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O simbolismo da paixão

A paixão de Cristo permite diversas interpretações, nesta data, escolhi pensar na simbologia dos instantes finais da vida de Jesus, quando de sua morte para o mundo e a ressurreição para a vida eterna.

Inicialmente uma breve recuperação da história. Jesus chega a Jerusalém, para o Pessach, onde será recebido com glória; ao entrar no templo, ao ver os comerciantes estabelecidos no espaço sagrado, enfurece, expulsando-os; seus atos despertarão a ira das autoridades judaicas. No desenrolar dos acontecimentos, um discípulo traidor, Judas, entrega Jesus aos líderes judaicos; altos sacerdotes o interrogaram, não encontrado motivo de condenação, contudo quando este disse que seria capaz de destruir o Templo e reconstruí-lo em três dias e afirmou que de fato era o Messias, foi acusado de blasfêmia e encaminhado à autoridade romana local, Pôncio Pilatos. O governante, após uma curta conversa, sentencia o Nazareno à morte; como era costume soltar um preso antes da Páscoa, Pilatos pergunta à multidão a quem liberar, o assassino Barrabás ou Jesus? A multidão libera o criminoso. Pilatos lava as mãos.

Numa interpretação simbólica, os sacerdotes representam as autoridades da natureza inferior, a ignorância,  o orgulho e a ambição. Jesus é apresentado como ameaça de subversão, certamente é uma ameaça ao ego e à parte sombria da psique ao propor uma nova forma de funcionamento, agora inspirada no amor, na compaixão e  no perdão.

Pilatos, o governante, simboliza a instância da mente que deve decidir o caminho a tomar. A mente ao lavar as mãos, justifica-se alegando não ter culpa da morte do inocente, uma vez que está apenas cedendo aos apelos da plebe, a figuração das paixões. As paixões sempre zombam da natureza divina. As paixões identificadas com o criminoso pedem sua liberação e a crucificação da parte divina do homem. Barrabás em aramaico significa “o filho do pai”. Ao libertar Barrabás, estará permitindo que o filho do Pai Celestial, mas alma errante, ignorante de sua verdadeira natureza,  continue a vagar pelo mundo até redimir-se pelos seus crimes e assim retornar à casa paterna triunfante.

O ponto culminante, a crucificação ocorre no monte Gólgota, que em aramaico significa crânio, numa clara indicação de um elevado estado de consciência. Jesus expressando a consciência divina, é crucificado entre dois ladrões, um deles seria um bom homem, este segue o Salvador  rumo ao Reino dos Céus. Os dois ladrões simbolizam os dois aspectos da psique, a luz e a sombra, o consciente e o inconsciente.

Para finalizar, o Reino dos Céus comporta a grande metáfora da unidade e da totalidade; na visão junguiana, o caminho de individuação do sujeito passa pela integração de todos os aspectos da psique, assim para alcançar a luz é preciso aprofundar na escuridão, entrar não apenas na nossa sombra, mas também no inconsciente. Passa também pelo abandono do eu mesquinho, intolerante, ambicioso e temeroso que cede lugar a um novo eu, sábio, amoroso e reconectado ao todo.

Gaudenzio Ferrari, Histórias da vida e da paixão de Cristo, afresco de 1513, Igreja de Santa Maria della Gracie, Varallo Sesia, Itália.

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