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A visão gnóstica de Jesus

Nestes dias, em plena semana da Paixão de Cristo, peguei-me pensando que, no Brasil, muitos pertencemos a famílias cristãs, ou católicas não praticantes, pois as práticas que a igreja católica nos proporcionava não deram conta de nossas inquietações, nem das nossas necessidades espirituais. Fazemos parte desta matriz cristã, contudo, hoje ela não nos diz muito, nem nos ecoa no coração.

Há algum tempo tomei contato com o livro de Raul Branco Os ensinamentos de Jesus e a tradição esotérica cristã que, para mim, foi um divisor de águas, ao apresentar os ensinamentos pouquíssimo conhecidos do cristianismo primitivo. Aproveito o tempo da Quaresma para compartilhar este estudo.

1150, mosaico na Capela Palatina, Palermo, Itália

A Bíblia, diz o autor, é um “repositório de ensinamentos profundos velados pela linguagem alegórica” e a própria vida de Jesus pode ser entendida como uma alegoria. “Jesus, nesses relatos, simboliza o Cristo que habita no interior do homem. Sua vida, como apresentada nos quatro evangelhos, é uma descrição da viagem de retorno de todas as almas à casa do  pai.” Pesquisador de tradições orientais e da psicologia junguiana, entre outros,  Branco fornece uma chave para entender a vida de Jesus e  traz instruções e instrumental para o caminho, algumas servem como sustentáculos aos buscadores, mas buscam, principalmente, preparar o discípulo  da verdade na senda de transformação.

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26:41), disse Jesus.  O caminho a ser trilhado recebe o nome grego de metanóia, que significa a grande transformação do estado mental do homem, entendido como mudança dos condicionamentos e do próprio pensamento. O termo foi utilizado também por Jung ao descrever as transformações vitais da segunda metade da vida.

Embora desejemos mudanças, nosso ego resiste a este movimento. “Resistimos, porque toda mudança implica uma revolução interior que demanda algum compromisso com a verdade. Esse compromisso requer humildade para aceitar a possibilidade de que alguns de nossos mais estimados conceitos foram construídos sobre a areia e, finamente, uma coragem extraordinária para enfrentar a resistência inicial de nosso ego orgulhoso e inseguro”, escreve Branco.

Esses ensinamentos de Jesus, o vivo, como o Mestre era chamado pelos gnósticos, seriam a medicação salvadora receitada pelo grande terapeuta à humanidade. Uma vez o diagnóstico feito e a medicação receitada, restaria a cada ser humano exercitar o seu livre-arbítrio e decidir se toma a medicação necessária em tempo que não raro se escoa como areia em nossas mãos.

Nesta visão, para chegar ao Reino, ou seja, para alcançar a perfeição, o homem deve encontrar e trilhar pacientemente, mas com determinação, o Caminho ao longo de transformação. Gosto desta chave de compreensão do cristianismo primitivo, permite-nos lembrar do que devemos fazer.

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Um presente de Natal

Botticelli, Natividade Mística, de 1502

O que significa o Natal para você? Papai Noel? Presentes? Um encontro familiar? Por estes dias, há uma agitação geral, o ano acabando e tudo fica em função dos eventos de fim de ano. Pensando em agradar, as pessoas capricham nos presentes, na decoração, no peru, mas o homenageado da data fica um pouco para escanteio.

Muito mistério cerca o nascimento de Jesus, algumas religiões não o colocam como o filho de Deus, mas como um profeta. O relevante para mim é que, há 2 mil anos, em uma época marcada pela guerra e pelo sofrimento, a sua mensagem  trouxe esperança, ao falar de um mundo novo para gente simples, como pastores e pescadores.

Conta-se que José rumava com Maria grávida a Belém, pois, naqueles dias, Roma estava realizando um censo de sua população e todas as pessoas do Império precisavam respondê-lo no lugar de nascimento. José era um filho da casa de Davi, o grande rei que governou Israel por volta do século 1000 a.C e uma antiga profecia vaticinava o nascimento de um novo rei.

Belém, situada a 10 quilômetros de Jerusalém, era um pequeno entreposto comercial. Ali Maria dará à luz e um grande clarão estelar anuncia o grande nascimento. A estrela será vista por três reis que saem a sua procura.

Israel estava sob o governo de Herodes, que reinava com o apoio de Roma, este, com medo de perder seu trono, manda matar todas as crianças com menos de dois anos. Para salvar o seu filho, José e Maria fogem para Egito.

Adoração dos Magos, de Gentile da Fabriano, 1423

Recuperei esta história, pois Jesus coloca novas pautas para a espiritualidade, ao apontar que a relação com o divino passa, necessariamente, pelas relações entre os homens. Em um mundo em que as ofensas se resolviam no dente por dente, Ele falava em oferecer a outra face. Com humildade encorajou homens e mulheres a transformar seu pensamento e suas ações, a transformação pelo caminho do arrependimento, do perdão, da compaixão e do amor.

Em 2 mil anos muitas tradições se juntaram, chegou a árvore, o papai Noel, os presentes, são todas bonitas, mas relembrar esta dimensão do Natal é um presente para cada um de nós, para o nosso espírito e para nossas vidas.

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A magia do fogo

O fogo é um elemento essencial de transformação para cozer os alimentos e afasta o homem de sua condição animal. Alimento é o que nos nutre e a sua partilha nos fornece o sentimento de unidade, de fazer parte de uma comunidade, contribuindo para a união e à estabilidade. Comunhão. O calor da lareira esquenta, acolhe. Em muitos lugares e tempos a lareira era o eixo central da casa. Numa reminiscência, ainda hoje, a cozinha é central.

Ao longo dos séculos, o fogo recebeu inúmeras associações, a representação mais corrente o liga ao sol e ao divino, o próprio sol para os egípcios e outras civilizações era um Deus. No I Ching, o fogo corresponde, entre outros, ao verão e ao coração. A ideia de chama divina pode se referir à própria vida.

O fogo traz iluminação. Presença espiritual. O fogo, tal como a água, seu oposto, tem o poder de purificar e limpar. Trata-se de um veículo que separa o puro do impuro, destruindo as impurezas. O fogo queima os pecados. Os hereges eram condenados à fogueira. O fogo aqui tem um duplo sentido purificação e punição. Pois o fogo é apresentado como instrumento de punição e juízo de Deus.

Na Grécia antiga, a deusa Héstia zelava pela chama da vida no interior das residências. Em muitas tradições, como a dos mapuche no sul do Chile, o fogo no centro da casa era central, nele as mulheres coziam o alimento, ao redor dele, se celebravam os encontros, até as conversas  mais sérias com as crianças ou jovens aconteciam logo pela manhã em torno do fogo.

Hoje, no mundo ocidental, poucos rituais ascendem fogueira, mas velas acessas fazem parte de diversas tradições, estão nas missas católica e nos rituais do Candomblé e da Umbanda, e cada vez mais, velas são acessas no interior das casas, seja para o anjo da guarda ou pela beleza da chama acesa.

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Dionísio, as bacantes e a transcendência pelo prazer

Dionísio é um deus grego bastante conhecido, mas pouco entendido. Associado ao vinho e às orgias Temos o vinho em alta conta, mas na medida, não admiramos os bêbados, menos os bacanais. Sabemos que eles existem, as revistas masculinas trazem relatos para estimular a imaginação de seus consumidores, agora se alguém faz, não faz propaganda. De qualquer forma mostra que as antigas experiências religiosas previam outro relacionamento com a vida.

O culto a Dionísio é anterior aos gregos, trata-se de um dos últimos deuses a ser reconhecido pelos helenos na época clássica. Entre os gregos, Dionísio tornou-se a antítese de Apolo. Apolo é o deus da medida e Dionísio, o da desmedida. Remete a uma cultura em que há momentos em que a desmedida era permitida, diferente de nossa tradição judaico-cristã que a recrimina. Em partes, pois o carnaval, o momento da carne, antes do início da quaresma apresenta o mesmo sentido.

Os rituais dionisíacos buscavam a transcendência, a ligação com o divinho através da dança, do vinho e talvez outros elementos. A exaustão através da dança permite a magia do abandono do corpo num estado de transe. O esquecimento do corpo e o desligamento da consciência vigil normal, efeito também produzido pelo vinho e daí a possibilidade do contato com porção divina de cada um. Estado de transe que hoje encontramos em certos rituais como os dos sunis.

Interessante lembrar que a palavra spirits no inglês preserva a ligação entre o álcool e o plano espiritual.

Dionísio

Eurípides, em sua peça As Bacantes escrita por volta de anos 400 a. C., nos fala de Dionísio, e de suas seguidoras, pois Baco é seu nome entre os romanos. Ele nos conta que as bacantes se embriagavam e dançavam até perder a razão, tudo podia acontecer nesse estado, desde beberem sangue dos animais, correrem nuas pelo mato. Na tragédia, Dionísio chega da Ásia a Tebas e se enfurece porque rei Penteu não lhe presta as devidas homenagens, ao invés de cultuá-lo, aprisiona as mulheres que acompanham Dionísio e tenta aprisionar o propor deus. Dionísio se vinga do rei e no fim vemos o terror causado pela fúria de mulheres descontroladas e loucas. O texto pode ter várias leituras, o próprio rei não é muito sensato, mas sem dúvida condena-se a entrega passional das bacantes.

Em pleno século XXI, temos uma relação ambígua com o prazer. Após a liberação sexual, o prazer torna-se permitido para as mulheres, no entanto, ele ainda permanece associado ao corpo, coisa menor, o divino não pode se manifestar nele. Na tradição judaico-cristã, o corpo está ligado. Durante séculos, tudo o que era proveniente do corpo devia ser refreado, contido, diferente do espírito ou da mente, estes sim, não só poderiam, mas deveriam ser desenvolvidos. E durante séculos, uma mulher que sentia prazer, pela dança ou pelo sexo, só podia ser puta. Com tudo isso, não é simples entender um culto tão antigo que propõe uma ligação entre corpo, prazer e o divino e nos escapa a compreensão da transcendência através do êxtase e não da consciência. Fica assustador, em outros tempos seria heresia.

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