se a gente não vai atrás do novo, a vida renova a gente. Fico pensando que talvez o organismo esteja buscando se renovar, sem saber como fazê-lo… querendo largar o velho -velhas fórmulas e padrões de funcionamento- para liberar espaço para o novo. Sem a liberação de espaço, nada novo pode entrar… Pode ser uma viagem minha, mas ouso compartilhá-la.

Ninguém gosta de ficar doente, mas as doenças nos apontam um desequilíbrio, ele já está instaurado há tempos, só que a gente só percebe quando ele já causou algum estrago. As doenças nos alertam que precisamos prestar atenção na gente, cuidamos tanto de tantas coisas –filhos, marido, trabalhos- e perdemos a nossa conexão com nossos sonhos e desejos. Aí, de repente, o corpo se rebela e a cabeça pira.

O que fazer para não pirar nesse momento em que a gente nem sabe por onde começar? Sair à procura daquilo que realmente importa. Aqui lembro Gonzaquinha:

A gente quer calor no coração

A gente quer suar, mas de prazer

A gente quer é ter muita saúde

Não há receita, mas vale o ditado, “quem procura acha”.

PS. Escrevo lembrando a minha querida tia Julia.

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