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Atená, a deusa filha do pai

Nesta semana em que as mulheres recebem homenagens no ocidente, vou recuperar algumas das facetas do feminino que já abordadas em textos anteriores, mas voltar a elas sempre nos permite uma nova compreensão.

Um feixe de luz jorrou sobre o cosmo no momento em que Atená nasceu e a cidade de Atenas foi banhada com uma chuva de neve de ouro. O radiante ouro anunciava a aurora de um mundo novo, por sua vez, a neve trazia pureza e riqueza para fecundar a terra e o homem.

Zeus apaixonado pela oceânide Mêtis, aquela do sábio conselho, regente da sabedoria e da prudência, faz dela sua primeira esposa, no entanto, o oráculo vaticina que os descendentes de deusa seriam mais fortes que o pai e o destronariam. Horrorizado com a profecia, Zeus, que havia se unido à deusa, a engole para escapar deste destino, contudo Mêtis já havia concebido Atená.

Inconsciente desta gestação, o senhor do Olimpo passou a sofrer fortes dores de cabeça, pedindo ajuda a Hefesto, o deus ferreiro, este abriu-lhe o crânio com um machado, permitindo a saída da filha.

Atená nasceu adulta, com armas em punho, pronta para lutar junto ao pai contra os gigantes, seres que ainda não aceitavam a nova organização do cosmo e a hegemonia de Zeus, única dos olimpianos a acompanhá-lo nessa batalha.

Torna-se a filha predileta de Zeus, cujos desejos e pedidos são sempre atendidos e cujas rebeldias causam profunda dor. Do pai ganhou uma espada de prata. Única no Olimpo a vestir armadura que lhe cobre o corpo, apenas a cabeça se revela. A coruja também a acompanhava, pousada em seu ombro ou sobrevoando sua cabeça. Se bem Atená é representada com armas e é guerreira, ela simboliza a inteligência e a razão, tornando-se garantidora da justiça, instituição importante na nova ordem.

Deusa virgem, ou seja, autônoma, sem marido, era ladeada, algo que poucos sabem, por uma grande serpente. Em Roma, foi conhecida como Minerva, originando a expressão “Voto de Minerva”.

A cidade de Atenas foi disputada pela deusa da sabedoria e por Posídon, o senhor dos mares. O deus ofereceu a seus habitantes o cavalo e a deusa presenteou-os com a oliveira. Os deuses julgaram os presentes, mas com o apoio das deusas, Atená ganhou a primazia sobre Atenas. Posídon ficou furioso com a derrota e suas águas inundaram a região, para aplacar sua fúria, os homens foram proibidos de usar os nomes de suas mães, inaugurando-se a linhagem paterna. A cidade destacou-se como centro intelectual e cultural da época, passando a cultivar as inovações sociais e políticas, como a democracia e a filosofia, legando-nos boa parte dos aspectos centrais da cultura ocidental.

Athena Varvakeion, cópia muito reduzida da Athena Parthenos de Fídias, século III a.C, Museu Nacional de Atenas

Na cidade de Atenas, na Grécia, um majestoso templo erguia-se no interior da Acrópole, o Parthenon. Parthenon significa virgem em grego antigo, por isso templo da virgem. Recebeu uma estátua da deusa de 39 pés de altura, feita por Fídias em ouro e marfim.

Trata-se de uma deusa guerreira que preside as atividades do espírito, sempre a vemos na companhia dos heróis. Na armadura encontra-se a imagem da medusa, com seus cabelos de serpente, decapitada por um de seus herois protegidos, Perseu, que a transformou em uma arma: aquele que olhasse seus olhos seria petrificado. A cabeça de Medusa funciona como um espelho da verdade no combate aos seus adversários, que ao contemplarem a sua própria imagem ficam petrificados de horror. Sua lança é uma arma de luz: separa, corta e fere. Entra na guerra contra a desordem, pela verdade e pela justiça.  Atená, juntamente com seu pai, Zeus, venceram o Caos, estabelecendo uma nova ordem que permite o surgimento da pólis, ou seja, a o começo da vida organizada para a humanidade na cidade. A Acrópole representava este primeiro movimento na conquista da cidadania.

Na guerra de Tróia, luta ao lado dos gregos para se vingar de Páris, por quem foi preterida quando ele escolhe Afrodite como a mais bela. Boa parte das estratagemas determinantes para a vitória dos helenos partiram da deusa de olhos de coruja que os transmitia ao engenhoso Ulisses, o seu mortal predileto.

Como grande mãe, também é uma deusa da fertilidade, da linhagem das deusas tecedoras. Puniu Aracne, uma bela e impetuosa jovem bordadeira, porque esta ousou desafiá-la a uma competição e o pior, em sua bela tapeçaria expôs as histórias de amor e traição marital seu pai, Zeus. Duplo erro, não se desafia os deuses, nem se fala do pai da deusa, a vingança chega dura e certa: Aracne foi transformada em aranha e obrigada a tecer pelo resto da vida.

*

O século XX, no ocidente, certamente foi presidido pela deusa Atená. Por todos os cantos, as mulheres travaram batalhas, rompendo um ciclo milenar, libertaram-se das amarras da natureza e da cultura, conquistando autonomia. Adquiriram direitos políticos como o voto, direitos sobre o seu corpo e sua sexualidade, bem como uma posição de igualdade com respeito ao homem na família. Ingressaram nas universidades, tornaram-se médicas, aviadoras, juízas, até militares, mostrando ao mundo seus talentos e capacidades fora do lar.

Muitas jovens afastaram-se dos instrumentais e jogos da sedução, apropriando-se das ferramentas do intelecto, não queriam repetir os destinos de suas mães e avôs, desejavam conquistar uma profissão e autonomia, nada de ficar presas a um casamento esperando o marido com o jantar pronto em casa. Para elas, ser a rainha do lar, não era a opção. Filhos? Só depois da carreira construída. Ao privilegiar o desenvolvimento intelectual e profissional, como Atená, as mulheres abriram e ganharam espaço no terreno do patriarcado.

A mulher mudou ao longo do século XX, abriu-se a novas possibilidades, no entanto, as outras facetas do feminino ficaram esquecidas e desatendidas. Como Atená, a deusa guerreira, muitas mulheres são meninas escondidas por trás de um escudo, em suas solitárias lutas diárias, protegendo-se da vida, sem conhecer nem desenvolver a plenitude da mulher.

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A maior batalha

Foto  mostra caminhão do Exército taleban parado em frente à maior estátua do Buda em Bamiyan, antiga rota da seda, hoje, Afeganistão. O monumento que remontava ao século II d.C.  foi dinamitado por ordem do regime Taleban em 2 de março de 2001

Todos dizem querer a paz no mundo, mas a paz habita o nosso coração? Todos querem respeito, mas eu respeito o outro? Eu escuto suas ideias? Eu o olho com simpatia? Vejo o que ele me diz ou só quero ser visto, escutado e admirado?

Jogar bombas,  incendiar bancos, quebrar concessionárias não vai melhorar o mundo, o mundo só vai melhorar  quando cada um tiver consciência dos seus atos e compromisso com a verdade e a justiça,  não fizer corpo mole e compactuar com o arbitrário, nem fechar os ouvidos à barbárie.

*

Uma árvore pode demorar séculos para crescer e ser derrubada em poucas horas.

Picaretas, mísseis e balas de canhão já abateram aviões, destruíram templos e saberes milenários e até hoje destroem escolas, creches, hospitais e matam milhares de inocentes.

Fumaça após um ataque israelense na Faixa de Gaza. O confronto nas últimas 2 semana, já matou mais de mil palestinos, a maioria civis, e 46 isralenses (Foto: Ariel Schalit/AP, fonte G1)

Uma saborosa relação de anos, um grande amor ou amizade, pode acabar por alguns segundos de desvario.

Se já é muito fácil falar bobagens cara a cara, mais ainda, no tempo da resposta instantânea da internet. Pela boca e pelas telas dos nossos iphones, sem nos darmos conta, ventilamos os nossos demônios.

Como viver é aprender, mais do que nunca vale a antiga receita das avós:

– Atenção constante, quem sabe por onde anda, inclusive por onde andam seus pensamentos, não pisa em falso, nem se ilude com ouro de tolo.

– Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Respire e conte até 20, 40, 100 se for o caso.

– E o mais importante, identificar quem está no comando, seu amor ou sua raiva? O respeito ou a intolerância?  O orgulho, a vaidade ou a luz da compreensão e da sabedoria?

Protesto contra a morte Wesley Andrade que aos 11 anos morreu atingido por uma bala perdida dentro de sua escola, na zona norte do Rio (Foto: Severino Silva / O Dia)

É muito fácil deturpar uma opinião.

É muito fácil magoar uma pessoa querida.

É muito fácil perder a cabeça.

É muito fácil entristecer um coração.

Também é muito fácil ganhar uma cicatriz.

Árduo, mas regenerador, torna-se cultivar a compreensão,  o respeito a todos os seres e o compromisso e a atitude para tornar as nossas relações e o nosso entorno melhores, nem que seja um bocadinho.

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Entre putas e deputados, é tempo de poda!

A deusa Vesta

Na mitologia romana, Puta era uma deusa muito importante, ligada à fecundidade da terra, presidindo a podadura. Seu nome apresenta a mesma raiz do verbo putare, “podar”, cortar os ramos de uma árvore, mas também, organizar, por em ordem calcular, pensar  e julgar. No ciclo da vida a poda permite a renovação, trata-se da ação de separar na vegetação as ervas daninhas e a parte que não nos serve mais, buscando favorecer a germinação de novas e saudáveis sementes.

Certamente a expressão “filho da puta” tornou-se uma ofensa comum, inclusive, muito ouvida nas passeatas das últimas semanas, mas cabe dizer que o verbo putare tem muitos derivados em português, como os termos deputado, amputar, computar, reputação, entre outros.

Fragmento do Templo da deusa Vesta no Fórum Romano, Roma, Itália

Fico pensando que diversos lugares mereceriam uma boa poda, a começar pelas instâncias de governo. No congresso, por exemplo, podaria salários que subiram acima da inflação, bem como todos os privilégios que os parlamentares aprovaram para si mesmos (começando com os gastos com paletó) e partidos criados para negociar a legenda. Nos executivos federais, estaduais e municipais, cortar ministérios, secretarias e principalmente, verbas para negociatas.

Estátuas da deusa Vesta na Casa das Vestais no Fórum Romano, Roma

Cada um de nós poderia também pensar no que precisa podar no seu jardim para no verão colher bons frutos, uma  boa safra, os agricultores sabem muito bem, não cai do céu, exige trabalho. Talvez podar o nosso desinteresse pela coisa pública, pois os nossos políticos que receberam tantas críticas nos últimos tempos estão  em seus cargos porque nós, os elegemos.

Entre os povos antigos a fertilidade da terra era uma questão séria, porque ligada à sobrevivência, por este motivo, as sacerdotisas das deusas ligadas à agricultura -citamos a deusa Puta romana, mas há outras, entre elas, Vesta e também a grega Àrtemis- realizavam rituais sagrados para promover a fecundidade. Nos rituais, as sacerdotisas do templo copulavam com os homens da região, acreditava-se que os rebentos nascidos dessa união teriam um futuro brilhante e desempenhariam um papel importante nas cidades.

Para nós, pessoas do século XX, pode parecer um costume bizarro, mas sem dúvida, o momento atual precisa da fertilidade de ideias e projetos para melhorar a vida das pessoas. Soluções criativas baratas, viáveis e rápidas para colher uma safra cheia de bons frutos.

Casa das Vestais no Fórum Romano

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Raiva e sabedoria no islã. A história de um califa esclarecido

Pelo menos 15 mortos e uma centena de feridos é o saldo de uma semana de fúria no mundo islâmico como reação a um vídeo que ridiculariza o profeta. As imagens mostram pessoas nas ruas armadas nas ruas, protestando em frente a embaixadas, restaurantes e até escolas, principalmente dos EUA, mas também outros países, como a Alemanha e, o pior, um atentado que matou 4 americanos na Líbia.

Para contrabalançar as imagens de ódio, busquei outras de outros tempos do islã. Cheguei à história do califa Al-Mamun que viveu tempos de guerra, mas optou pela sabedoria. Seu reinado no século IX ficou na memória como o mais glorioso na história do islã.

Al-Mamun nasceu no dia da entronização do seu pai, o califa Harun al-Rashid mas sua mãe era uma escrava persa, o legítimo herdeiro era seu irmão. Após a morte do pai, disputou o império com o irmão, venceu, passando a dominar um vasto território que compreendia da Síria ao Irã. Uma noite Al-Mamun teve um sonho, contou ele:

Vi em sonhos um homem sentado com a pose dos sábios e perguntei-lhe: «Quem és tu?»; ele respondeu: «Aristóteles, o Sábio». Coloquei-lhe então a questão: «Diz-me como definir a palavra justo?»; Aristóteles: «Aquele que é consistente com a razão». Al-Mamun: «E o que mais?»; Aristóteles: «Aquele que aprecia o interlocutor». Al-Mamun: « E o que mais?»; Aristóteles: «Aquele que não teme as consequências». Al-Mamun: « E o que mais?»; Aristóteles: «Não há mais, o resto não serve senão para entreter os homens”.

Al-Mamun recebendo o Patriarca de Constantinopla.

Após o sonho, o califa abre as portas da biblioteca, construída na cidade de Bagdá pelo pai para o uso exclusivo dos príncipes. A Casa da Sabedoria torna-se um grande centro científico e intelectual, passando a reunir escribas, religiosos e tradutores que preservaram os saberes do mundo antigo, enquanto no mundo medieval no ocidente boa parte era destruído. Além de receber os principais religiosos islâmicos, religião do grande califa, acolheu intelectuais perseguidos em outros lugares do mundo, pois havia a compreensão que o conhecimento podia chegar de outros tempos, lugares e credos. Seus estudos incluíam a astronomia medicina, filosofia, matemática, assim como as principais áreas do saber.

A Casa da Sabedoria foi destruída após a invasão dos mongóis no século XIII, a partir de então as ciências declinaram no mundo islâmico, pois a nova linha de dirigentes religiosos desaprovava o desenvolvimento do pensamento autônomo. E eles se perpetuaram.

Recupero esta lembrança, pois choca ver em pleno no século XXI turbas em fúria por todo o mundo islâmico. Atos insuflados por líderes religiosos muito distantes das preocupações com a justiça e a sabedoria do Califa persa. Mais de mil anos se passaram, mas seu reinado se perpetua na memória pela glória das realizações da Casa da Sabedoria, um espaço de respeito e diálogo entre os homens.

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A transformação do casamento, o rapto de Coré

“Eles foram felizes para sempre” com esta frase muitos contos de fada terminam, mas  se existe uma história que mostra que a coisa é mais complexa trata-se do mito grego de Coré-Perséfone. Vejam só.

Num certo dia de outono, Coré colhia inocentemente narcisos quando repentinamente é raptada e levada para as profundezas, onde irá casar-se com o grande deus Hades, o irmão de Zeus e senhor do reino dos mortos. Uma aura de mistério permeia a descida da jovem ao submundo, sabe-se apenas que ao seu retorno, ela volta tão diferente que ganha outro nome: Perséfone.

Perséfone e Hades, jarro do séc. V a. C.

Dizer que Perséfone se casa com Hades é dizer que ela se casa com a morte. Talvez porque toda transformação comporta uma morte, a morte daquilo que já não somos mais.

O rapto simboliza a separação da família de origem e principalmente da mãe, processo que não ocorre sem dor, mas torna-se uma etapa necessária para o crescimento da jovem, o distanciamento permite-lhe construir a sua própria família. E do jovem também, pois ele precisa “bancar” o rapto, a situação que ele provocou, pelo menos na mítica, não dá para devolver a que não é mais donzela ao pai, muito diferente dos dias de hoje, quando a gente não gosta de qualquer coisinha e tchau.

O retorno de Perséfone à sua mãe, Deméter, não é o retorno de uma donzela, sua inocência morreu para dar lugar a uma deusa madura, que conhece a sexualidade e os ciclos da natureza: fecundação, nascimento, crescimento e morte.

Neste percurso, a deusa lunar Hécate, aquela que anda com uma tocha e conhece todos os caminhos, torna-se sua aliada e companheira. Sua proximidade insinua que a fonte da transformação de Perséfone ocorre pelo contato com a sabedoria das profundezas abissais da alma, é preciso luz para enxergar na escuridão. Seu maior desafio é unir o lado escuro e o luminoso da deusa em si mesma, tornando-se a deusa madura da noite.

Em sua jornada, a jovem desenvolve novos talentos e atributos,  entre eles, a sabedoria (representada tocha), a intuição (simbolizada pelos cachorros que acompanham Hécate), a flexibilidade (o ciclo) e a receptividade incondicional.

Gosto muito deste mito, pois ele nos lembra que deixar a posição de filha e assumir o papel da esposa não é fácil. O amadurecimento comporta uma certa dor. Aprender a caminhar com as próprias pernas requer esforço e o casamento exige abdicar daquele mundo da família  conhecida (e por isso confortável), para assim, passo a passo conformarmos a nossa. Muitas vezes, a gente quer fazer do nosso amor um marido, contrair núpcias, mas um lado de nós reluta em pagar o preço da união.

É preciso lembrar que tudo na vida tem um preço, não assumir este novo papel pode custar muito mais do que se imagina: viver na eterna adolescência como Peter Pan ou mesmo a solidão.

Na primavera, Perséfone retorna trazendo consigo o filho Dionísio. Passado o duro inverno, no interior da terra, a semente brotou.

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Imagens e desejos de Natal

Nestes dias, tal como milhares de paulistanos, caminhei pela Av. Paulista à noite para ver as luzes do Natal. A avenida repleta de enfeites estava linda, mas percebi que só havia imagens do Papai Noel, com as renas, seus presentes e, na novidade em 2011, a passarela natalina, ouvia-se Frank Sinatra. Não achei nenhum presépio pelo percurso. Eu adoro o simpático velhinho, mas é muito triste notar que a bela imagem da Sagrada Família saiu das decorações natalinas de uma das principais avenidas de nossa cidade. Fiquei imaginando que daqui a alguns anos, nossas crianças vão achar que o Natal é a data do velhinho dos presentes.

Giotto, Natividad

O Natal representa uma grande celebração cristã. Filho de Maria e de José, um carpinteiro, Jesus, o anunciado salvador, nasceu em uma manjedoura, porque seus pais rumavam a Belém e viveu entre os homens, como um nós. Jesus trouxe uma mensagem radicalmente nova, falava em amor, paz, perdão, num Deus amoroso, não vingativo e morreu crucificado.

Mais de 2 mil anos se passaram e continuamos precisando dessa mensagem. Em pleno século XXI, ainda se mata pela religião, um contra-senso, pois as religiões devem servir para nos tornar melhores, nesta re-ligação do homem com o divino, nos lembrando de nossa porção divina, a parte responsável por todas as coisas boas e belas no mundo  .

Giotto, Adoração dos Reis Magos

Hoje, para celebrar o Natal reunimos a família, preparamos uma mesa farta e trocamos presentes. Desejo a todas as pessoas, neste Natal:

Uma calorosa reunião familiar, esteja a família completa ou em partes, pois assim como 2 mil anos atrás, é difícil todos os membros estarem reunidos.

Muita saúde aos corpos e às mentes.

Muito amor no coração, pois, sem duvida é o melhor dos presentes que podemos dar e receber.

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A dança da tarântula

Cada vez mais me convenço da sabedoria dos rituais. Para os antigos, o ritmo da vida -pessoal e da coletividade- era pautado por rituais, estes, por sua vez, acompanhavam o ritmo da natureza: nascimento, crescimento, morte, semear, colher etc.

Os rituais continuamente criavam um espaço para lidar com a transformação do jovem ao adulto, do solteiro ao casado, da maternidade, assumir uma função na comunidade ou partir para uma guerra. Permitiam projetar desejos e lidar com os problemas.

A tarantela italiana tem origem numa dessas cerimônias da região da Sicília, sul da Itália. Trata-se de um rito anterior ao cristianismo, a dança da Tarântula.

Nos vilarejos, por vezes, as  meninas e/ou mulheres apareciam repentinamente transtornadas, sem que se soubesse o motivo do delírio, como explicação dizia-se que elas  haviam sido picadas pela tarântula e se convocavam mulheres esse ritual. Na verdade, elas haviam sido violentadas, muitas vezes por alguém da família ou um chefe da comunidade e tinham medo de falar. Como até hoje acontece, o abuso sexual contra crianças ocorre majoritariamente na própria família. A quem a vítima vai denunciar?

Dizia-se que da dança à exaustão expulsava o veneno, é um fato, a dança tem um poder curativo, mas também este ritual criava um espaço extra-cotidiano que permitia lidar com a dor. Pode-se objetar que o problema real não era enfrentado, por outro lado é interessante perceber que a dor era coletivamente processada. Hoje, no nosso mundo sem ritos nem mistérios, as pessoas tomam remédios para evitar a dor ou então sofrem sozinhas. Que triste!

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A decisão de cada um

Sabedoria é uma grande conquista que vem com o amadurecimento. Não necessariamente com os anos. Há pessoas que podem viver 40, 60 ou 80 anos, mas não tem maturidade e menos entendimento, por sua vez, há crianças que com poucos anos já ficam ensinando os pais o que deve ser feito.

O amadurecimento traz compreensão da vida. O que isso significa? Trata-se do aprendizado com a nossa própria experiência. Um aprendizado nada suave, pois parece que nós, muito rebeldes, vamos aprendendo com os tropeções e as porradas. Precisamos cair para reconhecermos o valor de nos levantarmos. Parece que tem que ser difícil, pois se for fácil a gente não presta atenção…

Sabedoria é o entendimento do inexorável. Há coisas contra as quais não podemos nos debater, acontecem, sem que saibamos o porquê. Algumas nos doem profundamente, até nos tiram o prumo. As perdas figuram no alto da lista. A morte de pessoas queridas faz parte dos acontecimentos que nos escapam. Sabedoria é seguir em frente apesar da dor. A sabedoria nos permite diferenciar pedras e flores no caminho e entender que tudo passa, a dor, a pedra e a flor.

A percepção dos inexoráveis nos leva a conquista da nossa vida:

– O tempo não volta.

– Nós envelhecemos.

– Quem perdeu uma oportunidade, perdeu.

– Não posso pedir o que não estou disposto a dar.

A sabedoria tem um sentido de urgência. Não dá pra ficar dormindo no ponto, porque ao acordar pode ser tarde demais. Percebendo que tudo tem um preço: a rebeldia, a conformidade, a coragem, a luta, até não fazer nada tem um preço. O entendimento leva-nos a saber onde eu quero chegar e qual preço eu quero pagar.

A sabedoria leva a dar valor ao que tem valor, cada minuto de nossas vidas, nosso corpo e nossa mente, as verdadeiras amizades, o amor, a alegria, o compromisso…

O sábio conquista uma boa vida, porque ele não se engana com ilusões, nem perde tempo. Não vou acordar milionário, nem em uma ilha paradisíaca de eterna felicidade, portanto vamos arregaçar as mangas e fazer o que é preciso.

Todos desejamos viver bem, já correr atrás desse sonho é decisão e atitude de cada um.

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Simplicidade

Como eu queria que a vida fosse mais simples!

Hoje as coisas andam tão complicadas! Desde escolher um shampoo na prateleira ao canal de TV para assistir. Temos TV, internet, microndas e milhares de contas para pagar. Temos milhares de redes sociais e ainda patinamos nos relacionamentos face a face.

A gente complica tudo. Complicamos o amor, as relações (com os vizinhos, com os colegas de trabalho, no trânsito…). Tem gente que complica por querer mostrar poder ou sabedoria, outros complicam, simplesmente, por ser do contra: “Si hay gobierno, soy contra!”

Como eu adoraria entender a vida na sua simplicidade e na simplicidade dos seus ensinos. Um dia segue outro dia, na cadência da noite e do dia. Há tempo para tudo na vida, para plantar, para colher, para adubar a terra, quem perder o momento, só no próximo ciclo.

Vidas surgem e vidas se encerram. Só o tempo é eterno. O que tem vida se transforma, a morte é a suprema transformação. O novo nos renova, pois renova a esperança: cada novo traz em si a possibilidade de um recomeço.

Como eu queria que a vida fosse mais simples! Como eu queria …

– Ver o nascer do sol.

– Viver com menos.

– Andar descalça na chuva.

– Não ter vergonha de dizer eu te amo para as pessoas que amo!

– Conversar mais com os meus amigos.

– Ver o sorriso de uma criança.

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A Sabedoria Mapuche de Elicura Chihuailaf

Na semana passada, apresentamos a trágica situação do povo mapuche. Hoje, preferi recuperar a visão de mundo e a poesia deste povo, para tal, trago alguns fragmentos de reconhecido escritor mapuche Elicura Chihuailaf, no livro Recado confidencial a los chilenos. Boa leitura!

“Así nuestra incipiente sabiduría nos revela que la vida, que el ser humano, que la tierra y el universo, es la manifestación “real” de la dualidad. En el mirar aquí y hacia arriba comprobamos que somos –cada cual- constelaciones del cosmos exterior e interior. Somos un cuerpo efímero que, buscando su correspondencia con lo visible e invisible, proyecta su energía –su espíritu- hasta lo inimaginable, aferrados a la senda marcada por los puntos luminosos –también externos e internos- llamados estrellas.” (…)

“El mundo es un círculo, una globalidad , un cuerpo vivo con una columna vertebral que la mueve: los seres humanos reconociendose en la profundidad de la naturaleza. Cada lugar único, pero con un resollar, un rumor repetible que podemos reconocer en cualquier lugar de la tierra en que nos encontremos…, si es que hemos aprendido a escuchar la imensidad del silencio, dice nuestra gente.”

O escritor mapuche é professor universitário e secretário Geral da Agrupação de Escritores indígenas.

EN ESTE SUELO HABITAN LAS ESTRELLAS

En este suelo habitan las estrellas

En este cielo canta el agua de la imaginación

Más allá de las nubes que surgen de estas aguas

y estos suelos nos sueñan los antepasados

Su espíritu — dicen– es la luna llena

El silencio su corazón que late.

LAS LLUVIAS TENSAN OTRA VEZ LAS CUERDAS

Las lluvias tensan las cuerdas de su brisa y, arriba, es el coro que lanza el sonido de la fertilidad

Muchos animales hubo –va diciendo montes, largos, aves, buenas palabras

Avanzo con los ojos cerrados: Veo, en mí, al anciano que esperando el regreso de las mariposas habita los días de su infancia

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“Mestre é aquele que de repente aprende”.

 Nestes dias me deparei com este pensamento de Guimarães Rosa. Estou convencida que na vida cada qual tem que passar por suas próprias experiências e com elas ter os seus próprios aprendizados. É como dirigir. Não se ensina a dirigir. A teoria aqui nada tem a ver com a prática. Ligue! Coloque primeira! Acelere! Coloque segunda! Freie no farol, sem deixar o carro morrer! Na cartilha pode estar tudo minuciosamente descrito, mas não tem jeito. A gente só aprende quando aprende. A minha primeira aula de condução foi teórica, meu pai, um engenheiro elétrico, queria que eu aprendesse a mecânica de um carro. Ele desenhou um motor, fios, me lembro vagamente do desenho. Até eu aprender, o carro morreu dezenas de vezes, ele desistiu de me ensinar na 1ª aula, preferiu me pagar auto-escola, onde tive + de 20 aulas de direção. Reprovei 2 vezes o exame para obter a carteira. Isso na época que era fácil aprovar! Quase desisti, mas nem sei como, na 3ª tentativa, acertei as setas, a baliza, o carro não morreu e consegui aprovar. Mais de 20 anos após essa história acredito que sou motorista, mas volto à ideia inicial, o aprendizado é sempre pessoal. Se as experiências pudessem ser transmitidas, quando jovem, a gente não quebrava tanto a cabeça, era só aprender com os + velhos, mas não é assim, cada um tem que aprender com seus próprios “erros”. Se sabedoria pudesse ser passada, os mais velhos não sofreríamos tanto ao ver filhos, irmãos, amigos tropeçando tantas vezes na mesma pedra. E nós ficamos impotentes (quando não chateados com o outro), pois o filho, o irmão, o pai ou o amigo, não nos ouvem… a coisa é que precisa dar um click na própria pessoa. De repente o motor liga e o carro anda!

Uma ressalva, não gosto da idéia de “erros”, porque descobri que, no geral, não se erra querendo… A gente faz escolhas e acha que elas são as melhores. Ninguém casa com o marido/esposa “errado/a”, nem escolhe a carreira “errada”. O “erro” certamente “faz parte”. Não conhecemos outro mecanismo.

Nesse processo, talvez o mais importante seja querer aprender, que nada + é do que cansaço de tropeçar nas pedras conhecidas e vontade de experimentar as coisas de outra forma.

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