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Poesias e cantadas na orla de Ipanema

Há tempos venho acompanhando o debate sobre as diferentes formas de violência contra as mulheres. Um tema que precisa ser debatido, pois se durante milênios foi entendido como natural, hoje até um olhar pode ser entendido como ofensivo em nosso mundo que anda sensível e intolerante.

O blog feminista Think Olga fez uma enquete online sobre cantadas, quase  8 mil mulheres responderam, 87% disseram “não achar legal receber cantadas”.  A enquete levou à criação da campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual em lugares públicos e o blog tornou-se um porto de denúncias não só de cantadas mas de diversas formas de assédio sexual.

Faço parte da porcentagem que recebeu cantadas, “Bom dia”, “Princesa”, buzinadas enfim , detestei muitas, evitava passar na frente de construções e até hoje presto atenção às roupas que visto, para evitar olhares desagradáveis. Agora, devo confessar que houve algumas cantadas que me fizeram rir e outras, certamente, fizeram bem para o meu ego em dias um tanto nublados.

A jovem Helô Pinheiro

Em meio a essas reflexões, hoje, os telejornais nos lembraram dos 20 anos da morte do mestre Tom Jobim. Ouvindo fragmentos de suas músicas me assaltou o pensamento que se esta sensibilidade feminina estivesse presente nos anos 1960, o clássico Garota de Ipanema não existiria.

Assíduos frequentadores do bar Veloso na orla de Ipanema, Tom e Vinicius sentavam-se numa mesa da calçada a jogar conversa fora e a olhar o movimento “cheio de graça”, entre umas e outras, ali nasceram clássicos da música brasileira contemporânea.

Em dias ensolarados, a jovem Helô Pinheiro uma moça de “corpo dourado do sol de Ipanema” passava “num doce balanço a caminho do mar”. Sabe-se que ela  não se incomodou com a cantada e menos com a música que se tornou um sucesso internacional,  recebendo versões em centenas de idiomas e a promoveu a eterna garota de Ipanema.

Temo que hoje, os poetas seriam mal vistos e talvez até denunciados por assédio a uma jovem de 17 anos e a música brasileira perderia muito de sua graça, beleza e amor.

… Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

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Uma história de domingo de Ramos

Entrada triunfal em Jerusalém, de Giotto, em Pádua, Itália

Hoje, domingo de Ramos fui à missa, seguindo uma tradição familiar que me relembra a infância. Quando criança, minha mãe nos tirava cedinho da cama -a meu pai, à minha irmã e  a mim-, para ir à missa de domingo de Ramos. Todos sempre reclamávamos, porque queríamos continuar dormindo, mas sempre fomos, pois se tratava de um dos principais eventos familiares. Pegávamos os ramos de palma, fazíamos a procissão, rezávamos, cantávamos, enfim.

Esta missa marca o início da Semana Santa, relembrava a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Uma entrada triunfal do filho de Deus, montado em um burrico.

Dona Patrícia, minha mãe, como filha única, passou uma infância muito solitária e não queria que sua filha, no caso, esta que escreve, crescesse sem irmãos. Logo após o meu nascimento, ela engravidou,  mas perdeu o bebê,  ficou meses muito mal no hospital e os médicos vaticinaram que ela nunca poderia ter outros filhos.

Alguns anos se passam, quando ela, uma mulher católica à sua maneira, vai à missa num domingo de Ramos, muito triste, pede a graça de conceber outra criança, ela promete que durante todos os anos de sua vida, nunca deixará de assistir a uma missa de Ramos, junto com a sua família. Dona Patrícia sempre fazia promessas familiares.

No final de janeiro do ano seguinte, nascia Claudia, minha irmã, eterna amiga e companheira,  com quem temos compartilhado tantos momentos e experiências. Com quem aprendi tanta coisa, desde a importância das parcerias à lealdade incondicional.

Sempre gostei muito dessa história, por isso vou às missas de Ramos, pego folhinhas de oliveira, quando posso como neste domingo, vou à procissão e com muita alegria eu canto:

Entrada triunfal em Jerusalém, 1320, Lorenzetti, em Assis, na Itália

Hosana hei hosana ha
Hosana hei hosana hei, hosana ha 

Ele é o santo é o filho de Maria
Ele é o Deus de Israel
Ele é o filho de Davi
Santo é o Seu nome é o senhor Deus do universo 
Gloria Deus de Israel 
Nosso rei e salvador

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O desafio de crescer e aprender

Uma amiga, companheira de caminhada, Simone, escreveu comentando o post “Histórias de um fim de semana na neve”:

“Uma metáfora de tantas outras ocasiões em que caímos e levantamos, né, nos esquecendo de que as quedas são oportunidades de aprender a reencontrar o eixo — na vida, na neve, na espiritualidade… Até vermos o quanto foi útil passar por aquilo: porque aí desfrutamos o prazer do aprendizado, o vento no rosto, o equilíbrio e o deslizar sobre montanhas.”

A gente cresce e esquece que  foi preciso engatinhar para aprender a andar e até levar alguns quantos tombos. Eu ainda me lembro do que foi aprender a andar de bicicleta! Entretanto, a memória apaga o processo e só registra o resultado, além disso, em muitos de nós há um eguinho que cresce um pouquinho e já se acha o rei da cocada preta. Inflação do ego diria o pessoal da psi.

A gente fica velha não quando tem idade, mas quando deixa de aprender novas coisas ou quando não quer expor que não sabe, com medo de perder a autoridade. E nisso vai perdendo os diversos prazeres da vida.

Vi nestes dias o filme “Um método perigoso”, sobre a relação entre Jung e Freud. Não é lá um grande filme, mas um certo momento Jung que contava seus sonhos para Freud pede para criador do método da psicanálise compartilhar um dos seus, Freud recusa dizendo algo como:

– Se eu contar vou perder a minha autoridade.
Grande receio de boa parte das pessoas a perda da autoridade. Não sabem que na busca de mantê-la a qualquer preço e no medo já se perde…

Este esquema apresenta alguns pontos dos dois autores. Jung tem uma vasta obra, não acredito que o Livro Vermelho seja o mais importante…

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Drops sobre o cérebro e a memória

Entendermos o cérebro, essa complexa ferramenta que trazemos como espécie, é central para entendermos o ser humano. Ele é responsável por nossas ações, pensamentos e até pelo que fazemos sem pensar como respirar, havendo inclusive uma parte associada à moralidade. Sistema fascinante, por isso decidi compartilhar um debate importante para todos os que têm cérebro, a memória.

A vida em sociedade requer do indivíduo o armazenamento de informações, a memória permite-lhe resolver melhor suas necessidades biológicas, saber quem ele é -e assim construir sua identidade-, incorporar as regras de funcionamento da vida social, entre tantos outros. O aprendizado torna-se o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre o mundo, estando totalmente vinculado à memória, nele o dado é adquirido, estocado e depois recuperado para utilização. Um processo em três estágios: codificação, armazenamento e recuperação. Bem, este é o percurso padrão, mas pode haver um dano no trajeto ou o mesmo, o arquivador pode se atrapalhar no seu serviço. Há pessoas que sofrem lesões em alguma parte de cérebro e apresentam problemas para fazer o resgate, outras, para realizar novos registros, ou seja, incorporar novos aprendizados.

Os pesquisadores identificam dois grandes tipos de memória: curto prazo e longo prazo. A memória de curto prazo é momentânea, dura em média 20 segundos, apresentando pouca capacidade de armazenamento, por isso também denominada memória de trabalho. Por exemplo, procuro um certo número numa rua, guardo-o na mente, achei o número, “descarto” informação. Para que um conhecimento seja incorporado, seja o nome de uma pessoa, uma música, uma receita, uma matéria, ele precisa ser repetido até sua consolidação. Em termos fisiológicos, formam-se caminhos, denominados “traços de memória”. Uma andorinha não faz um verão, uma olhadinha na matéria não significa “arquivamento”, nem se transforma em conhecimento. As sinapses precisam do reforço, sem ele, o traço formado nas redes neurais se perde, mas se houver reforço o conhecimento pode durar toda a vida, ou seja, vira memória de longo prazo -o grande arquivo disponível para ser reutilizado mais tarde. Podemos passar anos sem andar de bicicleta, um dia subir em uma e sair andando.

Num mundo com tanta informação disponível e tão volátil, certamente muitos gostariam de ter mais memória do que têm, ou seja, poder armazenar mais e por mais tempo, desejariam também poder evitar o esquecimento e até transtornos que afetam a memória como o Alzheimer. Algumas pessoas se iludem pensando que tomando uma pastilha todos os dias está tudo certo… sem tirar a importância dos componentes como cálcio e magnésio. Há muito a se conhecer sobre o funcionamento da nossa mente, mas o que já se sabe é que habilidade (ferramenta) que não se usa, se atrofia, cabe a cada um cuidar da (e usar) sua memória para não dar espaço para o alemão.

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Verdade, memória e cidadania

Depois de 37 anos do término do regime militar, o Brasil  enfim instalou uma Comissão da Verdade com o objetivo de esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de violações de direitos humanos, como torturas, mortes e desaparecimentos, que aconteceram entre 1946 e 1988.

O Brasil foi o último dos países do cone sul a criar este tipo de comissão, a Argentina, o Chile e o Uruguai o fizeram logo após o término dos regimes de exceção.

Muitos devem se perguntar se a esta altura do campeonato, não é melhor deixar para lá, esquecer, outros encontram que a verdade é insuficiente, pois não significa punição aos criminosos. Há críticas dos dois lados.

A anistia concedida pelo governo brasileiro em 1979 foi abrangente ao ponto de incorporar presos políticos e integrantes do aparelho de repressão que gozaram de um perdão “amplo, geral e irrestrito”, para lembrar uma frase da época. Os torturadores não foram identificados ao passo que as vítimas anos depois precisaram expor a sua dor para receber indenização do Estado.

Ao longo destes anos, pressões principalmente dos segmentos militares impediram o surgimento de uma Comissão da Verdade, apenas a presidente Dilma Rousseff, ex-militante, presa e torturada, teve coragem  de enfrentá-las. Independente da avaliação que se faça do governo, sem dúvida, este foi um passo importante para o amadurecimento cidadão do Brasil.

“Quem esquece o passado está fadado a repeti-lo” registrou o filósofo George Santayana. É importante saber o que se passou, só a consciência nos torna atentos aos sinais quando algo não vai bem, apenas ela, nos permite rejeitar o que não queremos repetir.

Nos últimos tempos temos ficado cada vez mais sensíveis e menos tolerantes às diversas formas de violência. Quando ela ocorre buscamos a restauração e a punição dos responsáveis. No código penal inscrevemos o que a sociedade considera violência e como tal receberá sansão. Um problema complexo surge quando a violência parte do Estado. Verdade e registro são passos necessários para curar feridas. Dar o nome aos bois torna-se importante para não deixar criminosos na confortável posição do esquecimento.  Há coisas que não é possível se restaurar, nem a punição restaura, quem perdeu algum familiar vítima da violência sabe disso, mas a memória desempenha um grande serviço à restauração do equilíbrio e da paz social.

A verdade permite curar feridas e ao mesmo tempo construir a sociedade que desejamos, além disso é  importante dizer: é crime calar, cortar, queimar, matar e desaparecer adversários, mesmo se o autor é um “agente da lei”; assim como afirmar importância do respeito à diversidade e ao dissenso como condições para a democracia.

O amadurecimento cidadão de um país precisa disso.

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Antes da televisão, também havia vida na terra

Ao ler jornais, ouvir rádio, acessar a web etc. não é difícil perceber uma grande contradição em nosso tempo. Nossa civilização construiu grandes bibliotecas, disponibiliza tanta informação e tem tão pouca memória. Comparação inevitável, desejamos computadores com memórias cada vez maiores para armazenar o universo, mas as pessoas não fazem as devidas conexões entre os fatos. E a vida não ficou mais fácil, nem o mundo com mais inteligível depois da conectividade. Pelo contrário!

Vivemos um eterno presente. Para os mais jovens, parece que o mundo começou com a internet, ou no máximo com a televisão. Quando eles vão pesquisar historicamente um fato, começam pelo pós-guerra. O mundo inicia aí. A história do Brasil, com Getúlio e olhe lá. Outro dia, li que a música brasileira começava com as canções de protesto na ditadura…

O que sucedeu até então, parece ter se perdido no buraco negro do esquecimento. As pessoas não se divertiam antes da TV, não se comunicavam antes do celular, nem transavam antes da popularização da camisinha. Que, aliás, existe há milênios, pois há registro do seu uso no Egito dos faraós!

Movimento perigoso, pois quando o esquecimento domina, existe a perda da força contrária, a memória e ela é o único antídoto contra tendências conservadoras ou mesmo autoritárias.

A memória permite associar experiências e entendê-las, sem ela, nossos dias se tornariam um amontoado de experiências sem sentido, vividas com o impacto da primeira vez. A recordação possibilita-nos tomar consciência dos eventos, liga o passado ao futuro e nos situa no fluxo dos acontecimentos, fornecendo-lhes significado, seja a crise mundial, as queimadas na floresta, uma eleição presidencial ou uma bomba atômica. Permite-nos o aprendizado a partir da própria experiência, da experiência dos outros e da história.

Mesmo nadando contra a corrente, é responsabilidade nossa manter a memória e não esquecer o significado dos fatos. As futuras gerações agradecem.

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