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A luz do Natal

O nacimento na Igreja do Arcanjo, na região de Trodos, Chipre. O conjunto de 10 igrejas remonta ao século XI

O Natal chegou, momento de alegria, felicidade, compartilhamento de mesas fartas e presentes para celebrar o amor. Bacana.

Se por um lado, o Natal nas propagandas está repleto de gente sorrindo, nas celebrações de fim de ano, a data desperta, no mínimo, sentimentos ambíguos. O Natal está associado a presentes, à ceia familiar, mas e se nossa família não é como a da propaganda? E se os tios encontram sempre algo chato para perguntar? Vestibular, casamento, filhos ou qualquer tema sensível?

Na infância, o Natal comporta uma magia, luzes coloridas, o velhinho simpático que chega de trenó trazendo presentes, ao lado da árvore aparece a imagem de um menino que nasce em uma manjedoura, filho de Maria e José.

Quando nos contam que o Papai Noel não existe, a realidade desaba sobre nossas cabeças. Passam os anos, vemos que os beijos e as palavras de certas figuras familiares podem não ser sinceros, algumas pessoas queridas se vão e o Natal torna-se uma festa vazia, cheia de obrigatoriedades -até de estar feliz-, em um momento que estamos todos cansados, pois é fim de ano. Ao nos tornarmos adultos, somos levados a esquecer a magia, coisa de crianças, dizem-nos. O que celebramos nesta data, mesmo?

O significado do Natal anda longe de nossas referências, quase não há presépios nas ruas. Em um mundo desencantado, as narrativas da tradição parecem conversas de velhas carolas, perderam seu valor entre homens e mulheres que se professam modernos, não admira que a celebração natalina esteja reduzida quase que somente à obrigatoriedade da reunião familiar. Inclusive muitos preferem a festa da virada, pois tem sentido despedir o ano velho e saudar a chegada do novo.

Entre os antigos, antes mesmo do judaísmo e do cristianismo, no período, celebrava-se o renascimento da luz, após a escuridão do inverno, no hemisfério norte. Eu gosto do mistério da luz que vêm depois da escuridão, quem passou por uma nebulosa, sabe da importância de se enxergar a luz.

Ao racionalizar o mundo, despovoamos o universo do mistério e banimos diversos rituais, seja para fertilizar a terra, germinar a semente, de colheita ou da poda. Ao reduzi-los a uma visão mítica do mundo nos esquecemos que eles pontuam os ciclos da vida. A primazia da racionalidade,  para muitas gerações, esvaziou a própria vida de significado, ao se desvencilhar do sentido dado pelas narrativas das diversas tradições.

Gosto dos rituais, pois aprendi que eles nos relembram que a vida é circular e cíclica, bem como de coisas importantes, das chegadas e partidas, ajudando nas transições e passagens. Longe de acreditar que esta visão é  verdade universal, mas para mim faz sentido.

O nascimento de Jesus, o tão esperado Filho de Deus que se faz carne, apresenta-se como uma grande data na tradição  cristã da qual somos herdeiros. Poucos sabem que a figura de Jesus inaugura uma nova forma de pensar e se relacionar com o divino, Deus torna-se o amor, deixa de ser a transcrição da lei. Essa nova figuração me parece importante, pois o amor é uma experiência única e irresistível, até para os mais racionais, expressão da nossa divina humanidade.

Neste Natal, aproveite, celebre a vida contida em cada nascimento, conecte no amor que você sente por todos os seus e encante uma criança, como aquela que você um dia foi.

Feliz Natal!

 

Dirck Barendsz, 1565, Igreja de Janskerk

 

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A medicina do sonhar

Neste papo delicioso sobre os sonhos Rô, uma querida e sintonizada amiga que trabalha em algumas rodas de cura, adicionou alguns elementos. Diz ela:

Também sou uma sonhadora e me instiga muito perceber que de tempos em tempos , conforme as mudanças ou as necessidades do nosso grupo espiritual,vem uma onda de sonhos refletindo este nosso inconsciente coletivo e que, por vezes, aprofundamento das instruções para estudos individuais ou para o grupo ou mesmo irradiam em aberturas de novos ciclos. Digo isso para lembrar no âmbito do grupo, pra não dizer do pessoal. Sinto mágico, misterioso e de muito poder, esta “medicina do sonhar””.

Asclépio, o curador

Essas palavras me lembraram da importância do sonho para muitas tradições. Entre os gregos havia um grande cidade de cura, Epidauro, lá praticava-se a nooterapia, a cura pela mente. “Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado. E pureza significa ter pensamentos sadios.” Assim se lia logo na entrada.

Durante a estadia, os sacerdotes prestavam especial atenção aos sonhos do paciente, principalmente quando eles dormiam no templo de Asclépio, o patrono de Epidauro, os sonhos dessas noites trariam indicações do Astral das partes enfermas e  também dos instrumentos de cura. Asclépio era Filho de  Apolo, o deus sol, irmão gêmeo de Ártemis, a deusa lunar, um grande curador na vida adulta. Epidauro era um luminoso centro espiritual e cultural, com espaço para as artes e práticas físicas, funcionou durante vários séculos, Hipócrates, o pai da medicina, estudou nele.

Os Mapuche são os povos originários do sul do Chile

Para não ficar no passado, lembrei que entre os mapuche, populações nativas do Chile, ainda hoje, o sonho está incorporado à sua vida cotidiana. Eles acreditam que o sonho se trata de uma viagem que a alma faz quando a consciência se retira e a pessoa dorme. Nesta viagem, ela toma contato com outras dimensões e visita os mundos de cima, de baixo, da “esquerda”, da “direita”. Visualizam suas questões e suas formas de cura. Sei que quando eles precisam tomar decisões utilizam o método de interpretar os sonhos dos membros da comunidade.

E  tenho percebido ouvindo os sonhos de toda família que os nossos sonhos se conversam. Não é fascinante? Nesta viagem da alma, ela passearia por diversos planos, tomando contatos com as questões não vistas durante a vigília e haveria um nível pessoal, do casal, familiar, da coletividade…

Bem, pelo menos, essas foram as minhas divagações…

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Mistérios do grande Feminino

Vênus de Milo

O dia das mulheres, 8 de março, parece um momento perfeito para lembrar um grande atributo do Feminino, a sua capacidade criativa. Todos sabemos que a mulher nas situações mais apremiantes busca caminhos, formas ou saídas, para alimentar sua família, para arranjar trabalho, para se virar em todas as suas tarefas no seu dia a dia, para conseguir uma vaga na escola para o seu filho, enfim. Embora, hoje associemos a criatividade à mente, na origem, a história é outra.

Vaso micênico

Diz-se que o Grande Feminino como um todo é o símbolo da vida criativa, que as partes de seu corpo não são apenas órgãos físicos, mas centros simbólicos de esferas inteiras de vida. As curvas de seu ventre, seus seios, seus quadris participam do mistério da geração, da concepção e da nutrição. Casa e alimento.

Para algumas culturas antigas como a cretense, desnudar os seios era uma prática sagrada, expor os seios tal como a deusa e as suas sacerdotisas faziam em rituais, simbolizava a ligação com a corrente vital nutridora.

Ártemis do Templo de Éfesos

Por outro lado, a mulher com suas curvas também se torna ventre-vaso que a tudo dá origem. Vaso—útero, o centro gerador daquele grande mistério, a vida, lugar de calor e proteção apropriado para dar origem ao novo. Recipiente onde a semente germina. A própria forma do vaso apresenta um visível aspecto simbólico, mas deve-se lembrar o significado simbólico do material com que se faz o vaso, o barro, um elemento que pertence à terra.  Assim confeccionar vasilhas, na origem, é tanto uma parte da atividade criativa do Feminino, quanto fazer uma  criança, o ser humano que – assim como o vaso – em tantos mitos aparece moldado a partir da terra.

 

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O encanto chega com as ondas do mar

Não há quem não se renda aos seus encantos, a sua majestade chama a reverenciá-lo, mas também a ser cuidadoso. Profundo, fértil e misterioso, o mar. Das águas marinhas, descendem Yemanjá e Afrodite, duas deusas que trazem facetas de seu poder.

Proveniente da mitologia Yoruba, Yemanjá é a guardiã dos mistérios da fertilidade e do amor, grande mãe, de coração caloroso a todos acolhe. O fluir de suas águas dissolve as dores e tristezas de homens e mulheres, confortando todo aquele que busca sanar suas mágoas.

Do panteão olímpico grego, chega Afrodite, aquela nascida das espumas do mar, representa o amor primordial e a fecundidade. Seus atributos divinos, alegria, sensualidade, beleza e graça, a tornam irresistivelmente encantadora.

As duas senhoras cada uma a sua maneira, chamam a cultuar a beleza, a cultivar a alegria e celebrar diariamente a vida.

Afrodite voando em um ganso, do séc. V, encontrada em Rodes

É tão forte a simbologia do mar que uma versões da etimologia do nome Maria remete a “oceano”, sendo assim, a Virgem Maria, a mãe de Deus, seria uma continuidade cultural destas antigas deusas do Mediterrâneo.

Em fevereiro, vale ouvir o fluir das águas, se possível, visitar o mar, passear pela praia e, por que não, celebrar a vida, tão sublime, poderosa e intrigante como o mar.

Yemanjá – dia 02/02

Afrodite – dia 06/02

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Quirón, o curador ferido

Nestes dias lendo histórias da mitologia grega, deparei-me com o centauro Quirón. Dizia-se que os centauros eram beberrões e fanfarrões, no entanto, Quirón destacou-se como curador, sábio e educador, tornando-se o rei dos centauros. Uma das versões sobre o seu nascimento conta que Cronos, o titã, pai de Zeus, transformou-se em cavalo para seduzir a ninfa Filira e desta união nasce o jovem com tronco, os braços e a cabeça de homem e o corpo de um cavalo. Logo ao nascer foi abandonado, sendo encontrado pelo deus sol, Apolo, que o criou como um filho, ensinando-lhe seus conhecimentos nas diversas artes como a música, pintura, filosofia, assim como as práticas curativas e divinatórias.

quironMeio homem e meio animal, ele conhece os dois mundos, uma parte registra a vida terrena e a outra, conhece o divino. Seus talentos tornaram-no preceptor dos jovens herois da mitologia que ensinava no Monte Pélion, seu discípulo mais conhecido foi Aquiles, mas Jasão, Héracles e muitos outros também estudaram com ele. Em sua escola, na verdade, uma caverna, antes do manuseio das armas, ensinava a ordem do cosmo, o respeito pelas leis divinas e os valores espirituais.
Certo dia, Héracles em visita ao amigo após matar a Hidra -o quarto dos seus trabalhos-, acidentalmente durante uma briga com os outros centauros, arranhou-o na coxa com uma de suas flechas embebidas com o sangue do monstro de várias cabeças, o veneno não o matou, dado que era imortal, mas obrigou-o a conviver com uma dolorosa ferida e todo o conhecimento que possuía não podia saná-lo.

Curador ferido, Quirón trocou sua imortalidade para libertar Prometeu, o herói acorrentado no alto de um penhasco por roubar o fogo e entregá-lo aos homens. Tornou-se mortal para escapar do seu sofrimento, mas recebeu como homenagem a constelação de Sagitário, para ser lembrado pelos homens todas as noites ao contemplarem o céu e as estrelas.

*

Da Índia
indiaA morte de Damini, uma jovem de 23 anos, estudante de fisioterapia, estuprada barbaramente durante horas por seis homens, em Nova Delhi, nos últimos dias de 2012, nos mostra como o mundo precisa de curadores.

Clique para enviar uma mensagem de protesto diretamente para o governo indiano:
http://www.avaaz.org/po/end_indias_war_on_women/?bliimab&v=20673

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A viagem ao Hades, a experiência liminar

Após a vitória de Zeus e seus aliados sobre os Titãs, o Universo foi dividido em 3 grandes impérios, conta a mitologia grega, cabendo a Zeus o Olimpo, a Posídon o Mar e a Hades o império localizado no seio da terra, o submundo, onde o deus Helios não conseguia penetrar. Os gregos não gostavam de proferir o seu nome, chamavam-no de Pluto, o deus da riqueza, eufemisticamente.

Para os gregos antigos, não existia inferno no formato judaico cristão, existem o reino dos vivos e o dos mortos, onde Hades governa. Vários rios de águas turbulentas separavam a entrada ao submundo, o mais famoso era o Estige. O barqueiro Caronte realizava a passagem  daquele que portava uma moeda para pagar pela travessia. Ninguém voltava de lá, dizia-se, mas alguns heróis e heroinas entraram e conseguiram sair, como Orfeu que queria reaver a sua amada Eurídice, assim como Héracles (Hércules), Odisseu (Ulisses), Teseu, Orfeu, Psiquê, entre outros.

Hades e Perséfone

Hades saiu apenas 2 vezes dos seus domínios, em uma delas, quando tomado por um profundo amor sobe para raptar Perséfone, a quem desposa, a outra, após ser ferido e experimentar uma dilacerante dor, sobe para pedir a Apolo um bálsamo curador.

O domínio de Hades e Perséfone permite tomar contato com uma grande verdade: a fim. O fim inegável da matéria, mas talvez o mais importante, a experiência da finitude que precisamos ter ao longo da vida. A morte da infância com sua inocência, da inconsequência da juventude, do filho quando da entrada no casamento, da fertilidade, da fantasia de que somos eternos, de desejos não realizados, de experiências que nos trazem sofrimento e outras tantas finalizações que devem ocorrer. Tornam-se as diversas mortes necessárias para se ganhar uma vida em plenitude. E não uma eterna repetição do mesmo.

Da descida ao Hades ninguém volta ou, pelo menos, não volta aquele que foi. Depois de vagar quase 10 anos pelo mar, para descobrir o caminho para casa, Odisseu desce ao submundo  à procura de Tirésias, o vidente cego. Tiréssias lhe responde que ele morrerá na tranquilidade de seu reino, mas que a viagem será dura e somente conseguirá retornar se ele refrear a sua cobiça. A profecia se concretiza, a fala do adivinho o leva a buscar a verdade no seu íntimo. O que de fato o heroi desejava? Lembrou-se do amor da esposa, de seu filho, da sua casa…

A viagem ao reino da morte conduz à aquisição de autoconhecimento. “Quem quer que adentre ao reino das profundezas haverá de morrer e renascer simbolicamente para um tempo novo. Quem desce aos ínferos nunca mais retorna, pois o que volta é outro ser, é o renascido”, escreve Maria Zélia Alvarenga.

Conta-se que Alceste, a bela e apaixonada rainha, aceita morrer no lugar do marido, Admeto. Hades e Perséfone admiram-se pelo seu amor e sacrifício, tempo mais tarde, será resgatada por Héracles, paradoxalmente, Alceste retorna mais jovem e mais bela aos braços do rei.

Talvez o mito queria nos dizer que a experiência do fim, embora dolorosa, permita a nossa transformação, assim nessa jornada, na subida, experimenta-se uma renovação que se traduz em juventude, beleza, alegria e tudo aquilo que celebramos a cada novo nascimento.

Fontes: Maria Zélia Alvarenga. Mitologia Simbólica. Casa do Psicólogo.

Junito Brandão. Mitologia Grega. Vozes.

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Os mistérios eleusinos, a jornada da semente

Imagem dos mistérios, séc. IV a.C., no Museu Nacional de Atenas

No dia 22 de setembro, após oito dias, intensos chegava ao fim, na Grécia antiga, a jornada dos Mistérios eleusinos. A data coincidia com o início do outono, que para os gregos era um período de fartura e prosperidade, pois deixava para trás o quente verão que secava toda a vegetação.

O mito do rapto de Core e do percurso de sua mãe Deméter para reencontrá-la definem o núcleo dos mistérios eleusinos. Deméter, a mãe na juventude despertara a paixão de Posídon, não querendo nada com ele, se esconde junto aos cavalos, mas o deus do mar não teve dúvida, metamorfoseou-se em cavalo e a possuiu contra sua vontade. Em seu sofrimento, a deusa se recolhe, escondendo-se numa caverna, consegue se purificar do estupro e recuperar sua virgindade ao banhar-se nas águas do Rio Ládon, mas aqui foi encontrada por Zeus que se transforma em uma serpente para possuí-la. Da união entre Zeus e Deméter nasce Coré.

Mãe e filha viviam felizes, mas eis que um dia Coré, desperta a paixão de Hades, irmão de Zeus e senhor do submundo, sendo por ele raptada. Demeter parte enlouquecida em busca da filha, mas não a encontra em lugar algum sobre a terra. A dor desta deusa da fertilidade faz toda a terra secar. Zeus intercede junto ao irmão, promovendo um acordo, Coré retorna, agora Perséfone, não mais menina, mas uma mulher, esposa de Hades, rainha do submundo e também mãe. Perséfone passará uma parte do ano com sua mãe e a outra com o marido, cada vez que ela retorna à mãe, a terra floresce.

Conta o mito que após o retorno de Perséfone, em Elêusis, Deméter instituiu um dos grandes rituais da antiguidade clássica. Os Mistérios tornaram-se não apenas um ritual agrário da fertilidade, mas acima de tudo, um ritual de transformação.

O mito traz duras experiências seja para os deuses ou para mortais: estupros, solidão, separações de pessoas queridas. Como processar a dor? Não há manual para isso. A vida não é brinquedo. Às vezes, nos apegamos a uma forma, a uma ideia, a um estado. Há pessoas que se apegam até às suas dores e vivem na amargura. Custa-nos entender que a vida é movimento, tal como a jornada da semente.

Apesar de terem sidos celebrados por mais de 2 mil anos, não se sabe muito dos mistérios, pois seus participantes juravam silêncio. Conhece-se um pouco do que acontecia do lado de fora dos templos: banhos no mar para purificação nas águas, oferendas que se transformariam em adubo para as sementes, caminhadas, riso, jejum, danças e, no fim, milhares de tochas acessas. Sabe-se que os participantes saíam renovados.

As jornadas eleusinas se extinguiram com o advento de novos deuses, mas temos outras experiências que permitem a cada um olhar para os seus mistérios, como as caminhadas, seja em Santiago de Compostela, Machu Pichu ou rumo a Aparecida. Sempre vale a pena uma pausa para dar uma olhada na nossa jornada.

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Ártemis, a donzela protetora

No museu Arqueológico de Atenas

Conhecida como Diana entre os romanos, Ártemis era “a sagitária com arco de ouro”. A filha de Leda e Zeus vivia pelas montanhas, na companhia de seus animais, a  cuidar das florestas e dos animais prenhes, no ombro sempre portava o seu arco de flechas certeiras, presente de seu pai.

Conta-se que Leda, grávida de gêmeos do senhor do Olimpo, despertou ira de Hera, sua esposa. Ela proibiu a terra de acolher este parto e nenhum ponto da superfície quis recebê-la e se indispor com a grande deusa. Leda vagou pelo mundo até que sua irmã, Astéria que fora convertida em um amontoado rochas vulcânicas a vagar pelo oceano, abrigou a parturiente. Leda ficou debaixo de uma palmeira sofrendo durante nove dias sem poder dar à luz, pois Ilítia, a deusa dos partos, fora proibida pela mãe -quem mais senão Hera- de ajudar a amante do marido, retendo-a, no Olimpo. E não bastante, Ilítia cruzara as pernas, fechando o caminho para os nascimentos. Todas as deusas assistiam a cena comovidas, sem poder intervir. Uma delas teve a ideia de enviar um presente a Hera, um belíssimo colar de âmbar e de fios de ouro entrelaçados (talvez fosse para Ilítia…). Bem, Hera aceita o presente, permitindo então a partida de Ilítia e Leda dá à luz a Ártemis. Logo ao nascer Ártemis faz o parto de seu irmão, Apolo. Astéria será transformada numa esplendorosa ilha e no centro do mundo.

Ao ver o sofrimento de sua mãe durante o parto, Ártemis pede a Zeus para se manter donzela, no que é atendida. Jamais se casou, permaneceu “virgem”. Na antiguidade, o termo virgem significava pureza.

Ártemis no Museu de Rodes

Algumas passagens de sua biografia mostram uma deusa bastante dura. Num episódio da guerra de Tróia, Ártemis pune Agamenon, o comandante dos exércitos gregos por matar sua corça preferida. Para aplacar sua fúria e superar a maldição, a deusa exige-lhe o sacrifício de sua filha primogênita, Ifigênia. É certo que, no último instante, Ifigênia foi substituída por uma corça e transportada para Táuris, onde se torna sacerdotisa da deusa, desfecho ignorado pelos pais. Em outro momento vemos  Ártemis punir duramente o jovem caçador Actéon. Num certo dia, ele não conteve sua curiosidade e a seguiu, espiando-a enquanto se banhava no rio junto com as ninfas, ela, ao vê-lo, o transforma em veado e ele vai ser devorado pelos seus próprios cães que não o reconhecem.

Outros mitos apresentam uma faceta diferente da deusa. Aparece na Ilíada como “leoa com as mulheres” e detentora do título “a que alimenta, a que educa as crianças”, protetora das jovens, das mulheres em trabalho de parto. A deusa acompanhava particularmente as meninas em sua fase de crescimento, zelando para que o seu corpo fosse respeitado. As noivas, à véspera de seu casamento, ofereciam-lhe uma mecha de cabelo e uma peça do enxoval, para implorar-lhe proteção e fertilidade.

O mito apresenta uma deusa com diversas facetas, tal como outro de seus símbolos, a lua, representação dos ciclos naturais, bem como do feminino. As variantes lua foram relacionadas aos humores da deusa e à própria mudança no humor nas mulheres, algo presente na expressão “ser de lua”.

A estátua de Ártemis encontrada Éfeso, hoje no Museu do Vaticano

Ártemis, uma das facetas da grande mãe, foi cultuada por todo o mundo grego, um dos seus  maiores templos foi construído na cidade de Éfeso, dele restam apenas vagos registros na terra, mas quatro de suas colunas podem se observadas no Museu de Santa Sofia em Istambul, na Turquia.

As colunas do templo de Éfeso no Museu de Santa Sofia, Turquia

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As lições do tempo – o aprendizado de Cronos

Na mitologia, Urano (o Céu) uniu-se a Gaia (a Terra) e geraram a raça dos Titãs, entre os quais Cronos era o mais jovem. Urano temendo ser destronado pelos seus filhos a medida que nasciam os trancava no ventre da mãe. Cada vez mais inchada, Gaia planejou sua vingança.  Modelou uma foice, entregando-a a Cronos, este, certa noite ao ver seu pai em sono profundo, castrou-o, jogando seus genitais ao mar. Cronos libertou seus irmãos e tornou-se senhor da Terra. Sob seu reinado, a terra tornou-se fértil, deu muitos frutos, instituiu as estações, dando ritmo à vida: nascimento, crescimento e morte. O período ficou conhecido como a Era de Outro.

No entanto, o próprio Cronos se recusava a aceitar suas próprias regras e seguir o ritmo da vida. Quando foi profetizado que um filho o destronaria, repetindo sua história com seu pai, passou a engolir sua prole, fez isto com vários? Demeter, Hera, Posidon… Reia, sua consorte, grávida do caçula, fugiu para a ilha de Creta, onde deu a luz a Zeus, mas cuidou de embrulhar uma pedra num manto, entregando-a a Cronos  para que fosse  engolida no lugar do filho. Anos mais tarde Zeus o destronará, inaugurando uma nova ordem e tornar-se-á o Senhor do Olimpo.

Cronos nos convoca a pensar a experiência da finitude. A vida tem uma regra evidente, para nós seres humanos, por mais que desejemos obviá-la: tudo chega a um fim. Nada é para sempre, nem o bom, nem o ruim, nem o alegre, nem o triste. Ninguém pode viver além do seu tempo e nada permanece imutável. A juventude, a força, a destreza entram na lista, quando nos damos conta, elas já se foram. E lutar como Cronos, contra a passagem do tempo, recusando-nos a caminhar para a nova fase, é derrota certa, perde de tempo, dinheiro ou até de dignidade. Há muito velho querendo bancar o garotão. Fica ridículo! Luta frequente nas relações familiares, pois muitos pais se recusam a passar o comando aos filhos, mesmo dando bolas fora, não querem sair do controle. Quantos transtornos eles causam!

Dizem que ao ser destronado, Cronos foi levado para as Ilhas Abençoadas, onde se dorme, esperando o início de uma nova Era de Ouro. A  lição de Cronos é aceitar que há coisas que não podemos mudar. O nosso filho querido fazendo diferente do que desejaríamos, ou mesmo a doença e a morte… o que fazer? Há momentos que nada há a fazer, só ter paciência (e força para suportar). Por isso parte da sabedoria conquistada na maturidade, atende pelo nome de paciência.

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Prometeu e Jesus, sacrifício e fé

Prometeu, aquele que vê e sabe como aponta o seu nome, entregou o fogo aos homens para tirá-los da sua condição animal. Fez o que achava correto, ciente do castigo. Prometeu será acorrentado no alto de um penhasco, tendo o fígado devorado todos os dias por uma águia, o orgão se regenera à noite para novamente ser devorado no dia seguinte, durante 30 mil anos.

O fígado não é um órgão menor, representa o âmago de cada pessoa, a expressão “doeu o fígado” remete a esta dor visceral, trata-se do mais importante processador do metabolismo humano, representa o centro da vida. A águia atinge o núcleo central, ou seja, as profundezas da alma, a essência das emoções, sentimentos e valores. Em Prometeu estes aspectos vão se transformar dia após dia, na solidão e na escuridão do penhasco.

Milênios se passam, Zeus reconhece então a transformação de Prometeu e sua dor chegou ao fim. Neste percurso, ele precisou se submeter, voluntariamente, ao poder do senhor do Olimpo e usar o anel feito de metal das correntes para se lembrar por toda a eternidade que seu propósito maior era servi-lo. Ao se submeter voluntariamente à vontade do alto, Prometeu conquista a imortalidade, ou seja, uma nova vida pode emergir.

Neste momento, o nosso calendário celebra a Paixão de Cristo, percebe-se um paralelo entre o sacrifício do Filho de Deus e de Prometeu. Ambos deram suas vidas pela humanidade.

O Filho de Deus suportou a traição, o escárnio, o abandono, a tortura. Tanta era sua dor que nos instantes finais, Ele exclama, “Pai, por que me abandonastes!” para depois dizer: “seja feita a Tua vontade”. A morte do filho de Deus representa seu amor e compaixão pelos homens, inaugurando e uma nova figuração de Deus agora visto como amoroso, piedoso e justo.

Santuario Madonna della Corona, Verona, Itália

Prometeu antevia sua liberação após 30 mil anos, mas durante o seu sofrimento precisa acreditar, ou seja, ter fé. Jesus passa por 40 dias de tentação na solidão do deserto e depois enfrentou sua via Cruxis. No final da jornada Prometeu conquista a imortalidade e Jesus ressuscita e se une ao pai.

O mito traz também, o tema do sofrimento, como lidar com aquelas agruras que o destino coloca em nosso caminho? A psicologia nos dá uma pista: “O sofrimento é insuportável enquanto se mantiver alheio à própria identidade, como um corpo estranho. A dor torna-se suportável quando pode ser elaborada…” (Alvarenga, 2011).

Essa é a chave, na vida não estamos a salvo das dores, mas podemos entender a sua causa, dar-lhes algum significado e transmutá-las, como a corrente que se tornou um anel, apenas uma lembrança do que já passou.

Fonte: algumas das ideias aqui trabalhadas  provêm do artigo de Maria Zelia de Alvarenga, “O encontro de Prometeu, Héracles e Quiron” in Junguiana, Vol 29, nº1/2011.

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Prometeu liberto

Prometeu é um daqueles mitos que nos causa espanto. Ele rouba o fogo do Olimpo para presenteá-lo aos homens, contrariando a proibição de Zeus e recebe cruel castigo. O fogo representa o nûs, a presença espiritual e a inteligência, permite ao homem cozer os alimentos e sair de sua condição animal. Zeus temia o fortalecimento dos homens com a posse do fogo e vir a ser por eles desbancado.

Na genealogia, Prometeu é primo de Zeus e seu nome significa “antevisão”, numa referência ao seu dom, a visão. Em certas tradições este é conhecido como o dom da profecia. Ele rouba o fogo em benefício dos homens, aceitando as conseqüências do seu ato, independente da punição que, estava ciente, receberia. Por este ato, Zeus também condena a humanidade, deveria perecer por meio de uma inundação que atingiria toda a terra. O titã consegue avisar seu filho, Deucalião, que constrói um barco no qual embarca com a sua esposa Pirra. O dilúvio dura nove dias e nove noites, ao fim deste período, Deucalião oferece um grande sacrifício comovendo o senhor do Olimpo e salva a sua descendência.

Prometeu não teve a mesma sorte, ele foi acorrentado no alto de um penhasco, onde uma águia lhe devora o fígado todos os dias, o órgão se regenera à noite, para ser devorado novamente no dia seguinte por anos a fio.

Poucas pessoas conhecem a continuidade da história, perdendo o interessante final e a crueldade fica sem sentido. Depois de 30 longos anos, vivendo em solidão e na escura agonia, sem saber se o seu sacrifício valera a pena, Prometeu é resgatado por Héracles que mata a águia, libertando-o, Zeus lhe concede a imortalidade e de suas correntes, o agora imortal, faz um anel, para eternamente se lembrar o que foi superado.

Voltemos ao começo, a ação de Prometeu desafia a autoridade instituída, ele conscientemente faz  aquilo que considera correto, tem liberdade de escolha, por isso ele suporta o sacrifício exigido, o banimento, a agressão, a dor, a desonra etc. durante um longuíssimo tempo, mas um dia o castigo chega ao fim, tudo se transforma e ele consegue entender o sentido do seu ato, do sofrimento e da tortura. Algo importante, ele se transforma, tornando-se imortal, ou seja, divino.

O mito permite inúmeras leituras, uma delas lembra que toda transformação sempre requer algum sacrifício. Este não se faz sem consciência, esta nos permite suportar o árido percurso de transição até o novo chegar. Neste momento, me permitiu pensar na vulnerabilidade humana e na aceitação do que é imponderável, daquilo que nos supera. Lembra-nos que muitas vezes estamos fazendo “tudo certo”, sem sabermos como, nem porque, a roda do destino gira, um golpe brusco nos atinge e nos vemos em uma passagem difícil que testa nossas forças, determinação, crença, vontade, enfim tudo. Na hora da turbulência nem adianta perguntar o motivo do sofrimento, só cabe encontrar forças e resistir, dia após dia. Cabe aos deuses decidir quando o teste chega ao fim. E ele chega, então a coisa caminha e clareia.

Na linguagem dos símbolos, os mitos falam dos homens e a interpretação é o presente que os deuses dão a cada um.

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Ártemis, as controvérsias de uma deusa lunar

Ártemis, a jovem deusa, dona de um corpo ágil e atlético, vestida com um curto saiote, costumava correr solitária pelas montanhas e florestas, seguida por seus animais, entre eles as corças, sempre portando seu arco e flechas de prata, presente de seu pai, Zeus, o senhor do Olimpo.

Irmã gêmea de Apolo, na guerra de Tróia, Ártemis tomou o partido dos troianos e, num episódio, pune Agamenon, o comandante dos exércitos gregos –e irmão de Menelau, marido de Helena, pivô da guerra-, por matar sua corça preferida. Depois de uma série de derrotas, Agamenon consulta o oráculo que lhe anuncia que uma maldição recaíra sobre os seus exércitos e, para dissipá-la, ele deveria oferecer à deusa, sua filha primogênita, Ifigênia. Com muita dor e a despeito das súplicas da esposa, Clitemnestra, o comandante cede, mas, no templo, no último instante, Ifigênia foi substituída por uma corça e transportada para Táuris, onde se torna sacerdotisa da deusa, fato nunca sabido pelos pais. Em outro momento, pune  a negligência do rei Eneu de Cálidon, quem após uma boa colheita realiza oferendas a todos os deuses, mas se esquece de Ártemis. A deusa ofendida envia à região um javali feroz, que devastou todo o reino. Para liquidá-lo, Meléagro, jovem e destemido príncipe, convoca os melhores caçadores dos povos irmãos, conseguindo matar o monstro. No entanto, a intriga se instaura no reino e começa uma guerra entre o rei Eneu e os  irmãos da rainha em disputa da cabeça e do couro do javali. O javali, para os antigos era um animal sagrado, o couro deste animais representava a mais alta proteção. Meléagro, o príncipe herói morre e Cálidon  é sitiada e queimada.

O jovem caçador Actéon também se tornou vítima de Ártemis. Num certo dia, ele seguiu a deusa e a espiou banhando-se no rio junto com suas ninfas, ela, ao vê-lo, o transforma em veado e ele foi devorado pelos seus próprios cães que não o reconheceram.

Outros mitos, principalmente da região do Peloponeso apresentam outras facetas da  deusa. Aparece na Ilíada como “leoa com as mulheres”, protetora das jovens, das mulheres em trabalho de parto, assim como das florestas e dos animais prenhes. Detentora do título, “a que alimenta, a que educa a criança”, acompanhava particularmente as meninas em sua fase de crescimento. Entre suas regras sagradas vemos que os animais não deveriam ser mortos arbitrariamente e que o corpo das mulheres deveria ser respeitado. Mesmo donzela, as noivas, à véspera de seu casamento, ofereciam-lhe uma mecha de cabelo e uma peça do enxoval, para implorar-lhe proteção e fertilidade.

O mito traz uma deusa com diversas facetas, tal como outro de seus símbolos, a lua. A lua, por sua vez, com as suas fases, crescente, cheia e minguante, tem representado o percurso da vida, juventude, maturidade, velhice. A lua remete aos ciclos naturais, bem como ao feminino, as variantes no ciclo foram relacionadas aos humores da deusa e à própria mudança no humor nas mulheres, algo muito claro na expressão “ser de lua”.

Réplica de uma estátua de Ártemis no templo de Éfeso, hoje na Turquia

A deusa tem profunda empatia com a terra e toda a sua vida. Acima de tudo, ama a liberdade e a autonomia. Jamais se casou, permaneceu “virgem”, conta-se que Ártemis ao ver o sofrimento de sua mãe, Leto, durante o parto, pede a Zeus para se manter donzela, no que é atendida. Na antiguidade, o termo virgem significava pureza.

Ártemis é provavelmente uma das mais antigas deusas gregas, alguns pesquisadores chegam a afirmar que seu culto remonta aos caçadores do período paleolítico. O próprio significado de seu nome é controverso, para uma vertente seria “a sanguinária”, para outra significaria “grande”, daí remeteria à Nossa Senhora. Mas sem dúvida, o mito de Ártemis nos traz uma das versões da grande mãe e podem ter passado milênios, mas sobrevive a necessidade que lhe deu origem, a proteção das jovens, das florestas e dos animais.

O mundo urbano e seu ritmo de vida alucinante estão muito distantes do espírito de Ártemis, mas talvez, por trás de muitas atletas urbanas, daquelas que correm todos os dias pela rua ou passam horas em academias, se esconda um espírito de amazona, ansiando por um estilo de vida mais natural.

Ártemis no Metropolitan de NY

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Némesis, a deusa do equilíbrio e da restauração

Uma herança do direito positivo nos faz entender, hoje, a justiça em sua relação com as leis. Os mitos da antiguidade, lembram-nos aspectos por vezes já esquecidos.

Némesis, uma deusa primordial, ou seja, nascida antes da formação do panteão olímpico, era uma executora da justiça. Tão bela e radiante quanto Afrodite, com a diferença de ter asas. As asas que lhe permitiam voar para desempenhar suas tarefas. Conta o mito que Zeus deslumbrado com a deusa, perseguiu-a por céu, terra e mar. Némesis fugindo adquiriu diversas formas até tornar-se uma gansa, nesse momento, Zeus transformou-se em cisne e zás… Como fruto dessa união, Némesis pôs um ovo, mas recusou-se a chocá-lo. Deste ovo nasceram Helena e Pólux. Helena herdou os traços da mãe, tornando-se a mulher mais bela do mundo. Disputada por muitos príncipes, ela desposou Menelau, rei de Esparta, depois fugiu com Paris e se tornou o pivô da guerra de Tróia. O sofrimento a rondou, numa referência à justiça de Némesis: o excesso gera sofrimento.

Os gregos, assim como boa parte dos povos antigos, temiam a fúria dos deuses. Suas intervenções mostram uma deusa mediando a fortuna (antigo termo para sorte) e a desgraça entre os mortais, dando a cada um aquilo que lhe corresponderia, ou seja, conforme o seu merecimento.

Conta-se que a deusa ouvia os votos de amor eterno dos amantes e castigava aqueles que não cumpriam suas promessas. Ela pune o rei Creso da Lídia, porque ele ficara excessivamente orgulhoso devido ao seu poder e pelas suas riquezas. Em certa passagem, castiga Narciso, pois não tinha olhos para ninguém além da própria beleza. Uma das versões do mito conta que a deusa provocou um forte calor e Narciso, buscando se refrescar, encontra um rio, ao contemplar sua imagem, apaixonado, mergulha atrás dela e morre.

Em Ramnonte, cidade não muito longe de Maratona, na região da Ática, encontram-se um dos mais antigos templos de Némesis

Filha de Nix, a noite, pune o excesso, a Hybris, mas não traz a fúria da vingança, age para o restabelecimento da ordem justa. Foi representada com uma coroa e, por vezes, com um véu cobrindo-lhe a cabeça, está armada de tochas, espadas e serpentes, seus instrumentos de trabalho, digamos assim.

Os gregos muito sábios prezavam o equilíbrio. Eles entendiam que na vida sempre haveria dualidades, a ação ética jamais poderia anular um dos polos, mas levava a busca do equilíbrio entre eles. A deusa nos lembra a responsabilidade de cada um por aquilo que cultiva, sejam os nossos pensamentos ou nossas paixões.

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A mística de Perséfone

Os Mistérios Eleusinos, os ritos consagrados Deméter e Perséfone em Elêusis, cidade a 30 kms de Atenas, se tornaram os maiores festivais antiguidade. Mistério, significa em grego, “algo do qual não se pode falar”, que “deve ser mantido em silêncio”. Realizados  durante  mais de mil anos, eram cerimônias, em parte, secretas. Todos os participantes voltavam transformados, pois imagina-se, ressurgiam com um entendimento renovado da vida.

Perséfone é a jovem donzela, filha de Deméter, que foi raptada e levada ao mundo dos mortos. Para os gregos, não existe inferno no formato judaico cristão que conhecemos. Para eles existe o reino dos vivos e o reino dos mortos, Zeus domina o mundo e Hades é o senhor do submundo.  A entrada ao submundo era separada por vários rios, de águas turbulentas, dos quais o mais famoso era o Estige. O barqueiro Caronte realizava a passagem. Ninguém voltava de lá.

Perséfone torna-se uma exceção, volta à sua mãe, mas retorna transformada, já uma mulher madura e esposa de Hades. Dizer que Perséfone se casa com Hades é dizer que ela se casa com a morte. A morte e a perda eram fundamentais na transformação mística da iniciada. A inocência de donzela precisa ser sacrificada. Lembrando que sacrifício significa Sacro ofício. A fonte da transformação de Perséfone é o contato com a sabedoria das profundezas abissais da alma, não dos pontos luminosos do espírito. Seu maior desafio é unir o lado escuro e o luminoso da deusa em si mesma, tornando-se a Deusa madura da noite.

Hades e Perséfone

Perséfone é um arquétipo que representa aquela mulher atraída pelo “lado de lá”. O seu mundo é “além” do mundo físico dos sentidos. As mulheres mediais em culturas antigas desempenhavam uma função social relevante, como sacerdotisas, curandeiras ou xamãs, no entanto, ao longo dos séculos deixamos de compreendê-las e até as estigmatizamos. O que ocorre com essa menina que passa envolvida com os seus pensamentos e com seus amigos imaginários? Deve estar doente ou louca. Assim muitas foram parar em manicômios. Hoje, algumas podem circular como astrológas, tarólogas, as inofensivas bruxas ou doidinhas modernas.

Com o avanço da civilização grega, tende  a haver a supressão de aspectos duais dos deuses, entre eles, o de Perséfone. O aspecto de rainha da morte passa a ser suprimido e quanto mais suprimido (e desconhecido) mais se torna assustador para a cultura ocidental. Esta forma suprimida retorna para atormentar a fantasia do mundo cristão na imagem das bruxas. Mulheres conhecedoras da sabedoria das plantas, da terra e da lua, serão estigmatizadas como bruxas e serão queimadas pela inquisição.

Neste segredo perdeu-se a sabedoria de Perséfone madura, a sabedoria daquela que conhece os mecanismos da vida e da morte, aquela que “já viu tudo” e pode nos ajudar em todas as transformações da jovem à anciã, neste mundo e no outro.

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Luz no caminho, Hécate

Tirando o pó de velhos livros me deparei com uma deusa grega muito bela, mas quase desconhecida, caminhando com uma tocha.

A Teogonia de Hesíodo, autor do século VIII a. C., recupera a origem do mundo para os gregos, lá lemos a respeito de Hécate. Ela, assim como Zeus era um Titã, no entanto, a diferença dos outros Titãs, que foram derrotados por Zeus, que assim se tornaria senhor do Olimpo, a deusa conservou seus poderes. Nos mitos, vemos Hécate auxiliando diversos deuses e mortais, um dos mais lembrados é quando ao ver dor de Demeter, pelo rapto de sua filha, Perséfone, descobre o seu paradeiro no Hades.

Hécate não é grega, acredita-se que sua origem remonta à Asia Menor, recebendo a representação de bela mulher, às vezes, com três cabeças. Cada uma das cabeças olha para uma direção, representando sua visão que tudo vê, presente, passado e futuro; mundo e submundo. Senhora dos três reinos, do céu, da terra e do mar, tornou-se zeladora das passagens e dos caminhos, ajudava a fazer escolhas, protegendo também os partos e os velhos na hora da morte. Deusa lunar, acompanhava especialmente as mulheres, se alguma precisava viajar sozinha, encomendava-se a Hécate. A deusa circulava até pelo reino da  escuridão -o Hades, onde encontra Perséfone- que iluminava com sua tocha.

Como uma deusa dos limiares, protegia as populações limiares e vulneráveis. Em Roma, foi cultuada pelos escravos que lhe deixavam oferendas nas encruzilhadas de caminhos.

Imaginar uma deusa onisciente, senhora do céu, da terra e do mar, e como se não bastasse que pode andar onde ninguém quer ir, no submundo (o Hades), já para os gregos era demais. Os gregos eram solares, apolíneos, admiradores do pensamento racional, lógico-dedutivo. Acredito que por este motivo, ao longo da civilização helênica, Hécate de portadora da luz tornou-se uma figura bizarra trazida pelos bárbaros. Eurípides, escritor ateniense do século V a. C., em sua tragédia Medéia, a representou como uma bruxa, tendo um papel central ao guiar a protagonista, em sua vingança contra Jasão. A difamação continuou, no mundo medieval, ela foi representada como feiticeira, deusa escura, das sombras e caçada como bruxa.

Perdeu-se um ponto central, Hécate sempre segura uma tocha. A sua lembrança nos permite voltar a um mundo em que a importância da luz provém da sua capacidade de clarear a escuridão, permitindo-nos a nós simples mortais que não enxergamos muito bem nem a nós mesmos, a visão e o discernimento. Ao longo de milênios, homens e mulheres buscam auxílio para caminhar pela jornada da vida, o grande desconhecido. O mundo moderno entende os mitos como lendas, como se hoje a vida, por ser racionalizada fosse menos incerta e desconhecida.

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Dionísio, as bacantes e a transcendência pelo prazer

Dionísio é um deus grego bastante conhecido, mas pouco entendido. Associado ao vinho e às orgias Temos o vinho em alta conta, mas na medida, não admiramos os bêbados, menos os bacanais. Sabemos que eles existem, as revistas masculinas trazem relatos para estimular a imaginação de seus consumidores, agora se alguém faz, não faz propaganda. De qualquer forma mostra que as antigas experiências religiosas previam outro relacionamento com a vida.

O culto a Dionísio é anterior aos gregos, trata-se de um dos últimos deuses a ser reconhecido pelos helenos na época clássica. Entre os gregos, Dionísio tornou-se a antítese de Apolo. Apolo é o deus da medida e Dionísio, o da desmedida. Remete a uma cultura em que há momentos em que a desmedida era permitida, diferente de nossa tradição judaico-cristã que a recrimina. Em partes, pois o carnaval, o momento da carne, antes do início da quaresma apresenta o mesmo sentido.

Os rituais dionisíacos buscavam a transcendência, a ligação com o divinho através da dança, do vinho e talvez outros elementos. A exaustão através da dança permite a magia do abandono do corpo num estado de transe. O esquecimento do corpo e o desligamento da consciência vigil normal, efeito também produzido pelo vinho e daí a possibilidade do contato com porção divina de cada um. Estado de transe que hoje encontramos em certos rituais como os dos sunis.

Interessante lembrar que a palavra spirits no inglês preserva a ligação entre o álcool e o plano espiritual.

Dionísio

Eurípides, em sua peça As Bacantes escrita por volta de anos 400 a. C., nos fala de Dionísio, e de suas seguidoras, pois Baco é seu nome entre os romanos. Ele nos conta que as bacantes se embriagavam e dançavam até perder a razão, tudo podia acontecer nesse estado, desde beberem sangue dos animais, correrem nuas pelo mato. Na tragédia, Dionísio chega da Ásia a Tebas e se enfurece porque rei Penteu não lhe presta as devidas homenagens, ao invés de cultuá-lo, aprisiona as mulheres que acompanham Dionísio e tenta aprisionar o propor deus. Dionísio se vinga do rei e no fim vemos o terror causado pela fúria de mulheres descontroladas e loucas. O texto pode ter várias leituras, o próprio rei não é muito sensato, mas sem dúvida condena-se a entrega passional das bacantes.

Em pleno século XXI, temos uma relação ambígua com o prazer. Após a liberação sexual, o prazer torna-se permitido para as mulheres, no entanto, ele ainda permanece associado ao corpo, coisa menor, o divino não pode se manifestar nele. Na tradição judaico-cristã, o corpo está ligado. Durante séculos, tudo o que era proveniente do corpo devia ser refreado, contido, diferente do espírito ou da mente, estes sim, não só poderiam, mas deveriam ser desenvolvidos. E durante séculos, uma mulher que sentia prazer, pela dança ou pelo sexo, só podia ser puta. Com tudo isso, não é simples entender um culto tão antigo que propõe uma ligação entre corpo, prazer e o divino e nos escapa a compreensão da transcendência através do êxtase e não da consciência. Fica assustador, em outros tempos seria heresia.

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Perséfone, a romã e a mulher

Dos mitos gregos, talvez seja um dos menos lidos. Conta a lenda que num dia de outono, Coré colhia flores no campo com suas primas quando, repentinamente, a terra se abre e a jovem é raptada por Hades, o senhor do reino dos mortos. Conhecemos esta história pela ótica da mãe, Deméter, que ao sofrer a perda da filha passa a vagar pelo mundo, sua dor faz a terra secar e o alimento faltar, o medo da destruição faz Zeus interceder junto a seu irmão, Hades, e permite-lhe recuperar sua filha.

Perséfone e Hades - Desenho de uma jarra grega - 440-430 a. C.

Uma aura de mistério permeia a descida de Coré ao mundo das trevas. Voltamos a saber dela, agora como  Perséfone, apenas no acordo que sela a sua volta. Ela deverá permanecer com Hades o equivalente em meses ao número de sementes de Romã que tiver engolido. Uma tradição diz que ela engoliu 4 e passaria um terço do ano com o senhor da morte. Outra, lembra a associação entre a cor vermelha da Romã e o sangue, uma referência ao ciclo menstrual, quando a mulher sofre a morte de uma vida em potencial, o que levaria toda mulher a conviver mensalmente com o seu Hades interior.

No mundo ocidental moderno vivemos muito afastadas dos ciclos da vida, renegando inclusive nossos próprios ciclos biológicos, procuramos fazer de conta que eles não existem. A mulher moderna vive “aqueles dias” como um fardo da natureza. Bem distante da antiga sabedoria que destacava o aspecto mágico do sangue e numinoso do útero como um vaso, aquele que conterá a vida.  Os estudiosos da psique feminina (na linha junguiana) apontam que a origem de uma série de transtornos menstruais (o + freqüente talvez seja a TPM) estão relacionados à inconsciência do ciclo vida (e da morte). Vivemos a menstruação sem dela tomar consciência, o corpo se encarrega de nos lembrar o que esquecemos.

O retorno de Perséfone à sua mãe, Deméter, não é o retorno de uma donzela, esta “morreu”, mas de uma deusa madura, que conhece a sexualidade, a separação e a morte. Neste mito, a inocência de donzela precisa ser sacrificada. Por outro lado, representa a grande perda sofrida pela mãe quando sua filha primogênita se casa e deixa o seu lar, ou então quando todos os filhos saem de casa e a mulher sofre a síndrome do ninho vazio.

Acredita-se que as duas deusas são na verdade uma, juntas representariam a totalidade da Grande Mãe, a deusa primordial. Ambas simbolizam a capacidade de morrer  e renascer infinitamente, como mulher, como terra, como natureza. A grande mãe contém todos os contrários, é ao mesmo tempo donzela e mãe, jovem e velha, a que alimenta e a guerreira. Senhora da vida e da morte.

Em Perséfone, há um outro elemento importante, o casamento com Hades, a torna rainha da morte, a soberana do mundo avernal, mas este aspecto ficará para outra ocasião.

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O poder do mito

Afrodite e Dionísio

Quando criança adorava viajar com os mitos gregos. Os amores de Zeus, os ciúmes de Hera, os trabalhos de Hércules, as histórias de Atenas e tantas outras inspiravam minhas brincadeiras e sonhos. Passados 30 anos, depois de várias caminhadas por outras áreas, da literatura à filosofia, passando pela história universal, tenho voltado a esses mitos e com muito prazer percebo a riqueza que eles envolvem. Falam da criação do mundo, da vida, da morte, do surgimento do amor (Afrodite), da justiça (Atenas), do desenvolvimento da individualidade (A viagem de Ulisses na Ilíada) ou de nossa jornada pela vida (Hercules), da proteção da terra, das florestas e das mulheres férteis (Artemis). São historias saborosas, mas por vezes violentas, lembram a existência da traição, a discórdia, raptos, condenações violentas…

Os mitos são explicações do mundo a partir de outras chaves de compreensão, a chave da “magia”, na qual tudo é possível: limpar um celeiro em segundos como Hércules, tecer um manto e impedir o assédio dos pretendentes como Penélope, enganar as Sereias, como Ulisses. O pensamento ocidental  trilhou o caminhão da racionalidade lógico-dedutiva, mas jovens e adultos somos atraídos pela magia e sabedoria das lendas.

Dizem os estudiosos que os mitos trazem centelhas do nosso inconsciente e por este motivo permanecem no nosso imaginário e com eles nos identificamos. Nas  revistas femininas são frequentes as matérias do tipo “Encontre a sua Deusa”, as mulheres respondem um questionário e percebem se são Perséfones, Hera ou Artemis – muito embora, a maior parte queira ter o poder de Afrodite. É uma pena ver tanto reducionismo… ideias e cultos ancestrais, de séculos terminarem como um quiz…

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O tribunal divino entre os egípcios – o mito de Osíris

Neste dia de 01 de novembro e às vésperas, do dia dos mortos, um dia sagrado em nosso calendário, aproveito para falar de Osíris, um deus para nós pouco conhecido, mas dos mais importantes no Egito antigo.

Osíris, deus das águas do Nilo, antes de tornar-se “Senhor da Eternidade”, governava o país, mas foi assassinado por seu irmão Set  que escondeu seu corpo em terras distantes. Isis, sua irmã, sai pelo mundo à sua procura, não descansando enquanto não recupera seu corpo, trazendo-o de volta ao Egito para sepultá-lo. Então, Set que procura tomar o seu lugar, parte seu corpo em 14 pedaços e os lança pelas 14 províncias do Egito. Isis recomeça sua busca, para recuperar cada pedaço. A deusa encontrou todas as partes, menos o pênis. Ìsis substitui-o por um pedaço de ouro com a forma fálica. Em seguida, com a ajuda de Anúbis (outro deus) inventou e aplicou no corpo de Osíris os ritos de embalsamamento, pelos quais os egípcios ainda hoje são famosos. O deus se levantou por uns instantes unindo-se a Ìsis e juntos conceberam um filho, o deus Hórus.

Este mito nos coloca o tema da ressurreição do reino dos mortos. Osíris tornou-se o “Senhor da Eternidade”, presidindo o tribunal do mortos. Por este motivo é sempre representado com os braços cruzados e em posição de “múmia”.

Na antiguidade, os egípcios  esperavam regenerar-se e despertar para uma nova vida no outro mundo, mas para chegar a esta nova vida, antes era preciso passar pelo tribunal divino. A sede se situava na “Sala das duas Justiças”, onde o submundo e o Além estão em contato, e onde havia uma balança. Conta-se que o coração do morto era colocado sobre um prato da balança sob  a vigilância de Anúbis. Para os Egípcios, o coração é o centro da personalidade e da consciência moral. No outro prato, encontra-se uma pluma, símbolo da ordem divina. Se os 2 pratos se equilibrassem, o defunto estava absolvido.

Osiris no templo de Hathepshup, em Luxor

Vemos que a vida terrena passa pelo julgamento, aquele que tiver um peso excessivo caminha para a morte absoluta, sem esperança de ressurreição.

Para os Egípcios a esperança do retorno era central, por isso boa parte do ritual de embalsamamento se preocupa em colocar elementos que a alma do morto pode precisar começando pelo seu corpo que deve ser reconhecido -ao lado sempre havia uma estátua do morto, para o caso do corpo fosse destruído- fora seus bens, comida, cheiros etc.

Imagino eu, que a certeza de passar por um julgamento tornaria homens e mulheres mais conscientes com as sua ações em vida. Nada como a morte, para nos lembrar da vida.

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O símbolo da vida e o cristianismo no Egito

No templo de Karnak, na cidade de Luxor, um dos obeliscos remanescentes do Egito

No Egito antigo, um símbolo aparece em todos os templos, obeliscos e monumentos, ele está presente nas mãos dos deuses ou na escrita hieroglífica, em cada templo, de Menphis até o templo de Ramses II em Abu Simbel (quase fronteira com o Sudão). Trata-se do enigmático Ankh.

Na escrita hieroglífica há diversos símbolos, entre eles, o olho de -do Deus- Hórus, Rá (o sol), o escaravelho (proteção), djed (o cajado), no entanto, os Deuses estão sempre com o ankh em suas mãos. Parecem transferir ensinamentos ou auxiliar o faraó, em vida.

Deusas conversam com o faraó. Isis está no meio da imagem

Osíris, Deus do reino dos mortos espera o faraó -e todos os mortais- para o julgamento após a morte. Se o coração da pessoa pesasse menos que uma pluma, ela segue seu caminho e se reencarna (para os egípcios antigos, cada pessoa reencarnaria cerca de 700 vezes), do contrário, era a morte eterna, algo trágico nesta visão. Os tesouros que os faraós enterravam, bem como a mumificação (processo que permitia a conservação) dos corpos, remetem a este cuidado para o espírito no seu retorno à vida conseguir encontrar o “seu” corpo e suas riquezas para dar continuidade à sua evolução.

O Ankh, em algumas leituras, tem o sentido de uma chave, pois faria a ligação entre o reino dos vivos e dos mortos, por este motivo também é conhecido como o símbolo da vida, ou da vida eterna.

Os egípcios que não tinham uma palavra específica para religião, pois não separavam as relações com o sagrado da vida cotidiana, deram à sua escrita o nome de “palavra de Deus”, atribuindo sua invenção a Tot, Deus da sabedoria. O papiro foi outra criação egípcia, para tornar possível o registro e a circulação da “palavra de Deus”.

O Egito é um lugar importante para o cristianismo, contam as escrituras que Jesus, junto com Maria e José se esconderam por mais de 2 anos próximo a uma histórica sinagoga, um lugar que hoje abriga uma igreja bastante simples. Após o advento do cristianismo, os cristãos que permanecem no Egito -conhecidos como coptos- farão do ankh sua cruz.

No templo de Luxor, vemos pinturas cristãs sobre hieróglifos inscritos anteriormente nas paredes

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