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No Olimpo, na casa ou no trabalho, imagens da mulher que não é santa nem é p…

Há pessoas que acreditam que os deuses de nosso mundo saíram de férias, para alguns são as figuras do show business do momento. Por isso me valho dos antigos para falar de um tema tão caro como as imagens e imaginários do masculino e do feminino.

O mundo dos olimpianos, regido por Zeus, acompanhado por sua consorte, Hera, e por uma corte  ilustre, como a personificação do amor, Afrodite, o deus da guerra, Ares, entre outros, nos é conhecido, no entanto, pouco sabemos do mundo anterior a esta ordem. A terra em suas profundidades registra o culto à grande mãe, senhora das plantas e dos animais, portadora de fertilidade e do crescimento da natureza. Quando Zeus se instala no Olimpo, a grande mãe cede lugar às disposições do pai, mas ela ainda conserva espaço no panteão. O poder do feminino cede lugar ao masculino, marcando uma passagem de um vínculo indiscriminado e inconsciente com a natureza ao reino da palavra, ao logos, ao plano da consciência, à lei e à norma. Posteriormente, a própria multiplicidade do panteão helênico será destronada pelo deus único, onipotente, onisciente e onipresente, e agora a mulher perde o cetro e o trono de vez. Sem divindade, será responsabilizada por ter trazido a tentação aos homens, figuração do pecado ou da ignorância no melhor dos casos.

Após o advento do Cristianismo, a única imagem feminina permitida será a mãe do filho de Deus, senhora imaculada, pura, abnegada, obediente, entre outros atributos que a tornam digna de culto, mas a distanciam da humanidade das mulheres. Beleza, charme, primos da sedução, associados aos prazeres da carne, lugar do pecado e da corrosão do espírito estão banidos.

O panteão grego no qual os deuses amam e odeiam, tecem alianças e tramam vinganças responde a uma compreensão do humano sujeito a múltimas forças que desconhece, repleto de ambiguidades que ama e odeia. Ambiguidades que se perdem na idealização do mundo judaico-cristão e que a duras penas buscamos entender no século XX com o discurso da psicanálise. Idealização que nos distancia de uma visão “real” de nós mesmos e compreensiva de nossos pares no mundo.

Recupero esta ideia, pois as mulheres, hoje, estão em luta pelo poder e esta luta passa pela compreensão do imaginário. No século XX, em um século de tantas conquistas, a mulher conquista as ruas, o mundo do trabalho, a sua sexualidade, contudo persiste a crítica de que ela ainda quer ser feliz no amor e no casamento e para isso recorre a estratégias para agradar o homem e ainda pensa em comidas gostosas e se dedica a afazeres “do lar”. Uh!

 Certamente, precisamos de mais mulheres no Congresso, precisamos de igualdade, de respeito nas relações. Nenhum tipo de roupa pode ser justificativa ou atenuante para um estupro. Contudo, considero que a questão não para aí, não adianta mulheres no poder com um funcionamento masculino desqualificando outras mulheres. A própria mulher precisa conhecer e reconhecer a multiplicidade do feminino, sem buscar estabelecer a visão “certa” do feminino. Uma visão feminina não se arrola a verdades, nem busca ser a maior, compõe e não compete, alimenta e gosta do alimento, e, sem dúvida, é  tolerante e inclusiva, porque entende a vida como processo.1 a 1 a a a a mar sao carlos13 homem feminista

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Poesias e cantadas na orla de Ipanema

Há tempos venho acompanhando o debate sobre as diferentes formas de violência contra as mulheres. Um tema que precisa ser debatido, pois se durante milênios foi entendido como natural, hoje até um olhar pode ser entendido como ofensivo em nosso mundo que anda sensível e intolerante.

O blog feminista Think Olga fez uma enquete online sobre cantadas, quase  8 mil mulheres responderam, 87% disseram “não achar legal receber cantadas”.  A enquete levou à criação da campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual em lugares públicos e o blog tornou-se um porto de denúncias não só de cantadas mas de diversas formas de assédio sexual.

Faço parte da porcentagem que recebeu cantadas, “Bom dia”, “Princesa”, buzinadas enfim , detestei muitas, evitava passar na frente de construções e até hoje presto atenção às roupas que visto, para evitar olhares desagradáveis. Agora, devo confessar que houve algumas cantadas que me fizeram rir e outras, certamente, fizeram bem para o meu ego em dias um tanto nublados.

A jovem Helô Pinheiro

Em meio a essas reflexões, hoje, os telejornais nos lembraram dos 20 anos da morte do mestre Tom Jobim. Ouvindo fragmentos de suas músicas me assaltou o pensamento que se esta sensibilidade feminina estivesse presente nos anos 1960, o clássico Garota de Ipanema não existiria.

Assíduos frequentadores do bar Veloso na orla de Ipanema, Tom e Vinicius sentavam-se numa mesa da calçada a jogar conversa fora e a olhar o movimento “cheio de graça”, entre umas e outras, ali nasceram clássicos da música brasileira contemporânea.

Em dias ensolarados, a jovem Helô Pinheiro uma moça de “corpo dourado do sol de Ipanema” passava “num doce balanço a caminho do mar”. Sabe-se que ela  não se incomodou com a cantada e menos com a música que se tornou um sucesso internacional,  recebendo versões em centenas de idiomas e a promoveu a eterna garota de Ipanema.

Temo que hoje, os poetas seriam mal vistos e talvez até denunciados por assédio a uma jovem de 17 anos e a música brasileira perderia muito de sua graça, beleza e amor.

… Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

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Os pharmacons da medicina do sonhar

Nestes dias uma amiga sonhou  com uma aranha que lançava um veneno a um urso, ele ficava com muitas bolhas, mas sobrevivia, depois via muitas aranhinhas, não lembro o que seguia. Estas visões a deixavam surpresa com a capacidade da mente produzir visões durante o sono.

No mundo grego antigo, phármakon definia qualquer substância capaz de atuar no organismo, seja em sentido benéfico ou maléfico. Por isso, tanto designava remédio como veneno. E o pharmakeús era um misto de preparador de remédios, mágico e envenenador. Os gregos viam uma irmandade entre veneno e remédio, talvez porque o que não mata fortalece. O termo também nos lembra que na Hélade, há milênios, já se percebia a ambiguidade e a contradição presente na natureza e na vida.

Os pharmacon representam uma visão da medicina ancestral, numa reminiscência desse termo, encontramos a palavra farmácia, o lugar onde contemporaneamente buscamos a cura através de remédios.

Cabe lembrar que durante milênios o saber das plantas foi utilizado e ficou guardado pelas mulheres. Conhecimento este que permitia a cura de muitas enfermidades, mas como tudo o que não se explica, assusta, as mulheres ganharam o estigma de feiticeiras e bruxas.

Por sua vez, a aranha tece, tal como a própria vida é tecida. Um ofício ancestral das mulheres é o tecer, cabe a elas, fio a fio, ponto a ponto, tecer a trama dos tecidos seja de roupas, mantas ou do próprio rebento. A própria tecelagem representa o acalento e a  proteção, funções primordiais do feminino.

Aranha também me lembra a dança da tarântula. Na região do Mediterrâneo, onde hoje vemos o sul da Itália, há mais de dois mil anos, as meninas e jovens, muitas vezes “enlouquecidas” repentinamente eram vistas pelo clã como picadas pela tarântula. Na verdade, a loucura aparecia após sofrerem alguma violência como o abuso sexual, cometido por membros das próprias famílias, que não podia ser denunciado. A irmandade feminina fazia o ritual da tarântula, uma dança só de mulheres, de cura, para sanar e limpar as dores. Eis a origem da tarantela. A dança tem grande poder de cura, quem experimenta sabe como o movimento ao som dos tambores e acordes pode lavar e sanar a alma.

Como andamos desvinculados da natureza assustamo-nos, às vezes, com as imagens que os nossos sonhos trazem, contudo não há animal bom, nem ruim, são representações de ideias, sentimentos  ou forças presentes em conversa ou em conflito no nosso interior. Ideias do mar profundo que buscam sair à luz e nos ajudar para vivermos uma vida melhor do que o que estamos fazendo.

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Mistérios do grande Feminino

Vênus de Milo

O dia das mulheres, 8 de março, parece um momento perfeito para lembrar um grande atributo do Feminino, a sua capacidade criativa. Todos sabemos que a mulher nas situações mais apremiantes busca caminhos, formas ou saídas, para alimentar sua família, para arranjar trabalho, para se virar em todas as suas tarefas no seu dia a dia, para conseguir uma vaga na escola para o seu filho, enfim. Embora, hoje associemos a criatividade à mente, na origem, a história é outra.

Vaso micênico

Diz-se que o Grande Feminino como um todo é o símbolo da vida criativa, que as partes de seu corpo não são apenas órgãos físicos, mas centros simbólicos de esferas inteiras de vida. As curvas de seu ventre, seus seios, seus quadris participam do mistério da geração, da concepção e da nutrição. Casa e alimento.

Para algumas culturas antigas como a cretense, desnudar os seios era uma prática sagrada, expor os seios tal como a deusa e as suas sacerdotisas faziam em rituais, simbolizava a ligação com a corrente vital nutridora.

Ártemis do Templo de Éfesos

Por outro lado, a mulher com suas curvas também se torna ventre-vaso que a tudo dá origem. Vaso—útero, o centro gerador daquele grande mistério, a vida, lugar de calor e proteção apropriado para dar origem ao novo. Recipiente onde a semente germina. A própria forma do vaso apresenta um visível aspecto simbólico, mas deve-se lembrar o significado simbólico do material com que se faz o vaso, o barro, um elemento que pertence à terra.  Assim confeccionar vasilhas, na origem, é tanto uma parte da atividade criativa do Feminino, quanto fazer uma  criança, o ser humano que – assim como o vaso – em tantos mitos aparece moldado a partir da terra.

 

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Do Chile, uma história para a alma

mafalda 1A Mafalda me acompanhou na semana passada com os seus questionamentos. Em meio a lembranças suscitadas pelos 40 anos do golpe militar que dividiu o Chile e ainda provoca tanto sofrimento, reiteradamente vinha à minha mente pergunta desta argentina irreverente. Neste mundo tão errado, como fazer para confortar o coração e assim quem sabe aliviar a alma?

mafalda 2Há respostas individuais e coletivas. O conhecimento e o registro da barbárie em Museus da Memória permitem que não os apaguemos os fatos de nossa história. Se não diminui a dor, conforta saber que muitos caíram, mas sua memória não ficou vilipendiada na sarjeta. A consciência pode também funcionar como antídoto para novas ocorrências, o que não se sabe, nem se vê, quando menos se espera, reaparece.

Há também respostas individuais. Aqui aproveito para contar um pouco da trajetória de Michelle Bachelet, a nossa primeira mulher a chegar à presidência da República. Filha de uma arqueóloga e de general da Força Aérea, que foi acusado de traição à pátria e morto nos porões da ditadura em 1974. Nesses anos, ela cursava medicina na Universidade de Chile e passa a apoiar o Partido Socialista que estava na clandestinidade desde o golpe. Em 1975, junto com a sua mãe será presa e torturada, depois de um ano na prisão partem para o exílio, ela encontrará acolhida na Alemanha Oriental. Em 1979, retorna ao Chile, onde conclui o curso de Medicina.

Ao longo da década de 80, enfrenta dificuldades para exercer a profissão no serviço público, seu nome desperta desconfiança, mas trabalha de forma voluntária na ONG Protección a la infancia dañada por los Estados de Emergencia, que fornecia apoio aos filhos das vítimas do Regime Militar.

Com o pai, Alberto Bachelet

Nos anos 90, inicia estudos na área de defesa, destaca-se em 1996 como a melhor de sua turma na Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos, como prêmio ganha uma bolsa da Presidência da República para estudar no Colégio Interamericano de Defesa em Washington DC, nos EUA.

Daí sua história é mais conhecida, participa do governo de Ricardo Lagos, da Concertación, primeiro como Ministro da Saúde e depois ocupa a pasta de Defesa, primeira mulher a ocupar este cargo no país, depois será eleita presidente da República, cargo que ocupa até 2010, isto para resumir a biografia política.

No Chile, não há reeleição, mas neste ano, 2013, ela está concorrendo para um novo mandato. Ironia do destino, disputa com a filha de um general que participou do golpe militar e esteve à frente da Aviação durante o governo Pinochet.

Na semana passada a vimos à frente de manifestações pela memória das vítimas do regime militar. Poucas pessoas já passaram por momentos tão dolorosos como ela, mas hoje torna-se um exemplo de mulher cuja vida foi bem maior do que a sua dor.

Em 2013 liderando uma homenagem às vítimas do golpe.

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Mulheres em marcha para mudar o mundo

Nesta semana, São Paulo sediou o 9º Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres realizado no Memorial da América Latina que terminou com o ato “Feminismo em Marcha para Mudar o Mundo” na avenida Paulista na tarde de ontem.

“Estamos em marcha para transformar a sociedade! Queremos acabar com o machismo e o capitalismo, que também é racista, lesbofóbico e depredador da natureza. Afirmamos as alternativas feministas construídas pelas mulheres em todo o  mundo! Defendemos uma nova sociedade, que reconheça o trabalho doméstico e de cuidados feito pelas mulheres e o compartilhe com os homens e com o Estado.” Lia-se na convocação.

Mulheres em marcha, SP 31 de agosto de 2013

Mulheres em marcha, SP 31 de agosto de 2013

As mulheres do século XXI devemos muito ao histórico movimento feminista, sem ele, muitas das relações que conhecemos de nosso mundo não existiriam, tenho dúvida se frequentaríamos os bancos universitários, ainda seríamos cidadãs de 2ª classe, o homem ainda seria chefe da família e, talvez, o pior, a violência no interior da família contra mulher ainda seria vista como natural, lembram-se do “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”?

Mas, sem dúvida, há muita coisa para mudar no mundo.

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As vozes de Joana d`Arc

Eu que gosto muito de histórias, nestes dias deparei-me com a história de Joana d`Arc. A vida desta camponesa que se tornou heroína da Guerra dos 100 anos e uma Santa francesa no século XX é impressionante, terminando no dia 30 de maio de 1431, quando com apenas 19 anos -acredita-se, porque na época não havia registros e nem ela sabia ao certo- foi queimada viva. Durante a guerra, quando o rei da França Carlos IV morre sem deixar descendentes masculinos, a Inglaterra e a França entram em disputa pelo trono francês.

Joana dizia ouvir vozes divinas com mensagens de São Miguel e de Santa Catarina desde os treze anos que lhe recomendavam uma vida piedosa e a se manter donzela. Aos 16 anos, as vozes lhe ordenaram uma estranha missão para uma jovem camponesa analfabeta: dirigir o exército francês, coroar o Delfim Carlos e expulsar os ingleses de país. Num primeiro momento foi rejeitada pelas tropas francesas, depois conseguiu se encontrar pessoalmente com o Delfim que a submeteu a diversas provas. Após passar por todos os interrogatórios, investigações e até por exames íntimos pelas matronas locais, a jovem o convenceu da veracidade de mensagens. Conta-se que Carlos a teria colocado à frente de 5 mil homens.

Após uma vitoriosa campanha no vale do Loire, para liberação de Reims, participou na coroação de Carlos VII como rei da França, em julho de 1429. Nesse momento, ela deixa de ouvir vozes, faz menção de deixar o exército, mas continua lutando, pois percebe que a França não estava totalmente liberada.

Ela voltou a ouvir uma voz que lhe anunciou que cairia antes do São João. Foi capturada em maio de 1430 por vassalos do Duque de Luxemburgo, aliado da Inglaterra, que negociou a virgem guerreira com os ingleses, obtendo em troca 10 mil libras. Ela é então julgada sob a acusação de bruxaria, heresia, entre outros crimes de natureza religiosa, sendo decisivo para sua condenação o fato de que ela vestia roupas masculinas, num processo que menos de um século depois seria reconhecido como irregular.

Esta história contém muitos elementos, mas hoje gostaria de destacar a nossa  interpretação de certas vozes. Até não muito tempo atrás, ouvir vozes faria de uma pessoa uma louca desvairada, levando-a ao hospício, hoje, seria diagnosticada como portadora de algum transtorno psíquico (como esquizofrenia, mas há outros) que a conduziria a tomar remédios para conter as alucinações. No século XV, um Delfim ouviu as mensagens de uma jovem camponesa e tornou-se rei.

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Violência no paraíso

Nas paradisíacas Ilhas Maldivas, uma jovem de 15 anos vítima de estupro foi condenada a receber 100 chibatadas por manter relações sexuais sem ser casada. Paradisíacas na beleza, porque o arquipélago islâmico com uma população de cerca de 400 mil pessoas, apresenta um sistema judiciário fundamentado na sharia (lei islâmica) que não apenas permite a violência contra as mulheres, mas depois as condena a sofrer castigos físicos e à humilhação.

As acusações contra a garota foram feitas em 2012 depois que a polícia investigou denúncias de que o padrasto a teria estuprado e matado o filho dos dois. Ele ainda será julgado.

A porta-voz do tribunal de menores, Zaima Nasheed, disse que a jovem também deverá permanecer em um reformatório por oito meses, uma vez que a sentença só pode ser cumprida antes da garota quando completar 18 anos.

O pesquisador da Anistia Internacional Ahmed Faiz disse que o açoite é “cruel, degradante e desumano” e pediu que as autoridades abandonem a prática. “Estamos muito surpresos que o governo não esteja fazendo nada para anular esse tipo de punição – removê-lo totalmente da legislação.”

“Esse não é o único caso. Está acontecendo frequentemente – no mês passado houve outra garota que foi violentada e condenada a chibatadas”, afirmou. Faiz disse ainda que não sabe quando a sentença do caso anterior foi executada, já que as pessoas não querem discutir abertamente a situação.

O caso apareceu na mídia em fevereiro, mas agora há uma petição mundial para pressionar  o governo das Maldivas a eliminar práticas cruéis e degradantes contra as mulheres. Para assinar vá até o AVAAZ.ORG

http://www.avaaz.org/po/maldives_global/?bZzmibb&v=23534

Fonte: BBC Brasil

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Não apenas Freud explica, a biologia também!

Nestas últimas semanas, já mergulhada na aventura do estudo dos neurônios, comecei a perceber (antes tarde do que nunca…) que o corpo humano é um aparelho bastante complexo e o cérebro, ou melhor, encéfalo, seu nome técnico, um aparelho sofisticadíssimo.

Não é novidade que as mulheres são associadas às emoções e os homens à racionalidade, no passado se dizia que as mulheres teriam dificuldade com o pensamento lógico dedutivo, hoje, por sua vez se fala abertamente das dificuldades dos homens com o plano das emoções. Nestes dias, estudando o encéfalo, descobri que pelo menos a 2ª parte dessa afirmação pode ser verdadeira.

O cérebro está dividido em dois hemisférios, esquerdo e direito, entre os destros, o hemisfério esquerdo se “especializa” na articulação da linguagem, no informação lógica, entre outros, por sua vez, o hemisfério direito é quem cuida do pensamento simbólico e da criatividade.  O corpo caloso, uma região localizada logo abaixo do córtex cerebral, torna-se responsável pela comunicação entre os hemisférios, nela uma série de  feixes de nervos cruzam os dois lados, o que possibilita a troca de informação entre as partes.

Nas mulheres há consideravelmente mais feixes cruzando, ou seja, a estrada nelas fica maior. Dizem os pesquisadores que esta diferença anatômica pode ser responsável por diferenças nas respostas emocionais entre os dois sexos. Nos homens, cujo corpo caloso é menor, o fluxo de informações é mais lento entre o lado emocional (direito) e o lado verbal (esquerdo), fato que os levaria a expressar as emoções menos efetivamente do que as mulheres. Parece que o telencéfalo masculino tem capacidades emocionais em apenas um hemisfério (lado direito), enquanto que o feminino teria capacidades em ambos os hemisférios devido à maior comunicação.

Neste esquema encontram-se os elementos relacionados a cada um dos lados dos hemisférios

Não apenas Freud explica, a biologia também!

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Bons ventos do norte

Fiquei feliz com a vitória do Obama, na semana passada, pois Rommey e os republicanos nos fizeram ouvir muita bobagem, verdadeiras ofensas à inteligência das pessoas e, principalmente, a das mulheres.
É interessante perceber como a sociedade dos EUA mudou, até 2008, só tivera presidentes WASP – americanos, brancos, anglo saxões e protestantes em sua maioria- nesse ano, quebrava-se um tabu, elegendo-se um presidente negro, filho de um queniano, nascido no Havaí e que passara sua infância na Indonésia.

Durante a campanha de 2012, Obama lutava pela reeleição, a disputa com os conservadores republicanos esteve árdua, mais uma vez, colocaram em dúvida até a sua nacionalidade.

Mas houve outras barbaridades nos discursos republicanos, o candidato ao senado por Indiana, Robert Mourdock, por exemplo, declarou que a gravidez decorrente de um estupro era “vontade de Deus”; Todd Akin, candidato ao senado por Missouri, professava que as mulheres vítimas de “estupro real” conseguiriam evitar a gravidez, portanto, pela sua “teoria” as que engravidavam, não teriam sido estupradas, ou seja, haveriam desfrutado o intercurso sexual. Bonito isso, homens em situação privilegiada querendo ditar regra para as mulheres! Pimenta no olho alheio é sempre refresco! Ambos perderam!

Cada estado da federação aproveita o pleito para plebiscitar pontos em discussão, em 2012, eleitores do Maine e Maryland aprovaram o casamento de pessoas do mesmo sexo, já legal em outros estados como Massachusetts e Nova York, e os de Washington e Colorado aprovaram o uso da maconha para fins recreativos – uma posição muito mais aberta da que está sendo hoje defendida no Brasil pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso-, claramente sinalizando contrariedade à política de estado de criminalização do uso de drogas.

Nos EUA, o voto não é obrigatório e o dia da eleição não é feriado, vai votar quem de fato quer votar, por isso, sem dúvida este eleitor é bem mais liberal do que muitos candidatos que parecem tirados do pior obscurantismo ocidental.

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O talibã tenta matar o sonho no Paquistão

Os seres humanos são capazes de ações de uma violência e crueldade incomensurável. No Paquistão um homem do grupo talibã entrou num ônibus escolar perguntou por  Malala Yousafzai, uma adolescente de 14 anos, sacou uma arma e atirou. Os talibãs se caracterizam por professar um fundamentalismo islâmico, cujas regras determinam, entre outros, que as mulheres devem viver sob tutela de um homem (pai ou marido), proibindo-as de estudar e obter qualquer autonomia. Após a perseguição no Afeganistão, o grupo refugiou-se na região do Vale de Swat, no extremo norte do Paquistão, onde passou a aterrorizar a população.

Malala há três anos criou um blog onde denunciava sob um pseudônimo o regime de terror e, o pior, defendia o direito das mulheres a estudar, pelo seu “crime” de sonhar com outro mundo, sofreu um covardemente ataque. A jovem foi operada, mas seu estado ainda precisa de cuidados, por sua vez, os responsáveis, disseram que se ela sobreviver, não será perdoada.

Das desculpas que os homens dão para a sua própria violência, sem dúvida, a religião é das mais ignóbeis.

Há uma campanha internacional da Avaaz para pressionar o governo do Paquistão a implementar medidas de auxílio financeiro para todas as garotas paquistanesas irem à escola. Em alguns dias, o enviado da ONU para educação se encontrará com o presidente paquistanês Asif Ali Zardari e disse que a entrega em mãos de 1 milhão de assinaturas pode dar força à sua presença. Quem assinar a petição contribui a tornar o sonho da garota Malala realidade: http://www.avaaz.org/po/malalahopenew/?bZzmibb&v=18823

Protestos contra a violência no Paquistão 

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Comida, você tem fome de quê?

ImagemNesta poesia, um sucesso do álbum Jesus não tem dentes no país dos banguelas, de 1987, os Titãs nos lançam uma grande questão: você tem fome de quê? 25 anos se passaram, hoje, nos centros urbanos, a comida é farta, para quem pode pagar, mas proliferam os distúrbios alimentares: da obesidade mórbida à anorexia. A maioria das mulheres vive em briga com a balança, fica comendo só alfacinha -olha que eu adoro as alfaces- e o mais grave, meninas magérrimas se acham gordas e se recusam a comer ou então enganam que comem, vão ao banheiro e ahh…

ImagemA privação da nutrição contrasta com a luxúria da oferta. Há tanta coisa disponível… doces, salgados, sapatos, celulares, programas na TV, “amigos” no facebook, no twitter.

Consumir tornou-se um imperativo. Muitas mulheres vão às compras, sem saber como, nem porque, detonam o cartão de crédito, esbanjam no guarda-roupa, mas se torturam em dietas e no cabeleireiro. Mesmo com tudo isso não se sentem belas.

Será que existe uma fome na existência que nem o caviar conseguiria aplacar? A comida é vista como problema, mas será que o problema não é  o alimento da alma? Qual tem sido a nutrição das nossas jovens? Televisão, velhos programas escolares, maratonas de cursos, drogas? Neste mundo transbordante de coisas, mas carente de sonhos e utopias, respeito e compreensão, talvez maior seja a fome da alma. A tirania do modelo mulher alta e magra é perversa para quem ainda não tem muito discernimento para fazer escolhas, a beleza tem milhões de formas, cores e atitudes. Entre negras, morenas ou loiras, altas e baixas, tagarelas, tímidas, espalhafatosas ou silenciosas, a alma talvez busque afeto, atenção, aceitação, expansão e alegria.

 Imagem

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Violência sexual, um resquício das trevas

O metrô de Xangai criou uma grande polêmica ao pedir em seu blog, no final de junho, que as mulheres não usassem roupas provocantes para evitar os abusos sexuais em lugares públicos, pois “vestindo-se assim, seria incomum para uma mulher não ser assediada”, dizia o texto. “Podem existir pervertidos no metrô e é difícil se livrar deles. Por favor, tenham amor próprio, minhas senhoras”, continuava o comunicado. Xangai não é uma vila do interior, representa um importante centro político da China, com mais de 20 milhões de habitantes tornou-se a maior cidade do país e, nos últimos anos, despontou como o maior porto do mundo.

A campanha responsabiliza a vítima pela violência sexual, expondo como para boa parte da população, não cabe ao homem se responsabilizar pelo seu desejo, transfere-se o problema para aquela que desperta o desejo, a mulher, assim, ela que se cuide!

Nos últimos tempos, as sociedades ficaram sensíveis ao tema, concede-se que o estupro é uma violência e deve receber sanção, não se pode pegar uma mulher assim como na época das cavernas. Bem, nem tão longe assim, ainda no século XX, moça direita ficava em casa e trabalhar fora não era coisa para a “mulher decente”. Aquelas que trabalhavam, seja nas fábricas ou em casas de família, corriam o risco e não havia muito o que fazer, ao cair nas graças do patrão, a desgraça já estava feita.

O xador

Estamos em pleno século XXI, mas ainda, em alguns lugares do planeta, o homem parece não ter condições para lidar com o seu desejo, por isso cobre-se a mulher, se possível dos pés à cabeça. Para os islâmicos, a simples vista do cabelo pode despertar o desejo, entre os mais radicais, elas devem usar o xador preto para sair, algumas o acompanham com luvas e óculos escuros para não deixar nada à mostra.

Imagina-se que basta acabar com o “objeto” para se acabar com o desejo. O desejo, assim como tudo aquilo que sentimos –raiva, amargura, tristeza etc.- pertence a cada um e cabe-nos aprender a lidar com isso. É fácil entender que posso desejar uma Ferrari, na loja de carros, mas nem por isso posso pegá-lo, nem posso assaltar um banco, porque quero ter uma casa com piscina. Ninguém ousa culpar a Ferrari, pelo roubo, agora porque não se entende que o mesmo vale para o desejo sexual?

A questão é complexa, percebe-se uma dificuldade em aceitar o lado das pulsões e instintos no comportamento humano, principalmente entre aqueles que arrogantemente se acham perfeitos e puros, somado a isto, a ela se conjugam disputas pelo poder e a religião, mas confio que homens e mulheres perceberão que já saímos das cavernas, que temos excelentes ferramentas como a consciência e o autocontrole e assim as trevas da humanidade um dia vão terminar.

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Verdade, memória e cidadania

Depois de 37 anos do término do regime militar, o Brasil  enfim instalou uma Comissão da Verdade com o objetivo de esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de violações de direitos humanos, como torturas, mortes e desaparecimentos, que aconteceram entre 1946 e 1988.

O Brasil foi o último dos países do cone sul a criar este tipo de comissão, a Argentina, o Chile e o Uruguai o fizeram logo após o término dos regimes de exceção.

Muitos devem se perguntar se a esta altura do campeonato, não é melhor deixar para lá, esquecer, outros encontram que a verdade é insuficiente, pois não significa punição aos criminosos. Há críticas dos dois lados.

A anistia concedida pelo governo brasileiro em 1979 foi abrangente ao ponto de incorporar presos políticos e integrantes do aparelho de repressão que gozaram de um perdão “amplo, geral e irrestrito”, para lembrar uma frase da época. Os torturadores não foram identificados ao passo que as vítimas anos depois precisaram expor a sua dor para receber indenização do Estado.

Ao longo destes anos, pressões principalmente dos segmentos militares impediram o surgimento de uma Comissão da Verdade, apenas a presidente Dilma Rousseff, ex-militante, presa e torturada, teve coragem  de enfrentá-las. Independente da avaliação que se faça do governo, sem dúvida, este foi um passo importante para o amadurecimento cidadão do Brasil.

“Quem esquece o passado está fadado a repeti-lo” registrou o filósofo George Santayana. É importante saber o que se passou, só a consciência nos torna atentos aos sinais quando algo não vai bem, apenas ela, nos permite rejeitar o que não queremos repetir.

Nos últimos tempos temos ficado cada vez mais sensíveis e menos tolerantes às diversas formas de violência. Quando ela ocorre buscamos a restauração e a punição dos responsáveis. No código penal inscrevemos o que a sociedade considera violência e como tal receberá sansão. Um problema complexo surge quando a violência parte do Estado. Verdade e registro são passos necessários para curar feridas. Dar o nome aos bois torna-se importante para não deixar criminosos na confortável posição do esquecimento.  Há coisas que não é possível se restaurar, nem a punição restaura, quem perdeu algum familiar vítima da violência sabe disso, mas a memória desempenha um grande serviço à restauração do equilíbrio e da paz social.

A verdade permite curar feridas e ao mesmo tempo construir a sociedade que desejamos, além disso é  importante dizer: é crime calar, cortar, queimar, matar e desaparecer adversários, mesmo se o autor é um “agente da lei”; assim como afirmar importância do respeito à diversidade e ao dissenso como condições para a democracia.

O amadurecimento cidadão de um país precisa disso.

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O que não é ilegal, nem imoral, nem engorda

 Nesta semana, com algumas amigas discutíamos sobre os papeis da mulher hoje, conversa vai, conversa vem, nos perguntamos, o que busca a mulher? Choveram idéias: consciência, desenvolvimento profissional, reconhecimento, harmonia, qualidade de vida, equilíbrio, amar e ser amada, enfim.

Ao analisar nossa lista percebemos uma significativa ausência: o prazer. Em meio às batalhas do cotidiano parece heresia pensar em prazer e, se em cada uma de nós há uma guerreira buscando dar conta das mil urgências, como achar espaço para curtir a vida?

A ideia chega tão contaminada que se torna difícil pensar nela. É preciso lembrar que desde os primórdios, as mulheres fizeram parte dos botins de guerra e seus corpos ficavam a serviço do prazer dos homens, que quando vencedores entravam nas cidades saqueando e estuprando.

As religiões patriarcais como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo aprisionaram o corpo, pois o desejo e sua realização, o prazer, tornaram-se responsáveis pela queda do homem. Nesse sentido, a prostituição foi vista como um mal necessário, para preservar a santa esposa. O prazer era coisa de puta.

No século XX, a mulher se apropria de seu corpo e do seu destino, muito bem, passamos uma borracha em tudo o que se aconteceu e agora ficou tudo certo? Acho que não, porque os corpos ainda sofrem.

Em pleno século XXI, boa parte das mulheres ainda sente as consequências de uma educação repressiva que exigia o controle das pulsões e esconder o corpo dentro de roupas fechadas e apertadas, muitas ainda usam seus corpos como instrumento de poder (seja para sacanear o marido ou para conseguir uma promoção) e outras se torturam em cirurgias ou não comendo, na busca de se adequar a um padrão de beleza que não calça com o seu tipo físico.

Grupo Corpo. Foto José Pederneiras

Nos esquecemos que a vida pulsa através do corpo: de todos eles. O corpo nos contém, nos protege, nos preenche de sensações, nos ergue, nos dá o aqui e o agora, nos impulsiona, nos faz caminhar, nos faz voar. Através dele somos graça, alegria e sensualidade. E caminhar com prazer não é ilegal, nem imoral, nem engorda, é uma salutar dever.

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Os símbolos da justiça

O judiciário esteve em pauta nos últimos meses pela coragem de duas juízas. Em agosto, o país ficou chocado com a morte da juíza Patrícia Acioli, de Niterói, e, em setembro, as declarações da corregedora, Eliana Calmon, que disse haver “bandidos de toga” no Judiciário desencadearam uma crise no Conselho Nacional de Justiça. Patrícia colecionava ameaças, pois não fazia diferença entre grandes e pequenos quando precisava decretar sentenças, morreu porque cumpria o seu dever. A desembargadora mostrou a ferida que o judiciário insiste em não querer ver. Instituição muito humana, aliás, resiste em ver a própria sombra. E sombra que não se vê, cresce…

Podemos tecer muitas críticas, mas a justiça representa uma das instituições mais caras na nossa sociedade, na medida em que estabelece os padrões do convívio social, o que é permitido ou vedado, expõe nossos valores, aquilo que toleramos e o que nos causa espécie. Sem dúvida, trata-se da melhor defesa criada contra o arbítrio, permitiu a criação de um elemento precioso: o estabelecimento de direitos.

Brasília, Ministério da Justiça

Como símbolo da instituição, vemos uma mulher com olhos vendados, segurando uma balança. Não nos perguntamos o porquê desta imagem, mas certamente a figura feminina contrasta com o universo tão “duro” dos tribunais, das leis e das sentenças.

A figura feminina nos chega como herança dos gregos e, posteriormente, dos romanos. Entre eles, Némesis, Themis, Dike, Adrasteia, Iustitia, entre outras deusas, respondem pela justiça, certamente significando os diferentes aspectos de um grande pensamento: prontidão, merecimento, visão, imparcialidade, ideal, ordenamento, execução, punição, equilíbrio, beleza, profecia, ideal, sabedoria.

Némesis no Louvre. Deusa primordial, alada para atender rapidamente os pedidos

Aspectos por vezes conflitantes que nos remetem a grandes questões, existe uma justiça divina ou é uma construção dos homens? A justiça é cega ou tudo vê? Trata-se de um poder da terra ou produto das instituições humanas? Natureza ou cultura? Boa conselheira ou fúria divina? Sabedoria ou vingança?

Acho significativo que a justiça, uma ideia tão importante e central para o convívio humano receba, na origem a figura da mulher.  Certamente esta imagem fala muito dos valores desse mundo. Se hoje fôssemos a representá-la, tenho grandes dúvidas se ela ganharia a figura feminina…. A imagem corrente da mulher é o destempero, supostamente pelos hormônios que flutuam em seu corpo ao longo do mês. Amorosa sim, equilibrada jamais! Não iriam escolhê-la como símbolo da justiça.

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Dos antigos, uma utopia para a mulher de hoje

Pergunto-me, por que, nós, mulheres, sempre estamos tomando conta de mil coisas, pais, irmãos, amigos, filhos (e a escola dos filhos), trabalho, alunos etc. e não cuidamos da gente? Vivemos sempre em função, mas não conseguimos abrir um espaço para fazer ginástica, sair com as amigas, cuidar das costas, fazer um curso, ler um livro que não seja do trabalho, às vezes, nem para o cabeleireiro…

Se cuidar, se nutrir, se acertar, curar as dores, parece perfumaria, coisa de quem tem tempo, ou seja, de dondoca. E nós atarefadas mulheres modernas, passamos longe disso! Por sua vez, as necessidades dos outros não param, só crescem, como bola de neve. Todas são sempre mais importantes do que as nossas. Aquele nosso desejo pode ficar para depois…

Mas como tomar conta do mundo se a gente não cuida da gente? A hérnia arrebenta, o coração quase infarta, ganhamos tendinites, hipertensão, enxaquecas e outros problemas, para só aí percebermos que nosso ser precisa carinho e atenção.

Entre as populações nativas e para os antigos, havia alguns dias do mês e tb do ano (durante rituais para as deusas) que as mulheres ficavam entre mulheres para se nutrir, descansar, cuidar suas dores. Ninguém questionava, era necessário para elas e para toda a comunidade. Soa como coisa muito distante, fica como utopia.

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Poder e salto alto

Nestes dias, fui ao cabeleireiro e li, na revista Lola, a entrevista de Arianna Huffington, cofundadora do portal de notícias Huffington Post, uma das mulheres mais poderosas mídia hoje. Ariana aborda diversos temas que tocam a mulher moderna, mas destaco a ligação que faz entre salto e a sensação de poder.

“Quem são essas mulheres que usam salto cada vez que saem de casa? Elas precisam tanto assim da confiança que a altura a mais dá a elas?”, pergunta.  Ela tem bronca do salto depois que sofreu uma queda e precisou ficar 2 meses de muletas, mas a pergunta continua relevante. Por que as mulheres precisam aumentar sua altura para se sentirem poderosas?

Saltos são lindos, altos e finos, então, fazem a dona dos pés se sentir nas alturas, literalmente, mas também, porque exalam sensualidade e poder. Dobradinha mega desejada pelo mulherio hoje. No entanto, as mazelas doem na carne: o músculo encurta, os pés sangram, criam calos  e há o risco de queda. Mesmo assim, algumas mulheres recorrem ao uso de botox para deixar as extremidades mais resistentes para os saltos! Por que a mulher faz isso consigo mesma? O que ela busca no espelho do outro? Aceitação? Amor? Quer se sentir gostosa? Poder feminino?

Lembrei de um conto de Machado de Assis, O Espelho, nele, o personagem, um alferes da Guarda Nacional, precisava de uma farda para se ver. Fiquei pensando que o salto ajuda a criar a personagem, por isso muitas mulheres não descem do salto nem para tomar café da manhã.

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Atena, a donzela dentro da armadura

Diziam os antigos que Atena era a filha predileta de Zeus, pois teria nascido de sua cabeça. O oráculo havia predito que os descendentes de Mêtis, deusa da sabedoria e da prudência, seriam mais fortes que o pai e o destronariam. Buscando escapar do vaticínio, Zeus, logo após unir-se a deusa, a engoliu. No entanto, Mêtis já havia concebido Atena que acabou nascendo na cabeça de Zeus.

Em Atenas, a sua cidade sob sua proteção, uma estátua da deusa ocupava lugar central no Partenon, principal templo da Acrópole. Grande centro intelectual e cultural da época, a cidade tornou-se reconhecida por consagrar valores como a democracia e a cidadania, bem como por legar-nos boa parte dos aspectos centrais da cultura ocidental.

Deusa donzela, virgem, ou seja, sem marido, portava a armadura e a espada, era ladeada, algo que poucos sabem, por uma grande serpente -para os antigos a serpente simbolizava a proteção. Na armadura encontra-se a imagem da medusa. Outro dos seus símbolos é a coruja, por vezes, este pássaro pousa no seu ombro ou sobrevoa sua cabeça. Se bem Atena é representada com armas e é guerreira, ela representa a inteligência. Para os romanos, tornou-se Minerva, originando a expressão “Voto de Minerva”.

No século XX, no ocidente abrimos essa porta, rompendo um ciclo de milênios, as mulheres começaram conquistar visibilidade e direitos, passaram a votar e a ingressar nos bancos universitários, tornaram-se médicas, aviadoras, juízas, até militares. Me pego pensando, depois de tantas conquistas, será que caminhamos como esta jovem deusa de espada na mão e dentro de uma armadura?

Há muitas formas de caminhar e guerrear, no século passado, seguimos o caminho do intelecto. As jovens não queriam repetir os passos de sua mãe, desejavam autonomia, nada de ficar esperando o marido com o jantar pronto em casa, queriam seguir seus anseios profissionais. Filhos? Só depois da carreira construída. Para elas, ser a Rainha do lar, não era a opção. Foram décadas de luta pelo reconhecimento de seu valor profissional em todos os espaços. As tradicionais ferramentas da mulher foram banidas junto com os espartilhos, a sedução foi vista com desconfiança, como artimanha ou artifício de mulheres atrás da segurança do casamento.

Como efeito colateral, muitas tiveram grandes dificuldades para casar e depois em seus casamentos. O homem, criado numa tradicional família patriarcal, custou a entender esta mulher moderna que não fritava um ovo, nem precisava dele para pagar a conta.

A mulher mudou ao longo do século XX, abriu-se a novas possibilidades. Hoje, ela tem escolha, não é obrigada a se casar com um marido arranjado pela família, nem morrer espancada se o sujeito é violento, como ainda ocorre em muitos lugares. No entanto, com um pêndulo, as outras facetas ficaram esquecidas e a composição do feminino anda necessitada de um acerto. Como Atena, a deusa guerreira, muitas mulheres são meninas escondidas por trás de um escudo, em suas solitárias lutas diárias, protegendo-se da vida, sem conhecer nem desenvolver a plenitude da mulher.

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Perséfone, a romã e a mulher

Dos mitos gregos, talvez seja um dos menos lidos. Conta a lenda que num dia de outono, Coré colhia flores no campo com suas primas quando, repentinamente, a terra se abre e a jovem é raptada por Hades, o senhor do reino dos mortos. Conhecemos esta história pela ótica da mãe, Deméter, que ao sofrer a perda da filha passa a vagar pelo mundo, sua dor faz a terra secar e o alimento faltar, o medo da destruição faz Zeus interceder junto a seu irmão, Hades, e permite-lhe recuperar sua filha.

Perséfone e Hades - Desenho de uma jarra grega - 440-430 a. C.

Uma aura de mistério permeia a descida de Coré ao mundo das trevas. Voltamos a saber dela, agora como  Perséfone, apenas no acordo que sela a sua volta. Ela deverá permanecer com Hades o equivalente em meses ao número de sementes de Romã que tiver engolido. Uma tradição diz que ela engoliu 4 e passaria um terço do ano com o senhor da morte. Outra, lembra a associação entre a cor vermelha da Romã e o sangue, uma referência ao ciclo menstrual, quando a mulher sofre a morte de uma vida em potencial, o que levaria toda mulher a conviver mensalmente com o seu Hades interior.

No mundo ocidental moderno vivemos muito afastadas dos ciclos da vida, renegando inclusive nossos próprios ciclos biológicos, procuramos fazer de conta que eles não existem. A mulher moderna vive “aqueles dias” como um fardo da natureza. Bem distante da antiga sabedoria que destacava o aspecto mágico do sangue e numinoso do útero como um vaso, aquele que conterá a vida.  Os estudiosos da psique feminina (na linha junguiana) apontam que a origem de uma série de transtornos menstruais (o + freqüente talvez seja a TPM) estão relacionados à inconsciência do ciclo vida (e da morte). Vivemos a menstruação sem dela tomar consciência, o corpo se encarrega de nos lembrar o que esquecemos.

O retorno de Perséfone à sua mãe, Deméter, não é o retorno de uma donzela, esta “morreu”, mas de uma deusa madura, que conhece a sexualidade, a separação e a morte. Neste mito, a inocência de donzela precisa ser sacrificada. Por outro lado, representa a grande perda sofrida pela mãe quando sua filha primogênita se casa e deixa o seu lar, ou então quando todos os filhos saem de casa e a mulher sofre a síndrome do ninho vazio.

Acredita-se que as duas deusas são na verdade uma, juntas representariam a totalidade da Grande Mãe, a deusa primordial. Ambas simbolizam a capacidade de morrer  e renascer infinitamente, como mulher, como terra, como natureza. A grande mãe contém todos os contrários, é ao mesmo tempo donzela e mãe, jovem e velha, a que alimenta e a guerreira. Senhora da vida e da morte.

Em Perséfone, há um outro elemento importante, o casamento com Hades, a torna rainha da morte, a soberana do mundo avernal, mas este aspecto ficará para outra ocasião.

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A magia de Afrodite

Talvez seja uma das deusas da antiguidade das mais conhecida e das menos entendida. Cultuada como deusa do amor e da beleza. Atributos preciosos, pois todos querem amar, ser amados e um quinhão de beleza.

Pintada por Botticelli

Conta-se que teria nascido da espuma do mar fertilizada pelo céu, chegando às costas da Grécia, foi recebida pelas Graças que a vestiram com trajes belíssimos e se tornaram suas companheiras. Também chamada “a dourada”, numa associação ao brilho sol, Afrodite casou-se com Hefesto, o senhor dos metais, no entanto um deus coxo, um par estranho para a nobre deusa, convenhamos. Detentora de um amor transbordante, apaixonou-se inúmeras vezes, entre seus amores, figuram Ares, deus da guerra e o belo, jovem e mortal, Adônis. A nós mortais, não nos cabe submeter a deusa a um julgamento moral.

Amor é um sentimento vasto. Há o amor amizade, o amor fraternal, entre pais e filhos. Posso amar a Deus, posso sentir amor por todas as criaturas divinas. Afrodite representa o amor arrasa quarteirão, o amor-paixão, aquele amor que “todo mundo quer cheirar” como diz a canção.

A magia da deusa reside em sua força de atração e ligação, uma energia ardentemente desejada e bastante malbaratada. Muitas mulheres querem dominar as técnicas da sedução, para conquistar o mundo e os homens, não necessariamente nessa ordem. Em boa parte das revistas femininas busca-se instigar o lado Afrodite nas mulheres: “Técnicas para levar o seu homem ao delírio na cama”, “Como fazer um strip-tease”, “Incendeie o seu desejo”. Esta energia, hoje, aparece até na venda de cerveja. Fala-se a qualquer hora e em qualquer lugar em prazer e sexualidade, fantasias e fetiches. E há tanto problema sexual…

É preciso lembrar que durante séculos essa energia era coisa de p… Em pleno século XXI, boa parte das mulheres ainda sente as conseqüências de uma educação repressiva que mandava controlar e esconder tudo o que lembrasse a sexo. Até hoje muitos homens, mesmo os jovens, dividem as mulheres em “para namorar” e “para casar”.

Prazer, sensualidade, emoção, sexualidade. Energia vital que estabelece a atração entre os seres, em suas diversas formas, de tão poderosa, assusta. Por este motivo foi relegada aos porões durante séculos. Nos dias que correm, ela se mostra, mas continuamos sem saber como lidar com ela, corremos atrás dela, sem entender o que procuramos.

As mulheres Afrodite exercem o poder de sedução. Pelo sorriso, olhar, gingado do corpo, em suma, a sedução de estar de bem consigo mesma, com o seu brilho de mulher.

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No dia das mães, a grande mãe, Deméter

Para celebrar o dia das mães, lembro a grande mãe da antiguidade e uma das deusas mais antigas da história, Deméter.

Conta-se que a deusa tinha uma linda filha, Perséfone, que, certo dia, desapareceu. Deméter chorou inconsolada, deixou o Olimpo e saiu pelo mundo à sua procura. Tanta era sua dor que a terra começou a secar. A filha, havia sido raptada por Hades, senhor do submundo e estava escondida em seus domínios, onde nem a luz chegava. No Olimpo, os deuses ficaram preocupados e Zeus negociou com Hades, seu irmão, para devolver a donzela. Perséfone voltaria ao mundo dos vivos se não houvesse provado algum alimento em sua jornada pelo submundo. Hades, apaixonado pela jovem, antes de deixá-la partir colocou em sua boca algumas sementes de romã. Assim, por ter ingerido alimento, Perséfone foi destinada a passar metade do ano com a mãe e a outra metade, junto a Hades, como rainha das profundezas.

Em Roma, foi associada a Ceres, deusa dos cereais. Seu templo em Eleusis (Grécia) funcionou por quase 2mil anos

Podemos encontrar o espírito de Deméter naquelas mulheres que andam rodeadas de crianças, vivem pensando na comida e nos agasalhos dos filhos, do marido e de quem estiver ao seu redor. Vive para o outro. Instintivamente cuida de tudo o que é pequeno, carente de defesa e em crescimento. A partir desta figura, a sociedade criou o estereótipo da mãezona, super protetora, que se doa incondicionalmente, esquecendo-se de si pela família. O imaginário nos lembra uma mulher gorda ao pé do fogão, cozinhando gostosuras. Representação útil em sociedades patriarcais, origem de muita culpa para as mães que não se encaixam no perfil.

Deusa dos cereais, Deméter estava associada à transformação, ao mistério que transforma a semente em uma planta que se tornará alimento. O longo percurso da vida requer transformações. O problema surge quando nos apegamos a um estágio e travamos o fluxo da vida. Aí aparece aquela figura da mãe que, para não perder a sua posição, procura adiar o crescimento e a separação dos filhos. Se bem, as mães modernas andam de aspirador de pó e vão à ginástica, ainda querem os filhos ao seu lado, por sua vez, para muitos filhos hoje, a casa tornou-se um ninho tão confortável que relutam em partir para a sua própria jornada.

Na vida urbana, não temos muita consciência das transformações,  esquecemos os rituais e mudanças importantes ocorrem sem cerimônias. Não prestamos atenção ao ciclo feminino, só nos lembramos quando estamos “naqueles dias” e achamos uma chatice. Após a revolução feminina, as mulheres passaram ocupar espaços antes exclusivos dos homens, hoje, desejar a maternidade soa anacronismo…

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No equilíbrio, entre salto alto e a gravata

Nem é preciso sair à rua vemos que as mulheres têm conquistado grande espaço no trabalho e em toda a vida social. Há juízas, médicas até aviadoras, cada vez mais são chefes das próprias famílias e algumas vão até sozinhas para a balada.

Passamos décadas lutando por espaço, reconhecimento e direitos. Aprendemos as ferramentas para conquistar um lugar neste mundo: o estudo mostrou-se a melhor delas. No entanto, o mundo é masculino, suas formas de saber e de poder, seja no trabalho, na escola, na política ou na igreja, respondem a uma linguagem desse gênero. A emotividade e a intuição passaram séculos hibernando desqualificadas, apenas recentemente se reconheceu a existência de uma “inteligência emocional”. Atributos do feminino foram historicamente associados à futilidade, à perfumaria, quando não motivos de piadas ou usados para vender cerveja. Quando a mulher se zanga é porque está com TPM, se dirige mal deve voltar a pilotar seu fogão, se foi promovida, dormiu com o chefe… é cansativo precisar a todo momento provar o seu valor!

Buscando uma aura de seriedade e fugindo do estigma, a mulher acabou adotando uma postura masculina, em suas ações, trejeitos e até nas roupas. Incorporamos não apenas o terno (quando não a gravata), mas também os valores. Chorar, hoje, também é feio para a mulher.

O que seria um jeito “mulher” de ver e de experimentar o mundo? Penso que ele busca aliar os saberes aprendidos aos saberes do gênero. Salto alto e autoridade, suavidade e decisão, nutrição, criatividade e ousadia, intuição e racionalidade, inteligência e alegria.

O desafio para o século XXI é recuperarmos o jeito feminino de estar no mundo e o reconhecimento que ele merece e assim caminharmos lado a lado com os homens, cada qual com a sua dor e sua delicia. O mundo tem a ganhar com isso.

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Contracorrente

30 de novembro. Nós, mulheres chilenas, entregamos a São Paulo um livro com nossas memórias. Nesta terra de imigrantes, é uma das tantas memórias que aqui se cruzam, agora fica o registro. Um registro feito pela ótica e fruto de um trabalho de mulheres.

Na contracorrente da celebração das conquistas das mulheres, neste evento percebi que as coisas “de mulheres” ainda surpreendem os muitos homens, desperta-lhes sentimentos e atitudes arcaicas que não combinam com as práticas de respeito pela diversidade pregadas no séc. XXI.

Em um projeto de mais de 4 anos muita água passou sob a ponte e muita gente revelou o material que é feito. Histórias não faltam.

Ainda lembro quando em 2006 levamos nosso flier anunciando as primeiras oficinas (feito em parceria entre uma das facilitadoras e sua filha) e o dono da copiadora (nem gráfica era) não gostou do logo e “melhorou” o nosso material. Colocou a imagem de uma mãe loirinha beijando um bebezinho. Afinal o papel da mulher é ser mãe, deve ter pensado.

Depois mulheres em oficinas todas as semanas, o que fazem? Mulheres aprendendo computação, para quê? Mulheres fechando um livro? Mulheres fazendo um lançamento? Muitos foram companheiros e solidários, no entanto, despertou em alguns, principalmente nos que se sentiam “autoridades”, a vontade de ditar regras, de tomar conta, seja do livro, seja do lançamento, enfim das mulheres.

Confesso que fiquei surpresa (e indignada) por ter que brigar desde o tom com que certos homens se dirigiam às mulheres até o destino dos livros, passando pelo financiamento que após fechado com nosso “patrocinador” mudou a forma sem nos consultar e fomos obrigadas (eu particularmente que assinei o termo de compromisso) a assinar um termo draconiano, sob a chantagem de se cancelar o lançamento. O livro foi um evento excepcional e por isso não tenho mais que cruzar com essas pessoas, porque não fazem parte do meu cotidiano.

No Chile, Michele Bachelet mostrou a capacidade das mulheres ao ocupar o principal cargo do país até março deste ano, em 2011 Dilma assumirá a presidência da República no Brasil. São conquistas, mas o cotidiano nos mostra que a atenção deve ser constante, pois a luta contra o arcaísmo e pelo devido respeito continua.

E para quem quiser saber sobre o projeto, sugiro esta matéria no bol neste link:

http://noticias.bol.uol.com.br/entretenimento/2010/11/30/livro-sobre-o-resgate-da-autoestima-das-mulheres-chilenas-e-lancado-em-sp.jhtm

http://fotos.noticias.bol.uol.com.br/entretenimento/mulheres-chilenas-pesquisa_album.jhtm

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A força da união

Nesta semana vem ao mundo o livro Memória Social: Chilena tu eres parte, no te quedes aparte. Esta publicação é fruto de um trabalho coletivo, mas seu ponto de partida é um projeto apresentado por duas imigrantes chilenas em São Paulo – Oriana Jara e quem escreve- com uma proposta de trabalho coletivo com mulheres chilenas acima de 50 anos.

Percebíamos que este grupo estava sem sentir seu lugar no mundo. Um mundo que era diferente daquele que costumavam viver. Muitas já estavam separadas ou viúvas, outras tentando lidar com as mudanças do casamento no momento da partida dos filhos. Nos anos 70 ou 80 enfrentaram o desafio de deixar o convívio familiar em nome de um projeto com o marido no Brasil. Nos anos 2000, a questão era quase existencial: e agora?

Memórias da infância e dos anos de juventude no Chile, a descoberta do Brasil e de ser imigrante, compõem um tecido de vidas únicas, singulares, mas também tão como as nossas. O livro registra um trabalho em conjunto, entre mulheres, pois juntas ao compartilhar as experiências, ganhamos força e não ficamos perdidas na solidão. E o mais importante, em conjunto, percebemos do que somos capazes quando abrimos espaço para nossos sonhos e buscamos, dentro de nós, o nosso potencial.

Local: Instituto Cervantes, Av. Paulista, n. 2439, dia 30/11, às 19h30.

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Michelle Bachelet, mudança cultural ou exceção?

“Con ella llegábamos todas” , esta frase de María de los ángeles Fernadez, Diretora da Fundação Chile 21  resume a sensação ao ter um mulher ocupando o cargo + alto da nação. O terremoto de 27 de fevereiro abruptamente colocou fim ao governo de Michelle Bachelet. Hoje, vê-la ser escolhida para chefiar da Onu Mulheres, permite-nos pensar as questões de gênero no marco das reflexões do Bicentenário do Chile.

Fato inédito: em 2006, os chilenos escolhiam uma mulher socialista, exilada, separada, mãe de 3 filhos, para ocupar a presidência. Trata-se de um país desigual e conservador em questões de gênero, como atesta o fato de que a lei do divórcio foi aprovada apenas em 2004, por enfrentar altos índices de violência contra a mulher, entre outros. Certamente suas qualificações eram notórias, médica com especialização em pediatria, ministra da Saúde e posteriormente de Defesa, primeira mulher na América Latina a ocupar este cargo. Já na campanha, ela colocou a perspectiva de gênero, estratégia que os analistas da época consideraram de alto risco.

Michelle enfrentou inúmeros desafios em seu governo, alguns provenientes de necessidades há muito tempo proteladas como a reforma no sistema educacional, conhecida como a “Revolução de los Pinguinos”. No entanto, outros desafios partiram do preconceito de um governo de uma mulher que se assumia como mulher. Muitos a cobraram de “no ponerse los pantalones”, ou seja, não ser firme (ou dura), uma característica masculina.

Imaginava-se que a presença de uma mulher na presidência impulsionaria uma profunda mudança cultural. As expectativas talvez tenham sido altas demais, pois para muitos as transformações se restringiram ao universo da política e surpreendeu uma derrota para um candidato conservador nas questões de gênero .

É preciso reconhecer que houve mudanças, na entrevista ao Observatório Género y Equidad, logo após o fim do mandato, a ex-presidente analisa: “Creo que mi gobierno, uno de los resultados que va a tener o que ha tenido, es que, difícilmente, alguien en una empresa se va a atrever a decir mañana: “No la vamos a contratar porque es mujer”. Hubo un cambio cultural en eso. Difícilmente, alguien se va atrever a decir que es clasista. En este país hemos progresado también en la idea de que hay ciertos valores democráticos, y que si alguien no los tuviera no lo confesaría tampoco.”

Michelle Bachelet mostrou que é possível se chegar ao poder e que não é necessário se masculinizar para tal e que existem outras formas de exercê-lo, mais dialogantes, mais democráticas e com perspectiva de gênero. Uma mulher na presidência exerce um poder simbólico. Não é possível pensar que há coisas, tarefas e lugares para homens e outros para mulheres, mais ainda, porque ela deixou a presidência com + de 80% de aprovação.

Alejandra Castillo, pesquisadora da Universidad Arcis, contudo, nos recorda que muito há por se fazer, “estamos habituadas a celebrar la excepción, a elogiar a las mujeres excepcionales para luego olvidarlas. Sólo sabremos si valió la pena una Presidenta mujer cuando se hayan establecido los procedimientos mínimos para asegurar la presencia igualitaria de hombres y mujeres en todos los ámbitos de la vida política del país. En otras palabras, sólo sabremos si valió la pena cuando no sea una excepción que una mujer sea Presidenta de la República.”

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Dia dos namorados -cabeça de homem

Aproxima-se o dia dos namorados, data crítica para quem está sozinho/a. Frustrante para muitos, mais um ano se passa e nada… Hoje no suplemento feminino do Estadão vemos uma matéria que dá voz a homens belos, bem sucedidos e solteiríssimos! Seu título “Cabeça de homem” promete-nos uma porta para o universo desconhecido do clube do bolinha.

Começo observando que nossos solteiros estão à procura da mulher ideal. E quem procura o ideal, na realidade, não procura, deseja ou sonha… Somos todos de carne e osso, os anjos estão no céu, os duendes as fadas, para quem acredita, na natureza. É correto termos consciência daquilo que queremos e do que não queremos, mas é preciso lembrar que seres de carne e osso temos momentos divinos, mas também apavorantes. Certamente, para ter uma vida saudável, algo que todos queremos, é fundamental detectarmos o que nos faz bem e correr atrás. Só os masoquistas correm atrás de pancadas…

Mas gostaria de destacar o que nos diz respeito, as queixas com relação às mulheres. Reproduzo o que eles dizem:

  1. Não há espaço para o ritual da conquista.
  2. No começo tudo é maravilhoso, depois vem as cobranças.
  3. A maioria chega pressionando pra namorar.
  4. O ciúme pega.
  5. Há muita mulher vazia.
  6. Há muita mulher disponível, mas na ânsia, acaba ficando vulgar. Com essas não dá para levar um relacionamento adiante. Essas fazem a gente passar vergonha(sic).
  7. As mulheres não se esforçam para manter um relacionamento. As relações viraram descartáveis.

Não quero entrar num discurso moralista. Quero apenas refletir um pouquinho acerca do que isso fala de nós, mulheres. Onde a coisa pega?

Percebe-se que a maioria dos pontos tem em comum o problema da ansiedade.

  1. A mulher ansiosa não percebe que há coisas de meninos e meninas. Os homens têm prazer na conquista. Sentem-na como uma vitória após uma árdua batalha. Algumas mulheres chegam chegando, atropelam o ritmo e tiram o prazer masculino de ser o caçador… Por outro lado, desde que a mulher assumiu um papel mais ativo em tudo, pessoal do sexo masculino anda um pouco desacostumado com essa arte. A gata, ao tirar o prazer da conquista, perde ponto e perde o que nem começou…
  2. A mulher ansiosa não entende o ritmo das coisas. A coisa rolou legal e já fala em namoro, já quer marcar território, como que “tomar posse” do gato. Este fica calma lá! Na insegurança, pinta o ciúme, daí estamos a um passo da cobrança.
  3. Cobrança. Nossa Julieta deu os primeiros beijos, tudo foi divino e logo ela construiu um filme na sua cabeça: vão namorar, casar, ter lindos filhos e serem felizes para sempre! Está decidido. Porém, o nosso Romeu não fez aquilo que estava no script, e nossa Julieta começa a reclamar. Você não ligou! Você preferiu sair com seus amigos! Você está olhando para a mesa do lado! Você chegou tarde! Você esqueceu o que combinamos!

Não quero entrar no mérito das outras queixas, todas pertinentes, mas nenhuma críticas é exclusividade nossa. Tal como num espelho, vale para homens e mulheres dizer que as relações se tornaram efêmeras, que nos tornamos intolerantes e por qualquer bobagem terminamos os relacionamentos, bem como que as pessoas estão vazias…

Nem tudo está perdido, acredito no Amor (com maiúscula) e acredito que o Amor caminha junto com a liberdade. O Amor independe da reciprocidade: para amar não é preciso ser amado. O amor que sinto, eu sinto e pronto!  Certamente o amor anseia aquela sublime conexão de almas com o ser amado.  A gente sonha com aquele estado de ressonância que é encontrar o parceiro que nos entende pelo olhar, cujo toque nos faz vibrar, cuja palavra acalenta e sentir aquele estado de plenitude, quando nada mais importa, pois até o mundo poderia terminar naquele momento…

Há  uma confusão entre amor e desejo de posse por aí. O nosso ego quer o outro, contudo desejo de posse não é amor. Esse estado de ressonância e conexão com o outro só pode existir quando o amado é livre e livremente sentir esse amor por nós também. Não posso obrigar alguém a sentir algo por mim e, se eu sinto e o outro não sente, o melhor é deixá-lo partir. João amava Maria, que amava Pedro… como escreveu o poeta, é assim mesmo, até que um dia a gente, se de fato estiver buscando alguém legal, mas de carne e osso, encontra o amor e o nosso par.

Certamente cometi o pecado da caricatura e simplifiquei muita coisa, mas tanto gostei do olhar atento dos rapazes que não resisti a trocar figurinhas.

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Da pílula e da rebeldia

Nestes dias a senhora pílula celebrou 50 anos. 50 anos de lançamento nos EUA, diga-se. De lá para cá, no ocidente, mudaram muitos valores acerca da posição da mulher na sociedade. Vivendo num mundo de liberação sexual, uma jovem hoje não tem ideia do papel esperado das mulheres até não muito tempo, até o fim dos anos 70, na verdade.

Havia o comportamento esperado para a mulher, uma pressão para ser certinha, adequada, obediente, controlada,  uma santa, sinônimo de delicadeza e beleza. Em outros tempos a inadequação era vista como descontrole ou  loucura, sendo punida com o estigma ou o banimento. Embora hoje as pressões tenham se modificado um pouco, ainda hoje percebemos alguns resquícios desse padrão.

Nossas mães são dessa época de transição -de quem tem mais de 30 anos, claro- viveram um momento de forte pressão da família sobre o que era aceitável, mas por outro lado, começava a se desejar que a mulher estudasse e a falar da pílula e da possibilidade do controle da fertilidade e a conquista da liberdade sexual. Muitas foram à universidade, sonhando lá encontrar um marido provedor e lá encontraram novas ideias e novos horizontes.

Até então, o desejo era associado à pecado e a mulher que sucumbisse se tornava uma pecadora ou puta que deveria ser banida. Uma “boa” mulher deveria casar virgem e saía da tutela do pai à tutela do marido. Mulher separada perdia as amigas, ter a palavra desquite nos documentos era quase com ter a inscrição “vagabunda”.

Uma das grandes tragédias sociais é que por um lado, vemos uma discrepância entre o consenso sobre o que se apresenta como o comportamento aceitável e o impulso divergente do indivíduo. Na busca por uma adequação, homens e mulheres, nos reprimimos e nos tornamos “adequados” e “certinhos”, deixando de manifestar nossos desejos, aquilo que pulsa no interior de cada um.

Naquela que a vida pulsava a ponto de desafiar o coletivo, sua rebeldia foi vista como loucura. A escultora Camille Claudel, amante de Rodin, foi execrada pelos parentes, outro caso emblemático é a irmã de Robert Kennedy, internada e lobotomizada pela família por não se adequar ao padrão, dizem os psiquiatras que ela sofria de dislexia.

E o hoje, onde estaria a rebeldia?

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A vida começa aos 40

Um velho chavão. Quem está no vigor da juventude, longe dos 40, pensa que é uma grande bobagem. Muitos dos que estão nesse limiar proferem essa afirmação sem convicção. Já se sentem os efeitos da gravidade e dos radicais livres: rugas, flacidez e manchas. Essas malvadas não existiam, eis a oxidação dizem os especialistas. Um novo nome para um antigo fenômeno: o envelhecimento.

A idade parece uma doença contagiosa da qual ninguém quer falar. Se a idade chega, que não se vejam os seus efeitos. No nosso mundo, a exigência é ser jovem. Eternamente jovem, se possível. A beleza está do lado da juventude. Beleza significa ter uma pele lisinha, um corpo sarado, uma barriga tanquinho.

A indústria da beleza promete deter os efeitos do tempo: cremes antirugas, anticelulite, peelings, liftings, silicones, lipoaspiração. Existem ainda alternativas para os que querem soluções rápidas e radicais: cirurgias plásticas. Tudo para manter a aparência jovem.

O problema surge, pois não se engana o RG. Quando se está na casa dos 40, já ocorreu o inevitável e agora? o que fazer? A batalha travada é por não parecer, ter 40 com cara (e corpo) de 20, se possível.

Trata-se de um luta para se ajustar a um padrão estético, mas há uma dimensão que não é física. Aos 40, alguma coisa parece não se ajustar. O nosso espírito está jovem. A gente se sente jovem, a despeito dos cabelos brancos insistindo em aparecer…

Como assim? Parece uma brincadeira de mau gosto. Agora que os medos e bobeiras de adolescente já ficaram para trás, que a gente sabe e pode fazer o que deseja, que o salário está bom. Justamente quando há boas conquistas para se desfrutar: independência financeira e maturidade. Bem, não sempre, mas vamos caminhando para isso. O mundo nos coloca que já somos senhoras e senhores, tiazinhas e tiozinhos… e que o movimento não é mais ladeira acima. Atônitos, percebemos que para o mundo já passamos do ponto, “já não temos mais idade”. Não temos idade para vestir mini-saia, para namorar, para começar de novo, enfim a lista de nãos é enorme. O duro é que muita gente se convence disso, entra em pânico ou em depressão.

Ouvimos os nãos na infância e na juventude, o não porque se é mulher, o não porque há responsabilidades. Os anos se passam e a gente passa por eles procurando responder às expectativas do mundo. Ser bela, inteligente e profissional, ter um bom emprego, um namorado, casar, ser mãe, ter belos filhos.

Aos 40 pode ser o momento da virada, da liberdade, da liberação dessas obrigações. Aos 40, a gente já não precisa mais correr atrás da aceitação. Já sabemos que quem gosta da gente, vai continuar gostando.

As amarras dão espaço a um novo o imperativo: de viver melhor.

O tempo passa, é verdade, mas a gente não precisa sofrer com isso. A gente pode aproveitar o tempo que nos resta. Trata-se de escolher é como vai se viver os próximos 40 anos. Com mais prazer, mais alegria, mais paixão, mais amor, mais saúde?

Menos a vontade dos outros, menos sofrimento, menos angústia?

Menos dever, mais querer?

O primeiro dia dos nossos próximos anos começa hoje! E a nossa escolha pode ser agora!

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Esperança, mantém-te firme!

No domingo celebramos a páscoa, momento final Paixão de Cristo. Ao trocarmos ovinhos, nos lembramos da ressurreição de Jesus, após uma longa e sofrida via crucis. Celebramos a vida e o renascimento.

Em meio a estes pensamentos, me lembrei-me de Frida Kahlo, a vigorosa artista mexicana que renasceu inúmeras vezes. Sua vida poderia ter ficado marcada pelos traumas, mas passou para a história como uma grande mulher do século XX. Construiu sua autobiografia usando tintas e cores, sua pintura nos permite vislumbrar suas dores, fantasmas e angústias, mas também seus desejos, sua força e sua esperança.

“Eu pinto-me  porque estou muitas vezes sozinha e sou o assunto que conheço melhor”, diz ela. Os primeiros pincéis lhe permitem enfrentar a poliomielite que a atinge aos 6 anos. Aos 18, ao ser atropelada por um bonde, volta a pintar. Profundas dores a acompanharão ao longo de sua vida, bem como um colete ortopédico e muletas. Não poderá realizar seu grande desejo: ser mãe.

Frida confronta padrões. Traz para sua vida sua herança indígena, militante comunista, ama o muralista Diego Rivera, aceitando suas diversas traições. Sua pintura também contraria, ela coloca na tela sua subjetividade, embora o espírito do seu tempo mandasse pintar o México revolucionário.

Em cores fortes, encontramos suas referências próximas, sua casa, sua cama, seus bichos, mas também o sol, a terra, a aridez do deserto, o trigo, o verde da mata. Na paisagem se destacam as múltiplas Fridas, virginais, sensuais, partidas. Seu olhar é sempre firme, em meio a dor, essa multiplicidade fascina.

 “De los viajes que hice, viendo y observando todo lo que pude… saqué dos cosas positivas: tratar hasta donde pueda ser siempre yo misma, y el amargo conocimiento de que muchas vidas no serían suficientes para pintar como yo quisiera y todo lo que quisiera.”

A pintora mexicana nasceu em 1907, em meio a acontecimentos que transformariam a história mexicana. Passou por mais de 30 cirurgias, sonhava algum dia abandonar o colete ortopédico. O quadro Árvore da Esperança, Mantém-te Firme (1946), nos revela o lema de sua vida.  

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