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Deméter e o mistério do grão da vida

Deméter

Os registros de sua origem remontam ao século XII a.C, mas talvez esta esplendorosa deusa ctônica seja bem anterior. As venturas e desventuras desta grande mãe foram registradas no Hino a Deméter, atribuído ao poeta Homero, no século VIII a.C..

Deméter e Pluto

Filha de Cronos e Reia e irmã mais velha de Zeus, conta-se que Zeus a perseguia, louco de amores, Deméter procurando escapar disfarçou-se como égua, o deus metamorfoseou-se em cavalo e a possuiu contra sua vontade em uma gruta. Dessa união nasceram dois filhos, o cavalo Aríon e uma filha cujo nome verdadeiro não se conhecia fora do templo, chamada pelo povo Déspoina, simplesmente, a Senhora. A deusa, tomada pela dor e pela vergonha, cobriu-se de véus pretos e se escondeu numa caverna. Buscou purificação para o ultraje nas águas do Rio Ládon.

Durante uma festa, a deusa embriagou-se com ambrosia e ficou fascinada por um mortal, Iásion, e com ele se uniu sobre um terreno lavrado três vezes, Zeus irado com o flerte enviou um de seus raios, fulminando o mortal. Desta união concebeu Pluto, o deus da fertilidade agrária. Deste mito surge, provavelmente, um antigo ritual de fecundidade da terra consistia na união do camponês e de sua esposa, numa noite sobre a terra que viria a ser cultivada, a fim de despertar a vegetação.

A deusa tinha uma linda filha, Coré, fruto de sua união com Zeus. A doce jovem desperta a paixão em Hades, irmão de Zeus que a rapta, levando-a para o seu reino.

Durante nove dias, Deméter chorou inconsolada, nenhum deus atreveu-se a lhe contar o paradeiro da menina, ela então deixa o Olimpo e sai à sua procura pelo mundo disfarçada de mortal. Em Elêusis, na Ática, se encontra com as filhas do rei Celeu e oferece-lhes os seus serviços como ama-seca, recebendo a tarefa de cuidar do irmão recém-nascido Demofonte, filho da rainha Metanira. Agradecida pela acolhida, a deusa começa secretamente a transformar Demofonte em imortal, alimentando o bebê com ambrosia, o alimento dos deuses e todas as noites o deita sobre carvões incandescentes num ritual da imortalidade. Antes da conclusão do processo, a rainha encontra horrorizada o filho no fogo. Deméter se revela em seu esplendor e zanga-se com Metanira pela interrupção do ritual: por sua culpa o filho estaria destinado a morrer como todos os homens.

A profunda dor da deusa pela perda da filha, causa uma grande seca na terra, o alimento começa a faltar e o futuro da vida começa a preocupar os olimpianos, buscando demover Deméter de sua tristeza, Zeus envia-lhe oferendas através dos deuses. Nada adiantou. Certo dia, a deusa chorava suas mágoas no poço das Donzelas, quando Baubo apareceu, procurou consolá-la com palavras doces, mas nada diminuía sua tristeza, nisso Baubo, sem mais, nem porque, levanta as saias e lhe mostra a vulva num gesto irreverente e obsceno. Surpreendida, a deusa solta uma risadinha, primeiro riso em meses.

Hécate comove-se com a sua dor, procurando Helios, aquele que tudo vê, para saber o paradeiro da jovem. A filha estava escondida no submundo, onde nem a luz chegava. Zeus então foi pressionando a interceder junto a Hades, a devolução da donzela. Coré, agora com o nome de Perséfone, voltaria ao mundo dos vivos se não houvesse provado alimento algum em sua jornada no reino dos mortos. Hades, apaixonado pela jovem, antes de deixá-la partir colocou em sua boca algumas sementes de romã. Assim, por ter ingerido alimento, Perséfone deveria passar uma temporada do ano junto à mãe e depois retornar junto a Hades, onde se tornara rainha. Nos quatro meses em que residia  nas profundezas, toda a vida na terra secava para renascer no retorno de Perséfone à Deméter, à terra, sua mãe.

Após este acordo, a deusa devolveu o grão da vida que ela em sua cólera havia escondido, mais do que isso, entregou o conhecimento da agricultura a Triptólemo, o outro filho de Metamira e do rei Céleu, de Elêusis, tornando-o o guardião dos seus segredos. Triptólemo também recebeu a missão de ensinar a todos os helenos os mistérios da agricultura. No templo que lhe foi construído em Elêusis, ela instituiu belos ritos, os Mistérios Eleusinos.

Deméter foi a mais cultuada das deusas gregas, do governante ao escravo, da mãe-de-família à prostituta, do ancião à criança, todos podiam ser iniciados nos rituais conhecidos hoje como Mistérios Eleusinos, desde que falassem grego para poder compreender o conteúdo das palavras e não tivessem cometido crime de sangue.

Deméter aparece como descendente direta da Deusa-Mãe da ilha de Creta, cultuada entre o terceiro e o segundo milênio a. C., cujas sacerdotisas prestavam culto ao touro, um grande símbolo da fertilidade. Acredita-se que o culto à deusa tenha chegado de Creta, por meio da cultura micênica do Peloponeso.

A Mãe da Terra, Deméter, governava o crescimento da vida, sagrou-se regente de toda a natureza e protetora das jovens criaturas indefesas. Deméter forneceu as chaves da produção dos alimentos e traduziu ensinamentos do ciclo da vida-morte-vida. Deméter estava associada à transformação, ao mistério que transforma a semente em uma planta que se tornará alimento. Acredita-se que ela ensinou os homens a arar a terra e as mulheres a moer o trigo e a fazer o pão. A cor dourada de seus cabelos reproduzia o ondulado dos trigais ao vento. O pão, central na nutrição do homem também é um símbolo do alimento espiritual. Deusa dos cereais, o seu culto marca o ritmo das estações e o ciclo da semeadura. Em referências mais antigas vemos a deusa segurando flores de amapolas em suas mãos e sementes de trigo e papoulas vermelhas em sua diadema.

O santuário de Deméter em Elêusis, construído sobre uma nascente sagrada, permaneceu ativo durante quase dois mil anos, sendo destruído no ano 396 d.C..

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Podemos encontrar o espírito de Deméter naquelas mulheres que andam rodeadas de crianças, vivem pensando na comida e nos agasalhos dos filhos, do marido e de quem estiver ao seu redor. Instintivamente cuida de tudo o que é pequeno, carente de defesa e em crescimento. A partir desta figura, a sociedade criou o estereótipo da mãezona, a protetora, que se doa incondicionalmente. O imaginário nos traz uma mulher gorda ao pé do fogão, cozinhando gostosuras. Representação útil em sociedades patriarcais, fonte de muita culpa para as mães modernas que não se encaixam no perfil.

Por outro lado, a mãe não quer perder a sua filhinha. Para boa parte das mães os namorados e os maridos estão raptando suas filhinhas… mostrando um mundo que ainda não deveriam conhecer… Interessante como todas as mães implicam com os namorados e/ou maridos das filhas, talvez porque a mãe resista a aceitar a transformação da filha em mulher e a sua própria transformação.

Este mito nos lembra que o longo percurso da vida requer transformações. O problema surge quando nos apegamos a um estágio e travamos o fluxo da vida. Vemos um exemplo naquela mãe que procura adiar o crescimento e a separação dos filhos, apegada àquele papel que já conhece tão bem. Se bem, hoje as mães andam de aspirador de pó e vão à ginástica, ainda querem os filhos ao seu lado, por outro lado, para muitos filhos hoje, a casa tornou-se um ninho tão confortável que relutam em partir para a sua própria jornada.

Este mito aborda o apego e as resistências às transformações da vida, nos conduz a reflexão acerca dos nossos comportamentos que precisam morrer: a preguiça, a língua-solta, a desatenção, a autocobrança, a autocomiseração, a intolerância? Quais apegos precisamos abrir mão para que a vida flua no seu curso? Aos filhos que querem crescer e nós os queremos sob as nossas saias? Ao conforto da vida de filhas/os (roupa lavada, comida na mesa, despreocupação com as contas no fim do mês)? Ao emprego que não nos oferece perspectiva, mas seguimos nele? A amargura que carrego comigo porque a vida não foi o conto de fadas que sonhei? À vidinha que construí e se tornou tão confortavelmente conhecida?

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Lembranças do grande arquétipo do feminino

Amazona

Neste mundo, no qual as mulheres fazem tudo o que os homens fazem, trocam lâmpadas, constroem pontes, são cientistas, entre outros, muitos se perguntam, qual seria a essência do feminino? O que caracterizaria a própria mulher? No plano simbólico, o elemento central do feminino é o vaso. O próprio útero pode ser pensado como um vaso invertido, o vaso que acolhe a semente e a transforma em criação-criatura.

O vaso comporta diferentes usos e funções. Existe o vaso-recipiente que preserva, contém e protege, por sua vez, o vaso-alimento nutre o nasciturno, mas sem dúvida o atributo mais misterioso é sua possibilidade de gerar vida e parir.  A criação, o lado numinoso, o mistério que nos vincula ao sagrado.

Cultura mexica (Astecas)

A fabricação da cerâmica desde os primórdios era uma tarefa da mulher, a magia da terra  e da água que se transformam com o poder do fogo. Por sua vez, a transformação que se processa em seu interior o ligam ao irromper, nascer, à movimentação criativa. Crianças, pensamentos, arte vem à luz do interior obscuro deste corpo-vaso-ventre. Mas também a transformação da menina em jovem e depois da jovem em mãe.

vaso2Os antigos colocavam o corpo ou as cinzas num vaso-urna funerária, para que estes ficassem guardados, assim como se chegou ao mundo. O vaso, um recipiente feito a partir da terra recebe aquele que se foi de volta para si, tal como a mãe terra, que nos nutre nesta vida e depois da morte nos acolhe.

Recipiente cujo interior é desconhecido, tal como a alma da mulher, foi associado a uma caverna  protetora e  porta de entrada da montanha. No plano simbólico, a caverna e a montanha representam a forma natural de símbolos como o templo e da casa.

Todos estes elementos o ligam à personalidade arquetípica da mulher, tornam-se o fundamento de sua grandeza, a sua contribuição particular na relação com o masculino, central na manutenção da espécie, mas também na transmissão da cultura, algo que nos torna humanos.

atena vasNos dias 8 de março lembramos as conquistas das mulheres, penso que uma conquista ainda por vir é a do seu feminino. O útero é responsabilizado pela TPM,  o sangue ficou associado à impureza e ainda hoje, em alguns espaços, vemos mulheres sendo discriminadas no trabalho, porque engravidavam. Sem contar que na busca em se igualar ao homem, o corpo-vaso anda um tanto malbaratado, mais parece um vaso sem alma.

A conexão da mulher com o seu feminino começa pelo entendimento de seu vaso, de suas águas e da terra que o conforma, passa pelo desvencilhamento dos preconceitos apreendidos até se chegar à reconquista de sua dignidade. Ainda temos um trecho a percorrer.

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O encanto chega com as ondas do mar

Não há quem não se renda aos seus encantos, a sua majestade chama a reverenciá-lo, mas também a ser cuidadoso. Profundo, fértil e misterioso, o mar. Das águas marinhas, descendem Yemanjá e Afrodite, duas deusas que trazem facetas de seu poder.

Proveniente da mitologia Yoruba, Yemanjá é a guardiã dos mistérios da fertilidade e do amor, grande mãe, de coração caloroso a todos acolhe. O fluir de suas águas dissolve as dores e tristezas de homens e mulheres, confortando todo aquele que busca sanar suas mágoas.

Do panteão olímpico grego, chega Afrodite, aquela nascida das espumas do mar, representa o amor primordial e a fecundidade. Seus atributos divinos, alegria, sensualidade, beleza e graça, a tornam irresistivelmente encantadora.

As duas senhoras cada uma a sua maneira, chamam a cultuar a beleza, a cultivar a alegria e celebrar diariamente a vida.

Afrodite voando em um ganso, do séc. V, encontrada em Rodes

É tão forte a simbologia do mar que uma versões da etimologia do nome Maria remete a “oceano”, sendo assim, a Virgem Maria, a mãe de Deus, seria uma continuidade cultural destas antigas deusas do Mediterrâneo.

Em fevereiro, vale ouvir o fluir das águas, se possível, visitar o mar, passear pela praia e, por que não, celebrar a vida, tão sublime, poderosa e intrigante como o mar.

Yemanjá – dia 02/02

Afrodite – dia 06/02

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