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No Olimpo, na casa ou no trabalho, imagens da mulher que não é santa nem é p…

Há pessoas que acreditam que os deuses de nosso mundo saíram de férias, para alguns são as figuras do show business do momento. Por isso me valho dos antigos para falar de um tema tão caro como as imagens e imaginários do masculino e do feminino.

O mundo dos olimpianos, regido por Zeus, acompanhado por sua consorte, Hera, e por uma corte  ilustre, como a personificação do amor, Afrodite, o deus da guerra, Ares, entre outros, nos é conhecido, no entanto, pouco sabemos do mundo anterior a esta ordem. A terra em suas profundidades registra o culto à grande mãe, senhora das plantas e dos animais, portadora de fertilidade e do crescimento da natureza. Quando Zeus se instala no Olimpo, a grande mãe cede lugar às disposições do pai, mas ela ainda conserva espaço no panteão. O poder do feminino cede lugar ao masculino, marcando uma passagem de um vínculo indiscriminado e inconsciente com a natureza ao reino da palavra, ao logos, ao plano da consciência, à lei e à norma. Posteriormente, a própria multiplicidade do panteão helênico será destronada pelo deus único, onipotente, onisciente e onipresente, e agora a mulher perde o cetro e o trono de vez. Sem divindade, será responsabilizada por ter trazido a tentação aos homens, figuração do pecado ou da ignorância no melhor dos casos.

Após o advento do Cristianismo, a única imagem feminina permitida será a mãe do filho de Deus, senhora imaculada, pura, abnegada, obediente, entre outros atributos que a tornam digna de culto, mas a distanciam da humanidade das mulheres. Beleza, charme, primos da sedução, associados aos prazeres da carne, lugar do pecado e da corrosão do espírito estão banidos.

O panteão grego no qual os deuses amam e odeiam, tecem alianças e tramam vinganças responde a uma compreensão do humano sujeito a múltimas forças que desconhece, repleto de ambiguidades que ama e odeia. Ambiguidades que se perdem na idealização do mundo judaico-cristão e que a duras penas buscamos entender no século XX com o discurso da psicanálise. Idealização que nos distancia de uma visão “real” de nós mesmos e compreensiva de nossos pares no mundo.

Recupero esta ideia, pois as mulheres, hoje, estão em luta pelo poder e esta luta passa pela compreensão do imaginário. No século XX, em um século de tantas conquistas, a mulher conquista as ruas, o mundo do trabalho, a sua sexualidade, contudo persiste a crítica de que ela ainda quer ser feliz no amor e no casamento e para isso recorre a estratégias para agradar o homem e ainda pensa em comidas gostosas e se dedica a afazeres “do lar”. Uh!

 Certamente, precisamos de mais mulheres no Congresso, precisamos de igualdade, de respeito nas relações. Nenhum tipo de roupa pode ser justificativa ou atenuante para um estupro. Contudo, considero que a questão não para aí, não adianta mulheres no poder com um funcionamento masculino desqualificando outras mulheres. A própria mulher precisa conhecer e reconhecer a multiplicidade do feminino, sem buscar estabelecer a visão “certa” do feminino. Uma visão feminina não se arrola a verdades, nem busca ser a maior, compõe e não compete, alimenta e gosta do alimento, e, sem dúvida, é  tolerante e inclusiva, porque entende a vida como processo.1 a 1 a a a a mar sao carlos13 homem feminista

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Deméter e o mistério do grão da vida

Deméter

Os registros de sua origem remontam ao século XII a.C, mas talvez esta esplendorosa deusa ctônica seja bem anterior. As venturas e desventuras desta grande mãe foram registradas no Hino a Deméter, atribuído ao poeta Homero, no século VIII a.C..

Deméter e Pluto

Filha de Cronos e Reia e irmã mais velha de Zeus, conta-se que Zeus a perseguia, louco de amores, Deméter procurando escapar disfarçou-se como égua, o deus metamorfoseou-se em cavalo e a possuiu contra sua vontade em uma gruta. Dessa união nasceram dois filhos, o cavalo Aríon e uma filha cujo nome verdadeiro não se conhecia fora do templo, chamada pelo povo Déspoina, simplesmente, a Senhora. A deusa, tomada pela dor e pela vergonha, cobriu-se de véus pretos e se escondeu numa caverna. Buscou purificação para o ultraje nas águas do Rio Ládon.

Durante uma festa, a deusa embriagou-se com ambrosia e ficou fascinada por um mortal, Iásion, e com ele se uniu sobre um terreno lavrado três vezes, Zeus irado com o flerte enviou um de seus raios, fulminando o mortal. Desta união concebeu Pluto, o deus da fertilidade agrária. Deste mito surge, provavelmente, um antigo ritual de fecundidade da terra consistia na união do camponês e de sua esposa, numa noite sobre a terra que viria a ser cultivada, a fim de despertar a vegetação.

A deusa tinha uma linda filha, Coré, fruto de sua união com Zeus. A doce jovem desperta a paixão em Hades, irmão de Zeus que a rapta, levando-a para o seu reino.

Durante nove dias, Deméter chorou inconsolada, nenhum deus atreveu-se a lhe contar o paradeiro da menina, ela então deixa o Olimpo e sai à sua procura pelo mundo disfarçada de mortal. Em Elêusis, na Ática, se encontra com as filhas do rei Celeu e oferece-lhes os seus serviços como ama-seca, recebendo a tarefa de cuidar do irmão recém-nascido Demofonte, filho da rainha Metanira. Agradecida pela acolhida, a deusa começa secretamente a transformar Demofonte em imortal, alimentando o bebê com ambrosia, o alimento dos deuses e todas as noites o deita sobre carvões incandescentes num ritual da imortalidade. Antes da conclusão do processo, a rainha encontra horrorizada o filho no fogo. Deméter se revela em seu esplendor e zanga-se com Metanira pela interrupção do ritual: por sua culpa o filho estaria destinado a morrer como todos os homens.

A profunda dor da deusa pela perda da filha, causa uma grande seca na terra, o alimento começa a faltar e o futuro da vida começa a preocupar os olimpianos, buscando demover Deméter de sua tristeza, Zeus envia-lhe oferendas através dos deuses. Nada adiantou. Certo dia, a deusa chorava suas mágoas no poço das Donzelas, quando Baubo apareceu, procurou consolá-la com palavras doces, mas nada diminuía sua tristeza, nisso Baubo, sem mais, nem porque, levanta as saias e lhe mostra a vulva num gesto irreverente e obsceno. Surpreendida, a deusa solta uma risadinha, primeiro riso em meses.

Hécate comove-se com a sua dor, procurando Helios, aquele que tudo vê, para saber o paradeiro da jovem. A filha estava escondida no submundo, onde nem a luz chegava. Zeus então foi pressionando a interceder junto a Hades, a devolução da donzela. Coré, agora com o nome de Perséfone, voltaria ao mundo dos vivos se não houvesse provado alimento algum em sua jornada no reino dos mortos. Hades, apaixonado pela jovem, antes de deixá-la partir colocou em sua boca algumas sementes de romã. Assim, por ter ingerido alimento, Perséfone deveria passar uma temporada do ano junto à mãe e depois retornar junto a Hades, onde se tornara rainha. Nos quatro meses em que residia  nas profundezas, toda a vida na terra secava para renascer no retorno de Perséfone à Deméter, à terra, sua mãe.

Após este acordo, a deusa devolveu o grão da vida que ela em sua cólera havia escondido, mais do que isso, entregou o conhecimento da agricultura a Triptólemo, o outro filho de Metamira e do rei Céleu, de Elêusis, tornando-o o guardião dos seus segredos. Triptólemo também recebeu a missão de ensinar a todos os helenos os mistérios da agricultura. No templo que lhe foi construído em Elêusis, ela instituiu belos ritos, os Mistérios Eleusinos.

Deméter foi a mais cultuada das deusas gregas, do governante ao escravo, da mãe-de-família à prostituta, do ancião à criança, todos podiam ser iniciados nos rituais conhecidos hoje como Mistérios Eleusinos, desde que falassem grego para poder compreender o conteúdo das palavras e não tivessem cometido crime de sangue.

Deméter aparece como descendente direta da Deusa-Mãe da ilha de Creta, cultuada entre o terceiro e o segundo milênio a. C., cujas sacerdotisas prestavam culto ao touro, um grande símbolo da fertilidade. Acredita-se que o culto à deusa tenha chegado de Creta, por meio da cultura micênica do Peloponeso.

A Mãe da Terra, Deméter, governava o crescimento da vida, sagrou-se regente de toda a natureza e protetora das jovens criaturas indefesas. Deméter forneceu as chaves da produção dos alimentos e traduziu ensinamentos do ciclo da vida-morte-vida. Deméter estava associada à transformação, ao mistério que transforma a semente em uma planta que se tornará alimento. Acredita-se que ela ensinou os homens a arar a terra e as mulheres a moer o trigo e a fazer o pão. A cor dourada de seus cabelos reproduzia o ondulado dos trigais ao vento. O pão, central na nutrição do homem também é um símbolo do alimento espiritual. Deusa dos cereais, o seu culto marca o ritmo das estações e o ciclo da semeadura. Em referências mais antigas vemos a deusa segurando flores de amapolas em suas mãos e sementes de trigo e papoulas vermelhas em sua diadema.

O santuário de Deméter em Elêusis, construído sobre uma nascente sagrada, permaneceu ativo durante quase dois mil anos, sendo destruído no ano 396 d.C..

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Podemos encontrar o espírito de Deméter naquelas mulheres que andam rodeadas de crianças, vivem pensando na comida e nos agasalhos dos filhos, do marido e de quem estiver ao seu redor. Instintivamente cuida de tudo o que é pequeno, carente de defesa e em crescimento. A partir desta figura, a sociedade criou o estereótipo da mãezona, a protetora, que se doa incondicionalmente. O imaginário nos traz uma mulher gorda ao pé do fogão, cozinhando gostosuras. Representação útil em sociedades patriarcais, fonte de muita culpa para as mães modernas que não se encaixam no perfil.

Por outro lado, a mãe não quer perder a sua filhinha. Para boa parte das mães os namorados e os maridos estão raptando suas filhinhas… mostrando um mundo que ainda não deveriam conhecer… Interessante como todas as mães implicam com os namorados e/ou maridos das filhas, talvez porque a mãe resista a aceitar a transformação da filha em mulher e a sua própria transformação.

Este mito nos lembra que o longo percurso da vida requer transformações. O problema surge quando nos apegamos a um estágio e travamos o fluxo da vida. Vemos um exemplo naquela mãe que procura adiar o crescimento e a separação dos filhos, apegada àquele papel que já conhece tão bem. Se bem, hoje as mães andam de aspirador de pó e vão à ginástica, ainda querem os filhos ao seu lado, por outro lado, para muitos filhos hoje, a casa tornou-se um ninho tão confortável que relutam em partir para a sua própria jornada.

Este mito aborda o apego e as resistências às transformações da vida, nos conduz a reflexão acerca dos nossos comportamentos que precisam morrer: a preguiça, a língua-solta, a desatenção, a autocobrança, a autocomiseração, a intolerância? Quais apegos precisamos abrir mão para que a vida flua no seu curso? Aos filhos que querem crescer e nós os queremos sob as nossas saias? Ao conforto da vida de filhas/os (roupa lavada, comida na mesa, despreocupação com as contas no fim do mês)? Ao emprego que não nos oferece perspectiva, mas seguimos nele? A amargura que carrego comigo porque a vida não foi o conto de fadas que sonhei? À vidinha que construí e se tornou tão confortavelmente conhecida?

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Afrodite, a pura expressão do amor

Vênus de Milo, no Louvre

O amor, ah, o amor. Tanto já se fez e ainda se faz em nome do amor. Loucuras, desatinos e transformações radicais! Embriaguês que nos leva ao céu, a viajar pelas estrelas, mas também dilacerante pode se tornar uma paixão não correspondida. E sempre pode ser o início de uma grande história.

Uma grande deusa tem personificado esta doce vertigem que todo mortal anseia viver, Afrodite, intempestiva, ela chega dos céus sublime montada em um ganso ou por terra acompanhada de um grande cortejo de ursos leões ou panteras.

O mito sobre sua origem conta que Crono, a pedido da mãe, Gaia, enfrentou o tirano Urano e, na luta, decepou os órgãos sexuais do pai, lançando-os ao oceano, o esperma, a semente do Céu, jorra pelos ares. Da espuma do mar fertilizada, nasceu uma belíssima menina, nas costas de Chipre. Afrodite foi levada pelas ondas à Grécia, onde foi recebida pelas Graças que a vestiram com trajes lindíssimos e depois a conduziram ao Olimpo. As Graças, as deusas da beleza e do encantamento tornaram-se suas companheiras, ensinando-lhe todos os seus talentos.

Na Grécia, Afrodite ganhou um lugar entre os olimpianos e um marido, pois Zeus dispôs o seu casamento com Hefesto, deus ferreiro, embora coxo. Não tiveram descendentes, mas se acredita que do encontro entre a beleza e o divino artesão nasce toda sublime forma de arte na matéria, seus filhos se encontrariam por todo canto em toda produção que reúna arte e engenhosidade.

Afrodite de Cnido

Embora tentassem conter a beleza, a graça e o amor, Afrodite não era detida por laços, nem contida em redes, sempre impetuosa, livre para ir e vir, apaixonou-se por inúmeros mortais e imortais. Ares, deus da guerra, figura entre seus grandes amores, os dois protagonizaram uma memorável cena no Olimpo. Ares deixava seu quarto antes do amanhecer e o caso ficava em segredo, no entanto, Hefesto recebeu um aviso do deus Hélio, que tudo vê. Para se vingar, bolou uma rede de fios invisíveis para prendê-los ao leito e chamou todos os deuses a testemunharem a traição. Mortos de vergonha, os amantes fugiram, cada qual para um canto remoto da terra. Da união entre Afrodite e Ares, amor e guerra, dois opostos, nasceram Fobos (o medo), Deimos (o terror) e Harmonia, esta talvez a melhor representando do resultado da união das duas energias opostas.

Afrodite amou o deus do êxtase e do entusiasmo, Dionísio, desta união nasceu Príapo, protetor dos vinhedos e dos jardins. Hermes foi outro de seus amores, juntos conceberam o Hermafrodito (Hermes + Afrodite).

A deusa apaixonava-se pela beleza e protegia os heróis, entre seus amores mortais destaca-se, o belo e jovem, Adônis, disputado com Perséfone.

Afrodite também seduzia para satisfazer seus caprichos e, quando ofendida, não titubeava em se vingar. Nenhuma mortal podia ousar se comparar a ela em beleza. Certa vez, puniu todas as mulheres da ilha de Lemmos, porque se negavam a prestar-lhe homenagens. De sua pele fez exalar um cheiro nojento que levou todos os maridos fugirem com as escravas, elas em vingança mataram os maridos e  fundaram uma república só de mulheres.

A deusa, proveniente da Ásia, era uma estranha entre os olimpianos. Seus atributos, alegria, sensualidade, beleza e graça, pura expressão da divindade, a tornam irresistivelmente encantadora, entretanto, seu poder de sedução provocou muita inveja e desconfiança das demais deusas, mas principalmente de Hera, a senhora dos casamentos. Tanto foi que logo chegar obrigaram-na a se casar com o deus coxo. Para Afrodite, o amor não precisa de rituais, nem se vincula à instituição do matrimônio, representa o desejo, uma forte energia de atração que une os corpos e assim fecunda a natureza.
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O mito aponta uma diferenciação entre duas diferentes versões de Afrodite, Afrodite Urânia e Pandêmia. Urânia, a Celeste, celestial, sublime, amor etéreo, aquele que encontra e liga as almas, desligado da materialidade; na versão Pandêmia apresenta-se como “a venerada por todo o povo”, tornando-se inspiradora dos amores comuns, até mesmo carnais. Dualidade presente no amor.

Talvez seja uma das deusas mais conhecidas e das menos entendidas, pois todos querem amar e receber amor, mas muitos não conseguem alcançar o seu mistério. Amor é o nome que damos a um sentimento vasto. Há o amor amizade, o amor fraternal, entre pais e filhos, a uma causa, entre outros. Afrodite representa o amor-paixão irresistível que cega e enlouquece os amantes, levando-os a cometer tolices aos olhos de quem observa de fora, mas também pode mobilizar profundas transformações.

Afrodite representa esse magnetismo, energia vital que estabelece a atração entre os seres, sem ela o que nos ligaria às outras pessoas? O que poderia ligar dois seres tão diferentes como um homem e uma mulher?

Dizem que passar por esta vida sem amar e quase como não viver. Há o desejo de provar esse sentimento divino e, ao mesmo tempo, tememos a perda do controle pela paixão. Queremos ouvir o canto das sereias, mas não queremos nos perder em mares e oceanos desconhecidos dos nossos sentimentos. O temor à sedução do feminino recheia de mitos o nosso imaginário: as sereias, Circe, Eva, as bruxas e feiticeiras, entre tantas outras. O amor cega, é verdade, ele transforma inclusive uma das faculdades mais fiáveis: a visão. Sob o olhar do amante, o amado resplandece e as imperfeições desaparecem, a própria vida ganha um novo e saboroso colorido. Quem experimentou sabe.

Afrodite traz uma irresistível força para a procriação: a passionalidade é a mãe de toda criação. Esta energia reúne a força que movimenta e a semente divina que fecunda, traz a fertilidade ao mundo que se traduz em vidas, ideias e arte. O percurso da criação é similar para artistas, cientistas e todo aquele que busca produzir algo novo. Para trazer alguma uma coisa nova à vida, seja uma pintura, um romance ou mesmo uma teoria cientifica, precisa-se de um amante apaixonado, dedicado e louco pela sua criação. A paixão absorvente cega, não permite espaço para outra coisa na mente do criador.

O êxtase do amor com o amante, divina comunhão entre dois corpos, movimenta as energias terrenais e divinas, levando a concepção de um novo ser. Da mesma forma para o artista, o instante de criação é um momento mágico, de encontro com as musas, celestial inspiração, contam alguns que experimentaram…

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Atená, a deusa filha do pai

Nesta semana em que as mulheres recebem homenagens no ocidente, vou recuperar algumas das facetas do feminino que já abordadas em textos anteriores, mas voltar a elas sempre nos permite uma nova compreensão.

Um feixe de luz jorrou sobre o cosmo no momento em que Atená nasceu e a cidade de Atenas foi banhada com uma chuva de neve de ouro. O radiante ouro anunciava a aurora de um mundo novo, por sua vez, a neve trazia pureza e riqueza para fecundar a terra e o homem.

Zeus apaixonado pela oceânide Mêtis, aquela do sábio conselho, regente da sabedoria e da prudência, faz dela sua primeira esposa, no entanto, o oráculo vaticina que os descendentes de deusa seriam mais fortes que o pai e o destronariam. Horrorizado com a profecia, Zeus, que havia se unido à deusa, a engole para escapar deste destino, contudo Mêtis já havia concebido Atená.

Inconsciente desta gestação, o senhor do Olimpo passou a sofrer fortes dores de cabeça, pedindo ajuda a Hefesto, o deus ferreiro, este abriu-lhe o crânio com um machado, permitindo a saída da filha.

Atená nasceu adulta, com armas em punho, pronta para lutar junto ao pai contra os gigantes, seres que ainda não aceitavam a nova organização do cosmo e a hegemonia de Zeus, única dos olimpianos a acompanhá-lo nessa batalha.

Torna-se a filha predileta de Zeus, cujos desejos e pedidos são sempre atendidos e cujas rebeldias causam profunda dor. Do pai ganhou uma espada de prata. Única no Olimpo a vestir armadura que lhe cobre o corpo, apenas a cabeça se revela. A coruja também a acompanhava, pousada em seu ombro ou sobrevoando sua cabeça. Se bem Atená é representada com armas e é guerreira, ela simboliza a inteligência e a razão, tornando-se garantidora da justiça, instituição importante na nova ordem.

Deusa virgem, ou seja, autônoma, sem marido, era ladeada, algo que poucos sabem, por uma grande serpente. Em Roma, foi conhecida como Minerva, originando a expressão “Voto de Minerva”.

A cidade de Atenas foi disputada pela deusa da sabedoria e por Posídon, o senhor dos mares. O deus ofereceu a seus habitantes o cavalo e a deusa presenteou-os com a oliveira. Os deuses julgaram os presentes, mas com o apoio das deusas, Atená ganhou a primazia sobre Atenas. Posídon ficou furioso com a derrota e suas águas inundaram a região, para aplacar sua fúria, os homens foram proibidos de usar os nomes de suas mães, inaugurando-se a linhagem paterna. A cidade destacou-se como centro intelectual e cultural da época, passando a cultivar as inovações sociais e políticas, como a democracia e a filosofia, legando-nos boa parte dos aspectos centrais da cultura ocidental.

Athena Varvakeion, cópia muito reduzida da Athena Parthenos de Fídias, século III a.C, Museu Nacional de Atenas

Na cidade de Atenas, na Grécia, um majestoso templo erguia-se no interior da Acrópole, o Parthenon. Parthenon significa virgem em grego antigo, por isso templo da virgem. Recebeu uma estátua da deusa de 39 pés de altura, feita por Fídias em ouro e marfim.

Trata-se de uma deusa guerreira que preside as atividades do espírito, sempre a vemos na companhia dos heróis. Na armadura encontra-se a imagem da medusa, com seus cabelos de serpente, decapitada por um de seus herois protegidos, Perseu, que a transformou em uma arma: aquele que olhasse seus olhos seria petrificado. A cabeça de Medusa funciona como um espelho da verdade no combate aos seus adversários, que ao contemplarem a sua própria imagem ficam petrificados de horror. Sua lança é uma arma de luz: separa, corta e fere. Entra na guerra contra a desordem, pela verdade e pela justiça.  Atená, juntamente com seu pai, Zeus, venceram o Caos, estabelecendo uma nova ordem que permite o surgimento da pólis, ou seja, a o começo da vida organizada para a humanidade na cidade. A Acrópole representava este primeiro movimento na conquista da cidadania.

Na guerra de Tróia, luta ao lado dos gregos para se vingar de Páris, por quem foi preterida quando ele escolhe Afrodite como a mais bela. Boa parte das estratagemas determinantes para a vitória dos helenos partiram da deusa de olhos de coruja que os transmitia ao engenhoso Ulisses, o seu mortal predileto.

Como grande mãe, também é uma deusa da fertilidade, da linhagem das deusas tecedoras. Puniu Aracne, uma bela e impetuosa jovem bordadeira, porque esta ousou desafiá-la a uma competição e o pior, em sua bela tapeçaria expôs as histórias de amor e traição marital seu pai, Zeus. Duplo erro, não se desafia os deuses, nem se fala do pai da deusa, a vingança chega dura e certa: Aracne foi transformada em aranha e obrigada a tecer pelo resto da vida.

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O século XX, no ocidente, certamente foi presidido pela deusa Atená. Por todos os cantos, as mulheres travaram batalhas, rompendo um ciclo milenar, libertaram-se das amarras da natureza e da cultura, conquistando autonomia. Adquiriram direitos políticos como o voto, direitos sobre o seu corpo e sua sexualidade, bem como uma posição de igualdade com respeito ao homem na família. Ingressaram nas universidades, tornaram-se médicas, aviadoras, juízas, até militares, mostrando ao mundo seus talentos e capacidades fora do lar.

Muitas jovens afastaram-se dos instrumentais e jogos da sedução, apropriando-se das ferramentas do intelecto, não queriam repetir os destinos de suas mães e avôs, desejavam conquistar uma profissão e autonomia, nada de ficar presas a um casamento esperando o marido com o jantar pronto em casa. Para elas, ser a rainha do lar, não era a opção. Filhos? Só depois da carreira construída. Ao privilegiar o desenvolvimento intelectual e profissional, como Atená, as mulheres abriram e ganharam espaço no terreno do patriarcado.

A mulher mudou ao longo do século XX, abriu-se a novas possibilidades, no entanto, as outras facetas do feminino ficaram esquecidas e desatendidas. Como Atená, a deusa guerreira, muitas mulheres são meninas escondidas por trás de um escudo, em suas solitárias lutas diárias, protegendo-se da vida, sem conhecer nem desenvolver a plenitude da mulher.

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Um pedido a Iemanjá

Senhora da vida,

Imensidão transparente e azuliemanja boa

Salgada e doce

Fonte, ventre

Caminho, refúgio

Morada de mistérios

Sereia e rainha

Guardiã dos segredos submersos

Eterno balancear que treme a terra e serpenteia o ar

Senhora,

Derrube as muralhas da intolerância

Destrua os diques da incompreensão

Lave os corações

Acalmai as mentes

Quebrai toda rigidez

Mostre-nos o fluxo

Ensinai o ritmo

A navegar

A balancear, sem marejar

Inspirai a dança e a criação

Dissolva o medo

Mãe nutridora,

Renove a esperança

Prepare-nos para o novo

Engendre a beleza e a alegria e ligue-nos no amor.

*

A Sabedoria do mar

Trata-se do ritmo básico e natural que as mulheres devem compreender… E vivenciar. Captar esse ritmo reduz o medo, pois prevemos o futuro, e os maremotos e marés vazantes que ele reserva.  (…)

Entendimento dos ritmos da criatividade, da parição de filhos psíquicos e filhos humanos também, os ritmos da solidão,  da brincadeira, do descanso, da sexualidade e da caça. (…)

(Clarissa Pinkola Estés. Mulheres que correm com lobos.)

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Das Senhoras e das tramas do destino

Se há um grande mistério, sem dúvida, este é o destino de cada um. De repente nós tomamos uma estrada, em lugar da outra  e isto muda o rumo de nossas vida, uma pessoa perde o avião e  se livra de um acidente, outra almoça num horário diferente e encontra o amor de sua vida, mas nem precisa tanto, sabemos que ao fazermos certas escolhas o caminho pode nos levar a lugares impensados.

Entre os gregos, as Moiras eram as deusas do destino, elas comandavam a sorte, o quinhão que caberia a cada um. Etimologicamente, a palavra Moira significa parte, lote, quinhão,  aquilo que a cada um coube por sorte, por isso, destino.

As senhoras do destino, como mulheres, elas fiam, o destino é simbolicamente “fiado” para cada um. As Moiras não foram personificadas, pairam acima dos deuses e dos homens, até Zeus, o senhor do Olimpo deve obedecer-lhes, dado que o destino é imutável não podendo ser alterado nem mesmo pelos deuses, menos ainda pelos homens, isto significa que elas representam um lei que nem mesmo os imortais podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem universal.

As Moiras são a personificação do destino individual, assim cada homem e cada mulher teria a sua Moira, ou seja, a sua parte, o seu quinhão de vida, de amores, de felicidade, de infortúnios.

No mito, seguindo sua Moira, Helena abandonaria seu reino, Esparta, seu marido, Menelau, e seu filho, para seguir o amor de Paris, levando à guerra gregos e troianos, por sua vez, o belo Aquiles estava fadado a morrer jovem nesta guerra, mesmo não querendo lutar, viu-se no campo de batalha e ao ser flechado no calcanhar encontrou a sua moira.

Essa ideia de Moira impessoal,  universal e inflexível, senhora inconteste do destino transformou-se,  acabando por se projetar em três moiras: Cloto, Laquesis e Átropos. Cloto, a que fia, ela segura o fuso e vai puxando o fio da vida. Laquesis enrola o fio da vida e deve sortear o nome de quem deve morrer. Átropos, a inflexível, é aquela que não volta atrás, ela corta o fio.

O destino desde a aurora dos tempos é um atributo do feminino. A mãe tece seu filho em seu interior, num mágico processo que de uma célula formam-se todos os nossos tecidos, do coração ao cérebro, em cerca de nove meses, quando o rebento estiver pronto virá a luz para iniciar com seus próprios pés, sua trama. O destino conjugado no feminino significa pensar que a nossa transformação vem de mãos dadas com o feminino. As deusas nos acompanham por todo o percurso, mas são sentidas nos momentos cruciais, na chegada e na partida.

Hoje somos tentados a acreditar que nós tecemos o nosso destino, que o traçamos com o nosso quinhão de inteligência, determinação, amor, orgulho ou mesmo vaidade e arrogância. Sinto que a vida, sem o notarmos, é tecida dia a dia, entre linhas e instantes, tramados de diversos coloridos, pontos e linhas. Ponto a ponto, urdida nas escolhas, tramada por nós e pelos deuses que chamamos para nos acompanhar.

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Eros, Afrodite e a flecha do amor

Escultura de Afrodite, no Museu de Atenas, Grécia

No Brasil, o dia 12 de junho tornou-se uma data para celebrar o amor, o atributo da grande deusa Afrodite e de seu filho, Eros.

Entre os gregos, a deusa da beleza era reconhecida por diferentes expressões, como Afrodite Anadiómena, a que sai do mar, Pandemia, a inspiradora dos amores comuns, a Urânia ou Celeste, a inspiradora de um amor etéreo, supremo, para alguns, superior.

Menino travesso, Eros, por sua vez, executa as vontades de sua mãe, com seu  arco e flecha atinge o coração dos deuses e dos homens, transformando-lhes o juízo. Às vezes, está de olhos vendados, porque, não raro, o amor é cego. Em uma variante, Eros nasceu do caos, a pulsão primordial, força motora do universo. A imagem de Eros como uma criança simboliza a eterna juventude de um amor profundo, mas também remete  a uma certa irresponsabilidade, quem já não cometeu alguma insensatez em nome do amor? Matar aula ou o trabalho,  transar sem camisinha, tatuar o nome dela/e, pular de paraquedas ou mesmo uma janela? Não raro, depois vem o arrependimento.

Com suas flechas, Eros contata, reúne e integra, procura superar antagonismos do masculino e feminino,  do sol e da lua, yin e yang, assimilando forças diferentes e contrárias em uma só unidade. Quando  dois seres  se encontram um ao outro e se reconhecem,  atualiza-se a centelha da libido original,  uma porção do universo se reintegra e o poder da deusa se faz presente. A magia do amor estabelece uma troca, onde duas partes se dão para, sem saberem como, conformar uma totalidade.

Afrodite e Eros, no Museu do Louvre, Paris. O corpo da estátua pertence ao século I d.C. a cabeça foi reconstruída no século XVII

Talvez, seja o nosso maior desejo e, quem sabe, o nosso maior desafio. Por toda a parte, homens e mulheres querem ser flechados e provar o doce do mel mundano e divino  do amor. Certo, mas será que estamos dispostos a pagar o preço da dádiva celeste?

Entregar o coração assusta o amante acostumado a caminhar sozinho com seus botões, em meio  às suas baladas e rotinas, temeroso de perder o juízo e ceder autonomia para viver a união. A vertigem de experimentar o que não posso controlar faz muito matuto fugir antes de sentir e muita gente muito esperta só entrar em roubada, não é à toa que, como dizia o poeta, há tanto desencontro pela vida…

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Os mistérios da lua – Hécate e as sombras

Se há uma deusa que chegou até nós com uma fama nefasta é Hécate, representada como loba, cadela ou égua, tornou-se depois a bruxa do caldeirão. Associada aos encantamentos e à magia, a sortilégios e a todo tipo de malefícios, como colocar o nome na boca do sapo e muito mais.

Na origem, na Grécia arcaica, tinha os traços de uma bela mulher sempre segurando uma tocha, às vezes, com três cabeças, cada uma olhando para uma direção. Ela descende das grandes forças de criação do Universo, pré-olímpicas, conta o mito que a deusa ajudou Zeus em sua luta contra os gigantes – matou um deles com sua tocha-, como recompensa, na nova ordem instituída, o senhor do Olimpo permitiu-lhe manter seus grandes poderes.

Deusa lunar, está associada a Ártemis e a Sêmele, acompanhava especialmente as mulheres, mas depois os escravos e populações limiares. Hécate representa o lado negro da lua nova, a mais misteriosa, a regente  da escuridão, das profundezas do mundo interior.

Hécate tudo vê, o presente, o passado e o futuro e desconhece fronteiras, circulava pelos três reinos, do céu, da terra e do submundo. A deusa vinha acompanhada de seus fiéis cães, seres psicopontos, com o passar do tempo, ganhou a forma de animais. Imaginar uma deusa onisciente, senhora do céu, da terra e do mar e, como se não bastasse, que pode andar onde ninguém quer ir, no submundo (o Hades), já para os gregos era demais. Os gregos entre o século VIII e V eram solares, apolíneos (Apolo é o irmão gêmeo de Ártemis, ele é sol, ela, a lua). Acredito que por este motivo, ao longo da civilização helênica, Hécate de portadora da luz tornou-se uma figura bizarra trazida pelos bárbaros e sua difamação continuou no mundo medieval, no qual ganhou os traços de feiticeira desdentada e com verrugas no nariz. Na tradição cristã, todos os males que assombravam o mundo, imaginava-se, partiriam do caldeirão de Hécate.

Trazia consigo o poder mágico da transformação, a transformação pela experiência de iluminar os pontos obscuros do ser, a nossa sombra. Talvez por esta associação , foi considerada um guia, auxiliando a fazer escolhas, ou seja, a seguir caminhos. Tornou-se uma deusa dos limiares: na visão popular, das encruzilhadas. Junito Brandão, renomado pesquisador de mitologia, explica o significado do culto nas encruzilhadas: “cada decisão a se tomar num trívio postula não apenas uma direção horizontal na superfície da terra, mas antes e especialmente uma direção vertical para um ou para outro dos níveis de vida escolhidos. ” (1993, p. 274)  A decisão que tomamos no presente, fruto de como entendemos o passado, afetará o futuro, refletindo nos diversos planos da vida, no alto, no mundo e no submundo.

Ao longo de milênios perdeu-se um ponto central, Hécate sempre caminha com a sua tocha, iluminando. A luz, esse elemento tão caro aos homens, porque dissipa o medo ao clarear a escuridão, permitindo a visão e o discernimento. A deusa da luz na escuridão foi transformada e renegada por povos que resistiram a olhar suas próprias sombras. A psicologia nos mostra que para nós, mortais que não enxergamos muito bem nem a nós mesmos, a principal escuridão é aquela parte sombria de nossa alma, sombria, porque sem luz, sem uma tocha a iluminá-la.

Este oceano, lugar desconhecido de nosso interior que se vislumbra pelos sonhos, contém opositivo e o negativo, aquilo que desprezamos ou nos envergonha, mas também a fonte de nossa energia criativa e onde reside o potencial de transformação. Visitá-lo traria benefícios e talvez nos assombrasse menos.

BRANDAO, J. Mitologia Grega. Vol I. Vozes, 1993. 

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Entre putas e deputados, é tempo de poda!

A deusa Vesta

Na mitologia romana, Puta era uma deusa muito importante, ligada à fecundidade da terra, presidindo a podadura. Seu nome apresenta a mesma raiz do verbo putare, “podar”, cortar os ramos de uma árvore, mas também, organizar, por em ordem calcular, pensar  e julgar. No ciclo da vida a poda permite a renovação, trata-se da ação de separar na vegetação as ervas daninhas e a parte que não nos serve mais, buscando favorecer a germinação de novas e saudáveis sementes.

Certamente a expressão “filho da puta” tornou-se uma ofensa comum, inclusive, muito ouvida nas passeatas das últimas semanas, mas cabe dizer que o verbo putare tem muitos derivados em português, como os termos deputado, amputar, computar, reputação, entre outros.

Fragmento do Templo da deusa Vesta no Fórum Romano, Roma, Itália

Fico pensando que diversos lugares mereceriam uma boa poda, a começar pelas instâncias de governo. No congresso, por exemplo, podaria salários que subiram acima da inflação, bem como todos os privilégios que os parlamentares aprovaram para si mesmos (começando com os gastos com paletó) e partidos criados para negociar a legenda. Nos executivos federais, estaduais e municipais, cortar ministérios, secretarias e principalmente, verbas para negociatas.

Estátuas da deusa Vesta na Casa das Vestais no Fórum Romano, Roma

Cada um de nós poderia também pensar no que precisa podar no seu jardim para no verão colher bons frutos, uma  boa safra, os agricultores sabem muito bem, não cai do céu, exige trabalho. Talvez podar o nosso desinteresse pela coisa pública, pois os nossos políticos que receberam tantas críticas nos últimos tempos estão  em seus cargos porque nós, os elegemos.

Entre os povos antigos a fertilidade da terra era uma questão séria, porque ligada à sobrevivência, por este motivo, as sacerdotisas das deusas ligadas à agricultura -citamos a deusa Puta romana, mas há outras, entre elas, Vesta e também a grega Àrtemis- realizavam rituais sagrados para promover a fecundidade. Nos rituais, as sacerdotisas do templo copulavam com os homens da região, acreditava-se que os rebentos nascidos dessa união teriam um futuro brilhante e desempenhariam um papel importante nas cidades.

Para nós, pessoas do século XX, pode parecer um costume bizarro, mas sem dúvida, o momento atual precisa da fertilidade de ideias e projetos para melhorar a vida das pessoas. Soluções criativas baratas, viáveis e rápidas para colher uma safra cheia de bons frutos.

Casa das Vestais no Fórum Romano

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O julgamento de Orestes e o voto de Minerva

Orestes atormentado pelas Erínias, 380 a. C.

Das instituições que temos, talvez a justiça seja uma das que melhor apresenta o uso da racionalidade humana. Conta-se que esta forma civilizada de resolver os conflitos, limitar a “lei” do mais forte, bem como de por um fim às eternas vendetas surge em Atenas, a cidade luz da Grécia antiga.

O julgamento de Orestes, representa na mítica o momento de criação da justiça.

Conta-se que após a guerra de Tróia – travada pela disputa da bela Helena que fugira com o príncipe troiano Paris, deixando o seu esposo Menelau e Esparta-, Agamêmnon, o irmão do esposo traído e líder dos exércitos gregos, volta para seu reino, Micenas, no entanto, mal sabia ele que sua esposa, Clitemnestra, colocara em seu lugar Egisto, o seu primo e grande desafeto. Ao chegar, depois de 10 anos no campo de batalha, Agamêmnon morre apunhalado pela sua esposa e o amante na sala de banhos de seu Palácio.

Pela tradição, cabia ao filho vingar a morte do pai, assim logo após o crime, Electra, a filha mais velha do rei morto, enviou o irmão caçula Orestes para Pânope, aos cuidados do rei Estrófio, esposo da irmã de Agamêmnon. Anos mais tarde, cumprindo a determinação recebida no oráculo de Apolo, Orestes retorna a Micenas para vingar a morte do pai e mata o par traidor. Seguindo a vontade dos deuses, tornou-se assassino da mãe, um crime contra a natureza, punido pelas Erínias. As terríveis filhas da noite, deusas de uma ordem primordial, perseguiram o matricida sem lhe dar um instante de sossego, torturando-o com o remorso e o arrependimento. Orestes enlouquecido vagou errante, mas sempre protegido por Apolo, quando chegou a Delfos abrigou-se no templo do deus solar para ter um pouco de sossego. Para sair do impasse, Apolo ordenou:

– Vá para Atenas, lá  te providenciarei um tribunal justo.

Mesmo torturado pela culpa, Orestes correu para Atenas, onde a própria deusa da sabedoria escolheu o júri formado por oito pessoas de ilibada reputação e se prontificou a arbitrar em caso e empate. No dia do julgamento estavam de um lado, as Erínias, encarregadas da acusação, e do outro, Apolo que pronunciou a sua defesa.

A contagem dos votos revelou o empate e a deusa proferiu o seu voto:

– Acho que Orestes agiu de maneira certa, não matou sua mãe, mas a assassina de seu pai. Orestes precisou escolher entre dois deveres sagrados e ferir um deles, por este motivo, por maioria dos votos, fica absolvido da acusação.

Minerva

Vencera a compaixão, representada por Atená, deusa de uma nova ordem alicerçada em novos valores para a convivência social, entre eles, a própria justiça. Símbolos de uma dura ordem primordial que estava sendo desbancada, as Erínias ficaram ofendidas com o resultado, para apaziguá-las, Atená ordenou que recebessem um santuário e fossem veneradas como deusas da vingança justa.

 

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O encanto chega com as ondas do mar

Não há quem não se renda aos seus encantos, a sua majestade chama a reverenciá-lo, mas também a ser cuidadoso. Profundo, fértil e misterioso, o mar. Das águas marinhas, descendem Yemanjá e Afrodite, duas deusas que trazem facetas de seu poder.

Proveniente da mitologia Yoruba, Yemanjá é a guardiã dos mistérios da fertilidade e do amor, grande mãe, de coração caloroso a todos acolhe. O fluir de suas águas dissolve as dores e tristezas de homens e mulheres, confortando todo aquele que busca sanar suas mágoas.

Do panteão olímpico grego, chega Afrodite, aquela nascida das espumas do mar, representa o amor primordial e a fecundidade. Seus atributos divinos, alegria, sensualidade, beleza e graça, a tornam irresistivelmente encantadora.

As duas senhoras cada uma a sua maneira, chamam a cultuar a beleza, a cultivar a alegria e celebrar diariamente a vida.

Afrodite voando em um ganso, do séc. V, encontrada em Rodes

É tão forte a simbologia do mar que uma versões da etimologia do nome Maria remete a “oceano”, sendo assim, a Virgem Maria, a mãe de Deus, seria uma continuidade cultural destas antigas deusas do Mediterrâneo.

Em fevereiro, vale ouvir o fluir das águas, se possível, visitar o mar, passear pela praia e, por que não, celebrar a vida, tão sublime, poderosa e intrigante como o mar.

Yemanjá – dia 02/02

Afrodite – dia 06/02

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Os mistérios eleusinos, a jornada da semente

Imagem dos mistérios, séc. IV a.C., no Museu Nacional de Atenas

No dia 22 de setembro, após oito dias, intensos chegava ao fim, na Grécia antiga, a jornada dos Mistérios eleusinos. A data coincidia com o início do outono, que para os gregos era um período de fartura e prosperidade, pois deixava para trás o quente verão que secava toda a vegetação.

O mito do rapto de Core e do percurso de sua mãe Deméter para reencontrá-la definem o núcleo dos mistérios eleusinos. Deméter, a mãe na juventude despertara a paixão de Posídon, não querendo nada com ele, se esconde junto aos cavalos, mas o deus do mar não teve dúvida, metamorfoseou-se em cavalo e a possuiu contra sua vontade. Em seu sofrimento, a deusa se recolhe, escondendo-se numa caverna, consegue se purificar do estupro e recuperar sua virgindade ao banhar-se nas águas do Rio Ládon, mas aqui foi encontrada por Zeus que se transforma em uma serpente para possuí-la. Da união entre Zeus e Deméter nasce Coré.

Mãe e filha viviam felizes, mas eis que um dia Coré, desperta a paixão de Hades, irmão de Zeus e senhor do submundo, sendo por ele raptada. Demeter parte enlouquecida em busca da filha, mas não a encontra em lugar algum sobre a terra. A dor desta deusa da fertilidade faz toda a terra secar. Zeus intercede junto ao irmão, promovendo um acordo, Coré retorna, agora Perséfone, não mais menina, mas uma mulher, esposa de Hades, rainha do submundo e também mãe. Perséfone passará uma parte do ano com sua mãe e a outra com o marido, cada vez que ela retorna à mãe, a terra floresce.

Conta o mito que após o retorno de Perséfone, em Elêusis, Deméter instituiu um dos grandes rituais da antiguidade clássica. Os Mistérios tornaram-se não apenas um ritual agrário da fertilidade, mas acima de tudo, um ritual de transformação.

O mito traz duras experiências seja para os deuses ou para mortais: estupros, solidão, separações de pessoas queridas. Como processar a dor? Não há manual para isso. A vida não é brinquedo. Às vezes, nos apegamos a uma forma, a uma ideia, a um estado. Há pessoas que se apegam até às suas dores e vivem na amargura. Custa-nos entender que a vida é movimento, tal como a jornada da semente.

Apesar de terem sidos celebrados por mais de 2 mil anos, não se sabe muito dos mistérios, pois seus participantes juravam silêncio. Conhece-se um pouco do que acontecia do lado de fora dos templos: banhos no mar para purificação nas águas, oferendas que se transformariam em adubo para as sementes, caminhadas, riso, jejum, danças e, no fim, milhares de tochas acessas. Sabe-se que os participantes saíam renovados.

As jornadas eleusinas se extinguiram com o advento de novos deuses, mas temos outras experiências que permitem a cada um olhar para os seus mistérios, como as caminhadas, seja em Santiago de Compostela, Machu Pichu ou rumo a Aparecida. Sempre vale a pena uma pausa para dar uma olhada na nossa jornada.

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Ártemis, a donzela protetora

No museu Arqueológico de Atenas

Conhecida como Diana entre os romanos, Ártemis era “a sagitária com arco de ouro”. A filha de Leda e Zeus vivia pelas montanhas, na companhia de seus animais, a  cuidar das florestas e dos animais prenhes, no ombro sempre portava o seu arco de flechas certeiras, presente de seu pai.

Conta-se que Leda, grávida de gêmeos do senhor do Olimpo, despertou ira de Hera, sua esposa. Ela proibiu a terra de acolher este parto e nenhum ponto da superfície quis recebê-la e se indispor com a grande deusa. Leda vagou pelo mundo até que sua irmã, Astéria que fora convertida em um amontoado rochas vulcânicas a vagar pelo oceano, abrigou a parturiente. Leda ficou debaixo de uma palmeira sofrendo durante nove dias sem poder dar à luz, pois Ilítia, a deusa dos partos, fora proibida pela mãe -quem mais senão Hera- de ajudar a amante do marido, retendo-a, no Olimpo. E não bastante, Ilítia cruzara as pernas, fechando o caminho para os nascimentos. Todas as deusas assistiam a cena comovidas, sem poder intervir. Uma delas teve a ideia de enviar um presente a Hera, um belíssimo colar de âmbar e de fios de ouro entrelaçados (talvez fosse para Ilítia…). Bem, Hera aceita o presente, permitindo então a partida de Ilítia e Leda dá à luz a Ártemis. Logo ao nascer Ártemis faz o parto de seu irmão, Apolo. Astéria será transformada numa esplendorosa ilha e no centro do mundo.

Ao ver o sofrimento de sua mãe durante o parto, Ártemis pede a Zeus para se manter donzela, no que é atendida. Jamais se casou, permaneceu “virgem”. Na antiguidade, o termo virgem significava pureza.

Ártemis no Museu de Rodes

Algumas passagens de sua biografia mostram uma deusa bastante dura. Num episódio da guerra de Tróia, Ártemis pune Agamenon, o comandante dos exércitos gregos por matar sua corça preferida. Para aplacar sua fúria e superar a maldição, a deusa exige-lhe o sacrifício de sua filha primogênita, Ifigênia. É certo que, no último instante, Ifigênia foi substituída por uma corça e transportada para Táuris, onde se torna sacerdotisa da deusa, desfecho ignorado pelos pais. Em outro momento vemos  Ártemis punir duramente o jovem caçador Actéon. Num certo dia, ele não conteve sua curiosidade e a seguiu, espiando-a enquanto se banhava no rio junto com as ninfas, ela, ao vê-lo, o transforma em veado e ele vai ser devorado pelos seus próprios cães que não o reconhecem.

Outros mitos apresentam uma faceta diferente da deusa. Aparece na Ilíada como “leoa com as mulheres” e detentora do título “a que alimenta, a que educa as crianças”, protetora das jovens, das mulheres em trabalho de parto. A deusa acompanhava particularmente as meninas em sua fase de crescimento, zelando para que o seu corpo fosse respeitado. As noivas, à véspera de seu casamento, ofereciam-lhe uma mecha de cabelo e uma peça do enxoval, para implorar-lhe proteção e fertilidade.

O mito apresenta uma deusa com diversas facetas, tal como outro de seus símbolos, a lua, representação dos ciclos naturais, bem como do feminino. As variantes lua foram relacionadas aos humores da deusa e à própria mudança no humor nas mulheres, algo presente na expressão “ser de lua”.

A estátua de Ártemis encontrada Éfeso, hoje no Museu do Vaticano

Ártemis, uma das facetas da grande mãe, foi cultuada por todo o mundo grego, um dos seus  maiores templos foi construído na cidade de Éfeso, dele restam apenas vagos registros na terra, mas quatro de suas colunas podem se observadas no Museu de Santa Sofia em Istambul, na Turquia.

As colunas do templo de Éfeso no Museu de Santa Sofia, Turquia

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A transformação do casamento, o rapto de Coré

“Eles foram felizes para sempre” com esta frase muitos contos de fada terminam, mas  se existe uma história que mostra que a coisa é mais complexa trata-se do mito grego de Coré-Perséfone. Vejam só.

Num certo dia de outono, Coré colhia inocentemente narcisos quando repentinamente é raptada e levada para as profundezas, onde irá casar-se com o grande deus Hades, o irmão de Zeus e senhor do reino dos mortos. Uma aura de mistério permeia a descida da jovem ao submundo, sabe-se apenas que ao seu retorno, ela volta tão diferente que ganha outro nome: Perséfone.

Perséfone e Hades, jarro do séc. V a. C.

Dizer que Perséfone se casa com Hades é dizer que ela se casa com a morte. Talvez porque toda transformação comporta uma morte, a morte daquilo que já não somos mais.

O rapto simboliza a separação da família de origem e principalmente da mãe, processo que não ocorre sem dor, mas torna-se uma etapa necessária para o crescimento da jovem, o distanciamento permite-lhe construir a sua própria família. E do jovem também, pois ele precisa “bancar” o rapto, a situação que ele provocou, pelo menos na mítica, não dá para devolver a que não é mais donzela ao pai, muito diferente dos dias de hoje, quando a gente não gosta de qualquer coisinha e tchau.

O retorno de Perséfone à sua mãe, Deméter, não é o retorno de uma donzela, sua inocência morreu para dar lugar a uma deusa madura, que conhece a sexualidade e os ciclos da natureza: fecundação, nascimento, crescimento e morte.

Neste percurso, a deusa lunar Hécate, aquela que anda com uma tocha e conhece todos os caminhos, torna-se sua aliada e companheira. Sua proximidade insinua que a fonte da transformação de Perséfone ocorre pelo contato com a sabedoria das profundezas abissais da alma, é preciso luz para enxergar na escuridão. Seu maior desafio é unir o lado escuro e o luminoso da deusa em si mesma, tornando-se a deusa madura da noite.

Em sua jornada, a jovem desenvolve novos talentos e atributos,  entre eles, a sabedoria (representada tocha), a intuição (simbolizada pelos cachorros que acompanham Hécate), a flexibilidade (o ciclo) e a receptividade incondicional.

Gosto muito deste mito, pois ele nos lembra que deixar a posição de filha e assumir o papel da esposa não é fácil. O amadurecimento comporta uma certa dor. Aprender a caminhar com as próprias pernas requer esforço e o casamento exige abdicar daquele mundo da família  conhecida (e por isso confortável), para assim, passo a passo conformarmos a nossa. Muitas vezes, a gente quer fazer do nosso amor um marido, contrair núpcias, mas um lado de nós reluta em pagar o preço da união.

É preciso lembrar que tudo na vida tem um preço, não assumir este novo papel pode custar muito mais do que se imagina: viver na eterna adolescência como Peter Pan ou mesmo a solidão.

Na primavera, Perséfone retorna trazendo consigo o filho Dionísio. Passado o duro inverno, no interior da terra, a semente brotou.

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A grande mãe, Hathor e o leite da Via Láctea

São muitos os seus nomes, Yemanjá, Nossa Senhora, Hathor, Démeter, Ceres, Madona, Isis… A grande mãe recebe figurações há milênios. Nas antigas sociedades, elas representavam o começo e o fim de tudo, mas também a criação, transformação, nutrição, proteção.

Uma das representações mais antigas talvez seja o vaso. O vaso teve um papel muito importante na antiguidade, é tanto um atributo como um símbolo da natureza feminina sagrada. Instrumento de trabalho daquelas que iam buscar água, colher frutas e preparar a comida, também era utilizado nos rituais sagrados e como urna funerária. O feminino está associado à criação e o útero é o “sagrado recinto”. As características essenciais do caráter feminino estão ligadas ao vaso, como símbolo da transformação, a maternidade, talvez seja a mais visível.

Ísis, com o filho Hórus

Os seios também se destacam como elemento do feminino, estando relacionados com o leite e à vaca. No Egito, há milhares de anos, o mito de criação contava sobre uma grande enchente primordial, na qual a vaca emergia como primeira criatura. Hathor, a Grande Deusa-Mãe com cabeça de vaca, deusa da fertilidade, personificava o amor, a alegria, a dança e a maternidade e, na versão de deusa celeste Nut, impregna a terra com a sua chuva de leite e carrega o deus-sol nas costas. Filha e esposa de Rá, o deus-sol,  a deusa auxiliava as mulheres nos partos, também estava associada a Ísis, quando surge como a mãe de Hórus. Interessante lembrar que as quatro patas da vaca celestial que representavam Nut ou Hathor aparecem como os pilares sobre os quais o céu repousava, com as estrelas em sua barriga formando a Via Láctea pela qual a barca solar de Rá, o Sol, navegava.

No mito grego, um jorro do leite da deusa Hera, a senhora do Olimpo, havia formado a Via Láctea.

Mãe celeste, mãe terra, mãe criadora, mãe acolhedora, nutridora, talvez seja mesmo começo e fim de tudo.

Imagem de Hathor no templo de Hat sep shut, em Luxor

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A deusa Hera, a sagrada união e o dia de São Valentin

Na ilha de Creta, esta grande divindade recebia culto como deusa da fertilidade, mas na história ficou mais conhecida por suas infindáveis brigas com o marido, Zeus, e perseguições às suas amantes. Uma versão corrente representa Hera como a personificação da mulher casada e da família legítima. Essa descrição a faz parecer chata e assustadora.

Filha de Réia e Crono, o terrível, divindade que engolia seus filhos quando nasciam com medo da profecia segundo a qual seria suplantado por alguém de sua prole. Hera foi engolida por Crono, mas ainda uma jovem, Zeus a liberta assim como a todos os irmãos, quando este dominou o pai.

Tempos depois para se aproximar de Hera, agora mulher, Zeus transformou-se num cuco, o pássaro adorado por Hera, e voou sujo e molhado para o seu colo, a deusa o cuidou, e de repente, viu-se violentada por Zeus que saíra de seu disfarce. Muito envergonhada, ela decidiu casar-se com pai dos deuses e dos homens para restaurar sua dignidade, contraindo o casamento sagrado, assim Hera se tornou a protetora das uniões legítimas.

Acredita-se que a lua de mel do casal durou 300 anos. No retorno ao Olimpo, o idílio chegou ao fim, Zeus retoma velhos hábitos, voltando a se divertir com belas mortais e deusas. Hera enciumada passa a atormentar as amantes do marido e seus filhos. Uma das mais lembradas é a perseguição a Leto que estava em trabalho de parto dos filhos Artemis e Apolo.

Certo dia Hera, muito cansada do marido infiel, organiza uma revolução contra o senhor do Olimpo. Zeus não perdoou a intriga e a humilha, pendurando-a de cabeça para baixo, presa a correntes de ouro e a pesados grilhões, os demais deuses teriam ficado horrorizados com semelhante tortura, mas o temor ao rei celestial impediu qualquer ação.

Hera e Zeus

A palavra Hera tem a mesma raiz da palavra heroi, o que indicaria que na origem Hera significava protetora ou guardiã. Em seu mito original, Hera contém todas as fases da mulher, jovem, adulta e anciã. O culto a Hera remete aos cultos ancestrais da grande-mãe, anteriores ao período clássico da Grécia, quando a deusa não vivia no Olimpo, mas nos campos, nas águas e no céu. Quando a deusa representava a totalidade, Rainha dos Céus e da Sabedoria, Senhora das Plantas e das Feras, Deusa do Amor, A Protetora e Rainha da morte. Era guerreira, virgem, mãe, anciã, essência de tudo, ação, amor infinito, protetora, guerreira. A deusa reinava só, sem precisar de nenhum rei.  Na Grécia há vestígios de templos de Hera em sete cidades. Acredita-se que foi a primeira deusa a ganhar um grande templo coberto, em Samos, cujas ruínas remontam ao século VIII a. C.

Templo de Hera em Olympia

Entre os romanos tornou-se Juno. Aqui sua importância torna-se visível, uma vez que seu nome participa em dois meses do nosso calendário, Junho e fevereiro, pois era conhecida como Juno Februa. Recebia homenagens nas festas de 1º de junho e no dia 14 de Fevereiro. O seu culto era tão forte que apesar das perseguições, não pode ser banido, o mundo cristão o transformou, em seu lugar criou em fevereiro, o dia de São Valentino, dia do amor e dos namorados.

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“Hoje tem festa no mar”, é dia de Yemanjá

O Oceano é muito grande, o mar é uma estrada sem fim, as águas são muito mais que metade do mundo, são três, quartas partes, e tudo isso é de Iemanjá. No entanto, ela mora é na pedra do dique do cais da Bahia ou na sua loca em Monteserrat, podia morar nas cidades do mediterrâneo, nos mares da China, na Califórnia, no Mar Egeu, no Golfo do México. Antigamente ela morava nas costas da África, que dizem que é perto das terras de Aiocá. Mas veio para a Bahia ver as águas do rio Paraguaçu e ficou morando no cais, perto do dique, numa pedra que é sagrada. Lá ela penteia os cabelos (vêm mucamas lindas com pentes de prata e marfim), ela ouve as preces das mulheres marítimas, desencadeia as tempestades, escolhe os homens que há de levar para o passeio infindável do fundo do mar. E é ali que se realiza a sua festa, mais bonita que todas as procissões da Bahia, mais bonita que todas as macumbas, que ela é dos orixás mais poderosos, ela é dos primeiros,daqueles de onde os outros vieram.(…) nessas noites o mar fica de uma cor entre azul e verde, a lua está sempre no céu, as estrelas acompanham as lanternas dos saveiros, Iemanjá estira preguiçosamente os cabelos pelo mar e não há no mundo nada mais bonito (os marinheiros dos grandes navios que viajam todas as terras sempre dizem) que a cor que sai da mistura dos cabelos de iemanjá com o mar.” Jorge Amado in Mar Morto
Neste fragmento o autor baiano apresenta toda a beleza e a magia da deusa celebrada no dia 2 de fevereiro.
Acredita-se que toda a vida vem das águas. Iemanjá cujo nome significa “mãe cujos filhos são os peixes” é a grande representação da geração da vida, por isso, grande mãe. As curvas do seu corpo exaltam a maternidade, ancas redondas como as mães de extensa prole e seios fartos para alimentar seus filhos, mas também é mulher sensual e vaidosa.
No Brasil, está associada às águas salgadas, no entanto, sua origem remonta às águas dos rios, de um especificamente, o rio Yemojá que corre para o mar, localizado na região de Ifé, um dos reinos Yorubás onde hoje se encontra a Nigéria. Na mitologia africana, Olokum, a mãe de Yemanjá, apresenta-se como a Rainha do mar.
Algumas tradições a apresentam sob sete diferentes formas, como as águas das nascentes dos bosques, das ressacas das marés ou da confluência dos rios, remetendo às suas diferentes qualidades, sejam elas, educadora, regente da consciência, cuidadora de doentes, regente da criatividade, a guerreira e parceira de Ogum.
A vida na terra celebra a força das águas.

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Ártemis, as controvérsias de uma deusa lunar

Ártemis, a jovem deusa, dona de um corpo ágil e atlético, vestida com um curto saiote, costumava correr solitária pelas montanhas e florestas, seguida por seus animais, entre eles as corças, sempre portando seu arco e flechas de prata, presente de seu pai, Zeus, o senhor do Olimpo.

Irmã gêmea de Apolo, na guerra de Tróia, Ártemis tomou o partido dos troianos e, num episódio, pune Agamenon, o comandante dos exércitos gregos –e irmão de Menelau, marido de Helena, pivô da guerra-, por matar sua corça preferida. Depois de uma série de derrotas, Agamenon consulta o oráculo que lhe anuncia que uma maldição recaíra sobre os seus exércitos e, para dissipá-la, ele deveria oferecer à deusa, sua filha primogênita, Ifigênia. Com muita dor e a despeito das súplicas da esposa, Clitemnestra, o comandante cede, mas, no templo, no último instante, Ifigênia foi substituída por uma corça e transportada para Táuris, onde se torna sacerdotisa da deusa, fato nunca sabido pelos pais. Em outro momento, pune  a negligência do rei Eneu de Cálidon, quem após uma boa colheita realiza oferendas a todos os deuses, mas se esquece de Ártemis. A deusa ofendida envia à região um javali feroz, que devastou todo o reino. Para liquidá-lo, Meléagro, jovem e destemido príncipe, convoca os melhores caçadores dos povos irmãos, conseguindo matar o monstro. No entanto, a intriga se instaura no reino e começa uma guerra entre o rei Eneu e os  irmãos da rainha em disputa da cabeça e do couro do javali. O javali, para os antigos era um animal sagrado, o couro deste animais representava a mais alta proteção. Meléagro, o príncipe herói morre e Cálidon  é sitiada e queimada.

O jovem caçador Actéon também se tornou vítima de Ártemis. Num certo dia, ele seguiu a deusa e a espiou banhando-se no rio junto com suas ninfas, ela, ao vê-lo, o transforma em veado e ele foi devorado pelos seus próprios cães que não o reconheceram.

Outros mitos, principalmente da região do Peloponeso apresentam outras facetas da  deusa. Aparece na Ilíada como “leoa com as mulheres”, protetora das jovens, das mulheres em trabalho de parto, assim como das florestas e dos animais prenhes. Detentora do título, “a que alimenta, a que educa a criança”, acompanhava particularmente as meninas em sua fase de crescimento. Entre suas regras sagradas vemos que os animais não deveriam ser mortos arbitrariamente e que o corpo das mulheres deveria ser respeitado. Mesmo donzela, as noivas, à véspera de seu casamento, ofereciam-lhe uma mecha de cabelo e uma peça do enxoval, para implorar-lhe proteção e fertilidade.

O mito traz uma deusa com diversas facetas, tal como outro de seus símbolos, a lua. A lua, por sua vez, com as suas fases, crescente, cheia e minguante, tem representado o percurso da vida, juventude, maturidade, velhice. A lua remete aos ciclos naturais, bem como ao feminino, as variantes no ciclo foram relacionadas aos humores da deusa e à própria mudança no humor nas mulheres, algo muito claro na expressão “ser de lua”.

Réplica de uma estátua de Ártemis no templo de Éfeso, hoje na Turquia

A deusa tem profunda empatia com a terra e toda a sua vida. Acima de tudo, ama a liberdade e a autonomia. Jamais se casou, permaneceu “virgem”, conta-se que Ártemis ao ver o sofrimento de sua mãe, Leto, durante o parto, pede a Zeus para se manter donzela, no que é atendida. Na antiguidade, o termo virgem significava pureza.

Ártemis é provavelmente uma das mais antigas deusas gregas, alguns pesquisadores chegam a afirmar que seu culto remonta aos caçadores do período paleolítico. O próprio significado de seu nome é controverso, para uma vertente seria “a sanguinária”, para outra significaria “grande”, daí remeteria à Nossa Senhora. Mas sem dúvida, o mito de Ártemis nos traz uma das versões da grande mãe e podem ter passado milênios, mas sobrevive a necessidade que lhe deu origem, a proteção das jovens, das florestas e dos animais.

O mundo urbano e seu ritmo de vida alucinante estão muito distantes do espírito de Ártemis, mas talvez, por trás de muitas atletas urbanas, daquelas que correm todos os dias pela rua ou passam horas em academias, se esconda um espírito de amazona, ansiando por um estilo de vida mais natural.

Ártemis no Metropolitan de NY

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Némesis, a deusa do equilíbrio e da restauração

Uma herança do direito positivo nos faz entender, hoje, a justiça em sua relação com as leis. Os mitos da antiguidade, lembram-nos aspectos por vezes já esquecidos.

Némesis, uma deusa primordial, ou seja, nascida antes da formação do panteão olímpico, era uma executora da justiça. Tão bela e radiante quanto Afrodite, com a diferença de ter asas. As asas que lhe permitiam voar para desempenhar suas tarefas. Conta o mito que Zeus deslumbrado com a deusa, perseguiu-a por céu, terra e mar. Némesis fugindo adquiriu diversas formas até tornar-se uma gansa, nesse momento, Zeus transformou-se em cisne e zás… Como fruto dessa união, Némesis pôs um ovo, mas recusou-se a chocá-lo. Deste ovo nasceram Helena e Pólux. Helena herdou os traços da mãe, tornando-se a mulher mais bela do mundo. Disputada por muitos príncipes, ela desposou Menelau, rei de Esparta, depois fugiu com Paris e se tornou o pivô da guerra de Tróia. O sofrimento a rondou, numa referência à justiça de Némesis: o excesso gera sofrimento.

Os gregos, assim como boa parte dos povos antigos, temiam a fúria dos deuses. Suas intervenções mostram uma deusa mediando a fortuna (antigo termo para sorte) e a desgraça entre os mortais, dando a cada um aquilo que lhe corresponderia, ou seja, conforme o seu merecimento.

Conta-se que a deusa ouvia os votos de amor eterno dos amantes e castigava aqueles que não cumpriam suas promessas. Ela pune o rei Creso da Lídia, porque ele ficara excessivamente orgulhoso devido ao seu poder e pelas suas riquezas. Em certa passagem, castiga Narciso, pois não tinha olhos para ninguém além da própria beleza. Uma das versões do mito conta que a deusa provocou um forte calor e Narciso, buscando se refrescar, encontra um rio, ao contemplar sua imagem, apaixonado, mergulha atrás dela e morre.

Em Ramnonte, cidade não muito longe de Maratona, na região da Ática, encontram-se um dos mais antigos templos de Némesis

Filha de Nix, a noite, pune o excesso, a Hybris, mas não traz a fúria da vingança, age para o restabelecimento da ordem justa. Foi representada com uma coroa e, por vezes, com um véu cobrindo-lhe a cabeça, está armada de tochas, espadas e serpentes, seus instrumentos de trabalho, digamos assim.

Os gregos muito sábios prezavam o equilíbrio. Eles entendiam que na vida sempre haveria dualidades, a ação ética jamais poderia anular um dos polos, mas levava a busca do equilíbrio entre eles. A deusa nos lembra a responsabilidade de cada um por aquilo que cultiva, sejam os nossos pensamentos ou nossas paixões.

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Os símbolos da justiça

O judiciário esteve em pauta nos últimos meses pela coragem de duas juízas. Em agosto, o país ficou chocado com a morte da juíza Patrícia Acioli, de Niterói, e, em setembro, as declarações da corregedora, Eliana Calmon, que disse haver “bandidos de toga” no Judiciário desencadearam uma crise no Conselho Nacional de Justiça. Patrícia colecionava ameaças, pois não fazia diferença entre grandes e pequenos quando precisava decretar sentenças, morreu porque cumpria o seu dever. A desembargadora mostrou a ferida que o judiciário insiste em não querer ver. Instituição muito humana, aliás, resiste em ver a própria sombra. E sombra que não se vê, cresce…

Podemos tecer muitas críticas, mas a justiça representa uma das instituições mais caras na nossa sociedade, na medida em que estabelece os padrões do convívio social, o que é permitido ou vedado, expõe nossos valores, aquilo que toleramos e o que nos causa espécie. Sem dúvida, trata-se da melhor defesa criada contra o arbítrio, permitiu a criação de um elemento precioso: o estabelecimento de direitos.

Brasília, Ministério da Justiça

Como símbolo da instituição, vemos uma mulher com olhos vendados, segurando uma balança. Não nos perguntamos o porquê desta imagem, mas certamente a figura feminina contrasta com o universo tão “duro” dos tribunais, das leis e das sentenças.

A figura feminina nos chega como herança dos gregos e, posteriormente, dos romanos. Entre eles, Némesis, Themis, Dike, Adrasteia, Iustitia, entre outras deusas, respondem pela justiça, certamente significando os diferentes aspectos de um grande pensamento: prontidão, merecimento, visão, imparcialidade, ideal, ordenamento, execução, punição, equilíbrio, beleza, profecia, ideal, sabedoria.

Némesis no Louvre. Deusa primordial, alada para atender rapidamente os pedidos

Aspectos por vezes conflitantes que nos remetem a grandes questões, existe uma justiça divina ou é uma construção dos homens? A justiça é cega ou tudo vê? Trata-se de um poder da terra ou produto das instituições humanas? Natureza ou cultura? Boa conselheira ou fúria divina? Sabedoria ou vingança?

Acho significativo que a justiça, uma ideia tão importante e central para o convívio humano receba, na origem a figura da mulher.  Certamente esta imagem fala muito dos valores desse mundo. Se hoje fôssemos a representá-la, tenho grandes dúvidas se ela ganharia a figura feminina…. A imagem corrente da mulher é o destempero, supostamente pelos hormônios que flutuam em seu corpo ao longo do mês. Amorosa sim, equilibrada jamais! Não iriam escolhê-la como símbolo da justiça.

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A mística de Perséfone

Os Mistérios Eleusinos, os ritos consagrados Deméter e Perséfone em Elêusis, cidade a 30 kms de Atenas, se tornaram os maiores festivais antiguidade. Mistério, significa em grego, “algo do qual não se pode falar”, que “deve ser mantido em silêncio”. Realizados  durante  mais de mil anos, eram cerimônias, em parte, secretas. Todos os participantes voltavam transformados, pois imagina-se, ressurgiam com um entendimento renovado da vida.

Perséfone é a jovem donzela, filha de Deméter, que foi raptada e levada ao mundo dos mortos. Para os gregos, não existe inferno no formato judaico cristão que conhecemos. Para eles existe o reino dos vivos e o reino dos mortos, Zeus domina o mundo e Hades é o senhor do submundo.  A entrada ao submundo era separada por vários rios, de águas turbulentas, dos quais o mais famoso era o Estige. O barqueiro Caronte realizava a passagem. Ninguém voltava de lá.

Perséfone torna-se uma exceção, volta à sua mãe, mas retorna transformada, já uma mulher madura e esposa de Hades. Dizer que Perséfone se casa com Hades é dizer que ela se casa com a morte. A morte e a perda eram fundamentais na transformação mística da iniciada. A inocência de donzela precisa ser sacrificada. Lembrando que sacrifício significa Sacro ofício. A fonte da transformação de Perséfone é o contato com a sabedoria das profundezas abissais da alma, não dos pontos luminosos do espírito. Seu maior desafio é unir o lado escuro e o luminoso da deusa em si mesma, tornando-se a Deusa madura da noite.

Hades e Perséfone

Perséfone é um arquétipo que representa aquela mulher atraída pelo “lado de lá”. O seu mundo é “além” do mundo físico dos sentidos. As mulheres mediais em culturas antigas desempenhavam uma função social relevante, como sacerdotisas, curandeiras ou xamãs, no entanto, ao longo dos séculos deixamos de compreendê-las e até as estigmatizamos. O que ocorre com essa menina que passa envolvida com os seus pensamentos e com seus amigos imaginários? Deve estar doente ou louca. Assim muitas foram parar em manicômios. Hoje, algumas podem circular como astrológas, tarólogas, as inofensivas bruxas ou doidinhas modernas.

Com o avanço da civilização grega, tende  a haver a supressão de aspectos duais dos deuses, entre eles, o de Perséfone. O aspecto de rainha da morte passa a ser suprimido e quanto mais suprimido (e desconhecido) mais se torna assustador para a cultura ocidental. Esta forma suprimida retorna para atormentar a fantasia do mundo cristão na imagem das bruxas. Mulheres conhecedoras da sabedoria das plantas, da terra e da lua, serão estigmatizadas como bruxas e serão queimadas pela inquisição.

Neste segredo perdeu-se a sabedoria de Perséfone madura, a sabedoria daquela que conhece os mecanismos da vida e da morte, aquela que “já viu tudo” e pode nos ajudar em todas as transformações da jovem à anciã, neste mundo e no outro.

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Atena, a donzela dentro da armadura

Diziam os antigos que Atena era a filha predileta de Zeus, pois teria nascido de sua cabeça. O oráculo havia predito que os descendentes de Mêtis, deusa da sabedoria e da prudência, seriam mais fortes que o pai e o destronariam. Buscando escapar do vaticínio, Zeus, logo após unir-se a deusa, a engoliu. No entanto, Mêtis já havia concebido Atena que acabou nascendo na cabeça de Zeus.

Em Atenas, a sua cidade sob sua proteção, uma estátua da deusa ocupava lugar central no Partenon, principal templo da Acrópole. Grande centro intelectual e cultural da época, a cidade tornou-se reconhecida por consagrar valores como a democracia e a cidadania, bem como por legar-nos boa parte dos aspectos centrais da cultura ocidental.

Deusa donzela, virgem, ou seja, sem marido, portava a armadura e a espada, era ladeada, algo que poucos sabem, por uma grande serpente -para os antigos a serpente simbolizava a proteção. Na armadura encontra-se a imagem da medusa. Outro dos seus símbolos é a coruja, por vezes, este pássaro pousa no seu ombro ou sobrevoa sua cabeça. Se bem Atena é representada com armas e é guerreira, ela representa a inteligência. Para os romanos, tornou-se Minerva, originando a expressão “Voto de Minerva”.

No século XX, no ocidente abrimos essa porta, rompendo um ciclo de milênios, as mulheres começaram conquistar visibilidade e direitos, passaram a votar e a ingressar nos bancos universitários, tornaram-se médicas, aviadoras, juízas, até militares. Me pego pensando, depois de tantas conquistas, será que caminhamos como esta jovem deusa de espada na mão e dentro de uma armadura?

Há muitas formas de caminhar e guerrear, no século passado, seguimos o caminho do intelecto. As jovens não queriam repetir os passos de sua mãe, desejavam autonomia, nada de ficar esperando o marido com o jantar pronto em casa, queriam seguir seus anseios profissionais. Filhos? Só depois da carreira construída. Para elas, ser a Rainha do lar, não era a opção. Foram décadas de luta pelo reconhecimento de seu valor profissional em todos os espaços. As tradicionais ferramentas da mulher foram banidas junto com os espartilhos, a sedução foi vista com desconfiança, como artimanha ou artifício de mulheres atrás da segurança do casamento.

Como efeito colateral, muitas tiveram grandes dificuldades para casar e depois em seus casamentos. O homem, criado numa tradicional família patriarcal, custou a entender esta mulher moderna que não fritava um ovo, nem precisava dele para pagar a conta.

A mulher mudou ao longo do século XX, abriu-se a novas possibilidades. Hoje, ela tem escolha, não é obrigada a se casar com um marido arranjado pela família, nem morrer espancada se o sujeito é violento, como ainda ocorre em muitos lugares. No entanto, com um pêndulo, as outras facetas ficaram esquecidas e a composição do feminino anda necessitada de um acerto. Como Atena, a deusa guerreira, muitas mulheres são meninas escondidas por trás de um escudo, em suas solitárias lutas diárias, protegendo-se da vida, sem conhecer nem desenvolver a plenitude da mulher.

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Luz no caminho, Hécate

Tirando o pó de velhos livros me deparei com uma deusa grega muito bela, mas quase desconhecida, caminhando com uma tocha.

A Teogonia de Hesíodo, autor do século VIII a. C., recupera a origem do mundo para os gregos, lá lemos a respeito de Hécate. Ela, assim como Zeus era um Titã, no entanto, a diferença dos outros Titãs, que foram derrotados por Zeus, que assim se tornaria senhor do Olimpo, a deusa conservou seus poderes. Nos mitos, vemos Hécate auxiliando diversos deuses e mortais, um dos mais lembrados é quando ao ver dor de Demeter, pelo rapto de sua filha, Perséfone, descobre o seu paradeiro no Hades.

Hécate não é grega, acredita-se que sua origem remonta à Asia Menor, recebendo a representação de bela mulher, às vezes, com três cabeças. Cada uma das cabeças olha para uma direção, representando sua visão que tudo vê, presente, passado e futuro; mundo e submundo. Senhora dos três reinos, do céu, da terra e do mar, tornou-se zeladora das passagens e dos caminhos, ajudava a fazer escolhas, protegendo também os partos e os velhos na hora da morte. Deusa lunar, acompanhava especialmente as mulheres, se alguma precisava viajar sozinha, encomendava-se a Hécate. A deusa circulava até pelo reino da  escuridão -o Hades, onde encontra Perséfone- que iluminava com sua tocha.

Como uma deusa dos limiares, protegia as populações limiares e vulneráveis. Em Roma, foi cultuada pelos escravos que lhe deixavam oferendas nas encruzilhadas de caminhos.

Imaginar uma deusa onisciente, senhora do céu, da terra e do mar, e como se não bastasse que pode andar onde ninguém quer ir, no submundo (o Hades), já para os gregos era demais. Os gregos eram solares, apolíneos, admiradores do pensamento racional, lógico-dedutivo. Acredito que por este motivo, ao longo da civilização helênica, Hécate de portadora da luz tornou-se uma figura bizarra trazida pelos bárbaros. Eurípides, escritor ateniense do século V a. C., em sua tragédia Medéia, a representou como uma bruxa, tendo um papel central ao guiar a protagonista, em sua vingança contra Jasão. A difamação continuou, no mundo medieval, ela foi representada como feiticeira, deusa escura, das sombras e caçada como bruxa.

Perdeu-se um ponto central, Hécate sempre segura uma tocha. A sua lembrança nos permite voltar a um mundo em que a importância da luz provém da sua capacidade de clarear a escuridão, permitindo-nos a nós simples mortais que não enxergamos muito bem nem a nós mesmos, a visão e o discernimento. Ao longo de milênios, homens e mulheres buscam auxílio para caminhar pela jornada da vida, o grande desconhecido. O mundo moderno entende os mitos como lendas, como se hoje a vida, por ser racionalizada fosse menos incerta e desconhecida.

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Perséfone, a romã e a mulher

Dos mitos gregos, talvez seja um dos menos lidos. Conta a lenda que num dia de outono, Coré colhia flores no campo com suas primas quando, repentinamente, a terra se abre e a jovem é raptada por Hades, o senhor do reino dos mortos. Conhecemos esta história pela ótica da mãe, Deméter, que ao sofrer a perda da filha passa a vagar pelo mundo, sua dor faz a terra secar e o alimento faltar, o medo da destruição faz Zeus interceder junto a seu irmão, Hades, e permite-lhe recuperar sua filha.

Perséfone e Hades - Desenho de uma jarra grega - 440-430 a. C.

Uma aura de mistério permeia a descida de Coré ao mundo das trevas. Voltamos a saber dela, agora como  Perséfone, apenas no acordo que sela a sua volta. Ela deverá permanecer com Hades o equivalente em meses ao número de sementes de Romã que tiver engolido. Uma tradição diz que ela engoliu 4 e passaria um terço do ano com o senhor da morte. Outra, lembra a associação entre a cor vermelha da Romã e o sangue, uma referência ao ciclo menstrual, quando a mulher sofre a morte de uma vida em potencial, o que levaria toda mulher a conviver mensalmente com o seu Hades interior.

No mundo ocidental moderno vivemos muito afastadas dos ciclos da vida, renegando inclusive nossos próprios ciclos biológicos, procuramos fazer de conta que eles não existem. A mulher moderna vive “aqueles dias” como um fardo da natureza. Bem distante da antiga sabedoria que destacava o aspecto mágico do sangue e numinoso do útero como um vaso, aquele que conterá a vida.  Os estudiosos da psique feminina (na linha junguiana) apontam que a origem de uma série de transtornos menstruais (o + freqüente talvez seja a TPM) estão relacionados à inconsciência do ciclo vida (e da morte). Vivemos a menstruação sem dela tomar consciência, o corpo se encarrega de nos lembrar o que esquecemos.

O retorno de Perséfone à sua mãe, Deméter, não é o retorno de uma donzela, esta “morreu”, mas de uma deusa madura, que conhece a sexualidade, a separação e a morte. Neste mito, a inocência de donzela precisa ser sacrificada. Por outro lado, representa a grande perda sofrida pela mãe quando sua filha primogênita se casa e deixa o seu lar, ou então quando todos os filhos saem de casa e a mulher sofre a síndrome do ninho vazio.

Acredita-se que as duas deusas são na verdade uma, juntas representariam a totalidade da Grande Mãe, a deusa primordial. Ambas simbolizam a capacidade de morrer  e renascer infinitamente, como mulher, como terra, como natureza. A grande mãe contém todos os contrários, é ao mesmo tempo donzela e mãe, jovem e velha, a que alimenta e a guerreira. Senhora da vida e da morte.

Em Perséfone, há um outro elemento importante, o casamento com Hades, a torna rainha da morte, a soberana do mundo avernal, mas este aspecto ficará para outra ocasião.

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A magia de Afrodite

Talvez seja uma das deusas da antiguidade das mais conhecida e das menos entendida. Cultuada como deusa do amor e da beleza. Atributos preciosos, pois todos querem amar, ser amados e um quinhão de beleza.

Pintada por Botticelli

Conta-se que teria nascido da espuma do mar fertilizada pelo céu, chegando às costas da Grécia, foi recebida pelas Graças que a vestiram com trajes belíssimos e se tornaram suas companheiras. Também chamada “a dourada”, numa associação ao brilho sol, Afrodite casou-se com Hefesto, o senhor dos metais, no entanto um deus coxo, um par estranho para a nobre deusa, convenhamos. Detentora de um amor transbordante, apaixonou-se inúmeras vezes, entre seus amores, figuram Ares, deus da guerra e o belo, jovem e mortal, Adônis. A nós mortais, não nos cabe submeter a deusa a um julgamento moral.

Amor é um sentimento vasto. Há o amor amizade, o amor fraternal, entre pais e filhos. Posso amar a Deus, posso sentir amor por todas as criaturas divinas. Afrodite representa o amor arrasa quarteirão, o amor-paixão, aquele amor que “todo mundo quer cheirar” como diz a canção.

A magia da deusa reside em sua força de atração e ligação, uma energia ardentemente desejada e bastante malbaratada. Muitas mulheres querem dominar as técnicas da sedução, para conquistar o mundo e os homens, não necessariamente nessa ordem. Em boa parte das revistas femininas busca-se instigar o lado Afrodite nas mulheres: “Técnicas para levar o seu homem ao delírio na cama”, “Como fazer um strip-tease”, “Incendeie o seu desejo”. Esta energia, hoje, aparece até na venda de cerveja. Fala-se a qualquer hora e em qualquer lugar em prazer e sexualidade, fantasias e fetiches. E há tanto problema sexual…

É preciso lembrar que durante séculos essa energia era coisa de p… Em pleno século XXI, boa parte das mulheres ainda sente as conseqüências de uma educação repressiva que mandava controlar e esconder tudo o que lembrasse a sexo. Até hoje muitos homens, mesmo os jovens, dividem as mulheres em “para namorar” e “para casar”.

Prazer, sensualidade, emoção, sexualidade. Energia vital que estabelece a atração entre os seres, em suas diversas formas, de tão poderosa, assusta. Por este motivo foi relegada aos porões durante séculos. Nos dias que correm, ela se mostra, mas continuamos sem saber como lidar com ela, corremos atrás dela, sem entender o que procuramos.

As mulheres Afrodite exercem o poder de sedução. Pelo sorriso, olhar, gingado do corpo, em suma, a sedução de estar de bem consigo mesma, com o seu brilho de mulher.

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No dia das mães, a grande mãe, Deméter

Para celebrar o dia das mães, lembro a grande mãe da antiguidade e uma das deusas mais antigas da história, Deméter.

Conta-se que a deusa tinha uma linda filha, Perséfone, que, certo dia, desapareceu. Deméter chorou inconsolada, deixou o Olimpo e saiu pelo mundo à sua procura. Tanta era sua dor que a terra começou a secar. A filha, havia sido raptada por Hades, senhor do submundo e estava escondida em seus domínios, onde nem a luz chegava. No Olimpo, os deuses ficaram preocupados e Zeus negociou com Hades, seu irmão, para devolver a donzela. Perséfone voltaria ao mundo dos vivos se não houvesse provado algum alimento em sua jornada pelo submundo. Hades, apaixonado pela jovem, antes de deixá-la partir colocou em sua boca algumas sementes de romã. Assim, por ter ingerido alimento, Perséfone foi destinada a passar metade do ano com a mãe e a outra metade, junto a Hades, como rainha das profundezas.

Em Roma, foi associada a Ceres, deusa dos cereais. Seu templo em Eleusis (Grécia) funcionou por quase 2mil anos

Podemos encontrar o espírito de Deméter naquelas mulheres que andam rodeadas de crianças, vivem pensando na comida e nos agasalhos dos filhos, do marido e de quem estiver ao seu redor. Vive para o outro. Instintivamente cuida de tudo o que é pequeno, carente de defesa e em crescimento. A partir desta figura, a sociedade criou o estereótipo da mãezona, super protetora, que se doa incondicionalmente, esquecendo-se de si pela família. O imaginário nos lembra uma mulher gorda ao pé do fogão, cozinhando gostosuras. Representação útil em sociedades patriarcais, origem de muita culpa para as mães que não se encaixam no perfil.

Deusa dos cereais, Deméter estava associada à transformação, ao mistério que transforma a semente em uma planta que se tornará alimento. O longo percurso da vida requer transformações. O problema surge quando nos apegamos a um estágio e travamos o fluxo da vida. Aí aparece aquela figura da mãe que, para não perder a sua posição, procura adiar o crescimento e a separação dos filhos. Se bem, as mães modernas andam de aspirador de pó e vão à ginástica, ainda querem os filhos ao seu lado, por sua vez, para muitos filhos hoje, a casa tornou-se um ninho tão confortável que relutam em partir para a sua própria jornada.

Na vida urbana, não temos muita consciência das transformações,  esquecemos os rituais e mudanças importantes ocorrem sem cerimônias. Não prestamos atenção ao ciclo feminino, só nos lembramos quando estamos “naqueles dias” e achamos uma chatice. Após a revolução feminina, as mulheres passaram ocupar espaços antes exclusivos dos homens, hoje, desejar a maternidade soa anacronismo…

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Do Egito, Ísis, o Nilo e a fertilização dos campos

No antigo Egito, Ísis era uma das deusas mais importantes, pois era associada ao movimento anual do Nilo. Casada com seu irmão Osíris, juntos reinavam o Egito. Set, um irmão de ambos, senhor das profundezas, buscando se apropriar do reino, engana Osíris o mata, desaparecendo com seu corpo. Ísis, apesar de sua profunda dor, enche-se de forças e sai à procura do corpo para sepultá-lo. Percorre diversos reinos, chegando à Fenícia, onde encontra o corpo escondido dentro de uma coluna dentro do palácio real. Ela o leva de volta ao Egito, no entanto, Set rouba o corpo e o despedaça em 14 partes, cada uma é lançada em uma província do Egito. Ísis sai novamente em sua busca. Ela encontra todas as partes, a exceção do pênis, que cai no Nilo e desaparece. Ísis o substitui por um falo de ouro.  A deusa inventou os ritos de embalsamamento -dando este conhecimento aos egípcios- aplicou palavras mágicas e Osíris se levantou e juntos concebem um filho, o deus Hórus.

Dizia-se que a deusa tinha diversos poderes, inclusive de adiar a morte e que suas lágrimas, todos os anos, faziam o Nilo subir. Deusa alada, nos mistérios, era  associada ao outono. Seus rituais permitiam um momento para chorar as perdas e, no final da estação, a transformação. Ísis concebia um filho e as terras vizinhas ao rio tornavam-se férteis.

Este mito nos remete ao percurso muito humano: dor, busca e restauração. Lembra-nos que na vida temos perdas, não apenas pela morte, mas pode-se perder um amigo, um emprego ou uma oportunidade, sendo preciso lamentá-los e depois partir na busca de nossa “recomposição”. Ísis recorda-nos que o caminho, por vezes, é difícil, com becos que parecem não ter saída, mas que neste percurso, torna-se possível a renovação.

Lembrar Ísis parece salutar num mundo em que se trata a dor com remédios para não senti-la e muitas pessoas caminham como zumbis para não sofrer.

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Sincretismo das águas

Contam os Evangélios que o Arcanjo Gabriel teria aparecido a Maria e feito a Anunciação: ela conceberia o Messias. Maria casa-se com José, o carpinteiro, e, ao conceber Jesus, formam a Sagrada Família.

O ato de conceber a vida, torna a Virgem da Conceição a grande mãe. Mãe do amor, mãe protetora, mãe advogada, mãe consoladora…

No Brasil, o sincretismo a faz encontrar com Iemanjá. Senhora  das águas e grande mãe. De acordo com a ciência, a vida surgiu das águas.  Iemanjá é um nome derivado de três outras palavras do idioma iorubá: yèyé (mãe), omo (filha) e ejá (peixe). Ela representa o útero de toda a vida, principal figura materna na tradição iorubá.

Ao longo de séculos, o catolicismo registra diversas aparições da Virgem em diversos lugares do globo, Guadalupe no México (1531), Lourdes na França (1858), Fátima em Portugal (1917). No Brasil, Nossa Sra. Aparecida, é  Nossa Sra. Conceição Aparecida.

Sou ligada pelo nascimento à Virgem da Conceição. Eu nasci na cidade de Concepción, no sul do Chile, às margens do Pacífico.

Num dia 8 de dezembro, nascia meu pai. O sr. Alfredo, nascido em Talca, e Sra. Patrícia, de Chillán, encontraram-se quando eram jovens estudantes em Santiago, lá pelos anos 60. Após 3 anos de namoro, casaram-se e foram morar em Concepción. O sr. Alfredo não é mãe, porque é pai, mas revelou-se um pai muito amoroso, não só com sua família, mas com todas as criaturas. Pai preocupado e daqueles que está sempre do lado da família, faça sol ou chova canivete. Ele vai ficar envergonhado de ler, pois não está acostumado com elogios, por essa falta de costume que temos de elogiar os outros, mas tudo bem, hoje vale a pena.

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