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A luz do Natal

O nacimento na Igreja do Arcanjo, na região de Trodos, Chipre. O conjunto de 10 igrejas remonta ao século XI

O Natal chegou, momento de alegria, felicidade, compartilhamento de mesas fartas e presentes para celebrar o amor. Bacana.

Se por um lado, o Natal nas propagandas está repleto de gente sorrindo, nas celebrações de fim de ano, a data desperta, no mínimo, sentimentos ambíguos. O Natal está associado a presentes, à ceia familiar, mas e se nossa família não é como a da propaganda? E se os tios encontram sempre algo chato para perguntar? Vestibular, casamento, filhos ou qualquer tema sensível?

Na infância, o Natal comporta uma magia, luzes coloridas, o velhinho simpático que chega de trenó trazendo presentes, ao lado da árvore aparece a imagem de um menino que nasce em uma manjedoura, filho de Maria e José.

Quando nos contam que o Papai Noel não existe, a realidade desaba sobre nossas cabeças. Passam os anos, vemos que os beijos e as palavras de certas figuras familiares podem não ser sinceros, algumas pessoas queridas se vão e o Natal torna-se uma festa vazia, cheia de obrigatoriedades -até de estar feliz-, em um momento que estamos todos cansados, pois é fim de ano. Ao nos tornarmos adultos, somos levados a esquecer a magia, coisa de crianças, dizem-nos. O que celebramos nesta data, mesmo?

O significado do Natal anda longe de nossas referências, quase não há presépios nas ruas. Em um mundo desencantado, as narrativas da tradição parecem conversas de velhas carolas, perderam seu valor entre homens e mulheres que se professam modernos, não admira que a celebração natalina esteja reduzida quase que somente à obrigatoriedade da reunião familiar. Inclusive muitos preferem a festa da virada, pois tem sentido despedir o ano velho e saudar a chegada do novo.

Entre os antigos, antes mesmo do judaísmo e do cristianismo, no período, celebrava-se o renascimento da luz, após a escuridão do inverno, no hemisfério norte. Eu gosto do mistério da luz que vêm depois da escuridão, quem passou por uma nebulosa, sabe da importância de se enxergar a luz.

Ao racionalizar o mundo, despovoamos o universo do mistério e banimos diversos rituais, seja para fertilizar a terra, germinar a semente, de colheita ou da poda. Ao reduzi-los a uma visão mítica do mundo nos esquecemos que eles pontuam os ciclos da vida. A primazia da racionalidade,  para muitas gerações, esvaziou a própria vida de significado, ao se desvencilhar do sentido dado pelas narrativas das diversas tradições.

Gosto dos rituais, pois aprendi que eles nos relembram que a vida é circular e cíclica, bem como de coisas importantes, das chegadas e partidas, ajudando nas transições e passagens. Longe de acreditar que esta visão é  verdade universal, mas para mim faz sentido.

O nascimento de Jesus, o tão esperado Filho de Deus que se faz carne, apresenta-se como uma grande data na tradição  cristã da qual somos herdeiros. Poucos sabem que a figura de Jesus inaugura uma nova forma de pensar e se relacionar com o divino, Deus torna-se o amor, deixa de ser a transcrição da lei. Essa nova figuração me parece importante, pois o amor é uma experiência única e irresistível, até para os mais racionais, expressão da nossa divina humanidade.

Neste Natal, aproveite, celebre a vida contida em cada nascimento, conecte no amor que você sente por todos os seus e encante uma criança, como aquela que você um dia foi.

Feliz Natal!

 

Dirck Barendsz, 1565, Igreja de Janskerk

 

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Luz no caminho, Hécate

Tirando o pó de velhos livros me deparei com uma deusa grega muito bela, mas quase desconhecida, caminhando com uma tocha.

A Teogonia de Hesíodo, autor do século VIII a. C., recupera a origem do mundo para os gregos, lá lemos a respeito de Hécate. Ela, assim como Zeus era um Titã, no entanto, a diferença dos outros Titãs, que foram derrotados por Zeus, que assim se tornaria senhor do Olimpo, a deusa conservou seus poderes. Nos mitos, vemos Hécate auxiliando diversos deuses e mortais, um dos mais lembrados é quando ao ver dor de Demeter, pelo rapto de sua filha, Perséfone, descobre o seu paradeiro no Hades.

Hécate não é grega, acredita-se que sua origem remonta à Asia Menor, recebendo a representação de bela mulher, às vezes, com três cabeças. Cada uma das cabeças olha para uma direção, representando sua visão que tudo vê, presente, passado e futuro; mundo e submundo. Senhora dos três reinos, do céu, da terra e do mar, tornou-se zeladora das passagens e dos caminhos, ajudava a fazer escolhas, protegendo também os partos e os velhos na hora da morte. Deusa lunar, acompanhava especialmente as mulheres, se alguma precisava viajar sozinha, encomendava-se a Hécate. A deusa circulava até pelo reino da  escuridão -o Hades, onde encontra Perséfone- que iluminava com sua tocha.

Como uma deusa dos limiares, protegia as populações limiares e vulneráveis. Em Roma, foi cultuada pelos escravos que lhe deixavam oferendas nas encruzilhadas de caminhos.

Imaginar uma deusa onisciente, senhora do céu, da terra e do mar, e como se não bastasse que pode andar onde ninguém quer ir, no submundo (o Hades), já para os gregos era demais. Os gregos eram solares, apolíneos, admiradores do pensamento racional, lógico-dedutivo. Acredito que por este motivo, ao longo da civilização helênica, Hécate de portadora da luz tornou-se uma figura bizarra trazida pelos bárbaros. Eurípides, escritor ateniense do século V a. C., em sua tragédia Medéia, a representou como uma bruxa, tendo um papel central ao guiar a protagonista, em sua vingança contra Jasão. A difamação continuou, no mundo medieval, ela foi representada como feiticeira, deusa escura, das sombras e caçada como bruxa.

Perdeu-se um ponto central, Hécate sempre segura uma tocha. A sua lembrança nos permite voltar a um mundo em que a importância da luz provém da sua capacidade de clarear a escuridão, permitindo-nos a nós simples mortais que não enxergamos muito bem nem a nós mesmos, a visão e o discernimento. Ao longo de milênios, homens e mulheres buscam auxílio para caminhar pela jornada da vida, o grande desconhecido. O mundo moderno entende os mitos como lendas, como se hoje a vida, por ser racionalizada fosse menos incerta e desconhecida.

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