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A obra da palavra

Nesta semana, assistia pela TV a entrevista de um antigo professor dos meus tempos de estudante da USP,  Boris Fausto, que lançava um livro,  O brilho do bronze, quando eis que, a certa altura, o entrevistador, Mario Sérgio Conti, manifestou sua surpresa: “Você, um historiador, faz terapia, quem diria?” o professor rebateu o espanto e contou a sua necessidade de elaborar o luto após o falecimento de sua esposa,  relatada no escrito autobiográfico.

Esse espanto de um profissional letrado pareceu-me significativo. Se bem em alguns países, como a França ou a Argentina,  não causa espécie uma pessoa procurar uma terapia, em outros torna-se difícil encontrar um analista, quando não parece que o sujeito está fazendo uma coisa “no mínimo” muito estranha.

Desde Freud, portanto, há mais de um século ouvimos falar em psicanálise – os estudos do médico vienense marcam o que entendemos hoje por mente-, mas principalmente, com ele surge um método inédito na terapêutica: a cura pela palavra. A palavra “cura” aqui merece aspas, depois será substituída por “elaboração”, mais apropriada.

Quem se permite esta procura percebeu que algo não vai bem, decidindo pelo menos ver essa questão. Passando a empreender uma jornada. Neste percurso, a análise, permite este encontro do sujeito com ele mesmo, via seu diálogo com o analista, apresenta-se como um procedimento avesso ao lugar comum da superficialidade da aparência, da ilusão do “tá tudo bem”, do engano do “meu problema são os outros” ou então,  do “toma essa pastilha que passa”. Não é bem entendido porque o buscador dá ouvido a um questionamento do seu íntimo que está na contracorrente das verdades e definições prontas para se obter uma satisfação fast food. Um questionamento que precisa da mediação da palavra para vir à luz e ganhar sentido.

Embora estejamos muito habituados às palavras, vemo-las por toda parte, pouco percebemos a sua importância, é através da palavra  que criamos a cultura e, desta forma, a nossa humanidade. As palavras permitiram-nos dar nome às coisas e, portanto, existência a pessoas, pensamentos, emoções, compartilhar e registrar experiências. A linguagem permitiu o nosso  entendimento do mundo e o próprio desenvolvimento do homem. A história da espécie registra que o lobo frontal do nosso cérebro desenvolveu-se junto com a criação de linguagens, por outro lado, o nosso desenvolvimento individual depende da própria aquisição desta ferramenta.

Percebo que há uma restrição à busca de um profissional da psi,  principalmente por gente que desconhece o campo. Longe de achar que todo mundo precisa,  trata-se apenas de um recurso. No processo ganham-se ferramentas para lidar com as vicissitudes da vida, porque a vida “é bonita e é bonita”, mas não é moleza para ninguém.

Que ninguém se iluda imaginando que, em algum momento, os conflitos se acabam, longe disso, não se ganha o céu na terra, pois dores e amores são o privilégio e fardo especificamente humano; com o alargamento da consciência ganha-se a possibilidade de viver neste mundo de maneira significativa e tornar-se o autor da nossa grande obra: a nossa vida.

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